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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Quando brilha o olhar

maantunesemversoeprosa

“O olhar de Ianasi regula o brilho do sol”. A frase cuidadosa de Rubengálvio não descrevia claramente o que sempre acontecia e o pessoal tentava melhorar: “O olhar de Ianasi acende a lua quando desaparece o sol”, ou “Ianasi clareia o mundo pelo olhar”, ou ainda, “a energia do sol vem do brilho do olhar de Ianasi”, e ainda e ainda, “o sol alimenta a vida e o olhar de Ianasi alimenta o sol”.

Gerlúcido garante que as frase sobre Ianasi dão um livro e propõe uma espécie de ciranda musical, recorrente e inacabada, para homenagear a responsável maior pela iluminação do ambiente da turma. Ainda pensou em usar a sua mania de organizar hipóteses científicas para medir a relação existente entre o olhar de Ianasi e mudanças ecológicas. A impressão de que aparecem nuvens no céu quando o semblante de Ianasi se anuvia e de que a luz se apaga quando fecha os olhos não recebeu medição comprovada. Também a turbulência do clima planetário, aquecimento global, terremotos, tsumanis, acontecendo em abundância exatamente em tempos que o olhar de Ianasi sofria uma espécie de curto-circuito, parecia hipótese temerária, como parecia temerário associar o choro que apareceu inesperado no rosto dela com a chuva que caiu torrencialmente. Bem, por estranha coincidência, quando parou de chorar parou de chover.

Ianasi não era feita somente de olhar: ela sorria e sua gargalhada cristalina, intermitente e de diferentes durações, fornecia melodias para canções populares ou eruditas. O pessoal sentia vontade de dançar quando ela sorria. Além de tudo isso, Ianasi era belíssima de corpo e de rosto, o que lhe trazia alguns problemas que foi aprendendo a administrar. Todo mundo se apaixonava por Ianasi e ela recebia cantadas, manhã tarde e noite (até de madrugada já aconteceu) de homens e mulheres de todas as idades, tamanhos e etnias. Então, ela aprendeu a esperar e a gostar de cada cantada que aparecia, nos momentos e das pessoas mais inesperadas. Somente duas pessoas nunca lhe cantaram: Gerlúcido e Filippo. De Gerlúcido, intérpretes e hermeneutas disputam sobre a possibilidade de uma certa frase ter sido uma espécie de cantada no estilo gerlúcido. A ela voltaremos mais tarde.

Filippo, bem, Filippo era considerado pelas meninas um moreno dengoso, falso tímido, que atraía e seduzia, para desespero dos homens que não entendiam nunca seu poder de sedução. Quando encontrou Ianasi não lhe fez proposta nem declaração, colocou a mão sobre os seus ombros, beijou-lhe a face e, como ela não reclamou, beijou-lhe a boca. Quando ela abriu os olhos e sorriu surpresa, invadiu o seu sorriso com um beijo tão profundo e tão prolongado que a turma e o tempo parou. O sol, estupefato, quase se descontrolou, despejando calor de meio-dia em hora de pôr-de-sol. Desde então, Filippo nunca mais largou Ianasi. Deixe eu dizer de outro jeito. Filippo larga Ianasi para comer, dormir, estudar e trabalhar, mas sua ocupação de verdade é Ianasi, o resto é intervalo.

No começo, sentia um ciúme desesperado porque ninguém deixou de cantar Ianasi por causa de sua companhia. Reclamou, chorou, partiu pra briga com alguns até se acostumar. Bem, não foi bem assim. Desenvolveu um tipo de resposta que ninguém sabe do que chamar pois, como descobriu Gerlúcido, não existe antônimo para “ciúme”. Como denominar esse tipo de comportamento? Chegam os dois juntos em qualquer ambiente e começam a chover galanteios e cantadas. Filippo? Impávido! Depois de algum tempo, o moreno começa a ficar impaciente e começa a partir para algumas pessoas, indagando: “Por que não cantou minha mulher? O que tem contra ela?” Com alguns já ficou muito irritado e até tentou sair no braço, dando suficiente trabalho para a “turma do deixa-disso”.

Pois bem, Gerlúcido desistiu de investigar ligações ecológicas com o olhar de Ianasi, mas não desistiu de criar hipóteses, porque não é de abandonar suas mais queridas manias. Abandonou a investigação de “nexos causais inobserváveis” e procurou descobrir a causa real do brilho do olhar de Ianasi. A descoberta que o levou no caminho de uma série de “hipóteses gerlúcidas” pode-se chamar de casual, mas com certeza foi resultado do seu olhar investigativo bem treinado.

Pois bem, um belo dia estava Ianasi sentada com a turma na mesa, comendo, bebendo, brilhando e sorrindo, acompanhada de Filippo (claro!), quando Gerlúcido observou um aumento súbito do brilho do olhar. Ao mesmo tempo, percebeu um movimento das belas pernas da bela mulher, afastando em quase-chute um gato que tentava se enroscar em seus pés. A partir de então, começou a anotar cuidadosamente esses momentos de elevação de brilho de olhar e percebeu que podia associá-los cada a algum ato ou gesto de rejeição de gatos, cachorros, crianças e papagaios.

Daí para as hipóteses foi um salto. A primeira era bem estranha: A variável responsável pela geração do brilho do olhar de Ianasi seria a sua crueldade. Dizendo de outra forma: o brilho do olhar de Ianasi poderia até alimentar o brilho do sol, mas era alimentado por sua crueldade dirigida especialmente para gatos, cachorros, crianças e papagaios. Por incrível que pareça, esses tais animais sempre procuram fascinados essa bela mulher, também apaixonados, também seduzidos por seu brilho, beleza, alegria e paixão.

Para compreender essa relação, Gerlúcido propõe a hipótese dos “fluxos dialético-existenciais gerlúcidos” agindo de modo complexo dentro de um “campo gerlúcido dialético-existencial”. Não sei se consigo explicar bem tudo isso. Mas atos perceptivos, atos cognitivos, atos volitivos, atos emocionais, são fluxos dinâmicos organizados em pares interdependentes de modo complexo. Por exemplo, o fluxo emocional dialético existencial amor-ódio: Para se muito amar precisa-se muito odiar e às vezes esse fluxo se dirige para a mesma pessoa. Como dá para perceber o fluxo alegria-crueldade seria atípico ou complexo, explicável apenas pelas interações criadas dentro do campo dialético-existencial com outros fluxos.

Mesmo assim, Gerlúcido garante que há dados suficientes para corroborar as suas hipóteses, podendo inclusive estendê-las para o caso de Jutizildo, Etenildo ou Cremildo. Na nossa personagem em pauta, basta ver o que acontece quando, cercada da admiração das crianças, manda calarem a boca, ficarem quietas ou qualquer coisa assim. Ou quando afasta gatos, cachorros e papagaios, com a mão ou com o pé. O seu olhar normalmente brilhante se torna fulgurante, então.

Encadernado com esmero, Gerlúcido ofereceu um livro de cerca de 830 páginas com as anotações manuscritas sobre sua pesquisa. Nas páginas introdutórias, a frase considerada por estudiosos como a cantada gerlúcida: “posto às investigações, disposto ao sofrimento, proposto à lealdade, posposto às paixões”. Nas conclusões, a explicação das cantadas e suas funções no fluxo gerlúcido crueldade-brilho no olhar. A elegante rejeição de cada cantada é muito cruel, como é cruel para cada apaixonado ou apaixonada a sua paixão por Filippo. É crueldade extremada que Ianasi se baste e é crueldade maior para toda a turma que Filippo lhe baste.


terça-feira, 8 de outubro de 2013

Entre as frases e os silêncios

estadao

“A vida vale a pena de suas frases”: Rubengálvio Molejo de Farias. Essa frase, repetida vez em quando pelo próprio Rubengálvio, o qual Gerlúcido classifica como “o artífice e colecionador silencioso de frases”, descreve, na maníaca precisão gerlúcida, o permanente e maciço silêncio do autor do epíteto, silêncio quebrado somente para frases antológicas, suas ou de outros, porque costuma dizer que o “ontológico é antológico”.
           
Frases como o paradoxo que explica a impontualidade de Artunalpo, “se ele ainda não chegou, então vem”, ou que se aplica à opinião indecisa de todos nós, “acho que sim, penso que não”, ou a audaciosa frase para polemizar com a mania de Gerlúcido de citar estatísticas: “a ciência não é científica”.
           
A frase deve merecer ser escrita. Emerge da linguagem, do cotidiano oral, da vivência humana, e deve ser remetida de volta, em percurso ordenado reverente. Em outra frase: “a vida está a serviço da linguagem, e a linguagem a serviço da frase, e da frase escrita”. Uma vida é um amontoado de frases banais, à espera da frase escrita, menos a vida de Rubengálvio, cujo silêncio é o único útero da cuidadosa frase à espreita.
           
Quando Rubengálvio cita uma frase sua, sempre acrescenta o próprio nome de autor: Rubengálvio Molejo de Farias. Quando a frase é dos outros, o autor não precisa ser identificado, é do domínio público. Mas conhece o nome de cada autor, além do livro onde está citado, às vezes da ocasião em que foi pronunciada. Procura sempre a versão mais atualizada da origem da frase, que “a origem é o olho d’água das cataratas”, mas está sempre se atualizando.
           
Por exemplo, a famosa frase atribuída a tanta gente, “tudo na vida é passageiro, exceto motorista e cobrador”, a origem pertence, por enquanto, ao Barão de Itararé, o antológico Apparício Torelly, escrita originalmente como “tudo na vida é passageiro, exceto motorneiro e cobrador”, detalhe que transfere glória de ônibus para bonde, mas que pesquisas podem apontar para outra ou outras origens.
           
Se já está firmado, desde já, que a ciência não é científica, podemos continuar caminhando com Rubengálvio para entender que “a história é a maior das invenções científicas”. Pois, se a ciência é a fornalha dos artefatos técnicos, o maior de todos teria sido a história, “conto narrado por um idiota em fúria, sem qualquer sentido”, ou “algo que não aconteceu narrado por alguém que não estava lá”. A primeira frase pertence a Rubengálvio Molejo de Farias, as duas últimas ao domínio público, ou, se pesquisarem, a Shakespeare, e a Machado de Assis, respectivamente.
           
Colecionador e inventor, também é escultor ou ourives, procurando a frase e remodelando-a, como faz com o provérbio transformado em “para bom entendedor meia palavra bas” e o outro, antonomicamente, “quebrou dois cajados num coelho só”.
           
Pode-se perceber que se a vida deve ser vivida em frases e frases antológicas, o cotidiano de Rubengálvio é feito especialmente de silêncio, ou de silêncios, como prefere Gerlúcido. Percorre silenciosamente livros e textos, à busca incansável da frase perfeita, ou é companheiro silencioso de rodas de conversas ou de atividades corriqueiras. Mas seu silêncio não é monocórdio, é um composto de expressões, que Gerlúcio procura maniacamente classificar. Atento a nuances, capaz de identificar inúmeros tipos de silêncio, coloca a maior parte de suas expressões silenciosas no gênero da “ironia”, mas não consegue se decidir se os silêncios de Rubengálvio são irônicos, em sua imensa maioria, ou se Rubengálvio seria a própria ironia em devastador silêncio.
           
Enquanto isso, a vida, a história, a família, os amigos, vão acompanhando o seu solene e impenetrável silêncio, irônico, como garante Gerlúcido, ou não, como desexplica misteriosamente o próprio Rubengálvio, mas com a certeza de que as frases estão por aí, nos contemplando, e surgirão no momento propício, dos livros, da vida, ou bem particularmente dos lábios e labor de Rubengálvio.


quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O choro de Etenildo


Beijoca tropeçou na bola e Etenildo começou a chorar, exatamente às 16 horas e 32 minutos, de um inesquecível BaVi, na tarde de domingo de 9 de julho de 1978, segundo a precisão maníaca de Gerlúcido, responsável pela hipótese futebolística sobre o interminável choro que dura até hoje. Depois de dois anos, o diagnóstico teve de dar lugar a outras possibilidades, até porque, tendo o Bahia vencido por quatro a zero, sendo um dos gols do próprio Beijoca, sensacional tabela com Douglas, o choro não foi interrompido.
           
O tropeço de Beijoca teria prenunciado catástrofes, menos de um mês depois da seleção brasileira de Cláudio Coutinho ter sido “campeã moral”, quando todo brasileiro preferia ter sido “Campeão Imoral Mundial de Futebol”, como a Argentina que subornou a seleção peruana para se classificar para a final da Copa do Mundo. Mas o fato de Etenildo continuar chorando dois anos depois das idas e vindas do futebol não dava mais para convencer a ninguém dos argumentos cuidadosos de Gerlúcido.
           
A hipótese seguinte foi política, levantada anônima e cuidadosamente porque vivíamos uma ditadura. E o choro de Etenildo passou a ser símbolo de resistência. Desmoralizada a oposição, esmagada a luta clandestina, restaria ao cidadão comum o direito de chorar, cândida e enigmaticamente. A ditadura passou, o choro continuou e a hipótese também, embora meio empoeirada. Não caiu porque ninguém ainda percebeu a grande diferença entre democracia e ditadura. Mas, apesar dos olhares e grupos que mantém Etenildo no altar do orgulho ético e político nacional, outras explicações lutam por seu espaço.
           
Na verdade, a partir de 1985, a casa e a vida de Etenildo foram objetos de verdadeira peregrinação acadêmica de pesquisadores e cientistas dispostos a desvendar esse fenômeno, interessados em estabelecer a causa desse estranho sofrimento contínuo. Há uma verdadeira literatura à disposição, espalhada pelas universidades do mundo todo, podendo-se acompanhar até diacronicamente os aspectos do choro de Etenildo, medido, descrito, filmado e interpretado por especialistas diversos durante muito tempo. Explicações fisiológicas, psicológicas, sociológicas e existenciais estão erigidas e fundamentadas pela cuidadosa investigação exigida pelo setor.
           
Paralelamente à investigação científica, a romaria de todo tipo de religioso, bizarro ou não, espalhava vaticínios sobre fim do mundo, admoestações morais e tentava transformar Etenildo em santo, médium ou vidente, de acordo com o interesse da agremiação.
           
Cerca de dez anos depois, a humanidade deixou de se interessar por Etenildo que pôde, a partir daí, viver o seu choro continuado, incorporado ao patrimônio da vida comum, sem a necessidade de ser exótico nem de prestar contas a qualquer setor ou hipótese sobre o seu singular modo de ser. Como cidadão comum sempre trabalhou, foi e vai ao cinema, casou, tem filhos e sua mulher diz que chora dormindo e até quando faz amor (garante que muito bem), o que lhe deixa particularmente excitada. Segundo Gerlúcido, o último pesquisador chamava-se Charles Edwin, era canadense e deixou a casa de Etenildo, às duas horas e quatorze minutos da tarde de 05 de fevereiro de 1996.
           
Desse azáfama científico restou a inconclusão característica das grandes pesquisas. O choro de Etenildo pode ser o resultado de um distúrbio orgânico, de natureza glandular, da dificuldade de sintetizar a serotonina, ou ter outra explicação, ou não apresentar nenhum motivo orgânico. Também, pode ser o resultado do embate social que se trava entre polaridades diversas, sendo ele uma espécie de receptor social de conflitos. Mas também pode não ser. Significaria a materialização da angústia fundamental da natureza humana ou o tardio sentimento de culpa pela resolução do complexo de Édipo ou a captação mediúnica do sofrimento das vítimas de Hiroshima ou nada disso.
           
Etenildo continua chorando o seu choro nasalado ou aberto, soluçante ou contínuo, alto ou baixinho, choro sem consoantes, que a grande dor sempre prescinde delas. De que padeciam os humanos quando inventaram as vogais? Não fala nada, somente chora; quando provocado ao riso, consegue apenas um esgar, arremedo de sorriso em meio ao seu gemido descontrolado. Todos esperam que pare de chorar um dia e Gerlúcido estará atento para cronometrar o acontecido. Muitos dizem que somente a morte interromperá o seu choro, mas outros garantem que continuaremos a ouvir o seu choro, durante e depois do funeral.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Cremiro e os papéis.


ivoaffonso


Um dia antes de sua aposentadoria, Cremiro começou a rasgar papéis. Funcionário de quase trinta e cinco anos exemplares, ninguém até hoje sabe dizer porque ali, porque somente ali ou porque justamente ali fez o que fez. Acostumado a se esconder em sua escrivaninha atrás de uma pilha de papéis que destrinchava, arrumava, anotava, arquivava, devolvia, encaminhava, folha por folha, resolveu resolver de outro modo a questão cotidiana de sua pilha de documentos, e começou a rasgá-los um por um, com a treinada eficiência.
            
Não chegou mais cedo nem mais tarde nesse dia, que pontualidade e manchas de sol agarram-se à nossa pele com a força de um sanguessunga. Prêmios por cumprir horários tinha muitos, acompanhados de outros por cumprir requisitos específicos do bom funcionamento de um bom funcionário. 

Porque Cremiro, e todo o mundo com ele, sabia que era bom funcionário, daqueles que fazem funcionar o sistema tão bem que, em época de greves, o próprio comando sindical entrava em acordo com Cremiro para que este trabalhasse. Por via das dúvidas, a sua carreira de trabalhador poderia ser útil para os trabalhadores e não valia a pena arriscar. Porque Cremiro era, ao mesmo tempo, o mais fiel dos funcionários e o mais crítico do sistema, inclusive do sistema financeiro ao qual servia.
            
Funcionário que funcionava e bancário que podia botar banca mas não botava, Cremiro era figura humana e querida, quanto mais querido mais humano e quanto mais humano mais querido. Respeitado, os seus superiores o tratavam com distinção, e respeitador, tratava os subordinados com afeto bem-humorado. Em outras palavras, não havia em Cremiro nenhum traço, nenhuma mania estranha (se é que não é estranho ser tão perfeito) que desse qualquer motivo a qualquer pessoa para suspeitar do que aconteceria naquele fatídico dia e que começara exatamente às oito horas e dez minutos da manhã e somente começou a ser notado às onze e vinte do mesmo. Quem marcou tão precisamente o tempo? Gerlúcido, claro.
            
Nos fins de semana, quando não trabalhava tão perfeitamente o que Cremiro fazia? Nada, igual a todo trabalhador. Cerveja e futebol com a turma, passeio e cinema com a família, de convivência agradável, não falava demais nem de menos, o suficiente para garantir um bom círculo de amizades, com um repertório não exagerado das mesmas piadas ao qual acrescentava algumas novas, de muito vez em quando. Portanto, a perfeita rotina de um perfeito espião, mas sem os súbitos desaparecimentos e as curtas viagens dos tais.
            
Leituras? Esportes e filosofia. Talvez o único traço estranho de sua previsível personalidade. Mas, sejamos honestos, torcer pelo Náutico e gostar de Nietzsche é indício suficiente para qualquer tipo de suspeita? O dia era quinta-feira e não tinha havido nenhum jogo na véspera e, pelo que saiba, as pessoas não começam a rasgar documentos depois da leitura da Origem da Tragédia ou talvez porque não sabem onde se encontra em sua biblioteca seu preferido Assim Falava Zarathustra.
            
Foi o gerente quem descobriu que uma catástrofe sem precedentes na história bancária do país estava a caminho. Estranhando porque não havia recebido ainda alguns relatórios costumeiros, se encaminhou à sala onde Cremiro trabalhava, viu pelo vidro da porta a pilha que o escondia, entrou para perguntar sobre os relatórios e deparou-se, com um dos sorrisos mais abertos de Cremiro, com um surpreendente revólver que apontava para si e com um gesto silencioso que o convidava a sentar. 

Porque Cremiro não proferiu nenhuma palavra naquele dia, nem tentou se explicar ou avisar ou advertir ou pronunciar qualquer coisa. Por incrível que possa parecer, desde aquele dia e já se passaram dez anos do ocorrido, Cremiro não articula qualquer palavra e nenhum psiquiatra consultado quis se arriscar a pronunciá-lo doente.
            
Os sucessos posteriores são razoavelmente convergentes e vêm de diferentes testemunhos. Exageros e boatos são naturais, como os que afirmavam que Cremiro comia papéis – e babando alucinadamente, diziam – ou os de que esfregava os papéis descontroladamente no rosto do gerente, e outros dos gêneros. Os relatos mais confiáveis, se é que existem, garantem, porém, um ambiente tranqüilo em torno de Cremiro, e uma atividade contínua e equilibrada do mesmo, apenas rasgando papéis, cada um deles, um por um.
            
A polícia chegou por volta das três da tarde, acompanhada da televisão. A sala de Cremiro já tinha mais três colegas de trabalho, um cliente, e Cremiro permitiu que um câmera, a partir de então, televisionasse os acontecimentos, o que não significa muita coisa. Podemos assistir a exposição de imagens de cinco pessoas tensas sentadas em torno da mesa, um revólver ao alcance da mão de Cremiro, e a monótona atividade repetitiva de se rasgar papéis.
            
Ao silêncio de Cremiro, a polícia opôs todo o tipo de barulho. Cirenes na chegada, palavras gritadas em megafone, ameaças e promessas, alguns poucos impropérios e até disparos de balas (de festim, garantiram depois), inutilmente. Exatamente às cinco horas da tarde, rasgado o último dos documentos, Cremiro levantou-se, entregou a arma ao perplexo gerente, espreguiçou-se demoradamente e se sentou pacientemente à espera. Com a arma não convidada na mão, o gerente demorou a se decidir, mas, sem tirar os olhos atônitos do seu funcionário, deu instruções à sua secretária, ali envolvida, de como proceder.
            
Cremiro foi preso em flagrante e algemado e desde então jamais saiu da prisão, rejeitados todos habeas corpus requeridos por seus muitos advogados. Aqui as opiniões se dividem. Uns dizem que Cremiro não previra as conseqüências de seus atos, outros garantem que ele sabia exatamente o que lhe iria acontecer e outros afirmam que mesmo que soubesse ele faria tudo de novo. O fato é que, decorridos dez anos do acontecido, Cremiro já foi condenado a 325 anos de prisão e ainda não respondeu a todos os processos que tramitam contra os seus atos. 

Foi enquadrado em numerosos crimes, incluindo o costumeiro e estranho “formação de quadrilha” já que não encontraram ainda os seus companheiros nesse atentado, evidentemente ligado ao terrorismo internacional. Um dos seus crimes principais, destruição de patrimônio simbólico, foi considerado hediondo e inafiançável, convocado urgentemente o Congresso para alterar a Constituição para que nela coubesse tal crime e tais penas.
            
Decorridos dez anos, foram liberadas as primeiras visitas e Gerlúcido encontrou Cremiro meio abatido e um pouco alquebrado, sem nenhum sinal da antiga vitalidade que todos admiravam. Muitos jovens acompanharam com protestos a sua contínua condenação e fizeram dele o herói incontestável do próximo novo mundo de plantão. A turma comprou algumas camisetas com a foto de Cremiro e Gerlúcido foi vestido com uma delas ao presídio. As teorias sobre os seus motivos, as narrativas sobre a sua bravura memorável, a sua luta, que um jornalista inspirado denominou de quase não-violenta, tem tido uma repercussão de diversos tipos. Mas o silêncio de Cremiro é inquebrantável, apesar do quebrantamento de suas feições.
       
Quando Gerlúcido perguntou a Cremiro por que e se valeu a pena, o seu silêncio transformou-se em um sorriso aberto, puro, enigmático e interminável.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Gerlúcido e a mania do PROCON


osmais
  
Gerlúcido começou a mania do PROCON depois de começar a mania do pôr-do-sol. Porque, além da mania da precisão, Gerlúcido tinha a mania da mania e de vez em quando começava uma nova. Colecionou, maníaca e precisamente, 3273 pôr-do-sol, coleção que continua. E ninguém pergunte se coleciona pôr-do-sol ou os documentos relativos, nem pergunte se coleciona pores-do-sol. Gerlúcido olhará firmemente em seus olhos e sem inflexão na voz lhe explicará detalhes gramaticais e a diferença entre gramática e lingüística e lhe encherá de exemplos e concluirá que a experiência do pôr-do-sol não pode se resumir aos documentos. Portanto, coleciona pôr ou pores do sol, na pluralidade possível da língua e na totalidade indivisível de sua existência.

Iniciou sua nova mania quando, comparando desconfiado os documentos sobre o pôr-do-sol 381 e o 3018, confirmou o que a sua impressão desconfortável sugerira: estivera realmente diante do mesmo pôr-do-sol repetido. Pensou, meditou, reuniu documentos comprobatórios e denunciou Deus ao PROCON, causando previsível tumulto. Quando finalmente foi levado a sério, iniciou-se o arrastado processo que segue os seus caminhos, com desfecho ainda imprevisível.

Perseguindo esse desfecho, Gerlúcido aciona a sua mania da argumentação que junto à mania da paciência sempre consegue resultados admiráveis. Ninguém lembra de ter visto Gerlúcido irritado, fora de seu controle, ou com sua voz acima dos convenientes decibéis da discussão polida. Mas ele repete persistentemente que determinada vez, em discussão com “arrogantes doutores”, se irritara “desmesuradamente” e respondera de modo “excessivamente ofensivo” aos seus interlocutores.
            
Sua irritação “desmesurada” (nunca descontrolada, explica, mas sem “parâmetros de medição”) gerara a seguinte “furiosa” resposta “excessivamente ofensiva”:
            
– “O patamar epistemológico-ilustrativo de vossa argumentação não alcança o primeiro degrau do meu Empire-State.” – E saiu sobranceiramente.
            
Realmente, a coleção substanciosa de provas documentais, deixou o povo do prestimoso órgão alucinado, tendo sido rebatida qualquer dúvida pelo detalhismo e persistência argumentativa de Gerlúcido. E se a primeira questão era o contato com o réu, Gerlúcido trazia algumas sugestões, a mais aceita, a interlocução com os seus representantes, aqueles que costumavam falar em Seu nome. Da cuidadosa lista inicial de 325.667 pessoas que Gerlúcido apresentara, sobraram 37 representantes principais, redução sugerida pelo PROCON e aceita pelo requerente. O que continua em discussão é o requerimento inicial da reparação. Gerlúcido persiste em solicitar dez por cento dos direitos autorais sobre o livro escrito por Deus, o que em linguagem cristã, soa quase como blasfêmia. Gerlúcido insiste em que Deus lhe dê o dízimo.
            
O processo contra Deus corre pelos trâmites cabíveis, mas Gerlúcido pegou a mania e já iniciou outros 29 processos, nesses últimos cinqüenta dias. Colocou os seus pais, o presidente Lula, Chico Buarque de Holanda, seu anjo da guarda, Ronaldinho Gaúcho, o Programa do Jô, Bin Laden, sua professora primária, George Bush, Barack Obama, o governo da Groelândia e outros. O mais recente processo, cansado das filas diárias, das interlocuções intermináveis, do peso do ônus da prova, como mostra das suas precisas e preciosas iluminações, colocou o PROCON no PROCON.

sábado, 2 de outubro de 2010

Quando as flores se encontram

Maria das Flores gostava de se apresentar e gostava de brincar e se apresentava com a flor que queria: – “Prazer... Maria Açucena – porque sendo das flores seria de todas e poderia escolher a flor da vez: - “Prazer... Maria Miosótis – conhecedora de flores por destino de nome e por pulsão de brincar sempre, especialmente com o coração dos homens, em legítima defesa, dizia às gargalhadas.

Algumas brincadeiras foram consideradas de mau gosto, mas perdoadas, coisas de beleza de mulher que faz feridas cicatrizar e feridos perdoar mais fácil. Já beijara a boca de toda a turma, mesmo arriscando a desarrumar sentimentos ou causar ciúmes, distribuindo mal-estares masculinos e femininos, mal ou bem desmanchados por sorrisos brejeiros e encantadores, mas sem nenhuma sombra de desculpas. – “Pesquisa de hálitos, – comentava irreverente – consultoria para creme dental”.

O pessoal se acostumou e a presença e participação de Das Flores nas rodas de conversa acrescentava coloridos hilariantes inesperados, frutos de uma irreverência descontrolada, a serviço de nada ou de ninguém, alegria pela alegria, criatividade desvinculada de ideologia ou de moral. Maria das Flores era a própria personificação da alegria autônoma, escrachada, politicamente incorreta, obrigando a vida a sorrir da vida e o sofrimento a gargalhar de dor.

Suas flores viviam marcando encontros românticos em lugares como jardins, beira-mar, cinemas e motéis, somente para, observando de longe os apaixonados, ficar arreliando depois, descrevendo trejeitos e suspiros, deleite de ouvintes e desconsolo da vítima, às vezes presente.

Foi quando João apareceu que a vida é assim: os joãos comparecem, sem ser chamados, irreverendo a irreverência e desequilibrando o desequilíbrio.

– “Prazer... Maria Orquídea.”

– “Prazer... João Crisântemo.” Porque se chamando João das Flores, podia escolher a flor para cada ocasião.

Um instante de silêncio, gargalhada uníssona e o rubor e desconcerto de Maria das Flores que sabendo de si desconfiou do outro. É não é, nome certo nome errado, brincadeira verdade, discussão que não se termina, mas Gerlúcido sabia que semblante desconcertado e ruborizado era caminho inevitável para o passeio da paixão.

Na sua mania de investigador, descobriu que João das Flores era nome próprio registrado em cartório, mas nome mudado. Antes era Belarmino da Fonseca, mas depois de marcar encontro com Maria das Flores e receber logro e caçoadas, estabeleceu um longo, complicado, mas eficiente projeto de conquista da nunca conquistada Maria de tantas flores. O primeiro passo fora dado e Gerlúcido, prometendo segredo, prometeu ajudar, o que faz com indisfarçável prazer.

Bem, a coisa toda está em andamento, e o namoro, se é que se pode chamar de namoro esse incêndio amazônico alimentado pelo oxigênio da própria respiração, vai adiantado.

A ironia de tudo isso é que o projeto de João das Flores, antigo Belarmino, era projeto de vingança, mas tão adiada que pode morrer de velha e um dia desses Gerlúcido e a turma pode se encontrar em uma igreja qualquer para assistir ao casamento de João do Cravo e Maria da Rosa, celebrado por padre ou pastor falando sobre jardins de amor e pronunciando alguma adequada bênção, tal como: “Até que as pragas os separem...”.