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quinta-feira, 26 de março de 2020

O coronavírus na VilaMaravila

instituto humanitas unsinos

Marcos Monteiro

Nesses tempos loucos, precisava chegar na Vila Maravila e, aproveitando o primeiro descuido, fugi e fui me esgueirando por ruas, becos, pontes, morros, até descer a gruta e chegar. Encontrei no trajeto olhares hostis, escutei palavrões, constatando que estou no grupo de risco (para os outros), perigo de contaminação da humanidade. Na entrada, a turma da pesada me cercou até chegar Paranísio que depois de uma longa conversa me convidou para a sua casa.

Fiquei surpreso com a casa cheia de gente. A morada de Paranísio e Valdelice é um galpão bem grande, onde tudo acontece inclusive nada, com oito pequenas suítes. Ocupei uma e fiquei impressionado com cerca de trinta pessoas no galpão, junto com suas tralhas e colchonetes enrolados. Valdelice me explicou que faziam parte da população de rua dos arredores e foram convidados a enfrentarem juntos esse momento absurdo que o mundo vivia. Ela chamava isso de “convivialidade profilática”, uma alternativa ao “isolamento social” desse globo capitalista. Paraníso acrescentou que como “socialista de vergonha” tinha vergonha de viver isolado, tipo ermitão medieval, com medo da vida ou da morte.

A decisão pela “convivialidade profilática” tinha sido uma decisão coletiva, como as decisões mais sérias da Vila. Quase um mês antes da “confusão global”, Doutor Rildo conversou com Paranísio sobre os perigos de uma pandemia.  Aí Paranísio conversou com Mãe Silícia que conversou com Zé Cambraia que conversou com Seu Honório que conversou com Cocada e foi todo mundo conversando o tempo todo, discutindo tudo enquanto a vida continuava. Paranísio chama isso de “assembleia de índio” e quando chega a assembleia final está tudo mastigadinho, todo mundo tirando as dúvidas de todo mundo, Doutor Rildo e a esposa Maria das Graças, opinando como especialistas em saúde e então se estabeleceu na Vila, antes do país isolar tudo e todos, a comunidade da saúde.

Então, estou por aqui, na Vila Maravila, não sei por quanto tempo, cuidando do corpo, do coração e do olhar e vou explicando porque.

Paranísio é ateu e Valdelice é filha de santo. Então, como pastor evangélico, nessa comunidade quase socialista, eu me sinto acolhido e privilegiado, até por discutir textos da Bíblia, independente da religião de cada. E um pedaço do Sermão do Monte está há dias martelando na minha cabeça. Convivo há muito tempo com as mensagens do Sermão do Monte, como se fossem bailarinas do evangelho que me convidam a dançar. O que me encanta é que sempre há algum passo novo nessa dança. Vou tentar resumir um pouco dos caminhos da minha cabeça, tentando entender o que ia pela cabeça de Jesus e dos seus primeiros seguidores.

Em todo o ensino e vivência de Jesus, o Pai e o Reino, são duas realidades constantes. Chamar Javé de Pai, no carinhoso coloquial “Abba” podia ser considerada atrevida heresia, e entender esse misterioso Pai de Jesus tem sido complicada e inútil tarefa de minha existência. A questão sobre Deus, não-deus, o sagrado, o divino, pessoalidade, não pessoalidade de Deus, santos, deusas, deuses, infinita pergunta, tem a candente resposta de “Pai”, modo infantil de não responder, vocativo que apenas exclama, sem se preocupar com grandes questões. Leonardo Boff diz que Jesus aprendeu sobre a paternidade de Deus no convívio com seu pai, José. Presentes ou implícitos em todos os textos do evangelho, o Pai e o Reino também são a moldura maior do Sermão do Monte. Mas nesse pedaço específico, gosto de realçar o corpo e dois dos seus componentes, o coração e o olhar.

O Sermão do Monte inteiro se encontra nos capítulos 5, 6 e 7 do evangelho de Mateus e o pedaço que eu tenho ruminado é o texto que vai do capítulo 6, versículo 9 até o 34. Lá pelo meio, os versos de Mateus 6, 21-22 vão dizendo assim para mim:

Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração.
Os olhos são a candeia do corpo. Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio de luz.

Um coração descompassado e olhos brilhando é descrição para alguém feliz e esse texto começa dizendo para não concentrar o coração no dinheiro, não brilhar os olhos para a sedução do consumo. O grande adversário de Jesus era o deus Mamom, deus da riqueza, equivalente ao deus Capital que a Vila Maravila enfrenta o mais possível e todas e todos precisamos, talvez, reeducar o olhar.

Os tempos de Jesus não eram fáceis, com proliferação de muita pobreza e muita doença, e isso era um convite à angústia e preocupação. Um olhar iluminado, no entanto, não olha para a escassez, de comidas ou roupas, mas olha para a liberdade dos pássaros e para a exuberância das flores e consegue enxergar o cuidado do Pai. Nos versos 31 e 32 do capítulo 6, temos um convite a não gastar tanta energia com esse tipo de preocupação.

“Portanto, não se preocupem, dizendo: 'Que vamos comer?' ou 'Que vamos beber?' ou 'Que vamos vestir?'
Pois os pagãos é que correm atrás dessas coisas; mas o Pai celestial sabe que vocês precisam delas.”

A energia que a ansiedade pela falta de comida, bebida, roupa, dinheiro, consome é um desperdício inútil, o qual não acrescenta nenhum centímetro de vida ao nosso tempo. A vida é maior do que o alimento e o corpo é mais importante do que a aparência. Se tirarmos o olhar do que não temos e olhar ao redor, poderemos ver sinais do cuidado do Pai em todos os lugares, pássaros voando, flores brotando, gente se amando, às vezes em lugares inesperados. Mas para que não tornemos essa contemplação do Pai em religiosidade escapista é preciso procurar o Reino de Deus, como diz o verso 33 do mesmo capítulo.

Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas serão acrescentadas a vocês.”

Toda a energia dissipada em preocupação estressante deve ser usada na busca do Reino de Deus, e isso é um convite a uma nova prática. Esse Reino de Deus pode ser entendido como a visão de Jesus de um novo mundo, oposto ao imperialismo romano e à provinciana opressão judaica. A ideia tem uma complexa discussão, ao longo da história, mas pensar em um mundo melhor, próximo das utopias históricas, ou até do bem-viver do Acosta, pode nos ajudar a entender. Um mundo em que palavras como justiça, amor e verdade, se organizam em estruturas e relações diferentes.  Paranísio pensaria, com certeza, em uma Vila Maravila socialista, uma revolução total da política, da economia e das relações culturais e sociais, com muito mais igualdade para todas e cadas.

Chegou a hora do almoço e eu não pude evitar de me sentir em uma ceia eucarística, em que as mãos de Jesus eram as muitas mãos, cozinhando em muitos fogões, gente de todo tipo, idade, religião, orientação sexual, alegria liberada, conversa que nunca parava, diversidade de cores, sabores, assuntos, gentes. O último pedaço do trecho que dançava na minha cabeça era de uma força incomum, o verso 34.

Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã trará as suas próprias preocupações. Basta a cada dia o seu próprio mal.”

Combater o mal de cada dia, é convite a uma atitude teimosa diante de uma tarefa que não parece ter fim. Busque um mundo melhor hoje, combatendo com um olhar luminoso e um coração inteiro, inventando e reinventando a cada dia estruturas melhores e relacionamentos mais equânimes, diante do mal de hoje. Durma bem e quando amanhecer lute intensamente contra o mal de amanhã. Todo dia, aqui, então, estaremos lutado contra esse mal que acometeu a humanidade. Em “convivialidade profilática”, tomaremos todas as medidas para evitar contágio, incluindo o controle de acesso à comunidade, mas não abandonaremos nunca a solidariedade e a busca por um mundo de mais justiça, mais verdade e mais amor. Por causa disso, em plena Era do Coronavírus, os meus olhos estão brilhando.

Recife, 26 de março de 2020.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A TORRE DE BABEL E AS ELEIÇÕES DE 2016

Marcos Monteiro

O corpo estava tão dolorido que parecia que eu tinha levado uma grande surra, um linchamento, e eu sabia que eram as eleições. Até minha dor de dente não parecia comum, como se tivessem jogado as urnas na minha cabeça. Eu me tornara uma metáfora sangradeira ambulante e cheguei na casa de Paranísio me arrastando e propondo que guardássemos o 03 de outubro de 2016, como a data em que o socialismo foi destruído no Brasil. Paranísio me recebeu com um sorriso de ironia e Valdelice com uma gargalhada galhofeira.

– Socialismo não se destrói nunca, pastor, e eleição nunca teve a ver com socialismo.

O modo de olhar da Vila Maravila sempre me surpreendeu e descobri que esses resultados já eram esperados por lá. A diminuição drástica de prefeitos do PT, o minúsculo crescimento dos outros partidos de esquerda, como o PSOL, a vitória esmagadora de candidatos de direita e a boa votação da extrema direita, não parecia nenhuma novidade.

– Eleição e democracia não são coisas democráticas – continuou Paranísio – e esse tipo de democracia não dá certo em lugar nenhum do mundo, muito menos no Brasil.

Modelos de democracia é um tema que Valdelice gosta de percorrer. No seu doutorado de sociologia estudou orçamentos participativos e gestões democráticas e gosta de se debruçar sobre a história da democracia e acompanhar experiências incipientes de democracia participativa, sempre com um olhar crítico porque concorda com o marido, Paranísio, em que o sistema capitalista não abre espaço nenhum para uma experiência realmente democrática.

– Democracia é mercadoria cara que o povo paga mas nunca usa. É jogo de milionário, tipo campeonato espanhol ou liga dos campeões da Europa, que só dá pra assistir pela televisão. Naquelas peladas só joga quem tem muito dinheiro e vai pra o estádio quem pode comprar ingresso em euro. Mesma coisa é câmara de deputado ou de vereador. Clube pra rico bater papo ou xingar a mãe dos outros, de paletó e gravata.

Da subserviência da política diante da economia, a conversa passou para a corrupção e para a questão Lula.

– Se Lula é corrupto ou virou corrupto eu não sei. Mas tenho certeza de que nem é o maior corrupto do país, nem o chefe dos corruptos. Porque corrupto mesmo é o sistema capitalista; e o sistema vai se destruir algum dia porque quem corrompe se corrompe. O socialismo nunca será destruído porque é a crítica e a resistência ao capitalismo. O sistema alimenta um ser humano corrompível e corrompedor, mas também tem gente que não se corrompe. O socialista de vergonha não se corrompe porque não se vende. E a pessoa pode aprender a ser socialista de vergonha. Aqui na Vila tá crescendo uma meninada que dá gosto ver, tudo socialista de vergonha. Até Rito, um moleque bom de bola, que tinha tudo pra tá jogando futebol milionário pra milionário ver, joga mesmo é aqui na Vila, depois de rejeitar tudo que é proposta de se tornar milionário. Agora, pra falar a verdade, eu nem mais sei se Lula ainda é socialista, porque milionário eu sei que tá. Pra mim, isso não quer dizer nada e quer dizer muito. O pessoal quer prender Lula por que? Mais com medo de que ele invente coisas tipo “Minha casa minha vida” ou “Bolsa família” ou mais lugar para pobre na universidade do que por corrupção. Até porque a fila é grande e Lula, se for corrupto, é da rabada. Lula tá milionário, porque foi presidente e eu nunca soube de presidente que não seja ou não fique milionário. Você sabe, pastor, quanto Lula ganha por palestra? Dava pra comprar umas duas fileiras de casa aqui na Vila. Mas isso todo mundo faz e não dá pra acusar o Lula por isso. Agora, fazer confusão por causa de um tríplex e de um sítio, que ninguém prova que é dele, é deixar de fazer confusão com muita gente que todo mundo sabe que tem mais e pode provar fácil.

As categorias de socialista que Paranísio usa são pitorescas e “socialista de vergonha” é uma definição que ele atribui a si e a bem poucos. Lembrei da pirâmide que se usa para representar o sistema de privilégios disseminado pelo mundo todo, quando Valdelice me interpelou:

– Pirâmide? Que Pirâmide? Isso foi dos tempos do faraó... Fiz uma pesquisa da distribuição da riqueza entre as pessoas no mundo de hoje e o gráfico tá mais pra torre do que pra pirâmide. Uma haste que vai se afinando e que é mais longa do que a torre Eiffel e uma base maior do que dez mil Maracanã... Paranísio diz que política é coisa de milionário, pois bem, televisão e comunicação é coisa de bilionário. Lá perto do topo da torre. Não tem nada a ver com o que acontece cá por baixo. Por isso o desassossego. O que é que Bill Gates e os irmãos Marinho têm a ver com chambaril e cuscuz com ovo? E tem mais, eles nem sabem o que estão perdendo... Festa por aqui, com churrasco, cozido, feijoada, cerveja e uma cachacinha caseira, rende muita alegria e ainda sai barato... Porque tem três coisas que a gente sabe fazer bem: pirão, foda e forró... No dia que a gente conseguir estraçalhar a torre o mundo vai ficar muito melhor.

A linguagem escrachada de Valdelice já não consegue me chocar, mas o seu raciocínio me levou por porta transversa a lembrar da Torre de Babel na Bíblia. Uma torre que os seres humanos querem edificar cujo topo chegue até o céu e cujo nome se torne perpétuo. O projeto parecia inofensivo, mas Javé resolve atrapalhar e multiplica as línguas para que os seres humanos não se entendam. Engraçado, demorei a notar que o plano de Javé foi que criou a confusão sobre o harmonioso projeto. Uma torre é símbolo de opressão e uma única linguagem é a linguagem do opressor. O desejável, então, não é a ordem mas a desordem, não é a uniformidade mas a diversidade, não é o entendimento mas o conflito, não é o pensamento único mas a multiplicidade de ideias e ideais. Os mitos bíblicos sempre trazem belezas inesperadas, quando lidos com outro olhar.


Essa democracia que temos e esses processos que alimentamos estão ainda dentro da lógica da torre, do sistema capitalista opressor e vertical. O socialismo é esse espaço de multiplicação de linguagens e discursos fora do âmbito verticalista do capital. Diversidade de gênero, diversidade étnica, diversidade religiosa, diversidade cultural, podem ser incentivadas e multiplicadas pela base, como possibilidade de estraçalhamento da torre e reconstrução de uma sociedade mais horizontal, próxima do socialismo de vergonha que Paranísio tanto defende. Esse espírito socialista é o gen que torna a humanidade mais humana. Precisa ser cultivado cada vez mais, mas jamais será destruído por qualquer resultado eleitoral. Podem perguntar na Vila Maravila.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

O IMPEACHMENT DE DEUS E A VILA MARAVILA

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Marcos Monteiro

Dessa vez fiquei bem irritado. Do mesmo modo que eu respeitava o ateísmo de Paranísio, esperava que ele respeitasse a minha religiosidade. Mas quando cheguei na Vila Maravila e o vi comandando a confecção de faixas, cartazes, dizeres, organizando cânticos e palavras de ordem para sair em passeata reivindicando o impeachment de Deus, não suportei e o interpelei nervoso. Mas ele me respondeu primeiro com aquela gargalhada que eu conhecia e depois foi argumentando pedagogicamente.

– Calma, pastor. O Deus que a gente está denunciando não é o seu não. Estamos solicitando o impeachment de Mamom, o deus do Capital, que está ocupando o púlpito de tudo que é Igreja. O seu Deus é o da libertação, do lado do oprimido e da justiça; o Deus que está agora no comando é o Deus da opressão que discrimina tudo que é minoria e vive fazendo lobby pra burguês, banqueiro e latifundiário. Esse Deus de direita está fazendo o maior estrago. E digo mais: Esse Deus é machista, corrupto, bandido e assassino.

As palavras vinham pesadas, mas o argumento era o mesmo de Gândhi, que afirmava que o Ocidente tinha se vendido a Mamom. Uma ideologia da prosperidade se disseminou por todos os cantos do país junto com uma pregação individualista, que coloca o fervor religioso no circo das benesses e modela um ser humano voltado para si mesmo, preocupado com vantagens pessoais, disposto a correr para a zona do conforto, sempre que gritam a palavra crise, cujo versículo principal pode muito bem ser o dito popular “panela quente, meu pirão primeiro”. Nos cânticos das igrejas, o pronome pessoal “eu” e o possessivo “meu” superam todos os outros, desenvolvendo uma egolatria de consequências nefastas para o cotidiano dos fiéis. Para Santo Agostinho, esse seria o verdadeiro significado da palavra idolatria (adoração do “mesmo”).

Mais uma vez eu tinha de ponderar e tentar pensar do lado de Paranísio, meu socialista predileto, pronto para lutar pelo mundo em que acredita e a construir o melhor socialismo possível em sua querida Vila Maravila. E tive que admitir que o cristianismo de hoje está sendo o “crack” do povo, adormecendo consciências e imobilizando atitudes concretas. Mamom é o verdadeiro Deus das igrejas, e Paranísio defende que todas as religiões estão vendidas e que diálogo religioso só não acontece de modo mais fácil, porque é típico do Capital fracionar e dividir, estratégia que alimenta a cultura de morte. Mamom é um Deus cruel, além de promover sacrifícios humanos em massa, transforma suas vítimas em cordeiros obedientes e passivos, disponíveis para a imolação, doutrinados por uma teologia do martírio muito conveniente.

Mamom também é um Deus vingativo, incitando o ódio contra seus hereges, cerceando seus espaços e dificultando a sua sobrevivência, ou simplesmente lançando-os na fogueira, sem direito a julgamento ou apelação. São muitos os que lutam por um mundo melhor que são simplesmente assassinados.

Fiquei pensando também no aparato ideológico que constitui a teologia do Deus Mamom e dos seus sacerdotes, espalhados por todos os setores da sociedade, mas especialmente pelo setor religioso, considerando, com dolorosa honestidade, cada sermão cooptado, disfarçado de amor ao próximo. Lembrei de Althusser afirmando que o responso litúrgico “amém” é a declaração verbal de uma disposição de aceitação passiva diante de todo tipo de autoridade, seja professor, patrão ou pastor. Com o crescimento do movimento carismático, desconfio que ao “amém” se acrescentou um “aleluia” que não apenas confirma, mas celebra entusiasticamente tudo aquilo que Mamom diz ou faz.

Foi muito interessante lembrar que antigamente os poderes do Capital proibiam religiosos e cristãos de participarem da política. Muitos de nós que queríamos lutar por um mundo melhor, de natureza socialista, éramos acusados de misturar indevidamente religião e política. Hoje toda igreja e todo pastor participa com entusiasmo de uma política partidária, desse partido único comandado por Mamom.

E fui assim pensando e achando que tinha muito mais a pensar, mas era preciso mais do que isso, tomar uma atitude. Então, me juntei a Paranísio e seus companheiros e companheiras e também escrevi em letras garrafais a minha faixa, numa mistura de dor e revolta: FORA DEUS, E LEVE JUNTO A BANCADA EVANGÉLICA.

terça-feira, 15 de março de 2016

A INVESTIGAÇÃO DE LULA NA VILA MARAVILA

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Tenho o compromisso de lançar um texto semanal sobre a política , mas não estava saindo e eu queria falar sobre Lula. Resolvi então correr para a Vila Maravila e pedir arrego para Mãe Silícia, Paranísio e Valdelice. Caminhando encontrei Seu Dolivaldo com a cara fechada de sempre e a conversa curta de cada vez:

 – Lá em casa Lula toma café com pamonha, mas tem que levar o açúcar!

Entendi que na Vila Lula ainda tinha crédito mas precisava dar alguns passos. Há muito tempo, mesmo durante a grande popularidade do mesmo, que o pessoal não vinha totalmente satisfeito com o governo de Lula e Dilma, mas os motivos eram diferentes. O ideário socialista de toda a comunidade, graças à influência de Paranísio e de outros, como a própria Valdelice, parecia ainda muito longe das políticas adotadas pelos governos considerados de esquerda. Teve um tempo em que Paranísio considerou seriamente a possibilidade de Lula ter sido seqüestrado pelo Capital e terem colocado um sósia, um ator, no seu lugar.

Fui caminhando e cruzei com Zé Cambraia e puxei um dedo de prosa. Falei sobre as manifestações nas ruas, sobre as investigações da polícia federal e sobre a pressão dos meios de comunicação sobre as costas de Lula e de Dilma. Zé coçou a cabeça e ficou tentando tirar por menos, mas achei que ele estava meio anuviado e a graça e a leveza de sempre corria meio devagar. Comentei que ele estava meio posando de triste e ele admitiu:

– É, pastor, tou precisando aprender a ser feliz como Zé Cambraia...

Brincar com os provérbios da Vila sobre ele mesmo é um dos jeitos do Zé e a coisa estava associada à força do momento que o país passa, como se o próprio morador, o vagabundo feliz da comunidade, fosse uma espécie de registro sensorial dos tempos.

A conversa com Mãe Silícia, misturada com café quente e pão com ovo frito, foi sobre memórias e perspectivas. A sábia anciã lembrou que Brizola já havia chamado Lula de Sapo Barbudo e começou a dizer:

 – O sapo virou príncipe, mas querem acabar com o reinado e transformar ele de novo em sapo.

Lembrei de como Mãe Silícia havia ficado indignada com o projeto de transposição do São Francisco e a maneira como foi administrado, mas parece que ela estava novamente disposta a perdoar Lula em nome das lembranças e com a saudade do futuro que gostava de anunciar.

Então, cheguei finalmente à casa de Paranísio e Valdelice, o meu objetivo maior e fomos puxando a conversa para chegar a algum entendimento.

Valdelice tem as suas dúvidas, mas Paranísio tem certeza de que Lula vai ser preso e Dilma vai cair:

 – Tem jeito não, o Capital não vai deixar por menos o tiquinho que Lula fez. Pobre mostrar a cara nos cantos, mesmo que seja devagar assusta muito, imagine se Lula resolvesse lutar de verdade pelo socialismo.

Quanto à investigação sobre Lula, Paranísio comenta:

– Lula ficou rico... mas dê uma olhada por aí e veja se existe presidente da república pobre. Todo presidente fica rico se não era antes. Lula tá sendo acusado do que todo mundo fez e faz. Eu queria que Lula fosse melhor do que todo mundo, mas faz tempo que Lula desistiu de ser socialista e agora está sendo acusado pelos capitalistas de ser capitalista. Pode?

Perguntei se ele acreditava que Lula era corrupto e ele continuou conversando.

 – Depende do que o senhor chama de corrupção. O sistema capitalista é corrupto. Ele se alimenta da vida do trabalhador. Então corrompe o principal que é a própria pessoa. Agora, se Lula aceitou propina eu não sei, só sei que ele aceitou presente demais. E aí o companheiro Lula me desculpe, mas isso foi burrice política. Porque sempre existe oposição de olho, esperando somente um dedinho para puxar a queda. Sou presidente do Sindicato dos Ambulantes e não aceito de presente nem palito de fósforo, porque eu sei que a turma pode depois dizer que eu fui comprado ou subornado e lá vai aumentar a minha luta para convencer que não foi assim. Agora, eu acho mesmo que Lula foi o melhor presidente que o Brasil já teve. Mas isso é fácil que os outros foram muito ruins. Sempre achei que ele podia ter feio muito mais... E nessa história de corrupção não escapa político nenhum. Se Lula for corrupto ta na rabada, os primeiros da fila são os que tão acusando. Taí esses entendem de corrupção...

Valdelice fez algumas análises interessantes sobre a conjuntura atual e sobre o momento futuro. Não há dúvida de que o Partido dos Trabalhadores se afastou dos trabalhadores e da juventude, além do projeto de uma sociedade socialista. Amenizar a força do Capital sem apoio dos movimentos sociais e usando os mesmos artifícios de exercício do poder que combatia, mostrou-se tarefa impossível a médio e longo prazo. Os governos do PT em alguns lugares e alguns momentos foram extremamente inábeis e intransigentes diante de greves e movimentos de reivindicação de trabalhadores, professores e policiais, como exemplo especial. Desse modo, a reação da sociedade organizada diante dos movimentos espontâneos (ou manipulados) carece de mais entusiasmo.

Paranísio continuou analisando as coisas do jeito dele.

– Tudo, pastor, deixou de ser tudo. Parece que quando Lula ficou milionário assustou os bilionários. A mídia toda está na mão dos bilionários. É tanto dinheiro que a gente nem sabe calcular. Mas ter dinheiro parece que dá medo, e o pessoal anda nervoso com essa história de pobre poder ficar rico. O que mais quero saber é se essa operação Lava Jato pegar Lula continua pegando todo mundo. Porque se investigar mesmo não sobra ninguém. O senhor sabe que o inventor da guilhotina foi guilhotinado e quem começou essa confusão pode ter colocado a cabeça a prêmio. Eu até inventei uma modinha, parecida com aquela, para cantar algum dia:

 – “Eu gritei pega ladrão, nem fiquei eu meu irmão”.

– Valia a pena o preço que Lula tá pagando se terminasse uma corja bem pior na cadeia. De repente, Lula pode ser o Cristo, pastor, que a sociedade está precisando. Sacrifica-se um boi e salva-se a boiada, mas chifrando tudo que é proprietário. 

Paranísio continou com aquela sua conversa pitoresca e interminável e comparou Lula como um cordeiro no meio dos lobos, não sei se lembrando do evangelho, mas dizendo que Lula posou tanto de lobo, para disfarçar, que pode ter aprendido a uivar de verdade e garantiu de novo que Lula vai ser preso e Dilma vai cair. Então eu perguntei o que vai acontecer com o Brasil e ele respondeu:

– Não dá para saber assim na hora, mas a gente aqui tem uma proposta: Valdelice presidente e Cocada ministro da fazenda. Valdelice é a cara de um Brasil melhor, linda, negra, favelada e doutora. Precisa de mistura melhor?

Fico pensando que isso até poderia dar certo se existissem mecanismos reais de eleição para os candidatos de Paranísio. Mas aí, fiquei me perguntando qual a sua participação no governo e pensei no mesmo como um grande articulador, como ministro da casa civil. Mas ele me surpreendeu, novamente:

 – Que que é isso, pastor?  Nepotismo para cima de mim? Eu ia estar na oposição, de olho... todo governo que se preze precisa de alguém do contra para lutar pelos direitos do povo...


terça-feira, 15 de julho de 2014

UMA COPA COM UMA PRIVADA

Marcos Monteiro

A semana na Vila não foi lá das melhores. Teve a discussão pública entre Valdelice e Paranísio, com barraco garantido e indexação de palavras de baixo calão. E outras discussões com barracos menores porque de casais não tão referendados. Teve a notícia da morte de Plínio Arruda Sampaio, unanimidade local depois de Paranísio apoiar. E teve a gripe com tosse braba de Mãe Silícia que deixa toda a Vila assim com a preocupação meio gripada também. Teve o encerramento da Copa do Mundo com a premiação merecida da Alemanha. Mas, antes de tudo teve a goleada também merecida de sete a um sobre a seleção brasileira dessa mesma Alemanha. E aí foi demais.

Não adiantava Paranísio explicar mais uma vez que Copa do Mundo era somente um torneio entre milionários assistido por milionários porque isso todo mundo entendia sem querer entender. Quando o milionário Neymar quebrou uma vértebra, o pessoal ficou meio quebrado, porque entendia que Neymar era tão bom jogador que talvez até tivesse lugar no banco do atual Maravila F. C, em que o centroavante Cocada ainda reina absoluto, como melhor jogador do mundo, apesar de seus trinta e nove anos.

Sem Neymar, o Brasil ficou dependendo dos milionários Hulk e Oscar que se esforçaram, mas não conseguiram enfrentar os milionários da Alemanha, ainda mais com a defesa sem o milionário Tiago Silva, cumprindo suspensão. Aliás, futebol talvez seja o único lugar onde milionário é suspenso ou expulso. Pena que o milionário Felipe Scolari e os milionários Parreira e Murtori não foram expulsos antes da Copa por algum juiz também milionário, mas sensato, que aproveitasse o ensejo e também expulsasse mais milionários, como os comentaristas tipo Galvão Bueno e outros.

Passar de futebol para a política era passar de Felipão para Dilma, mas novamente para a explicação de Paranísio que nesse sistema capitalista também a política era coisa de milionário. Portanto, a candidatura da milionária Dilma tinha a oposição do milionário Aécio e do outro milionário Eduardo Campos ou de outros milionários ou candidatos a milionários.

Então teve aquele comentário sobre essa estranha Copa em que os pequenos enfrentaram os grandes com muita força e que nem um papa argentino nem um Deus brasileiro conseguiram garantir a taça aqui nesse Brasil que nem sempre lembra que é sul-americano. O comentário somente serviu para Paranísio dar continuidade à sua doutrinação socialista e explicar mais uma vez que também a religião é coisa de milionário nesse mundo em que o único Deus que manda é o Capital.

Então, religião, política e futebol, esse reduto do sistema capitalista, no cotidiano da Vila Maravila, tornou-se espaço de resistência de outra possibilidade de vida, em que a existência não venha com etiquetas com preços afixados. Nesse campinho em que se joga com gosto e por diversão, onde as pessoas convivem apesar de suas diferenças, nessas rodas em que os assuntos se apresentam sem censura e o assunto da religião é benvindo entre outros e nessas reuniões em que as decisões mais importantes são tomadas a partir de longas discussões, futebol, política e religião passam a ser componentes existenciais de vida que não pode ser vendida.

Em uma roda dessas se lembrou dos estádios construídos e dos postos de saúde não construídos, mas entre uma coisa e outra se lembrou da insegurança do torcedor que pode morrer porque um louco qualquer pode lançar uma privada sobre a torcida sem pensar em consequências.

E então, Paranísio, aproveitando a deixa sem dó nem piedade, assegurou que as privadas têm sido jogadas sobre nossas cabeças há muito tempo. A copa do mundo mesmo era uma grande privada arremessada sobre uma grande torcida que paga sem saber o preço das manobras do capital no mundo todo. A FIFA é essa grande empresa privada multinacional que conseguiu fazer do futebol uma imensa fonte de lucro, produzindo, implementando e comercializando essa estranha mercadoria chamada paixão. Estranha essa construção com privada na copa.

Mas também as multinacionais privadas vêm dominando o nosso alimento, o nosso lazer, a nossa arte, a nossa educação, o nosso tempo, o nosso espaço, a nossa vida. As privadas vêm sendo arremessadas sobre as nossas cabeças há tanto tempo e com tanta força que nem podemos entender como sobrevivemos até agora. Somos cidadãos que resistem em um mundo que não compreendemos, precisados de reaprender o significado da palavra violência.

Resta-nos, talvez, a dignidade do pequenino gaulês Asterix que, sob a ameaça do grande império romano, tinha somente o medo que o céu caísse algum dia sobre a sua cabeça. E nesses dias em que a poderosa Alemanha derramou um sete a um sobre as nossas esperanças, podemos continuar enfrentando todo tipo de adversidade e ameaça de fronte erguida, torcedores corajosos e apaixonados pelo jogo da vida, somente com esse medo não mais surrealista de que uma privada caia em algum momento sobre nós.


Feira de Santana, 14 de julho de 2014.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Balanço do ano do governo FHC

esporte


Como se aproxima o fim do ano, o povo da Vila Maravila se reúne para discutir política, o que é praticamente sinônimo de discutir futebol, a paixão política da Vila, compartilhada até por Paranísio, embora com uma certa discrição.

Não há dúvida de que o governo está quase sem prestígio na combativa Vila, cujo time, o Maravila F.C, não conhece há muito tempo o que é derrota.

Não se pode dizer o mesmo do Brasil e a culpa, claro, é do governo. Também quem manda votar em intelectual. Todo o mundo sabe que intelectual só sabe ler e só lê tanto porque nunca aprendeu a jogar futebol.

Por isso, não é de admirar o que perdemos. Perdemos as olimpíadas, a libertadores, a votação para o melhor jogador do mundo (também o pessoal que vota não conhece Cocada), a posição no Ranking da Fifa, sem falar em empresas lucrativas privatizadas por bagatela, e ainda fomos derrotados na saúde inadimplente, no emprego inadequado, nas vagas para escolas etc.

A única coisa que salvou o governo foi a vitória de Guga, o que se não melhorou a popularidade do FHC, pelo menos ajudou a diminuir o índice de rejeição.

Depois disso, uma deslumbrada e inadvertida ONG estrangeira doou milhares de bolas de tênis para o Sindicato dos Ambulantes de Vila Maravila que já distribuiu as bolinhas amarelinhas com os moradores que têm crianças, bolinhas acompanhadas de suas inseparáveis raquetes.

Só tem um único porém. Se o objetivo era incentivar o desenvolvimento do tênis dificilmente será alcançado.

Agora dá gosto de ver o modo como todas as crianças da Vila Maravila praticam o tênis.  Fazem embaixada com a bolinha de tênis, rachas diversos com a bolinha amarela, treinam chutes, cabeçadas, dribles, passes de calcanhar. Só não metem a raquete na bolinha que bola, todo o mundo sabe, tem de ser tratada com carinho e leveza e com os pés. A raquete serve para marcar o lugar das traves e outras coisas mais.

Se continuar assim, Guga poderá no futuro se orgulhar de, através da gugomania, ter revitalizado o futebol do país.

(Esse texto se encontra no livro “Vila Maravila: um lugar diferente e cheio de graça”. O livro pode ser adquirido em contato com o autor ou na Livraria Nobel, Av. Maria Quitéria, 2013, Feira de Santana – BA. Da mesma maneira você pode encontrar o segundo volume: “Vila Maravila: gols de esperança no campo da vida”)

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

A ira de Mãe Silícia


Geralmente tranqüila e pacata, Mãe Silícia de vez em quando me aparece respirando ira e revolta e, nesses momentos, eu sinto como se ela tivesse mil anos e me encolho como se fosse culpado de sua incontrolável indignação. Nessa ocasião, um jovem casal, novos moradores da Vila, fora encontrado assassinado e, de entre os seus braços, misturada com o sangue dos pais e chorando sem parar, foi retirada a sua filhinha recém-nascida.

– A violência desce de cima e acaba com os debaixo. E o pior é que a violência dos ricos se transforma em violência de pobre contra pobre – disse, revoltada e quando tentei acalmá-la me desafiou imponente: –  E Jesus nunca ficou com raiva?

Baixei a cabeça envergonhado de mim mesmo e me lembrei do romance de Nikos Kazantizakis, “O Cristo recrucificado”. Uma aldeia grega se prepara para a encenação anual da paixão de Cristo e Monolo, jovem pastor de ovelhas e artesão de ícones, escolhido pelo pope local para representar o Cristo, se envolve com os miseráveis habitantes de uma outra aldeia destruída pelos turcos. Enxotados pelo pope local, cioso de sua abastança e resolvido a não comprometer a própria segurança, são socorridos apenas por Monolo e outros poucos aldeões simples que representariam, na peça da paixão, alguns dos apóstolos. Capturado ao tentar roubar provisões para os miseráveis, Monolo é condenado à morte e compartilha, assim, o próprio destino do Cristo que iria representar.

Mas o detalhe mais importante dessa história, emblema do drama que ali se reproduzia, era o ícone de Jesus que Monolo construía ao longo dos acontecimentos. De início pacato e tranqüilo como a própria inocência e boa vontade iniciais de Monolo, o rosto de Jesus torna-se, no final, crispado de fúria, como provavelmente estaria ao expulsar, de chicote na mão, vendilhões e derrubar mesas de cambistas no templo de Jerusalém. Transformado de casa de oração em covis de salteadores, de símbolo de libertação em centro de opressão, o templo merecia não a reverência, mas a fúria do Filho de Deus. 


E eu fico me perguntando se Deus, por um breve momento, apenas por um breve momento, não deveria sustar a sua misericórdia e derramar a sua fúria não sobre as conseqüências, mas sobre as causas, sobre a violência institucional e orçamentária organizada por um poder que privilegia bancos e gigantescas construções suspeitas e esquece enfermos, desempregados, subempregados, aposentados, professores e funcionários públicos. Quem sabe seja a hora de se deixar vibrar novamente a ira de Mãe Silícia e o chicote de Jesus Cristo.

(Esse texto se encontra no livro “Vila Maravila: um lugar diferente e cheio de graça”. O livro pode ser adquirido em contato com o autor ou na Livraria Nobel, Av. Maria Quitéria, 2013, Feira de Santana – BA. Da mesma maneira você pode encontrar o segundo volume: “Vila Maravila: gols de esperança no campo da vida”)

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Um lateral chamado Biuzão

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Segundo seu Madeira, o melhor time de futebol de todos os tempos foi a seguinte formação do Maravila F. C. que todos os moradores sabem de cor e salteado de tanto ouvir seu Madeira recitar, naquele honroso e consagrado quatro dois quatro que ninguém quer mais usar.

Terêncio, Biuzão e Magela. Loureiro e Genival. Rubenírio e Aratunga. Roído, Rapaz, Biu do Efeito e Caçula. O técnico era Aroeira.

Biuzão tinha fama de grosso, mas não era grosso. Era que com a lapa de perna que tinha e com o tamanho e musculatura do tórax, era um milagre que conseguisse dominar a bola e matar a faceira no peito. Mesmo assim ele a dominava. É verdade que quando  resolvia partir, esquipando, resfolegando e relinchando para cima dos adversários, o outro time tremia e até a redondinha desejava sair de perto. Ninguém segurava. Milicunha do Ipiranga, sempre o Ipiranga, armou um toco na maldade e Biuzão sentiu, mas Milicunha foi direto pro hospital com fratura na tíbia e torcicolo no pescoço, tamanho foi o choque. Um tiro de Biuzão, goleiro tinha de ter técnica para desviar, senão quebrava a mão. Se tentasse segurar, entrava com bola e tudo, o juiz marcava o gol e expulsava o besta pela loucura.

Biuzão só não fazia mais gol, porque delicado e educado como ninguém, evitava o máximo as arrancadas ou os tiros certeiros em direção ao gol, como se pedisse desculpa pela força descomunal de que dispunha. O técnico Aroeira, desesperado por dispor e não dispor desse recurso colossal, vivia tentando descobrir meios de fazer o Biuzão perder a enorme paciência (bem maior ainda do que os seus bíceps, tríceps ou quadríceps -  sei lá),  único caminho de levar Biuzão a fazer irresistíveis gols. Roído, a mando do técnico, só conseguira uma vez.  Nas outras vezes, só conseguira mesmo fora dobrar o Biuzão (maior aficcionado de suas brincadeiras) de tanto rir, pondo inclusive partidas em situação de risco. 

Um dia, Roído tirara uma brincadeira com Maria Odete e finalmente despertara o ódio alucinado de Biuzão. Mas a reação não fora a esperada arrancada em direção ao gol adversário. Biuzão partiu mesmo foi para cima de Roído, levantou-o pelo pescoço e o Maravila F. C. somente não ficou sem o seu luminar ponta direita porque a ira de Biuzão do mesmo modo como viera passou subitamente. A partir daí, nem Roído nem ninguém tirou mais qualquer tipo de brincadeira com Maria Odete.

Biuzão era um entroncado e atarracado mulato de olhos verdes. Mas, se era musculoso,  era muito mais delicado e gentil. Pelo tamanho do bíceps (tríceps?), porém,  ninguém se atrevia a pensar, quanto mais a insinuar que era homossexual, mesmo quando ninguém o via com mulher. Naquela época (seu Madeira teve o cuidado de contar) dezessete mocinhas de boa família viviam suspirando pelo Biuzão que só suspirava por Maria Odete (segredo descoberto muito depois) que não suspirava por ele nem por ninguém.

Foi nesse período que Biuzão começara as suas famosas e irresistíveis arrancadas que quase o tornaram no grande artilheiro do time, desbancando mesmo o consagradíssimo Biu do Efeito. Na decisão do campeonato, contra o famoso Ipiranga, Biuzão fez quatro gols em uma partida só. Dois de irresistíveis arrancadas, um de falta e outro de um tiro de longa distância, cuja violência furou a rede e derrubou uma jaca de uma frutífera jaqueira a cerca de vinte metros do campo de futebol suburbano. O resultado final sete a cinco completa a inesquecível história do primeiro tricampeonato do Maravila F. C. Carregado em triunfo, a alegria de Biuzão exibia lampejos de melancolia.

Um dia, entretanto, Maria Odete tropeçou e foi imediata e instintivamente amparada pelo tímido e musculoso abraço de Biuzão. Ali cruzaram os olhos, as almas e as vidas tão plenamente, a ponto de Biuzão abrir imenso sorriso que só conseguiria fechar oito meses depois, passado o efeito da surpresa, permanecendo entretanto a face de beatífica felicidade infinita. Maria Odete, naquele mágico instante, tornou-se para Biuzão o que Biuzão já havia se tornado para Maria Odete, fechada assim essa equação de primeiro, segundo, vigésimo e milionésimo grau, extinguindo-se, para desespero do técnico Aroeira, o motivo para as frutíferas arrancadas e tiros de longa distância de Biuzão.

Foi quando Aroeira, que técnico excepcional era Aroeira, descobriu uma nova maneira de Biuzão fazer gol: comemoração e homenagem.

Em sua perspicácia, Aroeira sabia que não podia abusar e que era preciso convencer Biuzão da validade tanto da homenagem quanto da comemoração e tudo tinha de estar relacionado com Maria Odete.

Seis meses de namoro e olhe o motivo para um gol de comemoração; a beleza e a simplicidade de Maria Odete e eis um motivo para outro gol. Nunca na mesma partida, mas Aroeira tornou Biuzão o artilheiro mais regular do time. Um gol por jogo, religiosamente, para a mãe, o pai e as três irmãs de Maria Odete ou pelo aniversário de Maria Odete, a aprovação de Maria Odete em determinada matéria, como aplicada estudante que era, a cura de Maria Odete de um resfriado, e haja descobrir e reinventar a cada jogo, além do esquema tático do time, o motivo para o garantido gol de Biuzão.

A fórmula só terminou quando Biuzão resolveu abandonar o futebol. E foi assim, sem mais nem menos, no meio de uma partida importantíssima, depois de fazer o gol que homenageava o aniversário de um ano do primeiro filho de Maria Odete, Biuzão saiu tranqüilamente do gramado, sem pedir licença para ninguém, e, tomando a criança no colo e dando o braço para Maria Odete, foram caminhar, passear, sorrir e viver a vida sem mais jogar futebol por obrigação. Assim, do campo para a história, de noventa minutos estruturados e concretos para o jogo mitológico da fama. Desespero de Aroeira, saudade dos torcedores e prestígio eternizado de Biuzão que, de vez em quando, para matar a saudade, participava de um ou outro racha.

(Esse texto se encontra no livro “Vila Maravila: um lugar diferente e cheio de graça”. O livro pode ser adquirido em contato com o autor ou na Livraria Nobel, Av. Maria Quitéria, 2013, Feira de Santana – BA. Da mesma maneira você pode encontrar o segundo volume: “Vila Maravila: gols de esperança no campo da vida”)

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Boca do diabo e coração de Deus


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Sei que já falei da surpreendente ira de Mãe Silícia, quando a matrona da Vila Maravila torna-se a própria encarnação da justiça. Mas, como descrever o destempero, avassalador e sem limites, a enxurrada de palavras de baixo calão, o repertório reprimido pela sensatez cotidiana, despejado todo assim, de vez, sobre um réu ausente, mas evidentemente criminoso?
              
Encabulado, vermelho e sem saber o que dizer, tentei não sei com que frases de efeito apaziguar a sábia e ela voltou-se em gargalhada exuberante e novamente inesperada sobre a minha vexatez. E reassumindo o costumeiro e paciente timbre cotidiano de mestra da vida, desenrolou mais uma de suas histórias sobre esse Jesus que passeava pelas ribanceiras dos morros e pelas beiras dos açudes do Nordeste, acompanhado ou não de conhecidos discípulos.
              
Caminhando ao lado de Pedro, esse companheiro de tantas histórias, observava um vaqueiro correndo descontrolado sobre as suas reses inquietas, abrindo a boca em xingamentos que ilustravam a sua evidente exasperação. Pedro, intempestivamente, como sempre, critica o comportamento tresloucado do campeiro, talvez insinuando alguma necessidade de intervenção de Jesus, quando o Mestre o interpela:
              
– “Calma, Pedro. Boca do diabo, coração de Deus.”
              
A peregrinação continua até que chegam a um lugar, onde um pastor evangélico (e nessa altura da narrativa, eu tenho quase certeza de identificar um brilho de ironia nos sempre sensatos olhos de Mãe Silícia) faz brilhante e exultante prédica, a ponto de Pedro, emocionado, com lágrimas de gratidão, olhar Jesus de soslaio e desmanchar-se em elogios, novamente esperando alguma ação concreta, uma palavra, uma bênção, um milagrezinho favorecedor do Filho de Deus. Mas esse, inesperadamente, apenas declara:
              
– “Calma, Pedro. Boca de Deus, coração do diabo.”
              
Minha reação foi de uma grande gargalhada, talvez grande demais, talvez nervosa demais, como quem veste rápido demais a carapuça.
              
E honestamente, gostaria de parecer muito mais com Mãe Silícia e sua sabedoria, sensata ou não, temperada ou não, comedida ou não. O púlpito, o aconselhamento e a vida religiosa nos faz a todos iguais, modulando a mesma voz monótona, repetindo os mesmos gestos exóticos, controlando as emoções e a vida.
              
E de tanto repetir o mesmo script, de tanto pronunciar as mesmas palavras, de tanto balbuciar a palavra Deus, o nosso coração vai se esvaziando ou se endurecendo, perdendo a sintonia com o ritmo da própria vida. A nossa boca pode até ser de Deus, mas o nosso coração cada vez mais é diabólico. Não será exatamente essa a advertência de não se tomar em vão o nome dele? Não exagerar no controle?
              
Descontrolar-se, se preciso for, reaprender o caminho da transparência, deixar a palavra feia desentupir as veias do coração, para que esse se aquiete no riso franco e o corpo caminhe leve; e a boca pode se encher do diabo para que paradoxalmente o coração seja de Deus.


(Esse texto se encontra no livro “Vila Maravila: um lugar diferente e cheio de graça”. O livro pode ser adquirido em contato com o autor ou na Livraria Nobel, Av. Maria Quitéria, 2013, Feira de Santana – BA. Da mesma maneira você pode encontrar o segundo volume: “Vila Maravila: gols de esperança no campo da vida”)

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Seleção brasileira de turistas e aposentados

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Para o pessoal da Vila Maravila, quando a seleção ganha não faz mais do que a sua obrigação e quando perde a culpa é mesmo do técnico que já começa a falhar na hora da convocação. Este, com a sua mania incontrolável de chamar jogadores estrangeiros e de escalar jogadores antigos que vivem se arrastando em campo, tem demonstrado muita capacidade para dar nó em gravata, mas nenhuma para acertar e comandar o time.

A suspeita de todo mundo, nas rodas de conversa da vila, é de que outros interesses comandem a lista de convocados e a escalação de jogadores durante as partidas. Para Paranísio, socialista convicto, presidente do sindicato dos ambulantes da Vila Maravila,  o técnico com certeza recebe muito dinheiro por fora, por conta de acordos que interferem na administração da seleção. Com certeza, convoca tantos estrangeiros assim para incentivar o turismo e tantos jogadores antigos talvez por receber dinheiro dos companheiros do sindicato dos aposentados.

Que a nossa seleção entende mais de turismo e de lazer do que de dribles e gols é a opinião de todo o mundo. Por isso, a facilidade com que aceitaram o passeio do Chile e o conformismo com que fizeram fila para os dribles de Salas e Zamorano. Aliás, filas e aposentadoria são praticamente sinônimos na realidade brasileira e todo aposentado tem sido driblado cotidianamente pela jurisprudência nacional.

Para tranquüilizar o pessoal, o Doutor Rildo, médico da vila e ala direita do Maravila F. C., bom de bola e de estetoscópio, garantiu que o departamento médico-geriátrico da CBF estará cuidando o melhor possível de nossos atletas para que na próxima partida o time tenha um desempenho melhor. Pena que não possa garantir a mesma coisa por parte do INSS para os nossos outros aposentados.

Aposentados por aposentados, Paranísio garante que os nossos são melhores do que os da seleção, já que pelo menos os nossos são obrigados a trabalhar para sobreviver porque a pensão sozinha não dá nem para pagar entrada em jogo de portões abertos. Os aposentados de seleção não trabalham, mas curiosamente ganham bastante dinheiro. 

Em vista disso, depois da vergonhosa derrota dos milionários “velhinhos” para o Chile, Paranísio sugere aos companheiros do sindicato dos aposentados que parem de gastar dinheiro subornando treinadores e comecem a lutar por isonomia e equiparação de pensão salarial entre todos os aposentados do país e os aposentados da seleção brasileira de futebol.


(Esse texto se encontra no livro “Vila Maravila: um lugar diferente e cheio de graça”. O livro pode ser adquirido em contato com o autor ou na Livraria Nobel, Av. Maria Quitéria, 2013, Feira de Santana – BA. Da mesma maneira você pode encontrar o segundo volume: “Vila Maravila: gols de esperança no campo da vida”)

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O avesso do avesso do avesso do avesso

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Numa Vila Maravila futebolizada e politizada, a questão somente poderia ir do prêmio de Kaká, como o melhor jogador do mundo, para a constante questão na Vila sobre a transposição do Rio São Francisco. O prêmio para Kaká, todo o mundo concorda, é quase merecido, porque ninguém teve até hoje a raça de admitir o que é evidente: o melhor jogador do mundo é o Cocada, artilheiro-mor do Maravila F.C. Cocada reúne em um jogador só a arrancada habilidosa e chute certeiro de Kaká, a velocidade criativa do Messi, a inventividade de Cristiano Ronaldo, fora a classe de Ronaldinho Gaúcho e capacidade do drible de Robinho.
           
Paranísio, que gosta de esquentar uma discussão, pergunta porque o capital não dá prêmio para o melhor cidadão do mundo e o povo da Vila já quer se mobilizar para criar o prêmio e entregá-lo ao próprio Paranísio, o famoso presidente do sindicato dos ambulantes de Vila Maravila, quando este faz uma cara de indignação e desenvolve o seu discurso de hábil orador popular em favor do bispo Dom Frei Luís Flávio Cáppio.
           
– Este sim é que é cidadão! – Quando quer contestar o governo, dispensa até mesmo os benefícios do programa “Fome Zero”! – arremata, em uma nada sutil alusão ao prolongado jejum de Dom Cáppio.
           
Para o combativo e socialista líder comunitário, o que se passa ali é uma visível aplicação da dialética de Caetano Veloso em Sampa: “o avesso do avesso do avesso do avesso”.
           
– Oi! – pergunta Dolivaldo – e o avesso do avesso do avesso do avesso não é o direito?
           
– Não! Nunca! Jamais! Direito parece com direita, mas a direita está sempre errada e é, portanto, companheiro, o primeiro avesso. Sempre que a gente vê um avesso tenta desavessar, mas vem a direita e quer desavessar a desavessidade e a gente tem de partir para o combate e desavessar o desavessado de novo. Perceba, companheiro: o avesso do avesso do avesso do avesso é o avesso dialético.
           
E para exemplificar, traz a questão do dia.
           
– O projeto de transposição do Rio São Francisco, companheiro, é o primeiro avesso que a direita quer colocar güela a dentro da população. Aí vem o companheiro bispo que, mesmo crendo em Deus (Paranísio é ateu e acha que quem crê em Deus fica esperando sem fazer nada), desavessa o projeto avessado na base do jejum. Isso é que é cidadão. Disposto a passar fome para todo o mundo poder comer. Reparem bem, companheiros, esse é o espírito do socialismo: primeiro a coletividade, o bem comum. Posso até morrer, se isso for estratégico para que venha o socialismo.
           
Mas, Seu Dolivaldo quer contestar, o que Paranísio admite com paciência. O diálogo e a discussão faz parte do processo de politização e de conscientização, sempre defende. Todo o mundo tem o direito de emitir sua opinião, até mesmo o reacionário. No diálogo, explica, há uma luta dialética de vogais. Todo o mundo tem o direito de emitir e ninguém tem o direito de omitir o seu parecer, o seu pensamento, o seu argumento, as suas elaborações dialéticas.
           
– Mas o jejum não deu em nada – rebate então o encorajado Dolivaldo.
           
– Porque o mais importante não é o resultado, mas o procedimento dialético. Quando o governo desavessou o desavessamento do bispo, não pôde fazer do mesmo jeito. Só começou as obras na base da força, com o exército para garantir. Então já começou a luta derrotado, porque exército garante soberania nacional, mas ali o governo usou os companheiros armados (que não têm consciência social porque não interessa aos poderosos) para defender os interesses estrangeiros. Mas o balanço dialético parou? Parou nada!!! Isso é que é cidadão!!!! Voltou o jejum e agora para tudo ou nada! Já vai mais de vinte dias!!! Pensa, o que é isso? Passar fome vinte dias... Porque o encaminhamento dialético vai engrossando o caldo. A força do fraco vai ficando cada vez mais forte. A mídia quase não deu destaque, Lula ficou falando de CPMF só pra disfarçar, mas o bispo continuou. Cidadão arretado!!! E agora, quero ver se o homem morrer, o que acontece... Vai ou não vai ter revolução?
           
O pessoal ficou quase dois minutos sem dizer nada até que Seu Madeira quebrou o silêncio para explicar o embaraço geral.
           
– Você parece que falou mal do Lula. E agora?
           
E Paranísio que defendeu Lula, até duas horas atrás, como o único socialista de vergonha do país (fora ele mesmo e o seu pessoal ambulante), admitiu.
           
– A insensibilidade do companheiro Lula para a questão do rio está me cansando e enchendo as medidas. A não ser que Lula tenha sido seqüestrado pelo Capital Internacional e venha agindo sob a coação discreta de armas – arrematou teimosamente esperançoso.


(Esse texto se encontra no livro “Vila Maravila: um lugar diferente e cheio de graça”. O livro pode ser adquirido em contato com o autor ou na Livraria Nobel, Av. Maria Quitéria, 2013, Feira de Santana – BA. Da mesma maneira você pode encontrar o segundo volume: “Vila Maravila: gols de esperança no campo da vida”)

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

No dia em que os últimos foram os primeiros

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A vitória de Rubens Barrichello, no domingo 30 de agosto de 2000, empolgou os moradores, e ocupou o espaço das discussões sobre futebol na Vila Maravila. Rubinho, motivo de piadas dos moradores saudosos de Ayrton Senna, ganhou a admiração de todos ao sair no décimo oitavo lugar e chegar dramaticamente em primeiro, em sua primeira vitória na Fórmula Um.

O que ninguém entendeu foram as lágrimas. Sair entre os últimos e chegar entre os primeiros, para o pessoal da Vila Maravila, é a própria história, comum e trivial, de todo morador. O Maravila F. C, pentacampeão do campeonato suburbano do Recife, era um time desacreditado por muitos antes do técnico Poeira assumir, mas está aí. O Doutor Rildo nasceu na Vila, criou-se na Vila, formou-se em Medicina e continua até hoje morando na Vila e dando suas consultas na clínica médica de lá.

– O Doutor Rildo é pequeno-burguês mas merece o nosso respeito -  definiu Paranísio,  socialista convicto,  presidente do sindicato dos ambulantes de Vila Maravila.

A própria Vila está em plena corrida de recuperação, aproximando-se cuidadosamente da reta final, “a um agá da vitória”,  nas palavras de Paranísio. Rubinho só fez confirmar,  para as esperanças da Vila,  que a vitória também está ao alcance de quem sai atrás.

O que o pessoal reclama hoje é que foi água demais. Água na pista, água nos olhos de Rubinho e água derrubando barracos na cidade. Ainda bem que não caiu barraco na Vila Maravila. A chuva que fez bem para Rubinho fez muito mal para as vítimas das enchentes, os mortos e os desabrigados.

– A chuva é a mesma; o que muda são os baldes e as cacimbas – decretou Mãe Silícia, na sua enigmática sabedoria. Olhou para mim e acrescentou: – Não vou explicar nada; quem quiser que interprete. E eu passo o recado adiante: “quem quiser que interprete”.


(Esse texto se encontra no livro “Vila Maravila: um lugar diferente e cheio de graça”. O livro pode ser adquirido em contato com o autor ou na Livraria Nobel, Av. Maria Quitéria, 2013, Feira de Santana – BA. Da mesma maneira você pode encontrar o segundo volume: “Vila Maravila: gols de esperança no campo da vida”)