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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

PRINCÍPIO PROTESTANTE E AMBIGUIDADE DA VIDA

O Reino de Deus deve ser considerado, especialmente em Paul Tillich, como o principal símbolo capaz de responder à pergunta pela vida sem ambigüidades.

A estrutura ambígua da vida encontrada tanto na auto-integração, auto-criatividade e auto-transcendência que lhes são próprias, são momentos da própria ambigüidade originária, a ambigüidade vida-morte.

Entretanto, mesmo essa resposta precisa encontrar no princípio protestante sua vigilância e contenção. Pois o princípio protestante, presente em todas as igrejas cristãs, é o que garante a autonomia da transcendência divina, opondo-se a toda tentativa de transformar representações do divino na própria divindade. Mesmo só podendo ser considerado juntamente com a substancia católica, a qual garante a presença da transcendência em todas as suas representações, o princípio protestante vigia e limita tais representações, mantendo-as no campo da finitude.

“É protestante, porque protesta contra a auto-elevação trágico-demoníaca da religião e liberta a religião de si mesma para as outras funções do espírito humano, ao mesmo tempo em que liberta essas funções de sua auto-reclusão contra as manifestações daquele que é último.” (TILLICH, Paul. Teologia sistemática. São Paulo: Paulinas, 1984, p. 571).

“Reino de Deus”, portanto, também é um símbolo religioso que deve ser libertado da religião. Como símbolo, tem um alcance político, social, individual e universal. Tendo como maquete um “reino”, o acréscimo “de Deus” atesta a incapacidade humana de alcançar o que se propõe ou a ambigüidade de uma vida que é positividade e negatividade, no mesmo momento.

”Seres vivos” são também “seres que estão morrendo”, e apresentam características especiais sob o predomínio da dimensão orgânica. Esse conceito genérico de vida é o molde segundo o qual o conceito ontológico de vida foi formado.” (Id., p. 393).

Vida, portanto, é binômio vida-morte, lugar de definição filosófica de vida como “atualidade do ser”. A vida é resultante da dinâmica da vida, ou da potência de vida, a capacidade da vida viver. Afirmação que se produz a si mesma como auto-integração; que se gera a si mesma como auto-criatividade; mas que se ultrapassa a si mesma como auto-transcendência.

Pela auto-transcendência, a vida se lança a conquistar a sua negação, a morte. O símbolo “Reino de Deus” integra tanto o símbolo “Espírito de Deus” quanto o símbolo “vida eterna”, adequados para nos conduzir a uma vida sem ambigüidades. O princípio protestante nos alerta para que a substancialidade existentes nos símbolos não ultrapassem os limites, mantendo a autonomia absoluta do divino a todo momento, não permitindo a auto-glorificação de nenhuma igreja pela coisificação da revelação ou da salvação.

“O Princípio Protestante (que é uma manifestação do Espírito profético) não está restrito às igrejas da Reforma ou a qualquer outra igreja; ele transcende toda igreja particular, sendo uma expressão da Comunidade Espiritual. Ele foi traído por todas as igrejas, até mesmo pelas igrejas da Reforma, mas continua efetivo em toda igreja como poder que impede que a profanização e demonização destruam completamente as igrejas cristãs. Ele sozinho não basta; precisa também se juntar à “substância católica”, que é a incorporação concreta da Presença Espiritual; mas ele é o critério da demonização (e profanização) dessa incorporação. É a expressão da vitória do Espírito sobre a religião” (Id., p. 571).

A vitória do Espírito sobre a religião proporcionada pelo Princípio Protestante garante a manutenção da ambigüidade da vida, mesmo em seu desejo de uma vida sem ambigüidade.

No nosso contexto atual, nos temas que têm como arcabouço a própria vida, essa ambigüidade precisa sempre ser lembrada contra toda tentativa de dogmatismo. O dogmatismo transforma a autonomia do sagrado em coisa, fácil de ser tornada mercadoria por força do sistema político e econômico regido pelo jogo de interesses predominantes na sociedade.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

OBEDIÊNCIA, CASTIDADE E POBREZA

As reformas dos séculos XVI e XVII precisam ser entendidas também no contraponto do movimento monástico. Mesmo vivendo períodos cíclicos de vitalidade e decadência, o monasticismo teria sido o que de melhor fora produzido pela cristandade medieval, estabelecendo-se como espécie de termômetro da Igreja. Quando florescia, a Igreja melhorava, quando se corrompia, toda a igreja, de modo geral, entrava em período de crise. As reformas cluniense e cisterciense e os movimentos franciscano e dominicano, por exemplo, são momentos de revigoração da igreja que alcançam toda a sociedade medieval. No movimento de São Francisco de Assis, a ordem terceira, especialmente, teria sido responsável por uma restauração de princípios que atinge toda a sociedade medieval durante dois ou três séculos, amenizando mazelas e seqüelas de um feudalismo aristocrata e de imperialismos complexos.

Sendo Lutero monge agostiniano, a sua reforma, de início tímida, vai atingindo o coração da igreja católica romana, estabelecendo uma polarização gradativa, em que os princípios monásticos se colocarão cada vez mais distantes das vivências protestantes. Isso se torna mais importante ainda, lembrando-se que o monasticismo atingira então dimensões imensuráveis. Praticamente, cada cidade medieval tinha um ou mais mosteiros em seus arredores, fontes de influência positiva ou negativa, dependendo das circunstâncias. Os votos de pobreza, obediência e castidade, pilares do monasticismo haviam-se tornado de certa forma pilares da própria igreja, sendo impossível uma reforma que não atingisse esses votos. Também aquilo que seria desejo, propósito e estilo de vida teriam sido transformadas em virtudes em si mesmas, causando problemas teológicos, eclesiásticos e sociais de diversos teores.

Opondo-se à pobreza como virtude em si mesma, o que seria uma atitude teológica que conduziria a diversas libertações, o protestantismo seria levado a uma aliança cada vez mais forte com o capitalismo nascente, tornando-se riqueza e prosperidade sinal de bênção de Deus e critério de verificação de eleição predestinada. Na esteira disso, uma sacralização do trabalho em si, irá substituindo a santidade da pobreza, consolidando relações trabalhistas existentes, colocando sob suspeita ócio e lazer.

A questão dos votos de castidade acentua uma espécie de desconfiança eterna entre religião e sexualidade muito presente no cristianismo desde a sua origem. Durante as reformas, a sexualidade foi revista e repensada, sendo o casamento de padres, monges e freiras, o primeiro resultado alvissareiro, permissão de gozos terrenos não experimentados por muitos. Dois momentos posteriores ilustram o momento vivido. O primeiro, o divórcio de Henrique VIII, não autorizado pelo papa, mas autorizado por consultas teológicas vindas das universidades, sob influência dos novos tempos. Podemos constatar que a Reforma Anglicana foi deflagrada por uma questão de ordem sexual necessitada de nova teologia e de nova igreja para satisfazer os desejos de um monarca. O segundo momento, foi a consulta de Felipe de Hesse sobre a legitimidade da poligamia, para resolver seus assuntos particulares, que teve a aquiescência, pelo menos inicial, da teologia de Lutero.

Os votos de obediência nos levam à questão central da Reforma, o problema da autoridade. Contra a autoridade absoluta do papa, o protestantismo terá que administrar um sistema de autoridades relativas, com pouco espaço para autoridades não hierárquicas, coletivas, populares, muito menos sistemas democráticos, em que a mutualidade e a alternância se apresentam de modo mais forte. É dentro dessa administração de um conceito de autoridade hierárquica que Lutero praticamente autoriza a morte de camponeses sediciosos, chegando a santificar de antemão o massacre efetuado pelos senhores feudais, através de seu famoso panfleto “Contra a corja de camponeses assassinos e ladrões” em que afirmava previamente que prestava um serviço a Deus quem matasse um camponês rebelado, o que pode ser lido como uma espécie de carta de “indulgência protestante”.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

ESPAÇO E TEMPO NO CRISTIANISMO ATUAL

A organização de protestantes e católicos possui peculiaridades que implicam em formas diferentes de relação com o espaço e com o tempo. A organização monocêntrica católica e a organização policêntrica protestante propõem diferentes espacializações e diferentes temporalizações que se desdobram em atitudes históricas diversas de relação com o mundo. No mundo católico, há uma clara predominância do espaço sobre o tempo, em configuração monolítica capaz de resistir ao processo histórico com bastante força. No mundo protestante, o tempo se sobrepõe ao espaço, não de forma uniforme, nem através de uma postura hierárquica contundente, mas o suficiente para permitir alianças mais evidentes com o desenrolar da história.

O espaço cristão, católico ou protestante, resiste ao tempo atual, denominado de pós-modernidade, mas de modos diferentes. Fortes parcelas da igreja protestante apresentam um híbrido de imersão pós-moderna com teologia fundamentalista, estranho e fascinante, ao mesmo tempo, enquanto possibilidades eclesiológicas e objeto de análise. Uma desterritorialização comandada pela ação corrosiva do tempo não parece provável no mundo católico, pelo menos a curto prazo. Ao mesmo tempo, as reterritorializações sucessivas do mundo protestante, são tanto comandadas pelos movimentos do tempo quanto resistentes aos mesmos.

Portanto, essa supremacia do tempo sobre o espaço no protestantismo não lhe encaminha imediatamente na direção das demandas conduzidas pelas novas configurações apresentadas pelo mundo de hoje. Um exemplo claro são as questões trazidas por uma bioética de um mundo tecnologicamente distante dos nossos referenciais cristãos. Enquanto os católicos organizam uma barricada de proteção sobre valores que precisam ser examinados mais acuradamente, os protestantes também resistem, com bem menos consistência, mas com alguns territórios a ensaiar formulações menos dogmáticas, permitidas pela sua herança.

De modo geral, o mundo cristão não parece estar preparado, por enquanto, para responder questões sobre pluralismo religioso, ecologia profunda, gênero, bioética, direito de minorias, carência evidenciada especialmente na sua abordagem sobre temas como aborto, sexualidade e diálogo inter-religioso, abertamente visível no tratamento quase histérico dispensado à possibilidade de medidas públicas de descriminalização do aborto, direito de homossexuais e valorização de religiões de matriz africana. Um ecumenismo quase impossível quando se trata de temáticas positivas, surge estranhamente quando se trata de condenar, proibir e demonizar dissidentes, hereges e infiéis. Nesses momentos, podemos perceber, católicos e protestantes, que há muito mais coisas que nos unem do que nos separam; infelizmente muito mais no tocante a práticas fundamentalistas.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

AS SOMBRAS DO PROTESTANTISMO

A religião é um tecido de fragilidades, coisas tão fluidas e tão tênues como a fé, a esperança e o amor, as três virtudes teologais. Talvez, por isso mesmo, lance-se na busca de fundamentos, alicerces que garantam a funcionalidade da vida e a certeza de salvações. Busca inútil e dolorosa, provocadora de dores evitáveis porque também inúteis. Fundamentar é o caminho cruel da intolerância que só pode chegar a fundamentalismos de diversas ordens e diversos teores, cristalizados nos “ismos”, dos quais catolicismo e protestantismo são as duas grandes amostras históricas. Enquanto princípios, “catolicidade” e “protestanticidade” descrevem tendências, princípios, forças existenciais necessárias e próprias do movimento cristão; transformadas em “ismos”, se constituem como grandes blocos cimentando a história, dificultando caminhos, proibindo aproximações.

Esse desejo de impossíveis alicerces talvez seja o fator que atrapalhe a religião de balançar feliz nas redes da pós-modernidade. A modernidade era o lugar das certezas, das maiúsculas, das construções concretas de único alicerce, a famosa monocausalidade de natureza linear. A gradativa substituição, presente em todos os lugares de investigação, de coisas (res extensa ou cogitans) por relações, a débâcle do raciocínio cartesiano, colocou-nos em um mundo diferente, mundo de minúsculas, de incertezas estruturais, de pluricausalidades de natureza recursiva.

Mas as grandes estruturas da modernidade precisam continuar, protegendo os seus alicerces (diga-se fundamentos) sem se incomodar que estejam carcomidos pelo tempo ou não existam mais. Para isso, precisam esconder as suas fragilidades, ocultar as suas sombras, derramando feixes de luz sobre os seus vitrais, garantindo que as ilusões tão pacientemente construídas prevaleçam a qualquer custo.

O protestantismo celebra a cada 31 de outubro a Reforma, em festas onde não há lugar para reflexão ou arrependimento sobre o massacre de camponeses apoiado por Lutero, a execução de anabatistas abençoada por Zwínglio, a fogueira calvinista onde ardeu o livre pensamento de Miguel Cervetto. Se somos herdeiros da Reforma, herdamos também a sua desconfiança, intolerância e hostilidade para movimentos populares, divergências doutrinárias e para o pensamento laico, não religioso. Se vivesse na Genebra de Calvino, Galileu também seria obrigado a se retratar diante das chamas da fogueira.
A intolerância, portanto, não é privilégio do catolicismo e a hostilidade diante da cultura grassa nos dois arraiais.

A belíssima obra do Padre Ibiapina, por exemplo, também carrega os seus senões. Jovenzinhos que traziam as suas violas e jovenzinhas que traziam as pontas de suas saias para as fogueiras santas, convencidos e convencidas pelos argumentos do pregador, ajudavam a construir um gueto religioso de preconceitos diversos. Contra o samba e contra o corpo, por exemplo. Eles iam cantando, segundo as Crônicas:

“Já morreu o samba
Já venceu Jesus
Ardam pontas e violas
Em honra da cruz
Todos os sambistas
Querem ter prazer
Venham ao pé da Cruz
Ver violas arder.”
(Hoonaert, Eduardo. Crônicas das Casas de Caridade: fundadas pelo Padre Ibiapina. Fortaleza: Museu do Ceará, Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, 2006, p. 89).

Mas a cruzada de Cristo contra a viola e contra o samba foi assumida com muito mais contundência pelo protestantismo brasileiro, demonstrando mais uma vez que em matéria de inquisição o catolicismo nunca esteve sozinho.

As sombras da Reforma que ajudaram a performar as nossas sombras, precisariam ser assumidas por nós, hoje em dia. Erich Fromm, por exemplo, estudando o fenômeno do autoritarismo e de sua introjeção cultural, defende que Lutero e Calvino foram dos homens mais rancorosos da história.

“Lutero e Calvino representam esta hostilidade difusa e generalizada. Isso não só no sentido de que estes dois homens, pessoalmente, pertenceram ao rol dos maiores rancorosos dentre as principais figuras da História, e por certo dentre os líderes religiosos, como igualmente, e o que é mais importante, no sentido de que suas doutrinas foram tingidas por essa hostilidade, só podendo atrair um grupo que também se achasse impelido por uma hostilidade intensa e reprimida.” (Fromm, Erich. O medo à liberdade. 13e. Rio de Janeiro: Zahar, 1981, p. 84).

Normalmente isso nos assusta; porque a tendência à beatificação e santificação de pessoas concretas, em sua complexidade, é tendência religiosa, de natureza universal. Todas as religiões produzem os seus santos, pessoas que pairam acima do bem e do mal. O perigo é que, escondidas as suas sombras, embarcamos acriticamente em sua luminosidade, esquecidos que sombras são resultantes de luz e, nesse jogo, tornamo-nos prolongamento do mesmo tipo de sombra, fascinados e atraídos pelo mesmo tipo duvidoso de luz.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

SER PROTESTANTE NO MUNDO DE HOJE


Se o fetiche da palavra escrita produz a Reforma Protestante, é a invenção da imprensa que se torna mola propulsora, caminho de divulgação das idéias que produzem a crítica da tradição e do dogmatismo e instrumentalizam a insatisfação com o controle autoritário de uma estrutura construída durante a Idade Média, direito canônico que se postava de vigia sobre todos os aspectos da vida.

Um desejo de liberdade, construído de modo marginal, encontrava na personalidade vigorosa de Lutero e Calvino, entre outros, vontade inquebrantável de luta por uma reestruturação da Igreja, lembrando que Lutero inicialmente não propôs rupturas, mas reformas internas de caráter teológico, debate universitário já estabelecido, normalmente julgado de modo acadêmico. As famosas “noventa e cinco teses” são teologicamente moderadas, menos contundentes, por exemplo do que outras 97, escritas e debatidas quase dois meses antes, por ocasião da obtenção do grau de bacharel em Estudos Bíblicos de um aluno, Francisco Gunther, da depois famosa Faculdade de Teologia de Wittenberg. Essas teses passaram despercebidas pela história.

O tumulto causado pelas “noventa e cinco teses” deve-se muito mais a fatores políticos do que religiosos e causa rápida comoção pela rápida propagação possibilitada pela difusão das gráficas capazes de imprimir milhares de exemplares. Oficinas desse teor encontravam-se praticamente em cada cidade da Europa, impressionante rede de reprodução de literatura impressa, menos de um século depois da invenção de Gutemberg.

No final do ano de 1521, já condenado pelo papa e pelo imperador, Lutero encontrou no refúgio do castelo de Wartburg uma dessas gráficas capaz de mantê-lo ativo no cenário político e eclesiástico de então. Época de escritos contundentes e da elaboração de sua maior arma, uma tradução da Bíblia para o alemão popular, capaz de ser entendida pelo povo já se acostumando a um acesso à palavra escrita, impossível em outros tempos. A autoridade e o fascínio da palavra escrita foram estabelecidos como arma contra o dogmatismo eclesiástico e o autoritarismo imperial.

Nesses novos tempos assistimos a fenômenos diferentes e paradoxais. Essa mesma palavra escrita pode agora ser usada não contra o autoritarismo e dogmatismo, mas exatamente para justificá-los. Portanto, de fonte de libertação pode passar a ser usada como fonte de consolidação de opressões e discriminações, esvaziamento e inversão próprios das tradições. As tradições são processos históricos de esquecimento e de afastamento das origens. Curiosamente, as origens também não podem estar acima da crítica, quando isto acontece legitimam paradoxalmente seu próprio afastamento.

Há fenômenos no mundo europeu da Reforma que nos aproximam do mundo de hoje. A imprensa transformou a Europa em uma aldeia, do mesmo modo que as multimídias transformaram o mundo todo em um pequeno vilarejo. Há novidades incomparáveis, porém, nesse novo aldeamento. A palavra escrita vem com uma velocidade igual à da luz, capaz de informar o mundo sobre alguma coisa em segundos. E vem acompanhada. Imagens, sons, músicas, podem ser partilhados imediatamente através das redes sociais de dimensões planetárias.

A polissemia da palavra, portanto, torna-se também polissemia das imagens e de outros elementos estéticos. Não estamos mais no século XVI, igualmente, em todas as facetas da sociedade e da vida. Inevitavelmente todas as questões antigas, mesmo quando permanecem (algumas desapareceram), precisam ser tratadas de outras maneiras. A recorrência de modelos antigos, como as teocracias, por exemplo, tem se mostrado desastrosa. Nesse novo mundo, dentro de nossas diversas tradições, todos estamos procurando respostas a perguntas que rapidamente se levantam e parecem ter caráter de urgência. Ser protestante no mundo de hoje tem de ser parecido, mas também diferente de ser protestante na Europa pós-medieval.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

IMPLANTAÇÃO MISSIONÁRIA PROTESTANTE E CULTURA BRASILEIRA


À medida que nos aproximamos da pesquisa da religiosidade popular, a partir da inserção missionária do Padre Ibiapina, das atividades do Conselheiro e da vida e obra do Padre Cícero, podemos constatar que esses movimentos coincidem com o período de inserção maior do protestantismo no Brasil. A última metade do século XIX e a primeira metade do século XX, se constituem como o período de uma verdadeira “invasão protestante”. Essa implantação missionária traz algumas coisas de uma história onde a vocação centrífuga do protestantismo já vem se estabelecendo, alcançando o Brasil não somente como movimento diversificado, mas como grupos cristãos que se opõem tanto ao catolicismo nativo quanto entre si, trazendo suas polêmicas européias ou norte-americanas em torno de doutrinas consideradas essenciais para as suas próprias configurações.


Anglicanos, metodistas, presbiterianos, congregacionais, batistas, trazem um evangelho protestante para o Brasil católico (por conseguinte não-cristão, segundo raciocínio que ainda hoje persiste), a partir de suas premissas e estruturas, tanto espalhando panfletos contra doutrinas católicas como purgatório, culto à Virgem e devoção aos santos, quanto estabelecendo disputas entre si sobre forma de batismo, batismo de crianças e significado da Ceia, por exemplo. Um conceito de verdade como coisa, objeto passível de apropriação (e de manipulação, por assim dizer), subjaz a todo essa febril atividade missionária. Essa verdade está escrita, documentada, indisponível, portanto, para uma população analfabeta que fabricaria uma religiosidade de segunda classe, sob o olhar complacente e conivente de uma igreja que não estaria interessada na salvação da humanidade.


Obviamente, o preconceito contra a religiosidade popular não era privilégio protestante. O catolicismo oficial não olhava com bons olhos as figuras carismáticas de Ibiapina, Conselheiro e do Padre Cícero. Desconfiança, denúncias e punições, marcaram a trajetória desses homens; menos um pouco, talvez, para o Padre Ibiapina, pela sua história de vida e ligação mais forte com figuras institucionais. Mas, o protestantismo era um fruto mais legítimo da modernidade e um racionalismo cada vez mais forte enxugava símbolos, ritos e práticas que parecessem irracionais, buscando sempre na Bíblia a base de sua crítica, ou seja, na palavra escrita.


Igualmente, uma ética ascética, impossível de se harmonizar com uma cultura rica de elementos sensuais, vai inspirar uma ação evangelizadora de confrontação, agora já não somente perante a base doutrinária, mas sobre as vivências cotidianas do povo, especialmente das classes mais simples. Fumo, álcool, jogo, danças, começarão a ser alvo de ataques e sinais de demarcação entre crentes (os protestantes) e descrentes (os católicos).


Atitude diferente, somente para comparar, era a de Antônio Conselheiro, por exemplo. Na utópica Canudos, fuma-se, bebe-se e dança-se com moderação. Intérprete da palavra escrita, Bíblia e especialmente um breviário, Antônio Vicente Mendes Maciel, invectiva, como um bom missionário, contra a imoralidade, o roubo, o assassinato e outras coisas mais, como as famosas “umbigadas”, parte da coreografia da dança do “coco”. Na presença dele, estas nunca aconteciam. Sabiamente, porém, se afastava o suficiente para o povo continuar a dança à sua maneira de costume. Esse seria um dos exemplos, mencionados por Eduardo Hoonaert, sobre a habilidade de “negociador do sagrado” do Antônio Conselheiro. Assim, tradições escritas e vivências orais seriam mais bem relacionadas, e o cristianismo ia encontrando os seus próprios caminhos através dessas diversas mediações.


Diferentemente, manejando a Bíblia como espada que corta todo o mal presente na cultura, o protestantismo vai fazendo de uma contracultura (com forte sotaque de cultura estrangeira) sua arma e seu objetivo máximo. Nos primeiros momentos, leva desvantagem. À medida, porém, que a sua “verdade”, escrita e coisificada, vai sendo implantada, o orgulho do letramento e do ser diferente vai prevalecendo, mesmo quando um pentecostalismo mais latino e extático torna-se o mote de sua criatividade. Hoje, assistimos a um momento difícil de ser analisado. O movimento protestante, incluindo pentecostais e pós-pentecostais, cresceu muito. A relação protestantismo e cultura, mesmo mantendo traços muito fortes de sua fase de implantação, está passando por configurações complexas, muito provavelmente em fase de transição.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

PROTESTANTISMO EM DIÁLOGO

Alguns nós de nossa herança teológica precisam ser desatados para que possamos estabelecer diálogo com outras religiões, lembrando que no Brasil o diálogo pertinente só se estabelece com as religiões de matriz africana. Nossas diferenças e semelhanças com os grandes sistemas religiosos da humanidade são interessantes objetos de estudo, mas a religiosidade que nos toca de perto e diante da qual precisamos nos posicionar é exatamente a que resultou da força escrava entre nós dos negros africanos.

Diálogo pressupõe entendimento e compreensão mútuos, não significando necessariamente descarte de identidade. Pelo contrário, a alteridade é necessidade inconteste da identidade. Vamos nos construindo sob o olhar do outro, encarando e sendo encarados, em espaços mais fluidos do que supunha nossa sistematização modernizante.

No Brasil, a questão hermenêutica se estabelece como nó básico e nó górdio, duplo desafio de entendimento para os caminhos de aproximação entre vivências religiosas que se supõem absolutamente divergentes. O que fazer com nossos textos sagrados, ou a questão da Bíblia, tem se tornado cada vez mais questão prioritária, merecendo investigação, discussão, estudo e proposição para que mantenhamos o encantamento dos textos, mas também para que eles não fechem caminhos para as questões mais urgentes de nossa época.

Historicamente o protestantismo aconteceu como processo de enfrentamento do dogmatismo da igreja medieval. A solução, de natureza provisória, foi transferir todo o dogmatismo para as Escrituras Sagradas. Desse modo, a Bíblia tornou-se um voraz buraco negro capaz de ir aprisionando toda a vida do Universo, lugar obscuro do qual nenhuma luz podia escapar. O fundamentalismo encontra sua lógica não somente em um literalismo redutor, mas também nesse movimento de captura da vida pelos textos. Toda a vida foi cercada pelas capas da Bíblia, sendo contida por uma pequena biblioteca de sessenta e seis livros, de natureza diversa, mas obrigada a encerrar toda a diversidade possível.

Portanto, o problema hermenêutico não se resume na questão de interpretação da Bíblia, o problema é a própria Bíblia. Na busca de compreensão da vivência cristã das primeiras comunidades, as representações foram surgindo em sua tentativa de aproximação com a realidade vivida. A presença do feminino no sagrado, por exemplo, pode ter acrescentado gradativamente uma quarta pessoa à trindade, essa complexa tentativa de representação da experiência. A Virgem Maria, portanto, teria completado a idéia junguiana de quaternidade. Na ruptura protestante, a Bíblia foi se tornando essa quarta pessoa da trindade, alternativa protestante que trouxe diferentes problemas à teologia cristã.

A tarefa é difícil, mas é urgente. A teologia precisa devolver a luminosidade da Bíblia e isso passa pelo esforço de libertar a luz aprisionada gradativamente por essa força dogmática que engessa a vida. A vida tem as suas próprias estratégias de escape às reduções e aprisionamentos. Cada vez mais o diálogo entre protestantismo e candomblé, por exemplo, acontece na prática cotidiana dos fiéis. Podemos fechar os olhos, condenar e rejeitar a tarefa que nos aguarda, ou seguir em frente, atentos aos desafios, sempre prontos para os novos aprendizados.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Uma utopia chamada Canudos

No nosso imaginário brasileiro e nordestino ergue-se provocante a cidade de Canudos, como uma verdadeira “utopia religiosa”, categoria sugerida pelo pastor Djalma Torres.

Canudos era uma pequena aldeia construída no século XVIII, à margem do Rio Vaza-Barris, no interior da Bahia. Transformou-se rapidamente em uma grande cidade de cerca de 25 mil habitantes, a partir da liderança de Antônio Conselheiro, uma figura mística singular, no nosso Nordeste, que em 1893 chegou ao local e batizou a cidade de “Belo Monte”.

A idéia era essa mesma: construir uma cidade acolhedora, para onde se dirigiam as massas pobres do sertão, em busca de lugar para morar, terra para plantar, e relações sociais saudáveis para se conviver. Essa última parte era garantida pela liderança de Conselheiro que constrói a Igreja, símbolo da presença de Deus no meio do povo.

Antônio Conselheiro foi estudado e classificado por muitos, de várias maneiras. Fanático, comunista, oportunista, beato, revolucionário, são alguns dos adjetivos que recebeu de estudiosos e oponentes. Talvez a classificação de Hoornaert como um místico, no bom estilo medieval, um “negociador do sagrado” o defina bem.

Tento peregrinando por tantos anos pelos sertões da Bahia e de outros estados do Nordeste, sempre construindo igrejas e aconselhando as pessoas, Antônio Vicente Mendes Maciel, recebeu a merecida alcunha de “conselheiro”. Na cidade de Canudos realizava prédicas e mediava situações diversas, apenas com a sua presença simbólica.

Na cidade do Conselheiro havia brancos, índios, negras, pessoas de passado duvidoso ou mesmo violento e eram acolhidos e viviam de modo digno. Somente não eram acolhidos maçons, hereges e protestantes. Esses últimos eram muito poucos em toda a região nordestina, mas o fato levanta questões.

Haveria simpatizantes do protestantismo na Canudos tão católica? Por que a não inclusão de protestantes nessa cidade que acudia a todos os marginalizados de então. São perguntas à espera de respostas, ou de novas perguntas.

De todo o modo, Canudos foi uma cidade construída em torno de uma idéia. Enquanto utopia nunca poderia encontrar um lugar ou um espaço de realização. Enfrentou sistemas e exércitos, mas foi destruída. Sobrevive como herança mítica e como descrição tanto da capacidade e habilidade de pessoas simples enfrentarem a força das instituições, como da possibilidade e impossibilidade de se construir cidadania à margem dos trâmites legais, oficiais ou simplesmente costumeiros.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

PROTESTANTICIDADE E CATOLICIDADE



Catolicismo e protestantismo são grandes construções cristãs que se relacionam de modo complexo. Percorrendo lógicas distintas, cada uma encontra o seu significado e sua relevância no espelho da outra. Lembrando que se as relações complexas incluem conjunção, disjunção, implicação, oposição e contradição, em um grande todo, confluência, afastamento e complementaridade marcam modos dialógicos que acontecem em um processo histórico do qual não se avista o final.

Ambos são respostas históricas ao grande movimento de seguimento à estranha figura de Jesus de Nazaré. Posicionando-se em um momento concreto da história da Palestina, dentro da grande configuração do Império Romano, um desconhecido carpinteiro de uma minúscula aldeia, consegue causar um tumulto suficiente para ser julgado, condenado e crucificado, como um revoltoso, subversivo da ordem estabelecida. Seus crimes, de natureza política e religiosa, não estão esclarecidos, até o dia de hoje, Entretanto, uma série de comunidades surgiram depois de sua morte, afirmando a sua ressurreição, espalhando-se por todo o mundo conhecido, envolvendo especialmente pessoas desfavorecidas, proscritas, mas também, pouco a pouco, trabalhadores comuns, intelectuais e mesmos alguns ricos que gozavam de certo prestígio na sociedade.

Essa multiplicidade de comunidades produz uma multiplicidade de procedimentos, ritos, histórias, discursos e interpretações, alimentando uma tradição predominantemente oral, à qual vão se juntando textos de diversas naturezas e diversos pesos. Esse todo não pode ser homogêneo, portanto, perguntando pelos laços e caminhos que lhe dariam certa unidade e universalidade. O princípio que dirige esse movimento centrípeto dentro dessa força de diversificação, essa pergunta pelo comum e universal, pode muito bem ser chamado de “princípio de catolicidade”. As respostas necessárias para essa tendência à diferença e diversidade devem ser entendidas como contingentes e históricas, mas normalmente não é assim que acontece.

O resultado progressivo dessa busca pela unidade foi a uniformização e padronização das comunidades, garantidas por força institucional nem sempre pacífica. Um grande edifício internacional foi construído: um poder religioso que caminhava com o poder político ou como aliado, ou como subordinado que dava ao discurso político a legitimidade teológica, e até como subordinante, transformando o aparato político em braço secular de seus motivos religiosos.

Na direção contrária, fortes movimentos contestatórios promoviam nuances e matizes diversificadas, utilizando-se de um outro princípio que podemos chamar de “princípio de protestanticidade”, apenas para resguardar a palavra “protestante” para as configurações mais institucionais que inevitavelmente viriam a se estabelecer. Se o “princípio de catolicidade” é de natureza centrípeta, o “princípio de protestanticidade” é de natureza centrífuga. Os movimentos de reforma do século XVI e XVII são confluência desse espírito de oposição a uma autoridade institucional, a qual se constituía como força de conformação religiosa, política e ideológica, responsável pela manutenção da configuração social vigente.

Do mesmo modo que um “princípio de catolicidade” terminou se cristalizando em uma instituição católica, de natureza autoritária, o “princípio de protestancidade” petrificou-se em institucionalização, de um modo diferente, mas previsível. Uma diversidade de instituições protestantes, semelhantes e diferentes, foram surgindo desse outro processo que provoca a unidade da igreja na direção de uma fragmentação cada vez maior. Ambas as configurações tendem a um autoritarismo, mesmo que de cunho diferente.

A instituição católica se configura como cone hierárquico, o qual encontra na figura do pontífice o seu vértice unificador. As instituições protestantes se estabelecem enquanto rede complexa, em que diversos sistemas de autoridade tentam se definir. Um movimento ecumênico já se encontra a caminho há mais de um século, tentando encontrar meios de estabelecer plataformas e procedimentos, em que alguma unidade seja possível, ou que a unidade essencial da igreja cristã (seja isso o que for) torne-se sempre mais visível.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Protestantismo e candomblé



A terceira linha de pesquisa proposta pelo CEPESC, “protestantismo e candomblé” se constitui como um desafio, diante de uma violência simbólica responsável por atos de intolerância de diversas naturezas.

As relações entre o protestantismo e o candomblé são complexas, especialmente em sua vivência prática. Afastamento, antagonismo, intolerância, marcam a maior parte das posturas dos grupos protestantes, encontrando-se, porém, mesmo que raramente, atitudes dialogais.

O candomblé no Brasil se caracterizou como religião de resistência da cultura negra, fortalecendo-se gradativamente, em uma forçada clandestinidade, até ser admitida como expressão legítima de religiosidade do povo, tanto quanto as religiões cristãs e todas as outras religiões.

Por outro lado, ainda é generalizado o preconceito que concebe o candomblé, junto com outras religiões de matriz africana e indígena, como forma inferior “primitiva” de culto, sendo a demonização dos orixás um exemplo desse tipo de atitude.

Um olhar não preconceituoso pode enxergar bondade e beleza, ali onde se espera sempre conflito e ambigüidade. O sofrimento causado pela intolerância religiosa nos convida a rever atitudes. Tolerância e respeito são desejáveis urgentemente, mas insuficientes para dar conta da totalidade do fenômeno do qual nos acercamos.

A celebração do outro é o caminho para admitir que a alteridade não ameaça a minha identidade, mas é condição e possibilidade da mesma. A festa da humanidade precisa das diferenças para continuar sendo festa.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

PROTESTANTISMO E VIDA

A linha de pesquisa do CEPESC, “Protestantismo e vida” é resultado de uma série de reuniões organizadas em 2008, sob o título “Defesa da Vida”. Pesquisadores e pesquisadoras interdisciplinares e líderes religiosos de diversas denominações discutiram temas considerados de fronteira, clonagem, células tronco, aborto, eutanásia, admitindo que não existe uma ampla discussão protestante, partindo de posições não dogmáticas, que instrumentalize atitudes claras diante da vida em sua complexidade.

O protestantismo, e o protestantismo brasileiro especificamente, faz parte desse grande eco-sistema chamado vida, se consideramos o todo de relações, tecido como um complexo de significações, em que a cultura se constitui como parte relevante. A partir disso, precisamos entender o que significa ser protestante dentro da vida e diante da vida e entender a vida como um complexo vida-morte, onde cada pólo se estabelece como limite e condição.

Para o pensador Edgar Morin:

“A vida é sempre incerta. A morte incerta é sempre certa. Morrer é fatal, necessário, inelutável. A morte está escrita na própria natureza da vida” (MORIN, Edgar. O método 2: a vida da vida. Porto Alegre: Sulina, 2001, p.438).

Não se pode pensar vida sem pensar morte. A morte é estratégia e necessidade da própria vida. Uma e outra andam juntas, meio inimigas meio amantes, coladas fortemente, devorando-se apaixonadamente para permanecerem em sua fortaleza e fragilidade paradoxais.

Um pensamento protestante se estabelece como pensar cristão não dogmático. Tendo sua referência nos textos sagrados e se inscrevendo na tradição teológica que lhe antecede, afirma, entretanto, a única autoridade absoluta do Deus da vida e da morte, desafiando-se a pensar teológica e complexamente.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Protestantismo e religiosidade popular

Na nossa pesquisa sobre protestantismo e religiosidade popular, a qual inclui Antônio Conselheiro e sua Canudos, o missionário Padre Ibiapina e o Sertão do Cariri, e o Padre Cícero de Juazeiro do Norte, nos interessa especialmente a questão da relação dessa religiosidade do povo com a implantação protestante no Brasil.

Na mítica Canudos, o conselheiro aceitava todo mundo, menos ateus, judeus, maçons e protestantes. Padre Wilson, um grande amigo, expressou a opinião de que isso seria ou um exagero ou força includente de expressão, até mesmo porque o protestantismo seria praticamente uma inexistência, por aqueles tempos e por aquelas bandas.

Nas Crônicas sobre as Casas de Caridade do Padre Ibiapina, fala-se dos inimigos da igreja de maneira generalizante, embora alguma menção explícita aos “hereges” protestantes da Europa.

Essa relação entre religiosidade popular e implantação protestante no Brasil merece uma investigação mais acurada com algumas questões evidentes.

1. O forte espírito polêmico e proselitista das missões protestantes causa reações públicas da oficialidade católica em jornais, à medida que espalha uma série de folhetos usados para atacar a hegemonia doutrinária católica.

2. Conversão estratégica de padres são exploradas grandemente pelas missões protestantes, produzindo um grande reboliço e provocando reações.

3. Qualquer conversão de católicos ao protestantismo em cidades do interior era suficiente para provocar conflitos e acirrar contendas que iam da disputa dogmática às puras altercações corporais, às vezes chegando a extremos.

4. A pregação do protestantismo era comumente associada à ideologia do progresso, de natureza capitalista, e à modernidade, colocando sempre na conta do catolicismo o atraso e a estagnação econômica.

Talvez essas fossem razões suficientes para imbuir os líderes religiosos populares de forte resistência ao protestantismo, o que ajudava a tornar os fiéis desconfiados e hostis diante da “heresia” que se avizinhava e ameaça a coexistência social.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Protestantismo e mundo

Iniciamos aqui uma reflexão que pretende ser semanal sobre "protestantismo e mundo", como parte de um projeto de pesquisa para o CEPESC (Centro de Pesquisa, Estudos e Serviço Cristão), com três linhas intercambiáveis: "protestantismo e vida", "protestantismo e religiosidade popular" e "protestantismo e candomblé".

Partimos de uma definição de protestantimo que abarca toda igreja e grupo religioso que apresente vestígios de continuidade com os movimentos de reforma do século XVI, mesmo quando estes não pretendam se reconhecer no mesmo espelho.

Esse protestantimo se faz presente no mundo concreto, e "mundo" também é um complexo que abarca tanto a experiência existencial de cada pessoa ou grupo, quanto a ordem e desordem social em sua vivência cultural.

Apelamos, portanto, para um contínuo, um campo de significação onde os conceitos e agentes se aproximam ou se afastam de sinais demarcadores, promovendo múltiplas e frutíferas relações.

Pretendemos caminhar devagar e sempre, muito mais peregrino que cientista, admirando a paisagem, colhendo flores e palmilhando caminhos desconhecidos ou não.