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sábado, 20 de outubro de 2018

DIÁRIO DE UMA ELEIÇÃO ESTRANHA 6

santanopolis


UM EXÓTICO CHAMADO SINVAL

Marcos Monteiro

Quando vi a transmissão do bacanal do impeachment e ouvi um atual candidato a presidente vociferar a favor da tortura e homenagear o maior torturador que conhecemos,  lembrei das ruas de Feira de Santana e do pequeníssimo comércio de Sinval Galeão.

Ele foi torturado na ditadura porque era comunista, fazia parte da Raça de Humanos Exóticos, mas era somente um micro comerciante e um macro amigo meu e de tantas e tantos. Como pedagogia, a tortura demonstrou ser inútil, nem conseguiu informações ou delações, nem destruiu a humanidade e a amorosidade de Sinval, fiel em compromissos e amizades. Conseguiu deformar os seus dedos, sem deformar a sua alma.

Nunca deixou de lutar por um Brasil melhor, mas sofreu um AVC que o levou à morte.  No seu enterro os amigos choraram e trouxeram histórias de coragem e ternura. Fui amigo de Sinval, então não tenho condição nenhuma de votar em quem elogia a tortura, e sou amigo do amor e da vida. Portanto, sem nenhum ódio e sem nenhum medo, voto em Haddad. Voto 13.

Recife, 20 de outubro de 2018

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

CARTA DE AMOR AO MEU INIMIGO 10

boitempo
Maceió, 04 de outubro de 2018

Deus acima de tudo. O deus do dinheiro?

Meu querido inimigo

Confesso a minha frustração. Ainda não consegui lhe amar, como Jesus pediu, e essa é a última carta, talvez a mais dolorosa. Cada uma está sendo um parto e, como não tenho útero, sinto as dores de um homem parindo uma bezerra, tomando emprestado uma imagem.

E bezerro por bezerro, lembrei que você usa o mote “Deus acima de tudo” e me pergunto se o que você adora não é aquele bezerro de ouro do Êxodo. Por causa disso, gostaria de compreendê-lo a partir dos dez mandamentos.

O seu patrimônio e o de sua família é muito grande e tem aumentado a cada ano. Desse modo, desconfio que o seu deus é o Dinheiro, e a sua profaníssima trindade, propriedade, poder e prazer. Você pode até não se curvar diante de imagens, mas construiu uma imagem de si mesmo que os seus adoradores chamam de mito.

Interessante, dos inúmeros mitos das antigas tradições, pensei na Esfinge e em seu enigma, “decifra-me ou te devoro”. E se eu lhe decifrei você tem tentado devorar cotas para negros, terras para índios, leis de proteção às mulheres, direitos dos trabalhadores e trabalhadoras. Então, você não segue os primeiros mandamentos e idolatra a si mesmo e sua imagem mítica.

O aumento da jornada de trabalho é exatamente o contrário do princípio do sábado. O direito ao descanso remunerado está associado ao direito ao trabalho, e a luta por menos direitos para mais trabalhos é uma falsa disjunção, que pode ser colocada igualmente na violação do princípio trazido pelo sábado.

Mães, mulheres, são postas como pessoas de segunda classe, com direito a salário menor e com menos licença-maternidade, sem a proteção da Lei Maria da Penha, e são coisas comestíveis, como uma de suas frases vem dizendo, o que coloca pelo menos três mandamentos sob suspeita de violação.

Possibilidade de vantagens ilícitas, usurpação de direitos de índios e negros à propriedade, podem ser chamados de furtos, bem como acusações infundadas e mentirosas são falsos testemunhos. A luta pelo extermínio de bandidos, ainda com o agravante do elogio da tortura, é desobediência explícita ao mandamento “não matarás”, do mesmo modo que são estratégias de morte, políticas que abandonam a proteção dos mais pobres.

Pois bem, meu querido inimigo, sobrou apenas um mandamento, sobre o qual estou em dúvida. Você usa exageradamente o nome de Deus, o que em política e teologia tem uma vaguidão conveniente. Qual o seu deus e o que significa “Deus acima de tudo” como programa de políticas públicas? Também, essa convicção que você expressa de ter sido escolhido por Deus, significa exatamente o que? Você sabe que Hitler se considerava um escolhido de Deus e também foi apoiado maciçamente por evangélicos.

Então, me parece que não está usando o nome santo de Deus em vão. Em nome de Deus está conseguindo muitos votos e muitos apoios religiosos, para torturar e matar bandidos, para discriminar negros, índios e mulheres, e para extinguir direitos dos trabalhadores e dos mais pobres. Fico impressionado como os discursos de pastores e líderes evangélicos conseguem ver coerência em você.

Não é em vão que usa esse nome, pois qualquer pessoa sabe que o nome de Deus abre portas para sucesso, poder e fama. É uso indevido, manipulação eleitoral grosseira, mas não é em vão: funciona.

Se houvesse discernimento verdadeiro das lideranças, você seria considerado um não-cristão, um herege, e correria perigo porque a igreja que lhe apoia também considerou e ainda considera herege bom herege morto.

Chego a essa última carta exausto e sem esperança de aprender a lhe amar, meu caro inimigo. Então, eu insisto, converta-se ao Deus do amor, da justiça, da verdade e da misericórida. E acabe com essa mania de querer ser presidente. Será muito melhor para você, e para o Brasil, e para os cristãos.

No aprendizado do amor

Marcos Monteiro, pastor batista.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

CARTA DE AMOR AO MEU INIMIGO 9

revistaforum
Maceió, 03 de outubro de 2018

Grito, porrada e bala – a arte de argumentar

Meu querido inimigo

Nessa carta, quero falar um pouco sobre discursos, argumentos e promessas. Como se diz isso com gentileza? O seu discurso é autoritário, seus argumentos são inconsistentes e suas promessas, algumas são muito estranhas.

Seu estilo é uma das maiores dificuldades para eu aprender a lhe amar. Mas funciona. Parte da população adora as suas falas e serviram para eleger você como deputado, fazendo as mesmas coisas, destruindo os mesmos direitos, legislando contra as trabalhadoras e entregando a nossa soberania, o petróleo, a energia, e o que mais quiserem. Mas todo eleitor seu diz que você e seu discurso ultrapassado é a grande novidade. Eu nunca acreditei. Você faria, se eleito, o que aprendeu na assembleia legislativa, lutaria contra o povo, a mesma e antiga política.

O discurso autoritário talvez seja fruto de sua experiência de caserna. Estava lembrando de Einstein, quando dizia que não se emocionava com uma parada militar porque nunca conseguira admirar quem pensa com a medula.

Aliás, você falou que vai convidar muitos militares para o seu ministério. Claro que mais uma vez isso é um discurso farsista que não cabe em nenhuma república e que não contempla o modo de se governar. Afinal, um é o discurso de campanha, e a defesa dos militares e da ditadura foi suficiente para eleger você e sua família.

Você deve amar bastante a família, especialmente a sua. Todas três. Afinal, conseguiu emprego para os filhos, e um dos melhores empregos do país, a política.

Mas gostaria de pensar em seu modo de argumentar. Não consigo muitas vezes entender a sua lógica, a não ser a lógica da violência que eu poderia resumir desse jeito: grito, porrada e bala. Em ordem crescente. Normalmente, isso se traduz assim: quando o argumento não tem força, a força se transforma em argumento.

Na Atenas antiga, berço da democracia, o político precisava para melhor governar aprender retórica, a arte de argumentar, e eu não sei se faltam no seu currículo cursos de retórica e de cidadania. Porque democracia se faz conversando, e grito, porrada e bala é um esquisito modo de se conversar.

Estava me perguntando de que imaginário popular você surgiu para conseguir parte dessa popularidade. Talvez dos filmes e gibis de nossa infância, em que o caubói surge como solução distribuindo grito, porrada e bala, contra a bandidagem. O mesmo caubói que ajudou a exterminar os índios e a escravizar os negros.

Daí virão, possivelmente, as suas estranhas promessas. Na área de economia, vamos acabar com as demarcações de terras indígenas e com os quilombos. Todo mundo sabe que índio é preguiçoso e negro, quando engorda, perde sua única função, a de reprodutor de mão de obra escrava. O discurso é da casa grande e a solução é de caubói, grito, porrada e bala.

Na área de educação, se gritar com a criança ela melhora, se der porrada, ela vai deixando de ser gay (estranha fixação), se não adiantar é bom que morra, para não envergonhar os pais preconceituosos e homofóbicos. Grito, porrada e bala.

Sua visão ética é moralista e redutora. Dois homens gays podem até transar, mas se beijar na rua vão levar porrada. E essa é uma estranha promessa de candidato que não acredito que você cumpra. Até porque seriam dois contra um e tem gay que é bom de porrada. Lembra de Madame Satã?

Sua promessa de segurança? Mais cadeias e mais armas. Ou seja, vamos voltar ao faroeste, com a grande novidade, a de mulheres armadas. E vamos todas e todos saindo por aí gritando, dando porrada e matando os bandidos, e os índios e os negros e os homossexuais. Desse modo, tem até lógica ensinar as crianças a atirar. Educação para a morte. Viveremos mais seguros? Claro que ninguém acredita nisso, nem você. Os bares teriam de ter somente cadeiras viradas para a entrada, lembra? Seu discurso é farsista, apenas eleitoral, nenhuma novidade.

Sabe o que considero o grande perigo do seu estilo farsista? É que o governante inevitavelmente é exemplo e todos os caçadores de humanos exóticos vão se sentir mais apoiados para saírem à noite exercendo o seu esporte tenebroso, e vão colaborar com o seu governo caçando moradores de rua, mendigos, bandidos, negros, índios e homossexuais.

Por isso, meu inimigo querido. Mude de paradigma cultural. Não se arvore a ser o caubói da sociedade brasileira. Até porque já existe um caubói estrangeiro, muito mais poderoso, que conta com você para atrumpelar o Brasil. E ele quer nossas terras, nossas águas, nossa energia, nosso petróleo e nossa alma.

Na nossa cultura sertaneja, entre a figura típica do cangaceiro (o bandido) e a do macaco (o policial) existe a figura do conversador, os meus principais heróis. Enquanto os outros seguem a lógica da violência, do grito, da porrada e da bala, o conversador faz a mágica da vida e da conciliação com graça, inteligência, picardia e conversa. Os meus heróis brasileiros não são nem Lampião, nem o Sargento Getúlio, nem mesmo o Riobaldo, mas os joãos grilos, os cancões de fogo, os amarelinhos, os zé-bicos-doces, os pedros malazartes, sabidos, bons de conversa e de bem com a vida.

Meu inimigo querido, Jesus quer que eu lhe ame e está sendo cada vez mais difícil. Portanto, acabe com essa ideia de querer atrumpelar o Brasil, mude de atitude e de discurso, e desista dessa ideia de ser presidente. Vai ser melhor para você, para o Brasil e para o grande sertão.

No aprendizado do amor

Marcos Monteiro, pastor batista.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

CARTA DE AMOR AO MEU INIMIGO 8

emo7iontour
Maceió, 02 de outubro de 2018


Por um batismo nas águas do Amazonas com o pastor Djalma de Ogum

Meu querido inimigo

Se as águas do Jordão não foram suficientes, sugiro um batismo nas águas do Amazonas. Um batismo coletivo, com pastor, padre, líderes de outras religiões, mas especialmente com um pajé e uma mãe de santo. Mergulhando profundamente nesse caudal, quem sabe você entenda mais a alma brasileira, negra e índia, e aprenda o significado de quilombos e reservas indígenas.

Imaginei você saindo desse batismo como um outro homem, e ouvi a música harmônica do Coral Ecumênico da Bahia acompanhando essa saída. Olha, eu preferia estar escrevendo cartas para o amigo que idealizou esse coro. Como é difícil amar você, meu inimigo, e como é fácil amar o meu amigo, o pastor Djalma Torres. Ele tem quase oitenta anos e está fragilizado, nesses instantes, brigando contra um câncer, mais uma imensa luta na sua história.

Ele é muito respeitado e muito amado pelas lideranças religiosas de Salvador, evangélicas, católicos, espíritas, mães de santo e quem for se achegando. Por causa disso, ganhou um prêmio nacional de direitos humanos, exatamente na área de diálogo inter-religioso. E, sinto lhe informar, meu inimigo, você não é muito bom em direitos e diálogo, nem em debates. Poderia dizer, por concessão, que você grita bem, mas até nisso, Hitler, por exemplo, era melhor do que você. Pois é, pastor Djalma, conhecido como Djalma de Ogum, parece-me o contrário de tudo o que você representa.

Quando jovem pastor, ele era líder admirado na Convenção Batista, essa que tende a lhe apoiar, mas foi expulso e fala disso com muita dor. Os amigos influentes que frequentavam a sua casa desapareceram, e começaram muitos um processo de difamação e demonização muito comum no meio evangélico. Quem não é compreendido é chamado de diabo. O demônio é sempre o outro, o adepto do candomblé, por exemplo.

A história da sua expulsão foi assim. Djalma era pastor de uma grande e próspera igreja batista, quando foi convidado a visitar jovens presos políticos, os quais se opunham à ditadura e voltou perplexo. Encontrou uma juventude inteligente e idealista que queria lutar por um mundo melhor, em vez dos terroristas que alguns, inclusive o seu herói torturador e o seu general de estimação, denominam. Depois, decisão nada fácil, resolveu deixar o pastorado da igreja grande e acompanhar um pequeno grupo de jovens, expulsos de outra igreja grande porque não concordavam com o regime militar, nem com a subserviência dos evangélicos. A igreja assumiu uma postura acolhedora e ecumênica, o que foi o pretexto para a expulsão da Convenção Brasileira.

Antes que você se apresse, quero informar que Djalma Torres, pode se assumir como de esquerda, porque luta sempre por mais direitos, especialmente para as mais sofredoras dessa sociedade perversa, mas sempre foi crítico de Lula e do PT. Se o conheço bem, vai votar em Hadad somente no segundo turno, porque nunca votaria em você em nenhum cenário. Como já disse, ele é o seu oposto.

Mas, continuemos. Quando expulso, descobriu o segredo central do evangelho: a salvação vem das margens. O marginalizado, Jesus de Nazaré, é aquele que nos guia para conhecer a boa notícia, não disponível nas instituições, nem mesmo nas igrejas. Então, participou das mais fecundas iniciativas evangélicas e ecumênicas do período. ITEBA, CESE, CEDI, CEPTAS, CLAI, CONIC, CEPESC, são siglas que merecem ser pesquisadas por você e todo presidenciável, e a surpreendente KOINONIA, organização evangélica que trabalha para a defesa da liberdade e da autoestima das pessoas pertencentes a religiões de matriz africana.

Mas, o Instituto Memorial de Canudos, talvez seja a sua mais significativa iniciativa. Claro que você já ouviu falar de Canudos, essa grande cidade que surgiu no interior da Bahia, sob a bênção do beato católico, Antônio Conselheiro. Afinal, Euclides da Cunha, Machado de Assis, Vargas Llosa, Eduardo Hoornaert, são alguns dos nomes que tentaram imortalizar essa tragédia exemplar. Cidade que crescia rapidamente, até se tornar a maior do interior da Bahia, e que atraía famílias pobres de todos os lugares, em busca dessa referência mítica, da terra em que “corria rios de leite, por entre ribanceiras de cuscuz”. Pois bem, pessoas que levavam a pecha de bandidos e bandidas, negros e índios, se organizaram com a “regra do Conselheiro”, vivendo pacata e alegremente, mas foram massacrados pelo exército brasileiro, genocídio denunciado por tantos, no Brasil e no exterior, no início de nossa república, a qual acumula tantos equívocos e se banhou de sangue inocente tantas vezes.

Percebeu? O pastor Djalma ajudou a documentar essa memória, ressuscitar Canudos, transformando-a em lugar de pesquisa e peregrinação. Bem diferente daquela coisa estranha de “bandido bom é bandido morto”. O mais comum é taxar de bandido, em nossa realidade, aqueles e aquelas que não têm acesso a direitos essenciais. Djalma ainda pretende escrever o seu livro sobre Canudos, uma utopia religiosa, e eu estou muito curioso para ler.

Puxa, como é fácil amar Djalma e como é difícil amar você. Tinha mais coisas, mas eu quero terminar imaginando ainda.

Saindo do batismo no rio Amazonas, nos deparamos com a floresta, em sua exuberância tropical, a qual pode ser o poema da convivialidade brasileira em diversidade multicultural. Mas, eu queria entender melhor uma coisa. Que ideia é essa de extinguir as jabuticabas? Foi isso mesmo que o seu general de estimação quis dizer? As jabuticabas são os direitos de trabalhadoras e trabalhadores? Então é para cortar salário, aposentadoria, aumentar horas, diminuir licença maternidade, manter a desigualdade salarial entre homens e mulheres, prejudicar os direitos dos pobres?

E mais, extinguir o décimo-terceiro? Aí é exagero que até comerciantes se assustaram. Todo economista sabe que décimo-terceiro e outras jabuticabas aquecem a economia. Ainda bem que você desautorizou esse discurso. Atingia diretamente os direitos dos seus adoradores. Mas como parlamentar, até agora, você apoiou todas as medidas contra trabalhadoras e trabalhadores. E se o seu general, se invocar e quiser acabar com todas as jabuticabas? Afinal, posto é posto, e a patente de capitão é menor. Mas meu querido inimigo, vamos lutar por um país com muito mais direitos. Sem ódio, sem armas e com muitas jabuticabas.

Então, facilite o meu amor. Mergulhe no rio Amazonas e mude de vida e de discurso. E desista dessa mania de querer ser presidente. Vai ser um desastre. Para você, para o Brasil, para o Amazonas e para as jabuticabas.

No aprendizado do amor

Marcos Monteiro, pastor batista.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

CARTA DE AMOR AO MEU INIMIGO 7

teologiaonline
Maceió, 01 de outubro de 2018

Ele não foi batizado no Jordão

Meu querido inimigo

O vídeo, as fotos e os comentários, sobre o seu batismo em Israel, por um famoso pastor da Assembleia de Deus no Rio Jordão, foi amplamente divulgado e lhe renderam reações, críticas, mas principalmente apoios e votos.

Estranhos votos de evangélicos. Porque depois da cerimônia, você continua se declarando católico, o que faria de você um ecumênico, palavra considerada maldita por boa parte do seu eleitorado cristão.

Também continuou apoiando medidas contra trabalhadoras e aposentados, contra a vida de milhões de empobrecidas neste país.

Então, meu querido inimigo, quem é você? Não lhe parece que aquela definição de farsista lhe cabe bem e de que o seu batismo era somente mais uma manobra eleitoral? Mas você conseguiu: são muitos pronunciamentos individuais e coletivos de conhecidos e poderosos pastores declarando o seu apoio.

Muitas consideram esse o maior escândalo da história evangélica do país, eu não. Somente continuidade de uma série, porque as posições políticas dos evangélicos são as piores possíveis, as presentes e as passadas. A chamada bancada da Bíblia é conhecida por corrupção, oportunismo e fisiologismo, e apoia interesses opressores, junto à bancada da bala e à bancada do boi, a famosa BBB.

A grande maioria do povo evangélico é machista, preconceituosa, homofóbica, racista, totalmente afinada com o seu discurso, mas claro que o batismo aumentou os seus votos.

Antigamente, quando éramos minoria, os evangélicos consideravam a política coisa do diabo. Quando fomos crescendo, aprendemos a ficar do lado de seus representantes, o que não faz muito bem à sua imagem. Apoiamos oficialmente a ditadura, fomos contra a abertura, elegemos um candidato collorido, estivemos sempre ao lado dos piores políticos, pode pesquisar.

No Chile, os evangélicos foram sustentáculo na ditadura do Pinochet, símbolo universal de crueldade, tortura e morte. Mas não foi aquele que você afirmou que deveria ter torturado e matado mais?

Na Alemanha de Hitler, a igreja evangélica apoiou maciçamente o nazismo e o extermínio de judeus, como se Jesus não fosse um deles. Nos inícios do protestantismo, autorizamos com Lutero o massacre de camponeses, com Calvino a fogueira para bruxas e livre-pensadores, torturamos e matamos anabatistas e suas esposas, um estranho rastro de sangue.

Claro que houve e há exceções. Menonitas, batistas, a igreja confessante de Niemoller e Bonhoeffer, Martin Luther King Jr, e outras e outros passaram para a história como lutadores da justiça contra toda a forma de opressão. Aqui no Brasil, mais de 3 mil evangélicos já assinaram uma carta que contraria totalmente candidaturas como a sua e no dia 29 de setembro, pastores, pastoras, lideranças evangélicas estávamos juntas no Elenão.

Então, meu querido inimigo, dá para entender como é difícil amar alguém igual a você, como Jesus me desafiou?

Pois bem, o batismo é o rito mais importante do nosso povo evangélico e é símbolo e sinal de conversão, e para que o seu mergulho no Jordão seja batismo você precisa mudar.

Então, converta esse discurso e essa atitude que Jesus não apoiou, e deixe dessa mania de querer ser presidente. Não será bom para você, nem para o Brasil, e nem para o evangelho.

No aprendizado do amor

Marcos Monteiro, pastor batista.

domingo, 30 de setembro de 2018

CARTA DE AMOR AO MEU INIMIGO 6

3dejulhonotícias

Maceió, 30 de setembro de 2018

Em nome de todos os bigodudos e bigodudas

Meu querido inimigo

A minha carta de hoje é dolorosa e precisa partir dessa entrevista publicada em junho de 2011 na revista “Playboy”:

“Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo.”

Você disse isso mas não é homofóbico, até aparece em fotos com gays e nem vale a pena repetir outras frases, terríveis como essa. Fico apenas pensando em você, presidente, conseguindo liberar armas para a humanidade.  O que seria dos gays que você aceita, contanto que não seja seu filho?  Pode ser que eu não tenha entendido direito e seu preconceito seja apenas contra bigode. Mas essa é outra piadinha minha fora de hora e lugar.

Eu lembro mesmo é de Beto me procurando e pedindo socorro que seu pai comprara um revólver porque não suportava ter um filho gay e ele tinha apenas vinte anos de idade.  Levamos ele às pressas para Salvador, enquanto começávamos um acompanhamento e uma conversa com a família, inclusive com o pai. Estava lembrando aqui que o Brasil não é mais o campeão mundial de futebol, mas continua sendo o campeão mundial de assassinato de gays. Em uma sociedade fortemente armada, os caçadores de humanos exóticos vão matar ainda mais facilmente mendigos, bandidos, índios e gays, esporte perigoso que não quero acreditar que você apoie.

Essa é uma das maiores dificuldades que enfrento para conseguir amar você, como Jesus me desafia, meu querido inimigo. Como pastor evangélico, tenho muitos amigos e amigas, bigodudos e bigodudas, e é em nome de todas e todos que escrevo essa carta.

Por que insisto tanto em me descrever como pastor evangélico? Quem me conhece sabe que não costumo fazer isso. Mas, em um momento em que a imensa maioria da igreja evangélica apoia você, preciso me identificar. Veja bem, a igreja que lhe apoia é igualmente homofóbica e responsável por um discurso que autoriza o preconceito, e pior, considera o seu discurso sagrado, inquestionável. Para ela, Deus detesta gays. Engraçado, muitos gays que conheço se sentem amados e amadas por Deus, como são e como estão, mas se sentem rejeitadas pela igreja.

E agora, quero fazer uma confissão pessoal. Eu sou hétero e já fui tão preconceituoso quanto qualquer pastor e, com toda a dedicação, tentei curar gays. E aconteceu um milagre. Fui curado! Não sou mais homofóbico! Tenho muitos amigos e amigas gays e é uma das experiências mais libertadoras ser acolhido por elas. Elas não têm preconceito, não são heterofóbicas.

Fui curado pelo abraço de Dinho, quando acompanhávamos pastoralmente um rapaz com câncer terminal e eu estava em choro descontrolado. Fui curado quando uma amiga amada tentou se suicidar sete vezes, até assumir o seu amor diferente por outra mulher. E não conheço uma pessoa tão humana quanto ela. Fui curado por um homem transexual, grande amigo muito amado, por uma amiga que descobriu que sua filha era apaixonada por mulheres e a aceitou e se envolveu na luta das mães pela diversidade, e por muitas e muitos. Bigodudas e bigodudos.

Sinto muito, meu querido inimigo, esse meu texto sangra e esse sangue tem sido derramado com a autorização do seu discurso irresponsável e da pregação irresponsável da igreja. Qualquer coisa que cheire a homossexualidade causa um frenesi desproporcional, mas o assassinato sistemático de gays nunca é denunciado nem pela igreja e nem por você. É muito comum nos púlpitos os testemunhos de ex-gays e não quero entrar em polêmica, mas o testemunho da felicidade de gays cristãos assumidos não interessa a ninguém, e eu conheço muitos e muitas.

Bem, essa carta é muito importante, porque em nome de todas as bigodudas e todos os bigodudos cristãos ou não cristãos, e tenho de lembrar que já existem bastante igrejas inclusivas no Brasil. O assunto poderia render ainda mais, mas quero voltar ao meu apelo insistente.

Para facilitar o meu amor, procure se curar do preconceito, e desista dessa nova mania de querer ser presidente. Não vai dar certo. Nem para você, nem para o Brasil e nem para homossexuais, bigodudas e bigodudos.

No aprendizado do amor

Marcos Monteiro, pastor batista.



sábado, 29 de setembro de 2018

CARTA DE AMOR AO MEU INIMIGO 5

operamundi

Maceió, 29 de setembro de 2018

Lembrando Martin Luther King Jr e Marielle Franco

Meu querido inimigo

Escrevendo essa carta, lembrei de Martin Luther King Jr e de Marielle, e me perguntei: você é racista? É uma pergunta perigosa, eu sei, até porque racismo é crime inafiançável e você precisa ser um candidato ficha-limpa.

Mariele era linda, de bem com a vida, lutadora por direitos humanos, inclusive para os policiais. Você conhece a trajetória. Mas era negra, lésbica, feminista, e de esquerda. Tudo aquilo que seu discurso ataca com muita veemência. Mas você não se considera racista, até tem amigos negros e seu filho pousou com um “negão”.

Entretanto, você nunca vai poder entender o que é ser negra, e não é por questão de cérebro, o qual tem a mesma cor, mas de pele e aparência.

Você é contra cotas, mas não é racista. Os afrodescendentes são pesados por você em arrouba e você não é racista, os quilombos são lugares para negros gordos e preguiçosos atrapalharem o progresso. Animais que não servem nem para procriar, mas foi somente uma brincadeira.

Em tempo, você conhece piadas de negros, provérbios populares, músicas racistas? Conheço muitos, mas não conheço nenhum preconceituoso contra branco, hétero, cristão. Eu sou branco, hétero e cristão, igual a você nesses privilégios. Mas amigas negras e amigos cresceram ouvindo essas piadinhas e essas charadinhas, e às vezes, aprenderam a rir de si mesmas, nesse cruel cotidiano. Isso se chama racismo cultural e você sabe.

Meu querido inimigo, você é contra cota para negros, deveriam ser para pobres. Isso já foi tão debatido na nossa sociedade e você continua com essa visão simplista.

Para não repetir as mesmas coisas, vamos somente lembrar de dois conceitos, racismo epistemológico e racismo geográfico, com o esquecimento da inteligência acadêmica de negros e negras pesquisadoras e com a transferência compulsória de negros pobres para as periferias. Cotas são políticas reparadoras existentes em países que você admira. Admitem que a história da escravidão submeteu a população negra a cotidianos aterrorizantes, danificando sua autoestima e dificultando a sua inclusão cultural.

Morei quatorze anos na Bahia e fiquei impressionado com a existência de uma população predominante negra. Depois descobri que são poucos negros e negras na universidade e muitos na cadeia. Então, a política pública reparadora no estado da Bahia deveria ser aumentar a cota de negros na universidade e criar uma cota maior para brancos nas cadeias. Mas isso é uma piada boba e preconceituosa que inventei. Talvez a primeira contra os brancos. Entretanto, você sabe que em uma batida policial entre universitários que consomem maconha, e são muitos, a maioria branca se dá um jeito, mas negras e negros são presos e humilhados, sem exceção.

Mas voltemos à mesma pergunta. Você é racista? e outra, você nunca se posicionou publicamente sobre Marielle? Por que? Seus assessores dizem que sua opinião é polêmica demais. Então, suas posições contra direitos humanos lhe atrapalham? Marielle defendia os direitos de vítimas e familiares, incluindo os policiais. Lembrei novamente, houve um pastor norte-americano que foi morto por defender direitos humanos e políticas reparadoras para negros, Martin Luther King Jr. Ele se posicionava em nome de Jesus Cristo. Então, vocês seriam inimigos? O seu evangelho é diferente do dele? Fico impressionado com o número de evangélicos que estão ostensivamente lhe apoiando.

Então, meu querido inimigo, deixe eu insistir nessa tecla. Estou tentando amar você, porque Jesus disse que precisamos de amar os inimigos, mas continua sendo difícil.

Então, nos ajude, por favor, e estou falando sério e com toda a gentileza de que sou capaz. Converta-se, mude esse seu racismo existencial. E desista de ser presidente. Será muito melhor para o Brasil, e para você, e para a população negra.

No aprendizado do amor

Marcos Monteiro, pastor batista.



sexta-feira, 28 de setembro de 2018

CARTA DE AMOR AO MEU INIMIGO 4

historiadigital


Maceió, 28 de setembro de 2018

Em respeito à sua mãe

Meu querido inimigo

Escrever para você não é tarefa fácil, mesmo que seja carta de amor. Tentando amar o inimigo, me sinto como o pescoço que recebe ordens de amar a bota que lhe pisa.

Já falei que lhe acho mais um farsista e seu discurso fascista de ódio seria estratégia para se manter na política. Mas você escolheu a imagem de opressor e a sua fala é machista, misógina, violenta, no mínimo constrangedora até para as mulheres que lhe apoiam, e pensei na sua mãe, com toda a ternura que ela merece.

Essa semana fui ao supermercado e assisti a uma dessas conversas sobre política, entre dez funcionários, cinco homens e cinco mulheres. E lamento informar que você estava sendo derrotado, havia somente um funcionário que lhe defendia, argumentava, se orgulhava de votar em você e era homem, macho. Então, você perdia de nove a um.

A certa altura, me intrometi na discussão e o confrontei com toda a delicadeza: “Você tem mãe?” e ele respondeu “Tenho”. Impulsivamente, eu afirmei: “QUEM TEM MÃE NÃO VOTA NELE”. E na minha cabeça virou um slogan que gostaria de colocar na camisa.

Mas, engraçado, saí com a terna imagem de sua mãe, sabendo que ela sim, lhe ama, do jeito que você é. Óbvio que as frases sobre mulheres que não merecem nem ser estupradas (por serem feias? feministas lindas merecem?), ou que sua única filha mulher nasceu por fraqueza sua, ou que a licença maternidade prejudica a nação, ou que mulheres devem mesmo ganhar menos do que os homens, e o descalabro, o qual parece uma concessão, das mulheres andarem sempre armadas, são frases constrangedoras para qualquer mulher, inclusive sua mãe.

Mas foram frases impulsivas, garantem os seus admiradores. As mais incômodas, para mim, foram a defesa da tortura de mulheres durante a ditadura, e a que disse que cadeia é como coração de mãe.

Quero entender bem. Sua proposta de governo passa por piorar as condições de trabalho feminino, diminuir ou extinguir a licença maternidade, admitir a tortura, inclusive de mulheres, armar a população (inclusive a feminina) e aumentar as prisões? Uma cela superlotada, geradora de mortes, é um coração de mãe? sempre cabe mais um? Seu projeto de segurança não passa por moradia, educação, emprego? Somente mais repressão? Fico até com medo que você institua um Ministério da Tortura, se for eleito.

Mas voltemos aos homens que não pensam em suas mães e nas poucas mulheres que pensam em votar em você apesar de. Parece que elas dividem as mulheres em femininas e feministas, de quem são inimigas. Não lembram nunca que nessa sociedade androcêntrica e patriarcal elas só poderão votar em você porque as feministas que atacam conseguiram o direito ao sufrágio. Para conseguir esse e outros direitos, que ainda lhe são negados estrutural e culturalmente, mulheres lutaram, sofreram e morreram, e essas eram as feministas. Mas todas se beneficiaram.

Talvez o nosso machismo cultural, o qual explica grande parte do apoio que você recebe de homens e mulheres, seja do medo dessa capacidade de resistência feminina. Talvez precisemos criar o termo “ginofobia” ou “histerofobia” para melhor entender o preconceito dos machos. Mas tenho certeza de que sua mãe e sua filha lhe amam, destino das mães, e lembrei do poeta popular, repentista, e de seus versos:

Qualquer mãe por qualquer filho
Se encontra no mesmo amor
A mãe de Cristo e de Judas
Sofreram a mesma dor
Uma pelo filho santo
A outra pelo traidor.

Sua mãe deve lhe amar muito, até porque o amor de mãe não tem limites. Exatamente como a mãe de um bandido. Mas, quem tem mãe não pode votar em você, meu querido inimigo. Como pastor, eu não tenho coragem de desejar para sua mãe, ou filha ou esposas, dez por cento, o dízimo, do que você deseja para as mulheres.

Estou achando essa carta grande demais, mas vamos e venhamos: a melhor maneira de sua mãe lhe amar é lutar para que você mude esse jeito e esse discurso e desista dessa mania de querer ser presidente. Não vai ser bom para o Brasil, nem para você e nem para as mães.

No aprendizado do amor

Marcos Monteiro, pastor batista.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

CARTA DE AMOR AO MEU INIMIGO 3

3dejulhonoticias
Maceió, 27 de setembro de 2018
Jesus era um bandido?

Meu querido inimigo

Ontem eu tive um sonho estranho. Estava na cena da crucificação, naquele passado distante, e muita gente gritava: “Bandido bom é bandido morto!” E carregavam o seu nome e o seu número na túnica. Acordei assustado e pensativo e resolvi orar por você.

Você sabe que sou pastor evangélico, mas desses que não apoiam você, porque sempre apoiei os movimentos das sem-terra, sem-teto, sem-direitos, e apoiei em nome de Jesus, sem ódio e sem medo.

Se a criminalização dos movimentos sociais acontecer, serei considerado um bandido e talvez estarei na lista da morte, como Jesus. Você sabe que Jesus foi considerado um bandido pelo império romano e muitos de nós somos considerados criminosos pelo imperialismo global de hoje.

Mas fiquei pensando. Você se considera uma pessoa violenta? Não acredito que pense assim, mas você sabe que se tornou um símbolo da violência simbólica e estrutural, porque assumiu um discurso de ódio e votou contra tudo que era direito das trabalhadoras e dos pobres, dos que sofrem, e a favor de todos os privilégios dos ricos e poderosos, daqueles que causam sofrimento.

Já lhe disse que estou tentando amar você, meu inimigo, mas não é fácil. Você está claramente do lado dos que perseguem os profetas. Taí, lembrei novamente de Paulo Freire, aquele contra o qual você e seus aliados vociferam ódio. Ele escreve que entre os privilégios que os poderosos defendem, está aquele de definir quem são os violentos. Violência para os poderosos é a nossa luta pacífica por direitos, para trabalhadoras e trabalhadores pobres.

Voltei à cena da crucificação e vi muitas mulheres chorando pelo bandido, Jesus, sendo morto. Lembrei que bandido tem mulher e filha que choram pela sua morte. E você sabe que muitos considerados bandidos são injustamente acusados.

Fui levado pela imaginação para outra cena. Você no meio da multidão sendo esfaqueado. E não tive como não pensar: Será que o fanático não lhe considera um bandido? Será que ele tinha em sua cabeça naquele exato momento o seu slogan odioso: “Bandido bom é bandido morto?” Não sei.

Mas sei de uma coisa, Jesus mandou Pedro recolher a espada e afirmou que quem com espada fere com a espada será ferido. O contrário do armamento que você prega. E sei também que se fosse arma de fogo, você poderia estar morto agora.

Sou pastor evangélico e minha oração é que você viva muito, mas se converta. Mude de atitude, mude de discurso e mude de direção. E desista logo dessa mania nova de querer ser presidente. Você corre o risco de perder o seu emprego de deputado e ficar exposto a ser considerado bandido, talvez injustamente.

No aprendizado do amor

Marcos Monteiro, pastor batista.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

CARTA DE AMOR AO MEU INIMIGO 2

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Maceió, 26 de setembro de 2018

Por favor, tire a sua máscara

Meu querido inimigo

Por que você me dá a impressão de que não é nada do que parece? Você realmente é o inimigo que Jesus me desafia a amar e acho tão difícil? Ou escolheu essa máscara odiosa para angariar apoio dessa parte da população que é machista, racista, homofóbica e violenta?

Há dois anos, achávamos, a maioria do país, que você era apenas um bufão, daqueles que contam piadas politicamente incorretas e que despertam a gargalhada de quem gosta do humor grotesco.

Um amigo meu, Karl Marx, que você considera inimigo também, afirmou que a história se repete somente como farsa. Então você seria um “farsista” e não o fascista que tenta aparentar.

O fascismo era um projeto grandioso, aliás com mania de grandeza, mas era um projeto. O preconceito e ódio que gerou eram partes integrantes. Mas você nunca apresentou um projeto de país. Então, até o seu fascismo é um “farsismo”, ridículo ódio, gargalhada sarcástica e violenta.

Não dá mais para rir do seu discurso, uma piada de mau gosto que passou a graça e só sobrou o cheiro, o mau hálito. Se foi importante para garantir o seu emprego político como deputado, com todas as vantagens, salários e auxílio moradia, não serve para a sua candidatura a presidente.

Você defende bem o seu emprego, mas nunca apoiou como deputado nenhum direito essencial para o trabalhador e a trabalhadora.

Infelizmente, você precisava de uma atitude e um discurso de estadista que nunca ensaiou. De quantos intelectuais, militares e líderes religiosos você precisa para nos convencer de que você não disse aquilo que disse?

Então, deixe eu lhe pedir com todo o carinho: Tire a sua máscara. Não sei se o que você esconde é melhor ou pior. Pelo menos será mais autêntico. Ainda acho que você talvez não seja o fascista que pretende, apenas um “farsista”, alguém querendo ganhar votos para ao menos garantir o seu emprego de político profissional.

No aprendizado do amor

Marcos Monteiro, pastor batista.



terça-feira, 25 de setembro de 2018

CARTA DE AMOR AO MEU INIMIGO


blogdozacarias


Maceió, 25 de setembro de 2018


Convite ao arrependimento

Meu querido inimigo

Jesus mandou amar os inimigos, mas você é desafio grande demais para mim. Afinal, não é fácil amar o capitão que esmaga o meu pescoço com o coturno, porque você, Bolsonaro, é o meu opressor.

Você é meu inimigo, não por escolha minha, mas porque você é o inimigo de tudo e de todas que me representam: da justiça, da igualdade, da paz, do amor, e das sem-terra, sem-teto, sem-pão e sem direitos. Sempre lutei ao lado delas, e eu sou um pastor evangélico.

Escrevo esse texto, como uma oração, tentando opor um tom de voz gentil a toda a sua vociferação. E veja bem, um amigo meu, do qual você também é inimigo, Paulo Freire, me adverte que a única forma de se amar um opressor é ajudá-lo a se livrar de sua atitude opressora.

Então, queria lhe pedir, diante do amor do Pai, duas coisas:

Primeiro, desista de todo o seu discurso misógino, racista, homofóbico, violento, e de toda morte que você espalha em suas palavras e projetos.

Segundo, desista de sua candidatura. Já pensou se você ganha? Você vai ser humilhado. Porque você sabe que não tem experiência administrativa, nem poder de articulação e negociação.

Em trinta anos de legislatura, você não demonstrou nenhuma capacidade criativa e tudo que você apoiou é contra os direitos dos trabalhadores e das que sofrem.

Então, meu querido inimigo, se arrependa. Arrependimento vem de uma palavra grega, metanoia, e significa mudança de mente e de atitude.

Arrependa-se, portanto, de ser opressor e de ser candidato. Eu lhe garanto que será muito bom, tanto para o Brasil quanto para você.

No aprendizado do amor

Marcos Monteiro, pastor batista.