quinta-feira, 7 de outubro de 2010
PRINCÍPIO PROTESTANTE E AMBIGUIDADE DA VIDA
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
OBEDIÊNCIA, CASTIDADE E POBREZA
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
ESPAÇO E TEMPO NO CRISTIANISMO ATUAL
Portanto, essa supremacia do tempo sobre o espaço no protestantismo não lhe encaminha imediatamente na direção das demandas conduzidas pelas novas configurações apresentadas pelo mundo de hoje. Um exemplo claro são as questões trazidas por uma bioética de um mundo tecnologicamente distante dos nossos referenciais cristãos. Enquanto os católicos organizam uma barricada de proteção sobre valores que precisam ser examinados mais acuradamente, os protestantes também resistem, com bem menos consistência, mas com alguns territórios a ensaiar formulações menos dogmáticas, permitidas pela sua herança.quinta-feira, 16 de setembro de 2010
AS SOMBRAS DO PROTESTANTISMO
Mas as grandes estruturas da modernidade precisam continuar, protegendo os seus alicerces (diga-se fundamentos) sem se incomodar que estejam carcomidos pelo tempo ou não existam mais. Para isso, precisam esconder as suas fragilidades, ocultar as suas sombras, derramando feixes de luz sobre os seus vitrais, garantindo que as ilusões tão pacientemente construídas prevaleçam a qualquer custo.
O protestantismo celebra a cada 31 de outubro a Reforma, em festas onde não há lugar para reflexão ou arrependimento sobre o massacre de camponeses apoiado por Lutero, a execução de anabatistas abençoada por Zwínglio, a fogueira calvinista onde ardeu o livre pensamento de Miguel Cervetto. Se somos herdeiros da Reforma, herdamos também a sua desconfiança, intolerância e hostilidade para movimentos populares, divergências doutrinárias e para o pensamento laico, não religioso. Se vivesse na Genebra de Calvino, Galileu também seria obrigado a se retratar diante das chamas da fogueira.
A belíssima obra do Padre Ibiapina, por exemplo, também carrega os seus senões. Jovenzinhos que traziam as suas violas e jovenzinhas que traziam as pontas de suas saias para as fogueiras santas, convencidos e convencidas pelos argumentos do pregador, ajudavam a construir um gueto religioso de preconceitos diversos. Contra o samba e contra o corpo, por exemplo. Eles iam cantando, segundo as Crônicas:
“Já morreu o samba
Mas a cruzada de Cristo contra a viola e contra o samba foi assumida com muito mais contundência pelo protestantismo brasileiro, demonstrando mais uma vez que em matéria de inquisição o catolicismo nunca esteve sozinho.
As sombras da Reforma que ajudaram a performar as nossas sombras, precisariam ser assumidas por nós, hoje em dia. Erich Fromm, por exemplo, estudando o fenômeno do autoritarismo e de sua introjeção cultural, defende que Lutero e Calvino foram dos homens mais rancorosos da história.
“Lutero e Calvino representam esta hostilidade difusa e generalizada. Isso não só no sentido de que estes dois homens, pessoalmente, pertenceram ao rol dos maiores rancorosos dentre as principais figuras da História, e por certo dentre os líderes religiosos, como igualmente, e o que é mais importante, no sentido de que suas doutrinas foram tingidas por essa hostilidade, só podendo atrair um grupo que também se achasse impelido por uma hostilidade intensa e reprimida.” (Fromm, Erich. O medo à liberdade. 13e. Rio de Janeiro: Zahar, 1981, p. 84).
Normalmente isso nos assusta; porque a tendência à beatificação e santificação de pessoas concretas, em sua complexidade, é tendência religiosa, de natureza universal. Todas as religiões produzem os seus santos, pessoas que pairam acima do bem e do mal. O perigo é que, escondidas as suas sombras, embarcamos acriticamente em sua luminosidade, esquecidos que sombras são resultantes de luz e, nesse jogo, tornamo-nos prolongamento do mesmo tipo de sombra, fascinados e atraídos pelo mesmo tipo duvidoso de luz.
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
SER PROTESTANTE NO MUNDO DE HOJE
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
IMPLANTAÇÃO MISSIONÁRIA PROTESTANTE E CULTURA BRASILEIRA
À medida que nos aproximamos da pesquisa da religiosidade popular, a partir da inserção missionária do Padre Ibiapina, das atividades do Conselheiro e da vida e obra do Padre Cícero, podemos constatar que esses movimentos coincidem com o período de inserção maior do protestantismo no Brasil. A última metade do século XIX e a primeira metade do século XX, se constituem como o período de uma verdadeira “invasão protestante”. Essa implantação missionária traz algumas coisas de uma história onde a vocação centrífuga do protestantismo já vem se estabelecendo, alcançando o Brasil não somente como movimento diversificado, mas como grupos cristãos que se opõem tanto ao catolicismo nativo quanto entre si, trazendo suas polêmicas européias ou norte-americanas em torno de doutrinas consideradas essenciais para as suas próprias configurações.
Anglicanos, metodistas, presbiterianos, congregacionais, batistas, trazem um evangelho protestante para o Brasil católico (por conseguinte não-cristão, segundo raciocínio que ainda hoje persiste), a partir de suas premissas e estruturas, tanto espalhando panfletos contra doutrinas católicas como purgatório, culto à Virgem e devoção aos santos, quanto estabelecendo disputas entre si sobre forma de batismo, batismo de crianças e significado da Ceia, por exemplo. Um conceito de verdade como coisa, objeto passível de apropriação (e de manipulação, por assim dizer), subjaz a todo essa febril atividade missionária. Essa verdade está escrita, documentada, indisponível, portanto, para uma população analfabeta que fabricaria uma religiosidade de segunda classe, sob o olhar complacente e conivente de uma igreja que não estaria interessada na salvação da humanidade.
Obviamente, o preconceito contra a religiosidade popular não era privilégio protestante. O catolicismo oficial não olhava com bons olhos as figuras carismáticas de Ibiapina, Conselheiro e do Padre Cícero. Desconfiança, denúncias e punições, marcaram a trajetória desses homens; menos um pouco, talvez, para o Padre Ibiapina, pela sua história de vida e ligação mais forte com figuras institucionais. Mas, o protestantismo era um fruto mais legítimo da modernidade e um racionalismo cada vez mais forte enxugava símbolos, ritos e práticas que parecessem irracionais, buscando sempre na Bíblia a base de sua crítica, ou seja, na palavra escrita.
Igualmente, uma ética ascética, impossível de se harmonizar com uma cultura rica de elementos sensuais, vai inspirar uma ação evangelizadora de confrontação, agora já não somente perante a base doutrinária, mas sobre as vivências cotidianas do povo, especialmente das classes mais simples. Fumo, álcool, jogo, danças, começarão a ser alvo de ataques e sinais de demarcação entre crentes (os protestantes) e descrentes (os católicos).
Atitude diferente, somente para comparar, era a de Antônio Conselheiro, por exemplo. Na utópica Canudos, fuma-se, bebe-se e dança-se com moderação. Intérprete da palavra escrita, Bíblia e especialmente um breviário, Antônio Vicente Mendes Maciel, invectiva, como um bom missionário, contra a imoralidade, o roubo, o assassinato e outras coisas mais, como as famosas “umbigadas”, parte da coreografia da dança do “coco”. Na presença dele, estas nunca aconteciam. Sabiamente, porém, se afastava o suficiente para o povo continuar a dança à sua maneira de costume. Esse seria um dos exemplos, mencionados por Eduardo Hoonaert, sobre a habilidade de “negociador do sagrado” do Antônio Conselheiro. Assim, tradições escritas e vivências orais seriam mais bem relacionadas, e o cristianismo ia encontrando os seus próprios caminhos através dessas diversas mediações.
Diferentemente, manejando a Bíblia como espada que corta todo o mal presente na cultura, o protestantismo vai fazendo de uma contracultura (com forte sotaque de cultura estrangeira) sua arma e seu objetivo máximo. Nos primeiros momentos, leva desvantagem. À medida, porém, que a sua “verdade”, escrita e coisificada, vai sendo implantada, o orgulho do letramento e do ser diferente vai prevalecendo, mesmo quando um pentecostalismo mais latino e extático torna-se o mote de sua criatividade. Hoje, assistimos a um momento difícil de ser analisado. O movimento protestante, incluindo pentecostais e pós-pentecostais, cresceu muito. A relação protestantismo e cultura, mesmo mantendo traços muito fortes de sua fase de implantação, está passando por configurações complexas, muito provavelmente em fase de transição.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
PROTESTANTISMO EM DIÁLOGO
Diálogo pressupõe entendimento e compreensão mútuos, não significando
necessariamente descarte de identidade. Pelo contrário, a alteridade é necessidade inconteste da identidade. Vamos nos construindo sob o olhar do outro, encarando e sendo encarados, em espaços mais fluidos do que supunha nossa sistematização modernizante.No Brasil, a questão hermenêutica se estabelece como nó básico e nó górdio, duplo desafio de entendimento para os caminhos de aproximação entre vivências religiosas que se supõem absolutamente divergentes. O que fazer com nossos textos sagrados, ou a questão da Bíblia, tem se tornado cada vez mais questão prioritária, merecendo investigação, discussão, estudo e proposição para que mantenhamos o encantamento dos textos, mas também para que eles não fechem caminhos para as questões mais urgentes de nossa época.
Historicamente o protestantismo aconteceu como processo de enfrentamento do dogmatismo da igreja medieval. A solução, de natureza provisória, foi transferir todo o dogmatismo para as Escrituras Sagradas. Desse modo, a Bíblia tornou-se um voraz buraco negro capaz de ir aprisionando toda a vida do Universo, lugar obscuro do qual nenhuma luz podia escapar. O fundamentalismo encontra sua lógica não somente em um literalismo redutor, mas também nesse movimento de captura da vida pelos textos. Toda a vida foi cercada pelas capas da Bíblia, sendo contida por uma pequena biblioteca de sessenta e seis livros, de natureza diversa, mas obrigada a encerrar toda a diversidade possível.
Portanto, o problema hermenêutico não se resume na questão de interpretação da Bíblia, o problema é a própria Bíblia. Na busca de compreensão da vivência cristã das primeiras comunidades, as representações foram surgindo em sua tentativa de aproximação com a realidade vivida. A presença do feminino no sagrado, por exemplo, pode ter acrescentado gradativamente uma quarta pessoa à trindade, essa complexa tentativa de representação da experiência. A Virgem Maria, portanto, teria completado a idéia junguiana de quaternidade. Na ruptura protestante, a Bíblia foi se tornando essa quarta pessoa da trindade, alternativa protestante que trouxe diferentes problemas à teologia cristã.
A tarefa é difícil, mas é urgente. A teologia precisa devolver a luminosidade da Bíblia e isso passa pelo esforço de libertar a luz aprisionada gradativamente por essa força dogmática que engessa a vida. A vida tem as suas próprias estratégias de escape às reduções e aprisionamentos. Cada vez mais o diálogo entre protestantismo e candomblé, por exemplo, acontece na prática cotidiana dos fiéis. Podemos fechar os olhos, condenar e rejeitar a tarefa que nos aguarda, ou seguir em frente, atentos aos desafios, sempre prontos para os novos aprendizados.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Uma utopia chamada Canudos

Canudos era uma pequena aldeia construída no século XVIII, à margem do Rio Vaza-Barris, no interior da Bahia. Transformou-se rapidamente em uma grande cidade de cerca de 25 mil habitantes, a partir da liderança de Antônio Conselheiro, uma figura mística singular, no nosso Nordeste, que em 1893 chegou ao local e batizou a cidade de “Belo Monte”.
A idéia era essa mesma: construir uma cidade acolhedora, para onde se dirigiam as massas pobres do sertão, em busca de lugar para morar, terra para plantar, e relações sociais saudáveis para se conviver. Essa última parte era garantida pela liderança de Conselheiro que constrói a Igreja, símbolo da presença de Deus no meio do povo.
Antônio Conselheiro foi estudado e classificado por muitos, de várias maneiras. Fanático, comunista, oportunista, beato, revolucionário, são alguns dos adjetivos que recebeu de estudiosos e oponentes. Talvez a classificação de Hoornaert como um místico, no bom estilo medieval, um “negociador do sagrado” o defina bem.
Tento peregrinando por tantos anos pelos sertões da Bahia e de outros estados do Nordeste, sempre construindo igrejas e aconselhando as pessoas, Antônio Vicente Mendes Maciel, recebeu a merecida alcunha de “conselheiro”. Na cidade de Canudos realizava prédicas e mediava situações diversas, apenas com a sua presença simbólica.
Na cidade do Conselheiro havia brancos, índios, negras, pessoas de passado duvidoso ou mesmo violento e eram acolhidos e viviam de modo digno. Somente não eram acolhidos maçons, hereges e protestantes. Esses últimos eram muito poucos em toda a região nordestina, mas o fato levanta questões.
Haveria simpatizantes do protestantismo na Canudos tão católica? Por que a não inclusão de protestantes nessa cidade que acudia a todos os marginalizados de então. São perguntas à espera de respostas, ou de novas perguntas.
De todo o modo, Canudos foi uma cidade construída em torno de uma idéia. Enquanto utopia nunca poderia encontrar um lugar ou um espaço de realização. Enfrentou sistemas e exércitos, mas foi destruída. Sobrevive como herança mítica e como descrição tanto da capacidade e habilidade de pessoas simples enfrentarem a força das instituições, como da possibilidade e impossibilidade de se construir cidadania à margem dos trâmites legais, oficiais ou simplesmente costumeiros.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
PROTESTANTICIDADE E CATOLICIDADE

Ambos são respostas históricas ao grande movimento de seguimento à estranha figura de Jesus de Nazaré. Posicionando-se em um momento concreto da história da Palestina, dentro da grande configuração do Império Romano, um desconhecido carpinteiro de uma minúscula aldeia, consegue causar um tumulto suficiente para ser julgado, condenado e crucificado, como um revoltoso, subversivo da ordem estabelecida. Seus crimes, de natureza política e religiosa, não estão esclarecidos, até o dia de hoje, Entretanto, uma série de comunidades surgiram depois de sua morte, afirmando a sua ressurreição, espalhando-se por todo o mundo conhecido, envolvendo especialmente pessoas desfavorecidas, proscritas, mas também, pouco a pouco, trabalhadores comuns, intelectuais e mesmos alguns ricos que gozavam de certo prestígio na sociedade.
Essa multiplicidade de comunidades produz uma multiplicidade de procedimentos, ritos, histórias, discursos e interpretações, alimentando uma tradição predominantemente oral, à qual vão se juntando textos de diversas naturezas e diversos pesos. Esse todo não pode ser homogêneo, portanto, perguntando pelos laços e caminhos que lhe dariam certa unidade e universalidade. O princípio que dirige esse movimento centrípeto dentro dessa força de diversificação, essa pergunta pelo comum e universal, pode muito bem ser chamado de “princípio de catolicidade”. As respostas necessárias para essa tendência à diferença e diversidade devem ser entendidas como contingentes e históricas, mas normalmente não é assim que acontece.
O resultado progressivo dessa busca pela unidade foi a uniformização e padronização das comunidades, garantidas por força institucional nem sempre pacífica. Um grande edifício internacional foi construído: um poder religioso que caminhava com o poder político ou como aliado, ou como subordinado que dava ao discurso político a legitimidade teológica, e até como subordinante, transformando o aparato político em braço secular de seus motivos religiosos.
Na direção contrária, fortes movimentos contestatórios promoviam nuances e matizes diversificadas, utilizando-se de um outro princípio que podemos chamar de “princípio de protestanticidade”, apenas para resguardar a palavra “protestante” para as configurações mais institucionais que inevitavelmente viriam a se estabelecer. Se o “princípio de ca
tolicidade” é de natureza centrípeta, o “princípio de protestanticidade” é de natureza centrífuga. Os movimentos de reforma do século XVI e XVII são confluência desse espírito de oposição a uma autoridade institucional, a qual se constituía como força de conformação religiosa, política e ideológica, responsável pela manutenção da configuração social vigente.Do mesmo modo que um “princípio de catolicidade” terminou se cristalizando em uma instituição católica, de natureza autoritária, o “princípio de protestancidade” petrificou-se em institucionalização, de um modo diferente, mas previsível. Uma diversidade de instituições protestantes, semelhantes e diferentes, foram surgindo desse outro processo que provoca a unidade da igreja na direção de uma fragmentação cada vez maior. Ambas as configurações tendem a um autoritarismo, mesmo que de cunho diferente.
A instituição católica se configura como cone hierárquico, o qual encontra na figura do pontífice o seu vértice unificador. As instituições protestantes se estabelecem enquanto rede complexa, em que diversos sistemas de autoridade tentam se definir. Um movimento ecumênico já se encontra a caminho há mais de um século, tentando encontrar meios de estabelecer plataformas e procedimentos, em que alguma unidade seja possível, ou que a unidade essencial da igreja cristã (seja isso o que for) torne-se sempre mais visível.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Protestantismo e candomblé

As relações entre o protestantismo e o candomblé são complexas, especialmente em sua vivência prática. Afastamento, antagonismo, intolerância, marcam a maior parte das posturas dos grupos protestantes, encontrando-se, porém, mesmo que raramente, atitudes dialogais.
O candomblé no Brasil se caracterizou como religião de resistência da cultura negra, fortalecendo-se gradativamente, em uma forçada clandestinidade, até ser admitida como expressão legítima de religiosidade do povo, tanto quanto as religiões cristãs e todas as outras religiões.
Por outro lado, ainda é generalizado o preconceito que concebe o candomblé, junto com outras religiões de matriz africana e indígena, como forma inferior “primitiva” de culto, sendo a demonização dos orixás um exemplo desse tipo de atitude.
Um olhar não preconceituoso pode enxergar bondade e beleza, ali onde se espera sempre conflito e ambigüidade. O sofrimento causado pela intolerância religiosa nos convida a rever atitudes. Tolerância e respeito são desejáveis urgentemente, mas insuficientes para dar conta da totalidade do fenômeno do qual nos acercamos.
A celebração do outro é o caminho para admitir que a alteridade não ameaça a minha identidade, mas é condição e possibilidade da mesma. A festa da humanidade precisa das diferenças para continuar sendo festa.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
PROTESTANTISMO E VIDA
O protestantismo, e o protestantismo brasileiro especificamente, faz parte desse grande eco-sistema chamado vida, se consideramos o todo de relações, tecido como um complexo de significações, em que a cultura se constitui como parte relevante. A partir disso, precisamos entender o que significa ser protestante dentro da vida e diante da vida e entender a vida como um complexo vida-morte, onde cada pólo se estabelece como limite e condição.
Para o pensador Edgar Morin:

“A vida é sempre incerta. A morte incerta é sempre certa. Morrer é fatal, necessário, inelutável. A morte está escrita na própria natureza da vida” (MORIN, Edgar. O método 2: a vida da vida. Porto Alegre: Sulina, 2001, p.438).
Não se pode pensar vida sem pensar morte. A morte é estratégia e necessidade da própria vida. Uma e outra andam juntas, meio inimigas meio amantes, coladas fortemente, devorando-se apaixonadamente para permanecerem em sua fortaleza e fragilidade paradoxais.
Um pensamento protestante se estabelece como pensar cristão não dogmático. Tendo sua referência nos textos sagrados e se inscrevendo na tradição teológica que lhe antecede, afirma, entretanto, a única autoridade absoluta do Deus da vida e da morte, desafiando-se a pensar teológica e complexamente.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Protestantismo e religiosidade popular
Na mítica Canudos, o conselheiro aceitava todo mundo, menos ateus, judeus, maçons e protestantes. Padre Wilson, um grande amigo, expressou a opinião de que isso seria ou um exagero ou força includente de expressão, até mesmo porque o protestantismo seria praticamente uma inexistência, por aqueles tempos e por aquelas bandas.
Nas Crônicas sobre as Casas de Caridade do Padre Ibiapina, fala-se dos inimigos da igreja de maneira generalizante, embora alguma menção explícita aos “hereges” protestantes da Europa.
Essa relação entre religiosidade popular e implantação protestante no Brasil merece uma investigação mais acurada com algumas questões evidentes.
1. O forte espírito polêmico e proselitista das missões protestantes causa reações públicas da oficialidade católica em jornais, à medida que espalha uma série de folhetos usados para atacar a hegemonia doutrinária católica.

2. Conversão estratégica de padres são exploradas grandemente pelas missões protestantes, produzindo um grande reboliço e provocando reações.
3. Qualquer conversão de católicos ao protestantismo em cidades do interior era suficiente para provocar conflitos e acirrar contendas que iam da disputa dogmática às puras altercações corporais, às vezes chegando a extremos.
4. A pregação do protestantismo era comumente associada à ideologia do progresso, de natureza capitalista, e à modernidade, colocando sempre na conta do catolicismo o atraso e a estagnação econômica.
Talvez essas fossem razões suficientes para imbuir os líderes religiosos populares de forte resistência ao protestantismo, o que ajudava a tornar os fiéis desconfiados e hostis diante da “heresia” que se avizinhava e ameaça a coexistência social.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Protestantismo e mundo
Partimos de uma definição de protestantimo que abarca toda igreja e grupo religioso que apresente vestígios de continuidade com os movimentos de reforma do século XVI, mesmo quando estes não pretendam se reconhecer no mesmo espelho.
Esse protestantimo se faz presente no mundo concreto, e "mundo" também é um complexo que abarca tanto a experiência existencial de cada pessoa ou grupo, quanto a ordem e desordem social em sua vivência cultural.
Apelamos, portanto, para um contínuo, um campo de significação onde os conceitos e agentes se aproximam ou se afastam de sinais demarcadores, promovendo múltiplas e frutíferas relações.
Pretendemos caminhar devagar e sempre, muito mais peregrino que cientista, admirando a paisagem, colhendo flores e palmilhando caminhos desconhecidos ou não.




