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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Pelas veias do corpo

idança

O ser humano é um conjunto de textos embrulhado em peles. Pele é limiar entre um texto interno e textos externos, lugar em que as palavras brincam e causam arrepios.

Os textos que respiramos enchem o nosso pulmão de vida e fazem as palavras correr pelas veias até encherem o coração. No coração, as frases vão e vêm em ritmos irregulares, sístoles e diástoles de nossa existência.

Os seres humanos são textos que não subsistem sozinhos, sobrevivem em períodos subordinados ou coordenados sempre de modo assindético. Todo texto toca outro texto, todo abrigo é abrigo de textos, todo caminho é textual.

Quando Deus criou os textos lhes cobriu de pelos e lhes chamou homem; quando a mulher criou Deus lhe arrancou a pele e lhe chamou texto; quando o texto criou a mulher e o homem lhes distendeu a pele e lhes chamou paixão.

Todo texto desce pela boca como beijo e chega no estômago como fome. O metabolismo de um texto é texto inquieto. A indigestão de um texto é texto à procura das próprias linhas e das linhas impróprias.

Um texto pós-pandrial resvala pelo organismo; toda disfunção do corpo é gramatical e toda verborreia é resultado de intoxicação linguística. Quando aumenta a temperatura textual e o corpo fica febril é necessário suar textos por todos os poros e derramar textos pelos cotovelos; e jogar textos fora, como quem conversa.

Os caminhos da vida são caminhos dos textos. Vamos pisando os textos sob a sola dos pés e irrequietos levamos textos à flor da pele. Nossas passadas seguem os ritmos dos textos, que nos apressam ou nos paralisam, e os textos nos acolhem em suas casas.

Seremos textos cobertos de peles por toda a vida e quando morrermos seremos epitáfio: um texto cercado de pedras.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Relato de um linguicídio

Guernica-Picasso

As palavras estavam desaparecendo, primeiro os conectivos, começando as preposições. Desconfiado, escondi três letras, última emergência.

Artigos definidos foram-se indefinindo e indefinidos definitivamente silenciados, toda pluralidade singular e singularidade plural destruídas.

Conjunções coordenativas (aditivas, adversativas, alternativas, conclusivas, explicativas) foram mortas inexplicavelmente. Logo depois todas subordinativas, subsumidas adverbialmente.

Massa adverbial executada: quinto sinistro. Numerais cardinais ordinários extintos brutalmente. Pontuação? Pane. Reticências? Vírgulas... Interrogações; misturadas! Liquidificadas... trituradas desaparecidas

Sobraram substantivos adjetivos verbos

Executaram verbos formas verbais

Adjetivos substantivos

F I M

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Aprimorando a linguagem: ou beimaô (que diabo é isso, macho, ôxe!)


Há coisas que não mais soem acontecer. Ninguém mais age subrepticiamente e a humanidade desaprendeu a acepção de ficar macambúzia ou exultante, sorumbática ou jubilosa. O truísmo domina a linguagem e os algozes da flor do Lácio fazem da vulgaridade do linguajar quotidiano a sua vaidosa prosopopéia e o seu vocabular mais escorreito.

Outrora, havia quem se abespinhava com a asserção descurada, com o argumento peremptório ou com a asseveração abruptamente infundada. Porque além do espectro vocabular a lógica da proposição e o valor intrínseco da sintaxe eram igualmente observados. Haverá hoje algures quem se agaste com vocabulário trivial, ou falácias ou solecismos?

A tirania hodierna da parvalhice tem achincalhado os cultores da língua de antanho, atoleimando-os, atribuindo-lhes uma parvulez somente explicável por mecanismos de projeção especular. Desabonar uma conduta laudável de modo ostensório é amolgar a ventura abolando a pulcritude.

Evidentemente, na interlocução coloquial não há espaço para o preciosismo; o vocabulário comezinho é a injunção da intimidade. Entrementes, transportar para quaisquer alocuções a verbiagem cotidiana, postergando preceitos sancionados pelo costume, é pousar de publícola, assumir escusa postura demagógica.

Se o garbo e o donaire são requisitados em seletos sítios, se o requinte e o apuro serão sempre reputados signos de distinção, se a gastronomia exige da comensalidade as iguarias e os acepipes, a língua infunde misteres e encargos ineludíveis. Careceremos sempre de ornar o discurso com os vocábulos da distinção, refinar as orações com a sintaxe apropriada, locupletar as proposições com olores e sabores que transfigurem o mais insípido dos temas em sápido sobrepasto.

A busca da excelsitude lingüística tem sido inopinadamente interpretada como veleidade, amaneiramento ou ardil para a arte da tergiversação. Obliquamente, o que realmente se propõe é a implosão da língua pela desabrida redução do universo vocabular. Não tendo o ensejo, impedido pelos críticos de degustar sabores mais sofisticados, limitar-nos-emos na linguagem a provar todos os dias o ipsíssimo faséolo vulgar com orizo.


terça-feira, 29 de outubro de 2013

Gripado

curiososecia

Quando gripo, fico todo gripado, corpo, imaginação e os textos. Fico tossindo frases e espirrando metáforas, encabulado e sem controle.

Quando gripo, preciso de lenços para enxugar a consciência e assoar as linhas. Me espreguiço pelas páginas e por meu mal estar, dor de cabeça intermitente no cabeçalho.

Quando gripo, o tempo gripa e gripa a saudade de você e de poesias. E escrevo tão vagarosamente que as coisas se arrastam entre os períodos e os olhos pesam.

Quando gripo, a fome desaparece, a vida encolhe e os textos se apequenam. Os dedos caminham pelos caminhos de sempre, como se fossem novos ou como se não existissem.

Quando gripo a lua se esconde atrás das nuvens e os textos se escondem atrás da lua. Respiro com dificuldade e transpiro textos molhados, inconclusos e febris.

Quando gripo, a existência gripa e gripam os cajueiros e os textos. Me arrasto pelas categorias gramaticais no desejo de dialetos e nada sei do nada saber.

Quando gripo, Deus gripa e troveja sobre a minha consciência lançando raios. Tropeço no tropeço e os textos descarrilam loucos por desastre.

Quando gripo, gripa a história e as personagens se confundem com os autores. Os enredos adoecem e se embrulham pelos papéis do mundo.

Quando gripo a memória gripa e esqueço até mesmo de esquecer. E então recordo textos tão antigos que eu mesmo desconhecia e fico à espera de delírios.

Quando gripo a minha humanidade gripa e gripa toda a humanidade e todos os textos. E termino frases para recomeçar e concluo textos para nunca concluir.

Quando gripo, fico todo gripado: corpo, imaginação e os textos.


terça-feira, 22 de outubro de 2013

Sobre o mundo dos textos

culturamix

Os textos são imortais e vivem por aí em um monte entabulando conversações ansiosas sobre amor e guerra, enquanto comem ambrósia e bebem néctar.

Quando sentem saudade de feijoada e cerveja se acercam dos mortais como se timidamente. Textos são sedutores e mortais gostam de ser seduzidos.

É preciso se acercar dos textos e ouvir suas cantigas dolentes e lembrar que textos gostam de carinho. Se algum texto lhe convidar para dançar, dance, se convidar para dormir, aceite. Textos conhecem mil e uma maneiras de reescrever o prazer.

Não procure capturar um texto, eles conhecem duas mil e duas maneiras de lhe derrubar. Textos são indomáveis e precisam estar livres para correr pelas pradarias.

Rasteiros ou profundos todos os textos são geniais porque são textos. No mundo dos textos há hierarquias e lutas pelo poder. Os textos mais fracos são os que desenvolvem três mil e três estratégias pela hegemonia.

Os textos gostam de adoradores e por isso fundam religiões e prescrevem dogmas. Todo texto é sagrado, com ou sem leitor, basta-se a si mesmo e cria mundos.

Não procure os textos, espere que lhe alcancem, mas não esqueça nunca que textos são perigosos.

Em nenhum momento deixe sua garganta ao alcance de um texto. Textos são imortais porque possuem quatro mil e quatro jeitos de sugar-lhe a vida.


terça-feira, 15 de outubro de 2013

Linguisticando

cronicasdomotta

Antigamente eu gramaticava. Ditongava, tritongava e hiatava, mas muito especialmente eu pontovirgulava com a precisão de um machado, o de Assis. Mas um belo dia, não sei se por imposição de um bento, o Bezerra, ou por excesso de banho (traducite de Bagno), o xará, eu comecei a linguisticar. Hoje eu linguistico mais do que gramatico, somente tendo o cuidado de seguir os caminhos do linguisticar, humildelando-me diante das desobservações do Bené, o dito Bezerra.
           
Que o linguistar tenha caminhos não devia para surpresar ninguém. Não existem regras, mas há veredices, atalheiros e estradíssimas que se constituem desafios complechos mas satisfazedores. Afinal, desinventar palavras é como colher uma rosa, a do Guimarães, na florestação das distâncias. Nesses desencaminhos, o tropasso militar pode ser substituído pela deslização desdançante e as palavras e frases podem ser desestendidas prazeristicamente.
           
Porque mais importante do que a gramatiquia é a comunicadez e linguar com eleguice e criatividária não deixa de não ser propríssimo da pessoa, especialmente do Fernando. Linguisticar é afrontalhar Camões, homenageando-o; é enxadar o jardinete que cultiva a última flor do Lácio, atenciando para que continue inculta e bela.
           
Antigavia eu vigilava-me para sempre gramaticar, hoje desviro-me para não perder oportunez de linguisticar. Gramaticar é enrigessar-se de fraque e cartola, sentado em poltronária adatrás de escrivanerinha; linguisticar é flautuar de bermudas pelas calçadarias beira-mar. Gramaticar é atolhar-se no passado, espremiando a língua e impedizendo a história; linguisticar é ir se deseslisando para o futuro, sem pressez nem corridoria.
           
Não prossidero coisa fácil nem gramaticar nem linguisticar. Deocorar duas montalhas de regras e viver sempre sintaxando e lexicando, desviciando a fala, é tarefa monumenteira. Igualmodamente, sempre desdentrenhar-se em novidadas formas de desdizer, é rebrincar de ser Adão, na desacompanhação da serpente, mas longe das benedidades do paraíso.
       
Das duas, prefiro linguisticar, não sei bem porque, não sei bem porquem, não sei bem porquando. A coisúnica que sei é que entre a multiplicidez de estandartes em procissão, conduzo orgulheiramente esta minha bandeira, a do Manuel.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O corpo do texto

enfrentandoaminhasolidão

Meu texto encontrou seu corpo e se lançaram nas volúpias da linguagem. Meu texto tem períodos e seu corpo tem pêndulos que marcam ritmos para a oscilação das palavras.

A textura do seu corpo tem saberes e a tessitura do meu texto tem sabores. Seu corpo é o texto que ainda não escrevi e meu texto é o corpo dos seus desejos. Seus dedos acariciam meu texto e deslizo as palavras por seu corpo.

Escrevi meu texto em sua língua e minha língua traduziu o seu corpo. Seu corpo carrega frases à flor da pele e esconde palavras viscerais. A exegese e a hermenêutica do seu corpo é esforço e frustração de minha língua.

Todo texto é síntese de corpos, todo corpo é intertextual; as linhas do meu texto se lançam sobre as entrelinhas de seu corpo. Todo corpo é síntese de textos, todo texto é inter-corporal.

Quando me lanço no seu corpo me perco no meu texto e, não sabendo concluir meu texto, nem querendo dispensar seu corpo, faço a opção pelo beijo, texto distendido em duas línguas.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Pelo amor das linhas

almofariz

A linguagem me acordou cedinho e começou a arrodear o meu umbigo, fazendo cócegas.
           
Quando tentou se atrever a um movimento mais ousado, afastei-a delicadamente e recuou amuada e recomeçou seus jeitos e trejeitos de mimosa e mimada, de arrulhos e beicinhos, vindo e negaceando, dengando.
           
Sussurrou carinhos e de repente se fez fúria e baixo calão, improperando para todos os lados e gargalhando-se sinistramente, depois.
           
E então me desarmou com um sorriso rasgante, puro e tagarela, e me desnudei e aguardei ansioso e invadiu o meu ouvido com a língua.
           
Ciciante recitou poesias e indecente desfilou propostas e percorreu meu corpo aos gritos e silêncioso e trêmulo mal me atrevia a atrever.
           
Explodimos os dois ou me iludiu faceira? Acontecemos ou somente aconteci inexperiente e perplexo?
           
As margens são aconchegantes depois das ondas e marés e há tantos tipos de abraços.
           
Colados e sonolentos deixamos passar o tempo e os significados, entreolhando, entreouvindo e entrefalando, preguiçosos e felizes.
           
Então voltamos caminhantes de linhas e entrelinhas, a dar voltas e a interromper-se, dizendo-se e se desdizendo, finalizando-se de vagar.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

A morte do autor e a vida do texto


Di Cavalcanti

Terminou de escrever o texto e morreu. Morreu de parto, mas o séqüito seguiu o texto, que funeral de autor ninguém agüenta, e os pronunciamentos, as elegias, as considerações sobre a vida e a morte acompanharam as exéquias vivas, estranho cortejo fúnebre à procura de novo autor.
           
Amamentando-se vorazmente no peito da crítica, o texto experimentou seus primeiros balbucios, ânsia de comunicação à espreita da linguagem, movimentos e sensações que engatinham pelo chão da vida.
           
Fase em que lágrimas e sorrisos são quase a mesma coisa e a necessidade de experimentar os espaços traz o mundo através de cifras, imagens tão surreais que o texto, meio ofuscado, duvida de si mesmo.
           
Encaminhado à escola, descobre o suplício diário de aguardar o recreio, momento em que pode se balançar liricamente e escorregar por entre os solecismos, esquecido de intermináveis regras e incontáveis métodos, repetidos insistentemente em um quadro.
           
Então, chega-se o tempo de procurar emprego, currículo distribuído esperançosamente entre editoras, revistas e jornais, disputando espaços com outros textos, aprendendo os truques de se atender expectativas e driblar primeiras impressões.
           
Durante as entrevistas, precisa aprender a dominar o pânico e a responder perguntas impossíveis: “Qual a intenção do autor?”, “qual o estilo literário?”, “qual o mundo do texto?”, “qual a mensagem?”, “qual a aplicação atual?”.
           
Não tem como explicar que desde a morte do autor, os autores se multiplicaram e que não pode saber da intenção do autor ou dos autores e que nem mesmo os autores conhecem as suas intenções. Não pode dizer que o mundo do texto é uma fusão de mundos, que estilo, mensagem e aplicação, variam com a variação de autores, mundos e intenções e que a multiplicação de sentidos é característica do seu próprio modo de ser texto.
           
Nesse momento, o texto passa pela constrangedora situação de fazer a hermenêutica do intérprete, descobrir que resposta ele espera e impressioná-lo com a sua opção.
           
Quando acerta, assina contrato e torna-se texto inserido no mercado, trabalhador de paletó e gravata, burocrata cumpridor de horários e remuneração, direitos e futuro assegurados até o dia da morte.
           
Quando não consegue passar por todo esse processo, torna-se mais um texto desempregado.
           
Texto biscateiro, texto camelô, texto vagabundo, texto aventureiro, texto guerrilheiro, texto prostituto, texto proscrito, texto excluído, ou simplesmente texto doméstico.
           
Uma multidão de textos marginais que na maioria das vezes carregam mais verve e criatividade do que os textos contratados pelo sistema. Esses textos nunca morrem.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A busca da palavra perdida

 
simplesassimmesmo
Encontro as palavras perdidas quase sempre debaixo do tapete, mas dessa vez precisei revirar a casa toda.
           
Primeiro, procurei ver em cima da mesa, disfarçada entre correspondências, jornais, revistas e livros, para ter que procurar nos quartos, em cima do travesseiro, adormecida, ou debaixo da cama, conseqüência de queda no meio da noite, mas não se encontrava lá.
           
Sempre havia a possibilidade da palavra estar na dispensa, passando despercebida entre os vinhos, ou mesmo entre os enlatados para consumo rápido, ou pendurada no rótulo de qualquer coisa, mas depois de uma busca cuidadosa não a encontrei.
           
O problema de se perder a palavra é que só sabemos que palavra é quando encontramos, tendo apenas uma vaga idéia de sua aparência. Com certeza não era uma dessas super-palavras, um “superlativo sintético absoluto”, ou qualquer polissílabo interminável, ou verbo anômalo ou defectivo, ou qualquer esdrúxulo substantivo hiper-abstrato, mas uma palavra banal, possivelmente uma preposiçãozinha corriqueira ou, no máximo, uma conjunçãozinha coordenada.
           
Era o jeito procurar no congelador, onde guardo palavras arcaicas, locuções adverbiais complexas, e outras linguices mais, na esperança de encontrá-la mesmo que macambúzia, tiritante na friagem polar artificial, empalidecida por trás de qualquer bloco irregular de gelo. Mas, nada.
           
Na cozinha, havia um cheiro de palavras um tanto ou quanto queimadas, resquícios da crônica que precisei fritar tarde da noite. Ainda recuperei, na lata de lixo, uma palavra quase perfeita, somente um pouco chamuscada, no meio de outras viradas em cinza, ponto de cocção ultrapassado pelo apressamento da tarefa. Mas a palavra buscada, a precisa palavra, precisada palavra para a crônica do dia, não se encontrava em nenhum desses lugares.
           
Então, é preciso admitir o fracasso e adiar os escritos, na esperança de que a palavra surja inesperadamente ali à frente, ou que, redobradas as buscas, confirme-se que o lugar improvável é o único local possível de se encontrar o que se perde. Ou, dito de maneira diferente, não adianta aumentar as buscas se não se procura no único lugar onde se perdeu. Ou ainda, posso percorrer toda a casa, examinar ladrilho por ladrilho, multiplicar a procura por toda a cidade, mas a palavra só estará nesse único local, banal ou surpreendente.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

A crônica falta de crônica

gauchaopina

Cronicar ou não cronicar torna-se a questão de quem ousa se oferecer como texto para um reduzido mas exigente público leitor.
           
Precisa-se da idéia e às vezes a idéia vem, simplesmente, sem pedir licença e espalha-se ela mesma como organização lógica de palavras, frase por frase, parágrafo por parágrafo, atrevidamente, dispensando totalmente o autor.
           
Às vezes, simplesmente a idéia não vem.
           
Então, é preciso usar mão do repetido recurso de se escrever sobre o não escrever, usar a falta de assunto como o próprio assunto e ousar a metacrônica, ou a metanãocrônica, a crônica sobre a crônica falta de crônica.
           
Inspirar-se é encher a imaginação das idéias que estão no ar, ou talvez se encher do ar das idéias. Não se inspirar é trocar a inspiração pela suspiração, encher o pulmão nervosamente do poluído e concreto ar cotidiano. Ousa-se a metacrônica (ou a metanãocrônica) com um suspiro de resignação que espera pelo suspiro de alívio do final da crônica.
           
Porque o final é o problema maior de toda crônica e finalizar uma metacrônica talvez seja o maior desafio do excessivamente atrevido metanãocronista.
           
Claro que a metacrônica tem os conhecidos desafios do estilo, tonalidade, conotação, precisão da crônica. Como a própria crônica, a metacrônica pode ser ou irônica, ou lírica, ou lógica, ou divertida, ou tudo isso. Mas, como a crônica, a metacrônica (metanãocrônica?) precisa de um convincente final.
           
O problema do final é tão óbvio que o cronista tem vergonha de explicar. O final não pode vir no começo, nem no meio, mas apenas no fim. Mas como discernir? Estamos no início ou no meio de nossa atrevida metacrônica?
           
Também o final não pode vir depois do fim. Claro? Nenhuma crônica, ou metacrônica, ou metanãocrônica pode ser um incessante recomeçar (a não ser como ousadia estilística ou como transgressão intencionada).
           
O objetivo da crônica é descrever do modo mais breve possível a presença da idéia. A metanãocrônica precisa se alongar o mais possível sobre a ausência. Mas ambas se encontram diante do desafio da precisão, o que nos remete mais uma vez ao final.
           
Finalizar ou não finalizar torna-se agora o último e urgente desafio de quem se arrogou desde o início a cronicar sobre o não cronicar. Poderia encontrar um clímax para a nossa ousada metanãocrônica, ou um anticlímax. Ou um final surpreendente ou a surpresa do não-final. De todo o modo, acabamos por aqui mesmo, em uma espécie de metafinal, ou um metanãofinal para uma metanãocrônica.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Texto que te quero dedos

professoralourdesduarte 

Escrever é esparramar-se linguagem pelas extremidades do corpo, pensar com os dedos. Cravar unhas no pescoço, assustando o leitor e então fazer-lhe cócegas.

Dedos tamborilam sobre a mesa e batucam consciências, dedos passeiam por acordes e trazem música ao corpo. O escritor dedilha instrumentos desconhecidos, misteriosos e dengosos.

Um texto é aperto afetado de mãos, desses que tocam apenas pontas de dedos, ou férreo aperto, em que os dedos são torniquetes que capturam corpo e alma. Porque leitor tem coceira nos dedos e quando chega ao texto lambe os dedos com a cara de petiz escondido debaixo da mesa.
    
Os textos tocam campanhinhas e saem correndo e se esticam apontando outro culpado. Textos são indicadores de uma longa lista de suspeitos, ou são polegares que garantem firmeza na pegada. Textos são suporte de pedras preciosas e lugar de alianças douradas.

O dedo médio pode ser invasivo e os textos podem colocar o dedo na ferida ou então acariciar genitais e genitálias. Orgasmos são acontecimentos inesperados, responsabilidade de escritor e de leitor.

Esfregamos os textos quando contentes ou ansiosos e estalamos os textos a cada momento que voltamos a ser crianças. Os textos se reúnem para brincar de mamulengo e formam as mãos que projetam sombra de animais nas paredes.

Jesus lavou com textos os pés dos discípulos e impôs textos sobre cabeças para curar os corpos. Por via das dúvidas, convém lavar os textos antes da digestão ou transgredir as normas sem lavá-los. Pois, no evangelho, o texto manuseia a lei cuidadosamente ou então a rasga.

Texto mindinho, seu vizinho, maior de todos, fura-bolo, cata-piolhos. Talvez fosse bom usar luvas para ler os textos, mas é bom lembrar que Lula perdeu um texto para ser presidente do Brasil e que o menino holandês tapou o buraco do dique com um texto até o socorro chegar.

O dedo de Deus escreve textos de pedra e todos nos tornamos pedras e textos e dedos.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Os fios invisíveis do texto

linha-mestra



O texto não estava bom ou estava somente bom, essas coisas mesmas de texto.

Começara a tricotear, cuidadosamente, mas as linhas e os caminhos não se resolviam. Tentei trocar agulhas e linhas e aventurei pontos de crochê, até abandoná-lo exausto sobre a mesa.
           
Fui dormir e quando acordei o texto estava pronto e estava lindo.
           
Todo aquele trabalho, fazer, refazer e fazer novamente, mas os fios dourados, prateados e multicoloridos não se entreteciam adequadamente.
           
De algum modo, o texto se fez.
           
Rearrumou-se entre os fios e acrescentou novos, alguns invisíveis, percebidos apenas pelo toque. Acrescentou espaços, silêncios, ressaltou entrelinhas e pôs sobre tudo um jeito sutil, um quê e um qual indefinidos.
           
Toquei o texto timidamente, como quem se aventura em novo amor, e as mangas do texto deslizando sobre a minha nuca me causaram arrepios.
           
Precisava ir me achegando ao texto e mostrá-lo por aí, o que foi um processo lento.
           
Passava horas somente olhando e distendia o texto cuidadosamente sobre a mesa, procurando o melhor ângulo para o visitante ocasional, ou então o pendurava descuidadamente sobre um cabide, como quem não faz questão de mostrar.
           
Depois criei coragem, vesti o texto e saí às ruas, sentindo-me belo e imponente.
           
Com o canto do olho, como quem não olha (aquele olhar de adolescente apaixonado), recolhia semblantes surpresos diante do texto e me enchia de orgulho, acompanhado de uma imensa ternura por textos menores.

E ao público, encantado com o texto, derramando-se em elogios, respondia sempre modestamente que não tinha sido o autor, o texto se tecera sozinho.


terça-feira, 6 de agosto de 2013

O texto nosso de cada dia


casadeoracaocehab

Linguagem nossa que estás nos códigos, ressignificados sejam os teus nomes.

Venham a nós tuas metáforas e sejam desenvolvidas as orações assim nas crônicas quanto nos contos.

O texto nosso de cada dia nos dá hoje e perdoa nossa mediocridade, assim como nós perdoamos aqueles que não nos leem.

Não nos deixes cair em solecismos e livra-nos das falácias.

Porque teu é o signo, o significante e o significado, para sempre, amém.



terça-feira, 30 de julho de 2013

A variedade linguística do campo de futebol.

 
radioglobo.globoradio

A língua é um rio caudaloso, em permanente movimento e devir, para onde confluem variados dialetos, um complexo de afluentes que derramam as suas águas nesse único idioma que a todos pertence e que a ninguém discrimina. Do ponto de vista puramente lingüístico, portanto, não existe erro ou vício de linguagem, a não ser quando se rompe a estrutura básica da construção de frases do idioma. O que existem, na verdade, são variedades e variantes lingüísticas diante de um ou mais padrões idiomáticos arbitrados.

Sabia de tudo isso quando entrei no estádio de futebol para assistir a um clássico local, mas me senti um verdadeiro estrangeiro,  estranho e triste estrangeiro em meu próprio país. E logo diante de uma partida de futebol! eu que sou apaixonado torcedor, condenado a ser tricolor até a eternidade! Ausente dos estádios por contingências, nunca por opção, não tive a oportunidade de aprender o dialeto que ali se fala e que hoje é indispensável para qualquer aficionado do esporte que esteja disposto a freqüentar os campos onde se pratica o futebol sem os cortes e as edições dos meios de comunicação.

A variedade que ali se fala, todo o mundo sabe, é uma variedade de uma variedade obscena do jogo de linguagem de baixo calão que a gente aprende desde pequeno, mas que não fica bem falar. A não ser em ocasiões muito especiais, como susto, raiva, dor, topadas e coincidências súbitas (como quando uma inocentíssima e graciosa criança espirra em sua camisa nova), raramente utilizamos o padrão obsceno do qual a variante do campo de futebol constitui-se em específico dialeto.

O problema maior, além da amplidão vocabular, do extraordinário número de verbetes que se fala naquele ambiente, são as nuances, as relações, as expressões idiomáticas e as características especificas de cada um dos vocábulos. Tanto mais afoito quanto mais inexperiente, xinguei bandeirinha com palavrão de juiz e juiz com palavrão de técnico, para desespero da torcida a meu redor que passou a me olhar com hostil desconfiança.

Os desencontros se sucederam durante todo o primeiro tempo. Depois de um lance bisonho, chamei o craque do time de delicado espécime sexual enquanto a torcida aplaudia o seu esforço. Depois da marcação de um impedimento, ofendi a mãe do juiz quando o correto seria ofender a sua esposa. Depois de um gesto obsceno para a torcida adversária, quase fui agredido por um torcedor do meu time porque outro era o gesto adequado. Porque além da difícil linguagem falada, precisa-se aprender ainda toda a dificílima linguagem gestual.

Consegui me portar melhor no segundo tempo porque tive a assessoria gramatical de uma distinta e amável senhora, visivelmente penalizada. Ela me adiantava baixinho a palavra ou o gesto adequados e quando havia tempo ainda me explicava os motivos teóricos, étnicos e gramaticais de tal ou qual aplicação. Por causa disso, podíamos gritar juntos, com todos os nossos pulmões e todo o entusiasmo de nossos corações, os substantivos, adjetivos, verbos e expressões, lingüisticamente adequados a cada situação concreta e expressar gestualmente nosso desprezo, indignação ou comiseração para com os torcedores adversários.

Ainda faltava uma coisa. Não admitia vir a campo sem participar do grande momento artístico em que todos ofendíamos veementemente a genitora do meretríssimo  senhor juiz de futebol. Mas a senhora ao lado me acalmava: “Não,  uma inversão de lateral é muito pouco para se xingar a mãe do juiz”. De repente, porém, pênalti marcado contra nós. Se eu não fosse torcedor, poderia até admitir que o nosso zagueiro não pode derrubar com uma tesoura por trás o atacante adversário. Mas não, era o meu time e o mal nascido juiz tivera a coragem de marcar um pênalti contra nós. Minha bem graduada assessora, fora de si, esquecera de me avisar. Mas não precisava. Todos juntos, em uma reação visceral, formamos um magnífico coro e, em uníssono, ofendemos a distinta, vetusta, digna e anônima senhora que tivera a coragem de não abortar essa disforme e asquerosa criatura que se veste sempre de preto, emite esquisitos sons pela boca e somente rouba para o time adversário..

Depois desse momento, percebi, quase terminada a partida e quase perdido o jogo, que o idioma estava totalmente liberado e explodia no estádio em toda a sua pujança e vitalidade. Todos podiam ser ofendidos com qualquer nome e por qualquer motivo. Até o craque do time, correndo apoplético por todos os cantos do gramado, recebia todo o tipo de epíteto, sendo inclusive comparado àquele estranho e suspeito animal que exibe galhos na cabeça. Não podia deixar de admirar a senhora ao lado que demonstrava constantemente os seus conhecimentos e exercitava competentemente a sua fluência idiomática.

De volta para casa, torcedor derrotado, consolava-me extasiado com a grandeza e possibilidades de nosso imenso e surpreendente idioma. Têm toda a razão aqueles que defendem que devemos estudar mais acuradamente a nossa própria língua e eu estou fortemente determinado a isso. Firmei o propósito, inclusive, de jamais voltar a um estádio, sem antes participar de um curso intensivo da nossa língua pátria, especialmente de algum que tenha em seu currículo o extraordinário e exuberante dialeto do campo de futebol.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Caçadores e amantes


"Walberg Egon
Caça à raposa 


Alguns amigos são excelentes caçadores de textos.
 
Afiam e lubrificam suas armas, treinam e alimentam os cães, e montados em seus cavalos, sozinhos ou com outros caçadores, saem à procura de textos, até encurralá-los habilmente.
 
Quando descobrem um que vale a pena, percorrendo sendas e decifrando pistas, aproximam-se valentemente desse assustado animal e, sem pressa, começam a esfaqueá-lo (porque caçar é uma arte que exige técnica e sangue-frio), recolhendo-lhe o sangue, até dar-lhe com precisão um tiro de misericórdia, e transportá-lo, às vezes em alaridos, para casa.
 
Então, tiram-lhe a pele para a fábrica de artefatos e as carnes, ossos e miúdos para banquetes posteriores, que no texto tudo se aproveita.
 
Os mais belos são empalhados e exibidos como adorno nas paredes. Os mais gordos têm a carne charqueada por longos e ensolarados dias.
 
Participei na casa desses amigos, de banquetes inesquecíveis, onde os textos temperados levemente ou fortemente apimentados, foram servidos ao som de música ambiente em meio ao consumo de licores e vinhos apropriados.
 
Também sou apaixonado por textos, mas os prefiro vivos, em sua imensa capacidade de partilha de dores e prazeres.
 
Não me entendam mal, é necessário um certo clima introdutório, uma piscadela, um leve sorriso, para que o texto me desafie para uma aventura.
 
Gosto, então, de passear e conversar longamente com o texto, em uma amizade que nunca irá passar disso.
 
Convido alguns textos para jantar e, na pista de dança, ensaiamos alguns passos e até alguns carinhos leves, ou beijos introdutórios, mas, mesmo assim, pode não passar disso.
 
De repente, acontece, simplesmente, e nos encontramos juntos e nus na cama, terna ou loucamente entrelaçados, ou as duas coisas. Coisas e segredos da paixão.
 
Nunca casei com um texto, mas já morei com alguns, com maior ou menor liberdade mútua.
 
Os textos que amei e pelos quais fui amado, tenho certeza, continuam vivos por aí, apaixonados e apaixonantes, prontos para um novo amor, nunca colecionados, exibidos ou empalhados, no máximo recordados em sonhos e devaneios.
 
Também gosto de comer textos, mas são muito mais saborosos dessa outra maneira, em meio a orgasmos mútuos.
 



terça-feira, 16 de julho de 2013

Agramaticoalhada


cultura.culturamix 
  
Desde o momento em que descobri que a língua é dinâmica, modificada ao longo do tempo pelo uso e desuso do povo, vivo emimesmado, desejoso de deflagrar ou pelo menos de ajudar a deflagrar uma revolução lingüística. Proponho, inclusive, talvez mania de acadêmico ou então de revolucionário, que abandonemos posturas espontaneístas e organizemos a revolução, propondo novidades e conclamando o povo a integrar as novidades propostas no seu linguajar cotidiano.

Conclamamos primeiro o povo a conjugar nomes próprios que tenham terminações verbais, o que nos permitirá belíssimas e novas concordâncias. Nomes como Jair, Altevir, Althusser, Aguiar, nomes próprios-verbais infinitivos (os gramáticos que depois classifiquem) ou nomes como Caio, nome próprio-verbal presente indicativo, ou Soares, nome próprio-verbal subjuntivo futuro, por exemplo.

As sugestivas conjugações trariam frases do seguinte teor. “O Jafoi viajou a semana passada”. “O Altevirá está se dirigindo para o local combinado”. “O Soaria desistiu de falar amanhã.” “A firma de Caiu abriu falência.” “O Aguiava vendeu o automóvel.” “Tomara que o Althusseja venha logo.”

Ou: “Ó, Javais, aparece logo!” “O Althussera perdeu o emprego.” “Quando Altevieres novamente me informe” (percebam a belíssima elipse do verbo). “Toda a família Soareis aproximai-vos”, ou “toda a família Soareis aproxime-se” (a concordância – se o povo concordar – poderia ser feita das duas maneiras). “O Caindo está jogando bola.”

Conclamamos o povo a criar novos verbos, como o estético verbo adornecer. Percebam a pureza da imagem contida na expressão: “minha criança adorneceu suavemente”. E a criar adjetivos específicos com associados (mas não iguais) verbos específicos. Para a complexa questão da reforma agrária, o específico adjetivo incrabulado. “Os sem-terra estão incrabulados com as providências governamentais.” E o associado, mas discretamente diferente (percebam a força de um “r” a mais), verbo incraburlar. “O Ministério da Reforma Agrária pretende incraburlar medidas cabíveis para desenvolver os assentamentos”.

Há um conjunto de verbos sinônimos (na verdade não há sinônimos, garantem os lingüistas, o que permitiria eruditas discussões) que precisariam ser criados imediatamente. Qual a precisa e preciosa diferença semântica entre os verbos falablablar, falabobar, falabestar e falaburrar? “Em pronunciamento sobre a Reforma Tributária, o ministro falablablou durante duas horas ininterruptas.” “Desculpe-me o companheiro gramático, mas aqui seria mais bem apropriado empregar: o ministro falabestou.” “Sinto muito, mas quem acaba de falaburrar é o companheiro.” E vamos todos assim falabobando.

Criando o verbo supirar estaríamos subentendendo o descomunal e desproposital esforço que se faz em competições e poderíamos garantir (aludindo sem mencionar) inclusive a privacidade de um campeão como o Schumacher depois da conquista do hexacampeonato mundial de fórmula um. Bastava dizer que o mesmo supirou a histórica marca de Fângio e a comemoração descontrolada já teria ficado implícita.

Finalmente, conclamamos todo o nosso politizado povo a incluir no seu vocabulário o paradoxalmente honesto verbo promentir.  Além das vantagens lógicas do seu emprego cotidiano, os políticos poderiam finalmente usar um verbo sem medo de processo legal posterior. “Eu prominto que quando for eleito construirei quatrocentos hospitais e duzentas maternidades neste nosso pequeno porém decente município”. Vejam como seria imprópria qualquer tipo de reclamação: “sua excelência promentiu que ...”

E que continue a caminhar a nossa língua com novas e apropiadas inclusões.


terça-feira, 9 de julho de 2013

Textualizando

gestaleirosdabahia 

Escrevo para pôr um texto de algum lugar em algum lugar e escrevo porque sou texto. As palavras escorrem dos poros enquanto caminho e as frases me encontram em lugares diferentes e mesmo dormindo.

Pertenço ao mundo dos textos e tenho o vício de escrever. O mundo dos textos precedem e procedem a existência e os vícios são viciados. Escrever é vício e escrever sobre escrever é confissão.

Gostaria de escrever poesia, mas não sou devasso o suficiente. Por isso os poemas não se apaixonam por mim. Então transo com qualquer texto, comezinho, desses que se encontram a granel em prateleiras de bodega. Mas sou apaixonado por esses textos vulgares que me possuindo deixam-se possuir; essa ilusão mútua de posse.

Construir poesias é escrever entrelinhas. Escrevo sempre linhas, tão igualmente paralelas, na esperança de que as entrelinhas se mostrem despudoradas em cada leitura.

Textos são sempre inconclusões e sou sempre texto inconcluso, caminho, vereda, senda, sendo. Escrevo textos para nunca me repetir, me repetindo. Para me ler de novo e novamente não me entender. Escrevo pela saudade de me incompreender.

Não sonho com textos perfeitos, busco a cada dia a imperfeição, a insignificância e a invalidez. Gostaria de escrever um texto tanto faz, que pudesse ser não lido pela maioria da humanidade.

Textualizar sobras e vazios, libertar o texto da semântica e continuar produzindo sentido, seria a tarefa máxima que me proporia se pudesse. Na impossibilidade disso, escrevo apenas.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Protextanto com elegantícia lingual

skyscrapercity 


Estando o prefeito desprefeitando e os vereadores desvereando, nós, os fereiros de Santana, resolvemos arruaçar e desfileiramos centro afora e avenida adentro, desencanando o peito e papelando gritos.

A prefeitalha promentiu melhorárias, mas o transtorto cada vez mais desonibusado destransporta inusuários e axavalhaca a populaceira.

Os policieiros cassetetam manifestetes e estudanteiros, mas os representários eleitados pelo povo seguem corruptando.

Somos endoençados pela saúde e maleducados pelas escolas, e as montanharias de verbas são desenviadas e desenlavadas, prejuizando o povarinho.

Poressas e poroutras arruaçamos, desdançantes e festejentos, sanjoanando e sampedrando, e com nossa alegrisia alegoramos uma Feira mais felicenta.

Feira de Santana, princeseira do ser-tão, mulher mamada pela volupreria de politiquitos e desgestores abusentos.

Feira que te quero Feira, criatividáximas dos repenteiros e dos reguistas e dos poetávidos anonimados das perifeirinhas.

Feira que te quero Feira, da juventada arruaceira, dos artisteiros e artisteiras teimosando em embelecer a paisagice.

Feira que te quero Feira, toda arruaçada em passeatismos e manifestices, desaforando o desontem e o desagora e provocagindo o reamanhã.

E nesse humílido protexto, queremos afrontalhar a prefeitância e a corruptalharia desmanticando a gramatiquice, mas com gabardeza e eleganteria.