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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O PEREGRINO ARTUR


Artur peregrina há muito tempo. Saiu diretamente das páginas da Bíblia para caminhar pelos grotões do Nordeste e atraiu um grupo de peregrinas e peregrinos ao redor de si.

Artur é índio disfarçado de europeu e tem a sabedoria bíblica do indígena, que todo o mundo sabe foi quem escreveu o livro santo e que Jesus era índio. Nas mitologias ameríndias aparecem brancos enviados pelos deuses para peregrinar com a gente. Artur é índio branco que conhece os caminhos.

Talvez seja mais preciso dizer que os caminhos conhecem Artur e se assanham para acompanhar suas passadas. Quando Artur passa, a natureza se oferece sem pudor e as árvores dançam. As frutas caem direto no seu farnel e as abelhas se afastam com delicadeza para que o mel seja colhido.

Cacique tupiniquim que não manda em ninguém, mas que as coisas sempre acontecem do seu jeito. Todo dia, o grupo de Peregrinas e Peregrinos do Nordeste escolhe um novo guia, mas cada uma só consegue guiar apoiada no seu bordão que já percorreu todos os caminhos possíveis.

Todos caminhamos sob a liderança invisível de Artur Peregrino. Sua palavra mansa se torna força de proclamação na ressonância dos missionários de todos os tempos e lugares, tipo de cantoria que convida povo antigo para novo tempo:

Quem roubou não roube mais,
Quem matou não mate mais.

Proclamação de um evangelho que nunca olha pra traz, mas indignação profética que surge quando a opressão deixa de ser disfarçada e querem barrar os caminhos. Nesses momentos, Artur se torna mais bíblico do que nunca e a coragem de quem caminha com Javé enfrenta o poder de quem só entende de sinalização (“pare”, “siga”), como se peregrinação entendesse de placas.

Os pés de Artur sofreram cirurgias capazes de imobilizar qualquer um, mas a peregrinação tem de continuar e Javé lhe emprestou um pouco do barro criador e lhe mostrou seus segredos mais secretos. E no caminho, o peregrino Artur faz aquelas aplicações de argila que todos os santos, profetas, índias e bruxas sempre conheceram, e caminha.

Quando não está caminhando, Artur Peregrino está dando aula na Universidade Católica de Pernambuco e eu gostaria de assistir para ver se ele consegue ficar parado. Qualquer dia desses, ele rompe os limites das paredes e sai assim um professor meio aristotélico, meio peripatético, meio peregrino.

Porque eu sei um segredo desses que todo mundo sabe. Artur nunca vai morrer porque nunca aprendeu, só sabe viver e peregrinar. Um dia ele vai organizar uma peregrinação pela Via Láctea e claro que um bocado de gente boa vai participar. Algumas pessoas bem famosas que eu sei já fizeram inscrição: A Virgem Maria, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

A última peregrinação de Carlos

Setur.rs

Carlos era o peregrino, aquele que sabia de peregrinação mais do que todo o mundo, sem que ninguém precisasse ensinar porque já nasceu peregrino, sabendo que a vida é uma infindável peregrinação.
           
Quando todos nós do grupo de peregrinas e peregrinos do Nordeste fizemos a  peregrinação de julho de 2007, Carlos foi o peregrino de sempre, cantador, falador, reclamador, elogiador, mas acima de tudo peregrinador.
           
Impaciente conosco, aprendizes de peregrinos, sempre seguia peregrinando. Dormir, talvez, mas só de vez em quando, comer, somente se tiver, meditar e fazer silêncio, bastam alguns segundos, nada pode atrapalhar o ato da peregrinação.
           
Carlos seguia na frente, às vezes perdido de nossa vista, resmungando e peregrinando. Perto de nós, tocava o pandeiro e compunha a canção, no ritmo do momento, no sabor do caminho caminhante. 
           
Na caminhada, carregava com leveza o seu passado, desde que ninguém atrapalhasse seu projeto de caminhar, o que infelizmente sempre acontecia. Os outros dormiam demais, comiam demais, descansavam demais, sobrando pouquíssimo tempo para os caminhos. Porque Carlos dormia depois e acordava antes, cantando com sua voz rouca qualquer canção que nos despertasse a todos: era preciso peregrinar.
           
Antes do sol, antes do vento, antes da chuva, era a hora de começar e parar somente depois que a última estrela dormisse. Porque viver era caminhar.           
           
Não sei que crime Carlos cometera, mas nenhum pode ter sido maior do que o crime que cometeram de o trancafiarem em uma penitenciária por intermináveis vinte anos. Imagino Carlos caminhando em círculo no exíguo espaço de uma cela superlotada, abrindo caminho aborrecido entre os outros prisioneiros, não dispostos a percorrer caminhos tão impossíveis.
           
De volta à vida e a sociedade, Carlos encontrou o Caminho e o Jesus do caminho, e tornou-se o Carlos-de-todos-os-caminhos, o Carlos-do-sempre-caminhar.
           
Nos diversos caminhos em que caminhamos juntos, não sabíamos o que fazer com Carlos, mas não imaginávamos caminhar sem Carlos. Carlos era aquela figura complexa. Simples e complicada, ao mesmo tempo, servo de todos e senhor de si, que, rotulado de ignorante, sabia que sabia mais do que todos nós juntos, porque sabia a única coisa importante: sabia caminhar.
           
Impaciente com a nossa ignorância, tentava nos revelar o mais simples segredo da vida. O problema não são os caminhos, o problema é o lugar. O lugar é a tentativa absurda de encerrar o caminho e de fixar as pessoas. Um caminho nunca tem fim e pessoas não se plantam, plantam-se árvores. Mas apesar dessa ser a sabedoria mais antiga e mais elementar da humanidade, insistem ainda em finalizar os caminhos e plantar as pessoas.
           
Ninguém tem dúvida, Carlos cansou. Cansou de peregrinar na terra, chegou ao seu limite de suportação e resolveu peregrinar nos caminhos do céu. O peregrino Paulo César foi quem nos advertiu: ele havia nos avisado, era a sua última peregrinação.
           
Agora, temos certeza, começa a saciar a sua sede de infinito, porque está onde os caminhos nunca terminam e onde não há falta de caminhos.
           
Nós, por aqui mesmo, continuaremos a peregrinar, lembrados do seu pandeiro, saudosos da sua rouca voz reclamante, tardiamente atentos às lições que nos deixou. Quando uma folha se bulir lá na frente, quando uma árvore se mexer ao nosso lado, quando ouvirmos um assovio inesperado, abriremos um sorriso largo.
           
E aquilo que desconfiávamos se fará certeza. Carlos continua peregrinando ao nosso lado e à nossa frente.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Para sempre Sandra Peregrina




Para não variar, Sandra Peregrina acelerou a passada, nos ultrapassou e desapareceu lá na frente, nas curvas do caminho, no mistério de uma vanguarda que nos espera algum dia.

Satisfeita com suas peregrinações na terra, na sua ânsia jamais disfarçada de novos caminhos, foi peregrinar naquela realidade adiante que chamamos céu e que ninguém sabe o que é.

Sandra sabe. Impaciente, já descobriu e já está agindo por lá, desorganizando e reorganizando realidades, sempre do lado das minorias.

Aliás, vale a pena informar que nestas próximas mil e uma noites, nos palcos da eternidade, as ciganas dirigem o espetáculo e cantam, sob a regência de Sandra Cigana, uma variedade infinita de músicas sobre o mesmíssimo tema.

Olê mulher rendeira,
olê mulher rendá,
Se a mulher ficar em casa
Nunca vai se libertar.

Inquieta, mas experiente e calejada, aguerrida nos arrazoados, os teólogos da ortodoxia, no céu, estão tendo dificuldades no diálogo com Sandra Feminista e sua metralhadora de argumentação. O convicto e pomposo Paulo de Tarso vai precisar de muitos séculos para lhe explicar alguns dos seus textos. Se é que vai ter coragem, diante de Sandra Erística, de assumir a autoria de algumas afirmações.

Como é de hábito, Sandra tem muitas idéias para aperfeiçoar os procedimentos celestes, especialmente no que concerne à distribuição de poder. Os sucos anciãos das faces de São Pedro, estão mais acentuados, e o vetusto santo vive de testa franzida em uma expressão de constante preocupação.

Não que seja fundamentalmente contra uma experiência de alternância de poder, mas sem se admitir conservador, acha que a candidatura de Maria Madalena, lançada por Sandra Romeira, é de uma ousadia temerosa. Teme que, apesar desses avanços inegáveis da teologia feminista, a população celeste não esteja preparada para uma liderança feminina.

Movimentando-se com a rapidez de quem está acostumada às lutas populares, Sandra Política conseguiu rapidamente a adesão de praticamente todas as mulheres (a aliança com a Virgem Maria foi fundamental) e de alguns homens, entre eles, Chico Mendes, Hélder Câmara, Gandhi, Martin Luther King Jr e João XXIII.

Assustado, João Paulo II, que tem intimidade com a mídia, faz o possível para que as informações sobre o céu não cheguem nunca à terra e principalmente que o amigo Bento XVI, em sua honrosa cruzada medieval pós-moderna, não seja atrapalhado. Chegou a marcar uma audiência com o Todo-Poderoso que não prometendo intervir nesses detalhes monótonos, comprometeu-se a chamar Sandra Peregrina para uma conversa.

Diante de sua filha, o Rei dos Reis não conseguia esconder o brilho no olhar. Entusiasmada, Sandra Guerreira fez a sua análise de conjuntura da terra e do céu e apresentou veemente o seu projeto de revolução. Atento e divertido, Deus ouvia tudo com indisfarçável satisfação. Mas, concluída a ousada reivindicação, segredou a Sandra Brejeira, com um sorriso traquinas e uma expressão aventureira.

- Filha, não foi para isso que lhe convoquei da terra, mas pode ficar à vontade em sua luta, desde que você me ensine a dançar.

E timidamente, nos braços dançantes de Sandra Nordestina, ensaiou alguns passos de forró.

E eu fico aqui na terra meditando as minhas heresias: a última chance que resta para a humanidade é que Sandra Cigana consiga rapidamente ensinar Deus a dançar.

(Este texto foi lido na cerimônia fúnebre de Sandra Peregrina em 2007, depois de peregrinarmos juntos no Grupo de Peregrinas e Peregrinos do Nordeste. Ela foi vítima de um câncer que parecia já ter sido vencido e era uma mulher lutadora e extraordinária).



quarta-feira, 21 de julho de 2010

PELAS TERRAS SANTAS DO PIAUÍ


A idéia de peregrinar pelas terras santas do Piauí seria a de se dirigir até o santuário pré-histórico onde foram descobertos vestígios dos homens e mulheres mais antigos de todo o continente americano. Uma viagem a pé até o nosso passado humano, a sítios arqueológicos de cerca de setenta mil anos atrás, ao útero ecológico de nossa humanidade americana.

Do ponto de vista místico, peregrinar é realizar a tarefa impossível de vivenciar o Jesus peregrino, a graciosa tarefa de encontrar o mesmo Jesus nos companheiros e companheiras de peregrinação, e estar atento ao mistério do aparecimento do mesmíssimo Jesus em coisas, acontecimentos, situações e pessoas que surgem ao longo da caminhada.

Sem levar dinheiro ou provisão alimentar, peregrinar é efetuar a experiência do despojamento e do desestabelecer-se. A mochila com uma única muda de roupa torna-se cada vez mais leve ao longo do caminho, à medida que o peso de medos e preocupações que trazemos dá lugar à leveza da lembrança do acolhimento e à confiança do cuidado de Deus vivenciado nas estradas.

Toda estrada, todo caminho, é apenas um intervalo, um depois e um antes. Por isso mesmo, caminhar é viver no espaço da liberdade, distante dos lugares fixos, das soluções prontas e das regras estabelecidas. O peregrino não é proprietário nem propriedade, não é senhorio nem inquilino, não é réu nem juiz.

A experiência da liberdade, de viver desarraigadamente, entretanto, não é a experiência da alienação. O peregrino não está fugindo, apenas caminhando. Caminhar é sair de e dirigir-se para. Ser caminhante é buscar o entendimento do novo e acreditar no inacabamento da vida. Em busca de seu objetivo, caminhando para novos e antigos lugares, o peregrino nunca tira os pés do chão. O peregrino não é árvore nem é pássaro, é ser humano que acredita na vocação do caminhar.

Por isso, o inter-espaço da estrada leva o caminhante à longa peregrinação para dentro de si mesmo, para a compreensão do companheiro e companheira de caminhada e para a percepção dos mistérios do caminho. Mistério de um Espírito que sopra em nosso interior a paixão pela vida. Vida que se derrama exuberante à nossa volta, em imagens e histórias inesquecíveis.

Caminhando junto com quatorze outros irmãos e irmãs peregrinos e peregrinas, palmilhamos as estradas que nos levavam pelas terras santas do Piauí. A caminhada criou fortes vínculos entre todos nós. Superar fome, sede, cansaço e dores foi a experiência comum e precisamos do cuidado uns dos outros. Divisamos limites pessoais e às vezes interrompemos à caminhada.

Saímos de Simplício Mendes até São Raimundo Nonato, cerca de cento e oitenta quilômetros de caminhos diversos. No outro dia, visitamos os sítios arqueológicos da Serra da Capivara, objetivo maior de nossa caminhada. Ali, diante dos nossos olhos reverentes, as pinturas rupestres de motivos diversos, testemunhos de irmãos e irmãs pré-históricas que tinham como hábito cotidiano a peregrinação. Mistérios dessa longa peregrinação do ser humano e do modo de ser desse Deus que peregrina com o seu povo. Mistério desse Espírito que faz da vida uma constante renovação e uma inconstante e surpreendente peregrinação.

Peregrinação inesquecível que durou cerca de sete dias do mês de julho de 2004.