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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

NA GALÁXIA DE GUTEMBERG

NA GALÁXIA DE GUTEMBERG

Marcos Monteiro

Desde a invenção da imprensa, os tipos móveis aumentaram a nossa capacidade de comunicação, diminuíram a necessidade de locomoção e a vida passou a ser escrita. Somos personagens de livros que não sabemos quem é o autor e literatura é um tipo de escrita que se resolve por si. Quando um texto nos escreve, permite a ilusão de que somos autores e nos guia em uma busca por nós mesmos. Conhecemos bem o último capítulo do nosso livro e a morte nos dirá se vivemos em comédia ou em tragédia. Talvez alguém imagine que leu o nosso livro e faça discursos sobre o que desconhece, em nome de uma familiaridade, por não saber que proximidade é antônimo de conhecimento.

 A história do Brasil tem sido escrita e reescrita e a última revisão é uma comédia cujo final tem chances de não ser trágico porque os redatores econômicos, políticos e religiosos estão tentando multiplicar textos que façam a história retomar caminhos mais saudáveis.

 A idade da terra chamada Brasil se perde nas cavernas da pré-história. Mas a história começa com a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei Dom Manuel. O Tratado de Tordesilhas, mediado pelo papa, é um documento que legitima a posse de metade do mundo desconhecido para Portugal. A outra metade pertence à Espanha. Talvez possamos considerar essa a primeira grilagem da história, disfarçada nos livros, a primeira utilização da invenção de Gutemberg em larga escala. Na pré-história do Brasil, a terra pertencia a sociedades tribais, com espécimes de hábitos estranhos, como tomar banho todos os dias, andarem nus e viverem de comidas não industrializadas. Suas guerras matavam menos do que as guerras europeias e suas armas eram tão antigas que demonstravam a ignorância de seus guerreiros. Viviam da caça e da pesca e em nenhuma de suas muitas línguas existia a expressão idiomática “desequilíbrio ecológico”. Demonstravam respeito excessivo para os seus anciãos e até os antepassados participavam de seu convívio, Os que haviam passado para o outro lado davam sugestões nas reuniões do conselho, recebiam o alimento diário com gratidão e sugeriam estratégias de combates a invasores. Os portugueses vieram trazer a civilização para que a barbárie fosse erradicada e trouxeram colonos para ensinar os nativos, pelo exemplo ou pela força,  a vestirem roupas, a atualizarem o cardápio e principalmente a simplificar a religião. Diante da abundância de deuses tribais, o cristianismo era uma religião de um deus só: O Pai, o Filho, o Espírito Santo, a Virgem Maria e o santo de cada dia, capazes de curar todo tipo de doença e de garantir um lugar no purgatório, porque o céu estava todo ocupado com os habitantes de além-mar. Para escapar do inferno bastava se batizar, assistir missa, confessar pecado e pagar a penitência prescrita.

 A carta de Pero Vaz de Caminha pode ser considerada o documento que inaugura o programa de colonização, o qual ainda não conseguiu ser aplicado totalmente, escrito em estilo elegante, com os elogios de praxe a El-Rei e com o pedido de emprego para um amigo. Talvez isso explique porque o programa de colonização ainda se arrasta. Todo mundo sabe que os amigos são ótimos para garantir que as coisas não aconteçam. Os colonizadores transformaram Pindorama em um novo mundo, trazendo para a nova Terra de Santa Cruz roupa, queijo, gripe e gonorreia. Cartas e bilhetes ainda são os documentos mais importantes nessa terra em que se plantando tudo dá. Mais importantes do que livros. Os dois principais livros dos novos tempos, a Bíblia e a Constituição, de vez em quando são rasgados por bilhetes imperativos ou por cartas amigáveis.

Não é a primeira vez que experimentamos tempos difíceis, mas temos de admitir que a tentativa de rasgar Bíblia e Constituição tem ganhado muita força nesse novo milênio. A democracia burguesa e liberal, com todas as suas contradições, pode ser vista nesses momentos como uma das importações inevitáveis. Nunca tivemos muito tempo de experimentar qualquer tipo de democracia, mas depois de tanto tumulto governamental, a maioria do nosso povo aceita uma democracia liberal insuficiente, mesmo que nossas instituições sejam fracas. A frente ampla que reúne dinossauros e monstros marinhos é o abrigo de uma esperança que tenta saltitar em um terreno cheio de armadilhas. Nesse espaço, os discursos que defendem os procedimentos judiciais, as negociações e o respeito à nossa carta magna fortalecem a resistência. No espaço evangélico, a tentativa de se rasgar a Bíblia tem sido feita até com versículos bíblicos, mas muitos estamos resistindo. Libertar a Bíblia de uma hermenêutica inconsequente e de um uso antidemocrático é tarefa nossa.

Recife, 06 de fevereiro de 2023. 

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Nosso pó estelar de cada dia na Era do Coronavírus

medium
Marcos Monteiro

Ele veio novamente, o pó, e com a insistência de sempre ocupou os lugares de onde o expulsei ontem, munido de pá e vassoura. Discretamente, em todos os lugares impossíveis, alojou-se novamente com aquele risinho irônico que qualquer pó carrega. E recomecei a atividade diária de expulsar um resíduo irredutível que virá novamente amanhã, ritual mútuo que dá algum sentido à nossa relação.

O que imagina o pó inútil quando o terror da vassoura desce sobre si? Havia um soldado pago por Alexandre, o Grande, para todo dia repetir solenemente diante do poder: “Lembra-te, ó Alexandre, que és pó e ao pó retornarás”. O que imaginava o soldado quando a ordem do imperador descia sobre a sua vida e lhe dava a tarefa inútil de lembrar a inutilidade da grandeza humana?

A missão de Alexandre era conquistar o mundo, e ninguém sabe quem lhe deu essa ridícula missão. A missão do soldado era obedecer ordens ridículas e a missão do pó é rir do ridículo de todas e todos nós. Ornamentados com vestes imperiais, calçados de coturnos ou mal cobertos de andrajos, somos todos ridículos, caricaturas dos humanos que mais desprezamos. Então, seremos sempre mais saudáveis quando aprendermos com Sócrates a rir de nós mesmos. Quando em suas peças cômicas, Aristófanes ridicularizava Sócrates, considerado pelo oráculo o mais sábio de todos os humanos, este era o expectador que mais ria, porque ser sábio é aprender a rir de si mesmo.

Ser humano é assumir o pó que somos, em diferentes caminhos existenciais, em diversos momentos estruturais, mas há também um lado luminoso de nossa polvilhidade.

Somos do mesmo pó das estrelas, teimosos pozinhos cósmicos, obstinados em brilhar no compasso do sol ou no ritmo dos astros. Quando a arrogância das vassouras e a truculência dos coturnos políticos, econômicos, jurídicos e religiosos, querem nos reduzir a pó, sem terra, sem teto, sem prazer e sem direitos, resistimos e insistimos em ocupar todos os espaços, pela lógica do pó estelar.

Foi instalada a Era do Coronavírus e estamos na Idade do Bolsonauro. Micro e macrorganismos se dedicam a pulverizar nossa saúde, mas resistiremos; a degradar os nossos salários, mas os enfrentaremos; a fragmentar a nossa existência, mas lutaremos. Quando essa Idade passar e outra Era chegar, teremos finalmente a oportunidade de perceber que quanto mais pó eles tentaram produzir, mais aprendemos a resplandecer, como pó primordial, partículas do Universo.

Recife, 18 de maio de 2020

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Os sete pecados na Era do Coronavírus


Marcos Monteiro

No meu mosteiro compulsório, na Era do Coronavírus, na Idade do Bolsonáurio, a única regra sobre os pecados é cometê-los, e eu começo invejando. Muitos amigos e amigas, em suas próprias celas, têm mais luxúria do que posso, mas faço um esforço, mesmo admitindo que luxúria imaginada nunca será a mesma. Então, eu misturo os pecados e saboreio gulosamente uma manga, bem devagarinho, sentindo as nuances e texturas palatáveis, deixando o prazer escorrer pelas lembranças.

A gula é um dos meus pecados favoritos, embora sob receita médica e controle nutricionista; e eu vou saboreando, a prestações, o meu amendoim torrado e o feijão com arroz de cada dia, com tempero de filha. Às vezes, por puro exibicionismo, tiro uma foto e envio seletivamente, com requintes de crueldade, admito. Mas também degusto textos, vídeos, filmes, imagens, e, até sonhando, devoro alimentos exóticos. Essa noite, sonhei com parlamentares ao forno e pronunciamentos executivos ao molho pardo. Acordei com uma bruta indigestão.

Confesso que confessar é estratégia de pura ostentação, tipo campeonato de cicatrizes e narrativas de fragilidades, em que as vítimas perdedoras esperam os aplausos. Então, vou acumulando a minha ira, para saber se despejo em quem recebe ou em quem não investiga facadas, aguardando as supremas decisões sobre se estamos ou não em estado de sítio, em Atibaia. Interrompo a raiva do sistema econômico e das redes de desinformação, somente para me espreguiçar numa rede de pano e me desinteressar até do meu desinteresse, e abrir espaço virtual para piadas de primas, primos, irmãos e irmãs, sobrinhos e sobrinhas, os melhores humoristas do planeta (dos quais me orgulho), sendo o meu irmão caçula o melhor de todos, um cearense que nasceu em Sergipe.

Com tantos amigos e amores acumulados, vaidade é um pecado que não tenho direito de não cometer, até porque os vídeos com as acrobacias do melhor neto do mundo, são enviadas por meu filho, os quais moram em Feira de Santana. Morei muito tempo nessa cidade baiana, o suficiente para garantir que muitos melhores do mundo em alguma coisa estão ou estiveram por lá. Balançando na rede novamente, saboreio as poesias do meu filho e curto as fotos de suas pizzas, com água na boca; como vocês já desconfiam, do melhor poeta e pizzaiolo do planeta.

Fico pensando que o contrário da vaidade é a avareza; guardo segredos e ternuras, no fundo do baú, as quais não pretendo dividir nem por testamento. Tranquei lembranças e escondi palavras em túneis, sobre as quais me debruço solitário, proprietário único, olhando de soslaio possíveis predadores. E lembro, como era difícil, quando criança, dividir doces e guloseimas. Mamãe teve que me ensinar a partilhar, e eu já perdoei. Na nossa casa, toda a minha família sabe, eu comia metade do cuscuz com leite de cada manhã. A outra metade, os outros e outras dividiam. Mas eu ficava um pouco triste. Foi quando no meu aniversário, mamãe me permitiu, como presente, comer o cuscuz sozinho. Sou muito grato, e acumulo as lembranças de todos os cuscuz que já comi. A imagem de um cuscuz tornou-se símbolo de meus pecados prediletos. E confesso que, se eu tivesse um cofre, o protegeria com uma combinação bem complexa, e guardava lá dentro, longe de acessos indiscretos, cuscuz, leite e ovos.

Recife, 07 de maio de 2017

sábado, 25 de abril de 2020

O tempo e os tempos na Era do Coronavírus

lucia cantinho

Marcos Monteiro

Na medida em que meu espaço diminui, o meu tempo aumenta, um dos fenômenos da Era do Coronavírus. Administrar a histórica questão dos excedentes, passa a ser desafio de investimento, e invisto o tempo a mais para mais refletir, inclusive sobre o próprio tempo, estabelecendo hipóteses e suposições. Sobre a antiga questão filosófica, se o tempo é contínuo ou discreto, o meu tempo atual é descontínuo e indiscreto, oscilações e curiosidades novas, que ajudam a delimitar este momento atual.

Tenho estado me perguntando quem primeiro inventou de fatiar o tempo, imaginando que ele já foi pura fruição, sem relógios, cronômetros e agendas. Dividido em pedaços cada vez menores, muitas vezes resiste, se estendendo sem limites, e o rápido sorriso de meu neto Heitor tem a duração de seis infinitos. Reverente, diante da imagem enviada por Laís pelo whatsapp, consigo entender Kerkegaard, quando diz que “o instante é um átomo de eternidade”.

Mas estamos em um novo tempo, que gosto de chamar de Era do Coronavírus, fatia ainda sem definição de durabilidade, característica das eras: não sabemos quando começam nem quando terminam. Em algum momento, na Idade Média, alguém percebeu que estávamos na Era Cristã, e já havia mais de quinhentos anos. O povo medieval nunca soube em que tempo estava, porque sua época só foi batizada como Idade Média, muito depois que acabou, pelos historiadores da Idade Contemporânea. Idades, podemos perceber, são pedaços de tempo menores do que Eras, espalhados dentro delas.

Nesse espaço reduzido para ampliação do meu tempo, as perguntas que chegam não têm fáceis soluções. Qual a duração de uma angústia? ou de um susto? Quantas alegrias cabem no tempo da tristeza? ou o contrário? Quanto tempo dura na minha pele um abraço tímido da minha filha? São algumas das descontinuidades, oscilações e incertezas do meu tempo; mas algumas certezas prevalecem. Imagens, frases, contatos, lembranças, nomes próprios, têm a liberdade de caminhar, no seu ritmo e do seu jeito, pelos ritmos e jeitos do meu tempo. Trazem densidades, e as certezas de que o amor é uma duração que não acaba e a saudade um tempo que não sabe ser fatiado, nunca.

Admito que foi um apressamento atrevido nomear esses novos tempos como a Era do Coronavírus. Mas, pode ser que pesquisadores futuros se debrucem sobre o antes e depois dos acontecimentos atuais e acumulem comparações detalhadas sobre esse novíssimo a.C e d.C, desde que todas e todos admitimos que jamais a vida será como antes. Se muitos e muitas já anunciavam a proximidade de um novo tempo, uma mudança drástica e radical de natureza cósmica e planetária, talvez não devesse ser surpresa que essa virada tenha causa virótica. Os vírus e bactérias vêm se espalhando pela nossa humanidade, de forma violenta, inclusive em sua cepa digital.

Ontem assisti a um filme e depois a uma cena na televisão. No filme, “A origem”, o herói, protagonizado por Leonardo DiCáprio, propõe que uma ideia é mais violenta e contagiosa do que vírus e bactérias. Na cena televisada, o presidente do Brasil faz um pronunciamento, cercado de ministros, todos com aspecto de doentes. Tenho alertado sobre a epidemia de “bolsonarite crucis” que assola o país, causada por uma bactéria disforme, com sintomas ainda em observação. Todos os ministros apresentavam sintomas de infecção avançada: sudorese, faces pálidas e confusão mental, com uma cara de “o que estou fazendo aqui?”, como tentou definir minha filha. A doença é grave e tem natureza ideológica. Fiquei pensando que na Era do Coronavírus, talvez estejamos na Idade do Bolsonaurus, e o meu desejo é de que essa Era não se prolongue muito e essa Idade acabe hoje.

Recife, 25 de abril de 2020.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Minha primeira faxina na Era do Coronavirus

canal.blog
MINHA PRIMERA FAXINA

Marcos Monteiro

No meu retiro no Recife, entre prisão domiciliar e mosteiro involuntário, na minha pequena cela no apartamento de minha filha, fiz a minha primeira faxina do primeiro ano da Era do Coronavírus e lembrei de Tia Vasthy.

Toda prisão é justa, porque somos todas e todos pecadores diante de Deus e transgressores diante da lei, mesmo se conseguir provar que o apartamento não é meu. Mas monasticismo compulsório é desafio grande demais, embora pobreza, obediência e castidade não sejam tanto uma escolha na minha idade.

Caminhando para os setenta, pertenço por decreto à área de risco, ainda mais depois de ter sofrido um infarto. Meu corpo é ameaçado internamente pela deficiência do sistema circulatório e externamente pela complexidade louca do sistema de locomoção da grande cidade, veias e artérias sem coração. Mas, apesar do corpo e da idade, me senti feliz como um adolescente, porque a primeira faxina a gente nunca esquece.

Quando viemos morar no Recife, na Era da Ditadura que, embora meu tio poeta tenha sido torturado, nunca existiu, fomos acolhidos no apartamento de Tia Vasthy e fui incumbido de lavar o banheiro com perfeição supervisionada. Tia Vasthy não era militar, tinha a patente de professora, e todos os seus alunos aprenderam obedientemente a ler, escrever e geografar. Então, de dia eu lavava o banheiro e de noite, assistia à novela "O Sheik de Agadir", minha tia escondendo a emoção junto com algum segredo romântico.

No mosteiro obrigatório, ler, escrever e amar, serão as regras da minha ordem particular, e assistir a filmes e jogar virtualmente, nos entretempos. Um pouco antes do decreto de internamento universal, fiz uma viagem de doze horas de ônibus para Petrolina, voltei hora e meia de avião, tomei dois ônibus e dois metrôs para chegar em casa. Conferi pessoalmente a logística de contaminação da cidade grande e o desafio será tornar o contágio do amor e do humor mais veloz que a doença. Nossa família sempre achou que solidariedade e sorrisos eram contagiantes mas não temos certeza de que saberemos enfrentar vírus com gargalhadas.

Recentemente, fomos todos atingidos por uma violenta epidemia. Digo, todos os cidadãos brasileiros, eleitores ou não do mesmo, estamos sofrendo de “bolsonarite crucis”, provocada por uma bactéria disforme, e ainda não conhecemos todas as sequelas. Danos permanentes à saúde, atingindo fortemente os idosos e os mais pobres, depressão e pane no sistema nervoso central em muitos casos, esse microrganismo baixou fortemente a imunidade da população, porta aberta para enfermidades de diversos teores, com mais óbitos do que podemos imaginar. Pouco a pouco, estamos criando resistência, mas precisamos com urgência da cura, contra a infecção e contra a virose.

Recife, 23 de março de 2020. 

sábado, 30 de março de 2019

PERGUNTAS PARA BEM COMEMORAR

blogdopaulinho


Marcos Monteiro

Com quantos paus se faz uma jangada, e um pau de arara?

Quantos litros de sangue são necessários para uma transfusão, e para um golpe militar?

Qual o tempo de gestação para parir uma criança, e para espetá-la com uma baioneta?

Quanto tempo gasta uma manicure para adornar unhas, e quanto um soldado para arrancá-las?

A eletricidade foi inventada para acender lâmpadas, ou testículos dissidentes?

Para buscar a verdade é preciso abrir um livro, ou sangrar um corpo?

Que tipo de verdade se esconde debaixo das unhas e nos ventres das grávidas?

Quais as cantigas adequadas para enfrentar a opressão, e quais os gemidos?

Qual a diferença entre a súbita gargalhada de alegria, e a do sádico inquiridor?

E entre o orgasmo dos apaixonados, e o êxtase do estupro?

Quantos necessitam de desaparecer para que a tirania apareça?

Quantos Guernicas ainda serão pintados para afrontar sorrisos fotográficos?

Alguém lembrou de guardar lágrimas de exilados, em uma garrafa de Coca-Cola?

Foi um tempo em que muitas sementes estranhas foram lançadas e precisamos mesmo comemorar a colheita de agora?

Melhor fazer as exéquias na celebração e resolver o dilema:
Quem ressuscitou? Cristo ou Nero?


terça-feira, 19 de março de 2019

PARA QUE NÃO SE REPITA


PARA QUE NÃO SE REPITA

Marcos Monteiro

O massacre de Suzano é infelizmente mais um momento da nossa história brasileira de horror, mais uma repetição de Auschwitz,com as peculiaridades de cada vez. Desencadeou uma onda de sofrimento e indignação que não consegue desmanchar,  re-estabelece correlações entre educação e barbárie e nos leva à consternação de que o processo educacional não conseguiu até agora construir uma democracia consistente.

O campo de concentração Auschwitz, na Alemanha, foi um efeito colateral do nazismo, o qual se tornou na nossa história ocidental a parábola central perversa da capacidade de perversão da humanidade. Então, os acontecimentos de Suzano nos trazem a frase de Adorno “para a educação, a exigência que Auschwitz não se repita é primordial” (ADORNO. Theodor W. Sociologia. São Paulo:  Ática,  1994, p. 33).

Mas Auschwitz se repetiu e ainda se repetirá em micros e macros espaços. Podemos dizer que Theodor Adorno desenvolve a teoria crítica da sociedade.  Chocado com o nazismo, se torna um observador dos processos que geram a civilização, um crítico repetitivo da sociedade capitalista, atendo-se primeiro às micro construções, aos pequenos gestos, carregados de significado e de momentos emblemáticos.

Antes e durante os campos de extermínio, a sociedade alemã fora ocupada pelo gesto do braço levantado, em submissão absoluta ao líder e à sua sanha delirante de poder. Aqui, o gesto de uma mão que imita arma de fogo se tornou símbolo irracional de campanha presidencial e Suzano se transformou no prolongamento do gesto, concretização do símbolo violento, sangue inocente derramado que questiona a inocência dos gestos.

Depois do nazismo, a educação autoritária entrou em colapso e a proposta de uma formação que gerasse um espaço de autonomia, de reflexão crítica, que estabelecesse um suspiro entre a ordem de comando e a obediência cega, entre os gestos e as atitudes, entre os signos e os reflexos delirantes, começou a tomar forma. Não é à toa que a Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire se torna um nome para a Pedagogia da Autonomia, defendendo um processo de conscientização participativa, longe da sloganização e dos signos massificadores.

Por isso, esse combate obsessivo em terras brasileiras a Paulo Freire torna-se sintoma preocupante, acompanhado de outras instâncias em que o autoritarismo, o moralismo, o dogmatismo, se estabelecem enquanto caminhos de solidificação de um sistema gerador de desigualdades, facilitador de violências. Mais uma vez é o capitalismo que se encontra em cheque, contradições insustentáveis encobertas por uma espetacularização da sociedade e do ser humano.

Qualquer análise mais acurada nos mostra que a pedagogia de Paulo Freire nunca se estabeleceu em sua potencialidade crítica na educação brasileira. A autonomia, o processo de passagem de uma situação de paciente a agente social, não interessa à sociedade em que as hierarquias se multiplicam e o autômato é muito mais eficiente à sua manutenção.

Então, o momento vivido atualmente e nos anos recentes de nossa política eleitoral, precisa continuar sendo refletido em suas semelhanças e diferenças com outros. Precisamos insistir na reflexão sobre o nosso sistema educativo para que Eldorado não se repita, para que Carandiru não se repita, para que Candelária não se repita, para que Auschwitz não se repita, para que Suzano nunca se repita.

Recife, 19 de março de 2019.



domingo, 3 de março de 2019

NETO, MORTE E JUSTIÇA: LULA, ARTUR E MORO

heloisatolipan

Marcos Monteiro

Misturar neto, morte e justiça neste texto é responsabilidade de quem escreve. E é carnaval, festa de todas e todos, que esses três foliões só podem participar mascarados. A morte, criança travessa, muitas vezes natural e até benevolente, ensaiou passos terríveis, aterrorizando as festas e atrapalhando o ritmo do bloco da esperança. Morreu Artur, o neto de Lula, o preso político perseguido sistematicamente pela justiça de Moro. A ala das crianças canta todos os chorinhos possíveis e a justiça esqueceu a balança e foi para as ruas com a espada, disfarçada de Marte.

As crianças que fomos e as que não conseguimos ser são liberadas durante o carnaval, catarse coletiva, estética meio psicanalítica, que distendemos sempre por bem mais dos que os três dias oficiais, prolongando um antes, para respeitar as cinzas do depois. O carnaval deste ano começou com gosto de cinzas.

Tenho um neto de quatro anos, Heitor,  e meu amigo José Renivaldo tem três ou quatro. Falo dele, desse Zé paraibano, porque anota as falas das netas e netos, para escrever sobre Agostinho, o de Hipona. Não sei se fez o doutorado na USP em Agostinho para compreender os netos, mas sei que através dos netos compreende melhor Agostinho. Estava pensando aqui que Agostinho não teve o privilégio de netos, porque o filho Adeodato morreu adolescente. Se ele pode ser considerado o pai da sociedade ocidental, somos uma civilização sem netos que, teimosamente, à sua revelia nos tornamos avós. E viva o carnaval e a transgressão.

Luiz Inácio estava preso pela justiça que persegue avós, mas foi liberado para o funeral de Artur, atingido por essa morte que não respeita crianças. Luís é Lula, porque no Nordeste todo Luís é Lula, como todo José é Zé. Com todo orgulho. Quem conhece a história mais pitoresca de Lula sabe do seu lado de criança e sabe que com Artur, neto e avô se confundiam. Porque os netos servem para nos guiar novamente à infância, idade em que o amor e o corpo são naturais.

Agostinho tentou nos legar uma história desconfiada do amor e do corpo. Amar a Deus acima das pessoas, amor sem carne, sem osso, sem sexo, mascarado de amor cristão. Mas, apesar de Agostinho, católicos e protestantes estaremos no carnaval. Os protestantes chegando devagar, mas um grupo cada vez mais expressivo. Afinal, é preciso respeitar Lutero e Calvino, os quais, apesar das reformas que empreenderam, foram mais agostinianos do que Agostinho e, apesar de rejeitarem o celibato, prescreveram uma sociedade tão casta que proibia as festas e a alegria. O juiz Moro é protestante, de tradição batista, os quais somos uns calvinistas meio bizarros. Então, eu me pergunto, como figura pública participará do carnaval? Com que fantasia? Ou se abrigará em um retiro, esses estranhos mosteiros protestantes, ocasionais?

Nessa mistura toda, o que está mesmo em pauta é o futuro, ou a sociedade de nossos netos. Lula tentou e conseguiu uma redistribuição de renda das mais inesperadas da história da humanidade, talvez porque acredite em outros mundos, como as crianças. Mas ficou cada vez mais claro que sem uma redistribuição de  justiça e de alegria não haverá uma redistribuição permanente de igualdade. A festa de todas, o carnaval, carrega as contradições da sociedade, o camarote e a pipoca, e todas as violências tentam dançar. E conseguem. Teremos no futuro um carnaval com mais equidade? O projeto em andamento não é esse.

O “Brasil acima de tudo” é um bloco de mascarados, cujo enredo  não é bom nem para as avós nem para os netos. Nem para o Brasil. Se depender do apoio dos protestantes e de parte dos cristãos, no futuro ideal não teremos mais carnaval. Teremos desfiles ou de militares, ou de trabalhadores autômatos. Aprenderemos a viver enfileirados, prestando continência e apertando parafusos, sob a sloganização educativa e a vigilância dos milicianos. Lula chorou descontroladamente no enterro de Artur. Um convite a chorarmos pelas nossas avós e pelos nossos netos.

Maceió, 03 de março de 2019

terça-feira, 20 de novembro de 2018

CONTRA TODAS AS IMPOSSIBILIDADES

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Marcos Monteiro

O acampamento foi uma impossibilidade.

A vida se aproximou apaixonada e se esparramou escandalosa por cada grão de areia, cada onda do mar e cada pontinho do horizonte, na Praia de Paripueira. O infinito se fez endereço e a eternidade relógio e o Acampamento da Família IBP 2018, de 15 a 18 de novembro, se fez em quatro dias jardim primordial, resumo de uma nova humanidade.

De mãos dadas, todas fomos pastoras e jardineiros e o nosso pastor Wellington e nossa pastora Odja desinventou a hierarquia e inventou a ciranda, para que plantássemos dançando, enquanto o Pr. Henrique Vieira, que trouxe Carol e Maria, e Marcos e Carlos (os quais vimos com os nossos próprios olhos, por fim), orando, palhaçando, magicando, abria sucos profundos em nossas almas para textos da Bíblia e recados da vida.

Sorrimos muito e cantamos muito e dançamos muito e oramos muito e choramos muito, sem soltar as mãos, nunca. Todas viemos de lugares vulneráveis ao ódio e ao medo, periferias geográficas ou existenciais. Havia um esforço de Lau e Sara, especialmente, para que ninguém deixasse de vir por falta de dinheiro, desse papel esquisito que quem não tem não come. E viemos muita gente, com e sem dinheiro, aprendendo a praticar, na história de Jesus sobre o samaritano, a solidariedade universal, radical e arriscada.

Subvertemos o tempo, a lógica, o espaço, profanamos o sagrado e sacralizamos o profano, no meio de uma cosmogênese, no centro de uma eclesiogênese. No novo mundo, Deus era gente, de carne e osso, e trabalhava na carpintaria, meio assim pedreiro de favela. Nem dono, nem patrão, nem rei ou deputado, nem juiz de toga, pegou a prancha e foi surfar nas águas rasas de Paripueira, porque sempre foi assim meio atrevido e surpreendente. E o Espírito era cheio de curvas e tinha cabelos longos e barriga grande e seios túrgidos, porque sempre grávida. Essa misteriosa mulher, Ruah Divina, parindo gente nova e energia nova, o tempo todo.

Na nova igreja, idosos se abraçam apaixonadamente, e dupla de crianças sertanejas canta a toada do boi cigano. E se louva a Deus com todo instrumento musical e com hinos e cânticos derramados e com música popular e com reggae. Sacralizamos o profano e profanamos o sagrado. Agamben acredita na profanação como necessidade do novo mundo. Todo sagrado nasceu profano e profanar é devolver ao povo o que lhe é de direito. O profano, para ele, advém através da juventude, das novas gerações. Mas na nova igreja, crianças e idosas profanam o sacro e sacralizam o profano e reinventam o tempo todo o acolhimento. Ninguém solta as mãos.


Desse modo, nessa impossível Paripueira, nunca percebi quando o culto começou ou quando a vida se interrompeu, tudo se misturou de tal maneira que a palavra acolhimento era o modo como o amor gritava o tempo todo o seu louvor à vida e sua oração a Deus. E veio o encerramento com o batismo e a ceia. Muitos gestos e muitos ditos foram inesquecíveis e a mensagem do pastor Henrique Vieira, no seu jeito e em suas palavras, ficaram gravadas profundamente em nossas vidas. Mas o batismo e a ceia foram celebração final de uma igreja e de um mundo necessitados urgentemente de subversão. E nós, os batistas, temos um amor todo especial pelo batismo e pela ceia.

Qual o significado do batismo, quem batiza e quem deve ser batizado? Há momentos em que esse significado fica mais nítido e talvez esse seja um deles. O batismo lembra que quem segue a Jesus enfrenta todo dia a violência da morte, porque o poder e a hierarquia religiosa ou política é violenta. No batismo, somos crucificadas com ele. E ele foi crucificado porque enfrentou o sistema que excluía os proscritos da sociedade. Quando cantamos que Jesus derramou sua vida por nós, estamos dizendo simplesmente que ele não aceitou fugir da luta contra todo o poder que matava, e todo poder hierárquico mata. Então, qualquer um que segue a Jesus pode batizar e qualquer uma que quer seguí-lo pode ser batizado. Interessante que isso é bem batista. O batismo é uma lembrança sangrenta, e qualquer pessoa disposta a ser sangrada por amor a Jesus e às amadas de Jesus pode ser batizada. Mergulhando nossos corpos sangrados, lavamos as feridas do nosso corpo e da nossa alma, e completamos o milagre da ressurreição, do sangue que se faz água e da água que se faz mar.

Encerramos com a ceia. Ordenança de Jesus, lembrança de pão e vinho repartido entre todas e todos. Solidariedade radical, crianças, idosos, homens, mulheres, homossexuais, negras, pobres, repetiam o milagre da multiplicação do cuidado comunitário e ninguém soltava as mãos. Celebração da vida, celebração da comunhão, mas novamente a vitória da ressurreição sobre a morte violenta. O pão não é mais pão é corpo partido, torturado, sangrado e o vinho é o próprio sangue. Somos o corpo de Cristo, mas corpo vulnerável, ameaçado dia a dia pela violência dos poderosos. Repartir pão e vinho é repartir corpo e sangue, é comprometer-se com a vida dos que sofrem até à morte.

E quem são os que sofrem? Parece a pergunta sobre o próximo, na parábola do samaritano. Entre os novos batizados, havia pessoas que sofriam de depressão crônica e bipolaridade. Batizou-se uma budista. Sabem o que ela disse? Não entendia muito bem o que estava acontecendo, mas tinha certeza de querer seguir a Jesus. Sabem a orientação da pastora Odja? Que ela seguisse a Jesus intensamente, mas não abandonasse a sua herança budista. Nesses tempos de intolerância em que o diálogo inter-religioso é uma necessidade mundial, ela tinha a oportunidade única de experimentar esse diálogo em sua interioridade profunda e nos ajudar a compreender.

Bem, esse texto grande demais é pequeno demais para descrever a intensidade de sentimentos e o universo de compreensão que nos atingiu. Mas o batismo de uma jovem negra, homossexual, formada em psicologia, e o seu testemunho, nos comoveu a todos. Enfrentando na pele e na vida racismo e homofobia, nos descreve o seu crescimento em uma igreja pentecostal e a rejeição dos próprios pais, a impossibilidade de viver integralmente a sua fé cristã, proibida pela família e pela igreja. Sua namorada estava presente para a alegria de todos nós. A sua família não, por solicitação da própria. Decisão muito difícil, mas muito corajosa. Hoje, dia 20 é o dia da consciência negra e estaremos juntos e juntas lutando contra todo tipo de preconceito. Ela chorou muito, mas lágrimas foi o que não faltaram para regar o chão de nosso jardim do amanhã.

O acampamento da Família da Igreja Batista do Pinheiro, na Praia de Paripueira, litoral alagoano foi uma impossibilidade. Mas desvelou a possibilidade de uma nova igreja e de um novo mundo.

Maceió, 20 de novembro de 2018


terça-feira, 13 de novembro de 2018

DA BANALIZAÇÃO DA CONSCIÊNCIA

nivelarporcima

Marcos Monteiro

Era a mesma padaria de todo dia, o mesmo caminho com Seu Jorge, em seus oitenta e seis anos, mas a irritação era nova. Um dia depois de uma eleição esquisita, na qual as razões se portaram de modo estranho, o encontro de sempre com o sorriso de Melissa e do seu marido Antônio, não conseguia desmanchar meu emburramento. E perdi um pouco do resto de controle quando ela perguntou se eu votei consciente e votar consciente, para eles, era eleger Bolsonaro. São pequenos comerciantes, um empreendimento desafiador, e evangélicos, e sei que as igrejas são espaços complexos de empoderamento para tantas direções.

Mas a ideia do “voto consciente” mexeu comigo. Pensei, a partir de meus quase setenta anos, na tentativa de aprendizado de exercer uma consciência política e evangélica, através da luta a favor dos grupos mais vulneráveis da sociedade, mulheres, negros, homossexuais, crianças, população de rua, sem terras, sem tetos e trabalhadoras cada vez mais sem direitos, e não pude evitar de pensar que entre todas as banalizações dessa eleição, a banalização da consciência talvez seja a mais dolorosa. Exercendo tudo que aprendi sobre consciência, votei em Boulos no primeiro turno, e em Haddad, no segundo, e voto diariamente em minha consciência cidadã, sem medo e sem ódio.

Há ameaças expressas em curso que podem atingir todas amigas e amigos que apoio e uma delas tem um imenso valor simbólico. Paulo Freire pode deixar de ser o patrono da educação brasileira, até porque ele foi um fracasso como educador, é o que afirmam de modo descabido. Para Freire, a conscientização se constitui tarefa educativa permanente, e migrar de uma consciência semi-transitiva para uma consciência crítica é se tornar mais e mais pessoa humana. Pode-se atribuir o voto evangélico a uma consciência mítica e mística, de natureza ingênua, mas começo a pensar na existência da categoria de uma consciência banal, a serviço de todo o tipo de manipulação.

A banalização se afigura como um processo contínuo, atingindo pessoas, valores e instituições, e essa eleição talvez passe para a história como o mais banal dos processos eleitorais. O candidato eleito banalizou o discurso, de um modo que as famosas escolas da Grécia clássica, se sentiriam afrontadas. Jaeger considerava Platão e Isócrates rivais em metodologia e objetivos, mas respeitáveis em consistência. Ameaças descontroladas, promessas descabidas, piadas grosseiras e ofensivas, misóginas, racistas, homofóbicas, significaram a banalização da retórica em grau inimaginável.

Li programas banais, projetos banais, argumentos banais, e assisti a debates banais e entrevistas banais. No balcão de objetos banais, a justiça, a economia, a cultura, a política, a democracia e o evangelho, foram oferecidos em rótulos bem minúsculos e a preço promocional. Lembrei que banalidade é palavra que na Idade Média significava o preço que o servo precisava pagar ao senhor feudal para o uso de um bem ou um instrumento necessário, forno, moinho, lagar, algo que não possuía. A banalidade, portanto, em sua origem semântica, é o preço que os despossuídos pagam aos proprietários do planeta. Portanto, toda banalidade é perigosa.

Hanna Arendt descrevendo Eichmann, o famoso nazista responsabilizado judicialmente pelo extermínio de seis milhões de judeus, descreve o julgamento de uma pessoa de meia idade, com óculos, quase calvo, com a aparência da pessoa comum que era. Uma pessoa banal com uma consciência ética banal. Tinha exercido a virtude da obediência e sabia que seria condenado à morte e esperava somente que não fosse considerado um monstro, porque no cotidiano era bom pai e bom marido e nunca odiara nenhum judeu, mas obedeceria o Füherer sempre. Se a sua obediência era a banalização da ética e do imperativo categórico kantiano, a lição, segundo Arendt, que o julgamento traz é a da banalidade do mal, o que causa obviamente mais insegurança à vida social.

A banalização da consciência é projeto necessário à banalização da vida e à manutenção da desigualdade estrutural. O período eleitoral tem se constituído em tempo de maior banalização da nossa democracia e as igrejas têm se comportado como abençoadoras e aceleradoras de todo tipo de banalização. Mas a luta pela conscientização e pela democratização de nossas instituições não se resume às eleições. No âmbito da sociedade como um todo, esse projeto é de uma educação popular continuada; no âmbito da igreja, é um projeto de evangelização. Esses são os tempos em que vivemos, momento histórico em que as igrejas são os espaços que mais precisam de evangelho.

Maceió, 13 de novembro de 2018.



sábado, 27 de outubro de 2018

DIÁRIO DE UMA ELEIÇÃO ESTRANHA 13

depositphotos

O CAMPO EXISTENCIAL DOS HUMANOS EXÓTICOS

Marcos Monteiro

Essa estranha eleição desenhou um campo existencial de muita vulnerabilidade, porque parece que um grupo de Caçadores se organiza de diversos modos para buscar o extermínio dessa população diversificada e muito grande, a Raça de Humanos Exóticos.

Merecem sofrer violência, bandidos, homossexuais e feministas, à margem da lei ou de códigos comportamentais; negros, índios e outras etnias identificáveis, á margem de padrões étnico-raciais; sem-terras, sem-tetos, sem-direitos, especialmente quando se organizam e lutam; e todas e todos que se identificam com alguns ou algumas dessas, e até os trabalhadores, ameaçados em direitos adquiridos.

São muitos os seres humanos vivendo sentimentos de apreensão e terror por pertencerem a algum desses grupos. Mas há muita gente lutando contra esse estado de sofrimento e desejando construir um mundo melhor. Nesse campo, eu me identifico também como um humano exótico. Afinal, eu sou pastor batista e sou socialista, e apoio todas e todos que sofrem e lutam por mais amor e mais justiça. Por tudo isso, sem medo e sem ódio, voto Haddad, voto 13.

Recife, 27 de outubro de 2018


sexta-feira, 26 de outubro de 2018

DIÁRIO DE UMA ELEIÇÃO ESTRANHA 12

cut

MAIS DIREITOS PARA TRABALHADORES

Marcos Monteiro

Tirar mais direitos de trabalhadores e trabalhadoras tem sido projeto antigo. Cobra-se muito de quem não tem e quase nada de quem tem, podem pesquisar. Defender a soberania e nossas riquezas naturais nunca foi o forte dos governos brasileiros, e o petróleo está cada vez mais vulnerável depois da descoberta do pré-sal.  Esse projeto econômico ultraliberal nunca deu certo em lugar nenhum e podemos retomar o projeto desenvolvimentista com algumas correções.

Os trabalhadores e trabalhadoras também podem ser classificadas como Humanos Exóticos, e a caça é aos seus direitos. O governo do PT foi um capitalismo de centro e não o comunismo de que vem sendo acusado. Aliás, nunca existiu a aplicação de um projeto realmente socialista, o que chamamos de socialismo real foi um tipo de imperialismo classificado de diversas maneiras por diversos estudiosos, mas dentro do imaginário capitalista.

Pois bem, a receita econômica que se segue é de um capitalismo predador, devorador de direitos e conquistas dos trabalhadores, como aposentadoria, férias e décimo-terceiro. Sempre se põe a culpa no trabalhador, mas a história mostra que distribuição de renda é melhor para a economia do que acumulação desenfreada.  Então, por mais direitos para os trabalhadores e trabalhadoras, sem ódio e sem medo, voto em Hadad, voto 13.

Recife, 26 de outubro de 2018


quinta-feira, 25 de outubro de 2018

DIÁRIO DE UMA ELEIÇÃO ESTRANHA 11

novaescola

EDUCAÇÃO INFANTIL

Marcos Monteiro

Ítalo tinha quatro anos quando não se coube em si. E não teve ninguém seduzindo, nem igreja, nem amigas, amigos, escola ou igreja lhe compreendendo. Quem consegue? Pai e mãe se desesperavam e Ítalo queria se matar. O pai desistiu e saiu de casa, mas a mãe foi acompanhando até aceitar, ajudar e admitir que Ítalo se cabia melhor como Talia e tem dezoito anos agora, livre, leve e linda.

Educação sexual é luta de educador há muitos anos, contra uma sociedade que não se entende. Bernadete apanhou o que pode e o que não pode até se tornar Belisário e se sentir mais humano. E não teve escola, nem igreja, foi luta solitária, por cuja causa leva cicatrizes no corpo e na alma. Não se ensina ninguém a ser gay, lésbica, travesti ou trans, o que se pode ensinar é a respeitar e a se amar as pessoas e as crianças em seu longo processo de descoberta de corpo e de identidade sexual.

Sou amigo de muitas LGBTT e já ouvi histórias o suficiente de tentativas de exorcismo, tentativas de cura e tentativas de suicídio, mas também testemunhos de libertação pela autorização do amor exótico. Esse grupo grande de Humanos Exóticos tem sido o alvo principal de caçadores e o Brasil é o país que mais mata homossexuais. Eles estão com muito medo. A educação é o projeto de ensinar crianças a amar, não a atirar. Pelas mães de crianças exóticas, sem medo e sem ódio, eu voto em Hadad, voto 13.

Recife, 25 de outubro de 2018

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

DIÁRIO DE UMA ELEIÇÃO ESTRANHA 10

sitedecuriosidades

PARA APRENDER A AMAR

Marcos Monteiro

A ira é um dos sentimentos naturais e em uma sociedade capitalista, em que o mérito, o narcisismo e o consumismo são valores e a competição, o individualismo e o sucesso são processos de crescimento, a ira se torna estrutural, quase ontológica. O ódio é o cultivo e o aperfeiçoamento da ira.

Nesse tipo de sociedade, estamos irados contra a desigualdade econômica que nos atinge, contra o poder que nos esmaga e contra a solidão que nos ameaça. A ira é uma emoção perigosa e fomos convidadas a aplicar a ira, aprendendo a odiar. Nos ensinaram a odiar o PT, depois aos homossexuais, aos negros, aos índios, às feministas, aos sem-terra, aos sem-teto, aos sem-direitos.

Mas o que queríamos mesmo era mais igualdade salarial, mais poder de decisão e mais amor, muito mais amor. Então precisamos urgente reaprender a amar e vencer esse clima de insegurança e intolerância. Para retomar o caminho do amor, sem medo e sem ódio, voto em Haddad, voto 13.

Recife, 24 de outubro de 2018


terça-feira, 23 de outubro de 2018

DIÁRIO DE UMA ELEIÇÃO ESTRANHA 9

mamaetagarela


OS PARIDORES DE PLANTÃO

Marcos Monteiro

As mulheres são metade da humanidade, e fazem parte da Raça de Humanos Exóticos. Pelo que entendi da declaração de um candidato, são os homens que parem a humanidade, sozinhos, as mulheres são recipientes vazios. E só devem parir homens, mulheres só aparecem quando eles fraquejam.

Por serem exóticas devem ganhar menos e não devem receber licença-maternidade (afinal, não são os homens os parideiros?). Mais exóticas ainda são as feministas, essas devem sofrer dos caçadores torturas e violências, estupro não, somente para as bonitas.

Quando a opressão dos caçadores sobre a metade da humanidade desaparecer, a igualdade será mais igual e as mulheres terão mais oportunidades de decisão. Contra a chapa de militares autoritários, voto em um professor educado e em uma jornalista feminista inspirada. Sem ódio e sem medo, voto em Haddad 13.

Recife, 23 de outubro de 2018


segunda-feira, 22 de outubro de 2018

DIÁRIO DE UMA ELEIÇÃO ESTRANHA 8

conceito.de

UMA ELEIÇÃO DE PERDAS E GANHOS

Marcos Monteiro

Não quero perder essa eleição, mas só quero ganhar, na esperança de um mundo em que os dois verbos, perder e ganhar, desapareçam. Fomos educados para competir, suplantar, acumular, e isso se chama ganhar. Na solidariedade, ninguém perde e ninguém ganha, todas e todos vivem o melhor possível.

Os Caçadores de Humanos Exóticos são o subproduto dessa lógica do perde-ganha e uma eleição que poderia ser simplesmente isso, uma escolha, tornou-se uma guerra. A desigualdade social envenena com intolerância e discriminação e impede que a diversidade trazida pela Raça de Humanos Exóticos seja percebida com seu esplendor.

A guerra eleitoral deseja exterminar pessoas e direitos, especialmente das trabalhadoras. Sem o verbo perder ou ganhar, transformados em curiosidade linguística de um português arcaico, todas e todos poderiam escolher, como estou fazendo, sem ódio e sem medo, Haddad 13.

Recife, 22 de outubro de 2018



domingo, 21 de outubro de 2018

DIÁRIO DE UMA ELEIÇÃO ESTRANHA 7

plataforma21

A SOLIDARIEDADE DA INSÔNIA

Marcos Monteiro

Tenho muitas amigas e amigos que não conseguem dormir, todas pertencentes à Raça de Humanos Exóticos. Para elas, já está aberta a temporada de caça e se o Caçador Maior for eleito, pensam que vai piorar. Mas tenho outros que dormem tranquilamente porque acreditam que a sua própria humanidade não se encontra ameaçada.

Então, nessa estranha eleição, posso dividir os eleitores entre os que dormem e os que sofrem insônia. Quando pergunto a alguém se está dormindo bem, praticamente descubro o candidato pela resposta. Eu não estou dormindo bem e minha insônia é solidária. Quando meus amigos se sentem caçados, eu sinto a minha humanidade aviltada e sinto imensamente se você está conseguindo dormir bem.

Estar sempre acordado era vigilância de Zeca, carpinteiro desempregado que dormia na rua de Feira de Santana e de Beto, adolescente homossexual, quando descobriu que o pai comprou um revólver. Zeca era o morador de rua mais esfaqueado de Feira de Santana. Por causa dele e de outras, quero ficar acordado o mais possível, enquanto esse clima de terror estiver presente. Então, pela volta do sono tranquilo, sem ódio e sem medo, voto Haddad, voto 13.

Recife, 21 de outubro de 2018


sábado, 20 de outubro de 2018

DIÁRIO DE UMA ELEIÇÃO ESTRANHA 6

santanopolis


UM EXÓTICO CHAMADO SINVAL

Marcos Monteiro

Quando vi a transmissão do bacanal do impeachment e ouvi um atual candidato a presidente vociferar a favor da tortura e homenagear o maior torturador que conhecemos,  lembrei das ruas de Feira de Santana e do pequeníssimo comércio de Sinval Galeão.

Ele foi torturado na ditadura porque era comunista, fazia parte da Raça de Humanos Exóticos, mas era somente um micro comerciante e um macro amigo meu e de tantas e tantos. Como pedagogia, a tortura demonstrou ser inútil, nem conseguiu informações ou delações, nem destruiu a humanidade e a amorosidade de Sinval, fiel em compromissos e amizades. Conseguiu deformar os seus dedos, sem deformar a sua alma.

Nunca deixou de lutar por um Brasil melhor, mas sofreu um AVC que o levou à morte.  No seu enterro os amigos choraram e trouxeram histórias de coragem e ternura. Fui amigo de Sinval, então não tenho condição nenhuma de votar em quem elogia a tortura, e sou amigo do amor e da vida. Portanto, sem nenhum ódio e sem nenhum medo, voto em Haddad. Voto 13.

Recife, 20 de outubro de 2018

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

DIÁRIO DE UMA ELEIÇÃO ESTRANHA 5

sputinikbrasil


VOTO EM BRANCO, VOTO EM HADDAD

Marcos Monteiro

A preta do metrô estava com o rosto enfadado e dizendo que não tinha quem fizesse ela votar naquele branco debochado. O deboche de um candidato contra toda a Raça de Humanos Exóticos, contra as mulheres, contra os trabalhadores, contra os quilombos, contra os índios, contra os lgbtt, tinha deixado ela com a cara azeda.

Mas então me surpreendeu dizendo que ia votar em branco e lembrei daquela história de que eleição é coisa de branco. E não é mesmo? Negros têm menos acesso à educação, ao trabalho e à política. Têm mais acesso à prisão. Mas também lembrei que na questão educacional, o candidato debochador também debocha das quotas. E talvez ela tenha razão: eles que são brancos que se entendam.

Mas pensei melhor e descobri que tem um branco que quer mais salário, mais educação, mais direitos, mais igualdade, mais justiça para todas e todos, especialmente para os injustiçados por uma civilização escravagista e uma população racista. Então, se é pra votar em branco, votem no branco Haddad. Por mais políticas públicas para mais justiça racial ele tem o meu voto. Sem ódio e sem medo voto em Haddad. Voto 13.

Recife, 19 de outubro de 2018


quinta-feira, 18 de outubro de 2018

DIÁRIO DE UMA ELEIÇÃO ESTRANHA 4

javiersánchez

PELA ESPIRAL DO AMOR

Marcos Monteiro

Encontrei Dom Helder na camisa de Fernando, no supermercado, com a seguinte frase: “Carregar pessoas nos braços não quero, são pesadas, prefiro carregá-las no coração”.

Fernando é um espírita que ama Dom Helder que era católico, bispo chamado de subversivo, porque amava os pobres e os assim chamados bandidos. Todos dois também fazem parte da Raça de Humanos Exóticos, que não merecem viver, e um dia um matador foi contratado para destruir Dom Helder, mas mudou de ideia, história bonita que muita gente conhece.

Dom Helder gostava de falar contra a espiral de violência e eu carrego Dom Helder no coração, contra essa espiral de ódio dessa estranha eleição, e penso na necessidade de uma nova, a espiral do amor. Então, sem ódio e sem medo voto Haddad. Voto 13.

Recife, 18 de outubro de 2018