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segunda-feira, 12 de agosto de 2013

AVENTURAS E DESVENTURAS DE JACÓ – VIII


Um riacho difícil de transpor
Gn 32,3 – 33,20

Jacó está finalmente encerrando o período de suas peregrinações em terra estranha e chega são e salvo a Siquém. Não será aí o seu lugar definitivo e muita coisa ainda vai acontecer; na verdade Jacó nunca termina de peregrinar, de lutar por seu lugar na vida e na terra.

Entretanto, já constituiu o seu próprio clã e organizou a sua família. Javé cumprira o que prometera e o auxiliara a alcançar seus objetivos. A partir daí, os filhos serão os principais protagonistas das histórias, espécie de lei natural da sucessão de gerações.

Para chegar a Siquém, precisa encarar o passado, o irmão Esaú e sua consciência de não ter-se portado tão bem na relação com o mesmo, e precisa se preparar para o futuro. Um futuro cheio de peripécias.

Entre o passado e o futuro, um pequeno riacho, tão difícil de transpor quanto pequenos riachos decisivos de nossa vida. Mais uma vez é preciso lutar; estranha luta com um homem que no final é o próprio Javé disfarçado.

metodista

“Levantou-se naquela mesma noite, tomou suas duas mulheres, suas duas servas e seus onze filhos, e transpôs o vau de Jaboque. Tomou-os e fê-los passar o ribeiro; fez passar tudo o que lhe pertencia, ficando ele só; e lutava com ele um homem, até ao romper do dia. Vendo este que não podia com ele, tocou-lhe na articulação da coxa; deslocou-se a junta da coxa de Jacó, na luta com o homem. Disse este: Deixa-me ir, pois já rompeu o dia. Respondeu Jacó: Não te deixarei ir, se me não abençoares. Perguntou-lhe, pois: Como te chamas? Ele respondeu: Jacó. Então disse: Já não te chamarás Jacó, e, sim, Israel; pois como príncipe lutaste com Deus e com os homens, e prevaleceste” 
(Gn 32, 22-28).

Jacó está chegando finalmente à Canaã de seus pais; está próximo de Siquém que, por motivos diversos não será seu lugar final. Aliás, parece que Jacó está destinado a peregrinar sempre e no fim de seus dias ainda estará fora de seu lugar. Haverá  sempre uma nova história para tirá-lo de lugar.

Acabara de se encontrar com Esaú e encontrar esse irmão era encontrar o passado e encontrar suas próprias atitudes, muitas vezes impróprias atitudes. Tem medo do encontro e amacia o irmão com muitos presentes. Não sabemos se por causa disso, o encontro acontece entre abraços e lágrimas, as quais certamente lavam todas as lembranças.

Reconciliado, pode retornar às origens, atravessando esse pequeno riacho. Mas, um misterioso homem se interpõe e Jacó entra em luta com o mesmo. Não sabemos quais são as armas: Espadas? Cajados? Tudo indica que estamos mesmo é diante de uma luta corporal e a coisa fica muito confusa quando descobrimos que o homem é Javé.

Por que Javé pretende barrar o caminho de Jacó? E porque Jacó insiste em lutar para atravessar um riacho?

Jacó sempre lutara contra vários adversários por motivos diversos. Antes de nascer, já lutava contra a natureza por um espaço melhor no útero da mãe. Contra a sociedade patriarcal lutou pelo direito de primogenitura que não lhe cabia e pela bênção do patriarca que não lhe pertencia. Enfrentou o poderoso Labão por amor de Raquel e conseguiu, lutando com as armas da astúcia e com o auxílio de Javé, reparação por toda indignidade salarial a que fora submetido.

Agora enfrenta Javé, o oponente mais poderoso pelo motivo mais trivial: atravessar um riacho. Mas Jacó aprendera que não se alcança objetivos sem luta e que não se chega a destino sem passar por riachos.

Jacó é lutador insistente e continua até fazer a luta mudar de direção. Agora é ele que impede Javé de partir. Estranho esse Deus que gosta de lutar com os homens e até mesmo de perder a luta. Confessa que Jacó prevaleceu, mas deixa a sua marca na coxa deste, que sai manquitolando.

O nome de Jacó foi assim mudado para Israel. O homem que lutou com Deus, o homem que derrotou Deus.

O herói Israel não é forte e valente como Esaú, nem tão correto quanto o pai Isaque, nem talvez tão astuto quanto o tio Labão, mas é um homem que luta. Com todas as suas armas, que não são as armas do forte, com toda a artimanha do fraco e do menor que quer prevalecer, enfrenta tudo e todos e deixa uma lição assim meio paradoxal.

Para agradar a Deus é preciso lutar, se preciso até contra o próprio Deus. Para chegar a destinos, para descansar nas origens, às vezes se faz necessário afrontar a vontade de Deus.


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

AVENTURAS E DESVENTURAS DE JACÓ – VII

Os caminhos de voltar: o acerto de contas com Labão
Gn 30, 24 – 32,2 

O patriarca Jacó está prestes a encerrar o seu tempo de aventuras em terras estranhas. Em uma contabilidade complicada, alegrias e tristezas, vantagens e desvantagens, precisam ser entendidas e computadas. Duas mulheres e onze filhos são uma considerável riqueza, mas o restante pertence a Labão: ovelhas, cabras, terra, tudo.

Labão combina um salário (primeiro salário em vinte anos) para Jacó ficar, e este faz desse salário sua oportunidade de se tornar enfim um rico patriarca. O preço a pagar agora é a inimizade da família das suas mulheres: seu sogro Labão e os filhos deste.

Nas caladas da noite, Jacó empreende o caminho de volta: mais uma fuga na sua vida e Labão o persegue, mas não lhe faz mal porque Javé aparece em sonhos e proíbe-lhe  qualquer dano a seu amigo e sócio.


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“Então, ouvia Jacó os comentários dos filhos de Labão, que diziam: Jacó se apossou de tudo o que era de nosso pai; e do que era de nosso pai juntou ele toda esta riqueza. Jacó, por sua vez, reparou que o rosto de Labão já não lhe era favorável, como anteriormente. E disse Javé a Jacó: Torna à terra de teus pais, e à tua parentela; e eu serei contigo” 
(Gn 31, 1-3).

Enfim, a bênção e ação de Javé torna Jacó uma pessoa rica e poderosa, mas isso acontece através de uma série de truques: varas descascadas de álamo, de aveleira e de plátano fazem as ovelhas e cabras produzirem ovelhas negras e cabras salpicadas, listadas e malhadas. As narrativas populares são assim: cheias de sortilégios e truques mágicos. Truques de Jacó e de Javé.

Finalmente, depois de tanto tempo, Javé se dispõe a corrigir todos os sofrimentos causados pela injustiça do esperto e poderoso Labão. Mas Labão não se conforma e sai ao encalço de Jacó e dos bens que julgava seus.

O discurso e a ação de Labão merecem um exame. O poderoso Labão e os seus filhos achavam que Jacó procedera fraudulentamente. A ética tem geografia e sociologia, e quase sempre é concebida a partir desses espaços. Quando a moral é propriedade da instituição patriarcal, o estrangeiro, sem direito e sem lugar, é penalizado.

Labão admite que enriqueceu às custas do trabalho de Jacó, mas ao mesmo tempo trata o mesmo como um ladrão de pessoas e de animais. A ação de Javé leva à conciliação entre as partes. Um monte de pedras sela um pacto de paz, Labão beija filhas e netos e volta para casa, enquanto Jacó segue caminho de volta.

Mais uma vez Jacó vê anjos e exclama: Esse é o acampamento de Javé e dá o nome de Maanaim àquele lugar

segunda-feira, 29 de julho de 2013

AVENTURAS E DESVENTURAS DE JACÓ – VI


 O útero da mulher 
Gn 29,31 – 30,24

O nosso patriarca continua sua peregrinação pelos intricados caminhos da família patriarcal. Apaixonado por Raquel, descobre que o amor exige o seu preço e torna qualquer pessoa vulnerável. Pagou por Raquel vinte e um anos de trabalho semi-escravo (Lia veio de brinde) e agora está pronto para constituir seu próprio clã e precisa de filhos.

Dentro do sistema, os filhos homens são mão de obra para a lavoura ou pastoreio, e guerreiros para defender a família. As mulheres precisam fornecer os homens.

Nas complexas relações familiares, não há interesse evidente por mais alguma coisa vinda da mulher. Sabemos, por exemplo, que Jacó ama Raquel, mas não se diz nada do amor de Raquel ou de Lia por Jacó. Estaria implícito na relação. O amor masculino seria escolha, o feminino obrigação.

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“Vendo Javé que Lia era desprezada, fê-la fecunda; ao passo que Raquel era estéril” (Gn 29,31).

Companheiro e sócio de Jacó, Javé parece se manter um pouco distante das artimanhas do amor, como quem não quer se intrometer nessas complicadas questões. Quando intervém fica sempre do outro lado, nesse caso do lado de Lia, a desprezada. Javé tem uma atração permanente por desprezados e proscritas.

No sistema da época, a realização da mulher passava pelo útero, lugar de produção de vida e nesse aspecto, Lia levava vantagem.

Para Raquel, o amor de Jacó não basta, precisa se saber mulher, aquela que gera vida. E usa de todas as suas armas para competir com a irmã. Para dar dois filhos a Jacó usa o útero da serva, Bila, mas a irmã reage com o mesmo artifício e acrescenta também dois filhos à prole de Jacó, através de Zilpa, sua serva.

Nessa estranha competição acontece um estranho episódio. Raquel deseja as mandrágoras que Rúben, filho mais velho de Lia, trouxe para a sua mãe e vende uma noite de amor com Jacó pelas mandrágoras.

O episódio se assemelha ao prato de lentilhas, em que Jacó se aproveita do cansaço do irmão, para ganhar direitos de primogênito. O que muda é que Lia luta pelo direito ao amor, e Jacó torna-se um objeto de transação na disputa entre as duas irmãs. Curiosamente, as mandrágoras eram consideradas afrodisíacas e capazes de curar a esterilidade de Raquel.

Na continuidade da história, Lia tem mais dois filhos e acredita-se capaz de conquistar finalmente o amor de Jacó. Depois de tudo isso, Raquel concebe, por intervenção de Javé, que resolve salvar a sua reputação. O sistema patriarcal (e nenhum sistema) consegue controlar o movimento do amor. Lia é a mais fecunda, mas Raquel continua sempre a mais amada.


São dos úteros das mulheres que a vida e as sociedades humanas vão surgindo. O homem é incapaz de gerar vida, segredo bem guardado pelas mulheres. A palavra “útero” gera a palavra “misericórdia” e Javé, aquele que tem a capacidade de gerar vida, de dar forma ao informe ou disforme, é chamado de misericordioso, ou seja aquele que tem um útero.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

AVENTURAS E DESVENTURAS DE JACÓ –V

Quanto vale o amor 
Gn 29, 1-30

O patriarca Jacó que funda a nação de Israel não seria exatamente um herói, mas um anti-herói, matreiro e astuto, que usa as armas dos menores para prevalecer.

Simpática personagem porque gostamos dessas figuras populares, cheias de truques, enfrentando a violência do direito com a força da artimanha. Não têm objetivos de mudar o mundo ou de reinventar a vida. Tudo que fazem é viver da melhor maneira possível.

Nesse episódio, pela primeira vez, nosso herói (ou melhor anti-herói) encontra um revés. Fraqueza de todos nós, ele se apaixona e se torna vulnerável.

Sofre de saída uma derrota monumental, no confronto com Labão, seu sogro e parente, são vinte e um anos de trabalho semi-escravo. Na luta pela vida, Jacó é vencido pelo amor.

 
Palavras de espírito e vida

“Mas Jacó amava mais a Raquel do que a Lia; e continuou servindo a Labão por outros sete anos” (Gn 29, 30b).

Toda a narrativa do capítulo 29 pode ser lida como um pequeno conto de amor. Um encontro no campo com a pastora de ovelhas Raquel e um entusiasmado peregrino se sente em casa.

Raquel seria exatamente a sua casa, a sua pátria, o lugar que deseja para recolher o seu corpo e para viver sua vida. Na sociedade que fizera com Javé não ficara bem claro o lugar do amor.

Javé parece ficar um tanto à parte e um tanto vigilante, somente intervindo em circunstâncias específicas.

Aparece então a figura de Labão que precisa ser bem definida diante da de Jacó. Labão também é ardiloso, mas representa o poderoso e instituído, cuja astúcia significa sempre o sofrimento do mais fraco.

No jogo contínuo das artimanhas, Javé vai jogar do lado de Jacó, não do lado de Labão, mas não é um interventor imediato, tem também as suas astúcias e isso significa administrar o tempo de modo a alcançar também seus próprios objetivos.

Jacó, apaixonado por Raquel, se oferece como trabalhador gratuito por sete anos e Labão aceita, dissimulando os seus planos que são ainda mais ambiciosos. Raquel será o salário de Jacó, prêmio maior, riqueza ambicionada acima de qualquer coisa.

Cumprido o prazo, terminada a festa, na obscuridade da tenda, Jacó recebe Lia, a irmã mais velha como mulher e só descobre que foi enganado no dia seguinte.

A narrativa tem as suas sutilezas e o texto diz que Lia tem os olhos belos, mas Raquel é bela de porte e de semblante, ou na linguagem comum de hoje, bela de rosto e de corpo.

Nas paixões que não conseguimos controlar, os caminhos da beleza. Jacó ama os olhos de Lia e ama toda a Raquel, rosto e corpo. Labão oferece novamente Raquel por mais sete anos de trabalho.

Jacó aceita e o texto diz que esse tempo lhe pareciam sete dias, pelo muito que a amava. Quando termina o prazo, Jacó recebe finalmente Raquel, mas resolve publicar a diferença nos amores. Porque amamos também por gradações e amamos diversas pessoas de modo diferente. E Jacó serve mais sete anos, voluntariamente, pelo amor a Raquel.

E assim termina esse momento da narrativa. Quanto vale o amor e que amor vale tanto? Para Jacó, Raquel era lugar, morada, pátria, salário, vida, tudo.

E Javé? Nesse momento parece estar distante, apenas observando divertido as artimanhas dos homens e a força do amor e da beleza das mulheres.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

AVENTURAS E DESVENTURAS DE JACÓ - IV

Uma sociedade bem desigual
Gn 28, 1-22

Fugindo, o futuro patriarca Jacó torna-se um destituído e um desamparado.  Em busca do futuro perdeu o presente e não tem família nem lugar.

Mas ainda tem os sonhos e a Bíblia é a narrativa das pessoas que sonham. Nesse sonho Javé lhe aparece e lhe confirma o futuro. E ele tem uma outra visão do presente.

Sonho de escadas em que anjos sobem e descem, em que as coisas se misturam e a realidade é maior do que si mesma. O Deus dos céus passeia pelos campos da terra.

A teofania muda-lhe a perspectiva mas não muda seu modo de ser. Ele fica impressionado e propõe uma sociedade a Javé.

Javé aceita um acordo em que todas as vantagens parecem estar do lado de Jacó e todas as responsabilidades do Seu lado.

Surpreendente esse Deus que entra no jogo do ser humano e que aceita as condições do mais fraco sem nenhuma hesitação.

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“Fez também Jacó um voto, dizendo: Se Deus for comigo, e me guardar nesta jornada que empreendo, e me der pão para comer e roupa que me vista, de maneira que eu volte para a casa de meu pai, então Javé será o meu Deus; e a pedra que erigi por coluna, será a casa de Javé; e a pedra, que erigi por coluna, será a casa de Javé; e de tudo quanto me concederes, certamente eu te darei o dízimo” 
(Gn 28, 20-22).

Jacó é o fugitivo capaz de sonhar com a cabeça na pedra e sonho é o mistério que muda as cores da vida.

No sonho, Javé lhe promete a terra e o futuro. Quando desperta, Jacó muda sua visão do mundo. Agora, vê toda a terra como lugar de Javé e se apropria do Deus de seus pais.

Imediatamente, transforma a pedra dos sonhos em altar e oferece libação. E propõe uma sociedade para Javé.

Javé seria responsável por lhe garantir a vida – casa, comida e roupa – e a volta para a terra dos pais.

Por compensação, propõe a Javé a pedra dos sonhos como templo e altar e dez por cento de tudo que Javé lhe ajudasse a ganhar. Estranhamente, Javé aceita.

Mas, também, que se pode oferecer a quem é o dono de tudo? Jacó nem percebe o seu atrevimento e Javé certamente se diverte.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

AVENTURAS E DESVENTURAS DE JACÓ – III

A luta pela palavra sagrada
 Gn 27, 1-41


O futuro patriarca Jacó, ainda jovem, continua as suas peripécias, novamente em jogo que Esaú sai perdendo.

Em um jogo complicado de palavras ardilosas e disfarces astutos ele se apodera da bênção de Javé.

Já tinha se apossado do direito de futuro patriarca, mas percebe que direito sem bênção não é garantia.

O valor dos símbolos garante o valor do direito e os símbolos religiosos são sempre os mais importantes.



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“Perguntou-lhe Isaque, seu pai: Quem és tu? Sou Esaú, teu filho, o teu primogênito, respondeu. Então estremeceu Isaque de violenta comoção, e disse: Quem é, pois, aquele que apanhou a caça e me trouxe? Eu comi de tudo, antes que viesses, e o abençoei, e ele será abençoado” 
(Gn 27, 32-33).
A narrativa se tece em torno de duas palavras. Uma palavra forte, a patriarcal, e uma palavra fraca. Dispondo apenas da palavra fraca, Jacó com a ajuda de Rebeca, se apodera da palavra forte, a palavra sagrada, a bênção de Javé.

Rebeca ouve Jacó prometer a bênção, a palavra forte, a Esaú e corre a preparar Jacó para lutar. A palavra da mulher e a palavra do irmão menor vão se unir para a disputa.

Jacó é o irmão que nasce segurando o calcanhar do outro, é o irmão-serpente. Mais uma vez, a palavra da mulher e a palavra da serpente vão se unir em torno de objetivos comuns. A estratégia passa novamente por um prato de comida.

Jacó comparece na presença do pai com pele de cabrito, comida de Rebeca, roupa e cheiro de Esaú. Só tem de suas, a voz e a coragem de usar a palavra ardilosa. E vence: se apropria da bênção de Isaque.

Quando o irmão mais velho chega, a bênção já está prometida e a palavra forte, do patriarca, não poderá voltar atrás. Esaú chora e a bênção que lhe sobra é tão humilhante que cria um ódio furioso para o irmão mais novo.

Curiosamente, Javé fica de fora de tudo isso e vai apenas garantir, no final, o cumprimento da bênção dada. Parece que tem suas predileções, sempre do lado das mulheres e dos mais fracos.

Jacó agora é o herdeiro da palavra forte, mas ser o abençoado e eleito de Javé tem os seus problemas e é preciso fugir.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

AVENTURAS E DESVENTURAS DE JACÓ - II

O valor de um prato de comida
Gn 25, 27-34

O patriarca Jacó vai dar nome e identidade à nação de Israel.

Examinado literariamente parece uma personagem popular, astuta, que joga o jogo da sobrevivência na luta por espaço em um lugar definido antes dele.

As narrativas parecem daquelas histórias que correm entre o povo, de boca em boca, em que o herói é o anti-herói, inventando e reinventando ética, política e religião.

Curiosamente, Javé está do lado desse herói cheio de artimanhas, e não do lado do estabelecido e instituído.

Javé é companhia e auxílio no jogo do mais fraco. Provavelmente se diverte com isso e suas atitudes vão delineando aquilo que será conhecido como sua misericórdia.


Sétimo dia

“Deu, pois, Jacó a Esaú pão e o cozinhado de lentilhas: ele comeu e bebeu, levantou-se e saiu. Assim desprezou Esaú o seu direito de primogenitura” (Gn 25, 34).

Esaú é valente e caçador, amado pelo pai, líder entre os homens. Jacó é pacato cozinheiro, amado pela mãe, bom com as mulheres.

O primeiro se movimenta no mistério do campo e da floresta, o segundo no conforto da tenda. Esaú é forte, Jacó é matreiro.

Quando Esaú chegou exausto da aventura e faminto, Jacó fez da necessidade do mais forte a oportunidade do mais fraco, e vendeu-lhe um cozinhado de lentilhas, ou comprou um direito de primogenitura, a mesma coisa ou quase.

Jacó tem fome de direito, Esaú fome de lentilhas. Quem vive cheio de direito não sabe a falta que este faz. Na transação comercial que se segue é o cozido mais caro da história e o direito mais barato.

O cozido de lentilhas é tangível e imediato, o direito do primogênito é intangível e futuro: vale mais na morte dos pais, direito de herdeiros.

Esaú despreza o seu futuro, ou seu título intangível, e vende o seu direito; Jacó compra. A narrativa é tendenciosa: silencia sobre o ardil de Jacó e culpa Esaú.

Na voz do povo, que será a voz de Deus, a artimanha seria o direito legítimo dos sem-direitos.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

AVENTURAS E DESVENTURAS DE JACÓ - I

A luta pelo útero materno
Gn 25, 24-26

“Cumpridos os dias para que desse à luz, eis que se achavam gêmeos no seu ventre. Saiu o primeiro, ruivo, todo revestido de pelo; por isso lhe chamaram Esaú.
Depois nasceu o irmão; segurava com a mão o calcanhar de Esaú; por isso lhe chamaram Jacó. Era Isaque de sessenta anos, quando Rebeca lhos deu à luz”

Os textos que formaram a nação de Israel formaram também a nossa consciência ocidental. E as narrativas sobre Jacó são essenciais, porque Jacó é Israel.

Ou seja se a personagem Jacó tem o nome da nação, Israel, Jacó é Israel e Israel é Jacó.

Qual a marca das aventuras e desventuras de Jacó nesses contos populares, passados de boca e boca e tornados sagrados?

Jacó é aquele sem espaço e sem direito que, desde o útero materno luta por direitos e por espaços. Jacó torna-se tipo e exemplo de todos os destituídos. De todos que precisam de lutar para viver.

Suas armas nem sempre parecem éticas, ou tem outro tipo de ética, a ética do nômade, do peregrino que não possui a terra e não tem a força, nem das armas nem da lei.

Precisa usar todas as suas armas, as únicas que sobraram, força dos sem direito e sem terra, astúcias de lutador, táticas que enfrentam as estratégias dos donos do poder.

No útero materno Jacó já briga por espaço. Útero é lugar onde a vida é formada e esse útero é apertado demais para dois. O irmão, Esaú, dispõe do útero como se fosse somente seu. Direitos de primeiro irmão, mesmo que a diferença de tempo seja tão pequena.

É preciso questionar o direito do mais forte e Jacó não solta o calcanhar de Esaú, astúcia de serpente.

A serpente é animal ambíguo. Símbolo do mal, mas símbolo da sabedoria. A ambigüidade é arma dos menores.

Jacó vai lutar por direitos, do útero até o fim da vida, com as únicas armas que possui. O calcanhar é o ponto fraco do mais forte. Descobrir o calcanhar dos poderosos será a luta de uma pessoa e de um povo.

Por fim, Jacó vai se apropriar da amizade de Javé, o Deus todo-poderoso, cujo calcanhar é a misericórdia, atração irresistível pelos sem direitos.

No livro de Gênesis, acompanharemos as aventuras e desventuras de Jacó, Israel, na luta pelo direito de ser e de viver.