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sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

A EXÓTICA E DESCONTROLADA FESTA DO NATAL

 


Marcos Monteiro

 

O Primeiro Natal foi uma exótica e descontrolada festa e tronou-se a autorização para o nascimento de qualquer criança e de se enxergar nos olhos de qualquer pequenina o olhar do Menino-Deus.

Se Jesus, a criança palestina, em situação muito precária, nas migrações forçadas da vida, em meio a animais, cochos e molambos, nasceu, qualquer criança pode nascer como um grito de humanidade e de esperança de que Deus, mais uma vez, nos encare com um olhar infantil.

O olhar do Deus-Menino assusta palácios e templos, mas enternece estrangeiros suspeitos e faz pastores campestres dançar ao som de música cósmica. Anjos, estrelas, pastores, nômades, profetas idosos invisibilizados, animais, e até uma criança ainda não nascida, exultam com a notícia tão comum e tão incomum.

Nascimento é sempre assim, tão simples e tão denso. Nas periferias da história a humanidade alcança brilho maior e desequilibra injustiças e preconceitos. Em um mundo de desigualdades gritantes, o choro de vida de uma criança pobre faz ressoar o grito de alegria da esperança.

O primeiro Natal é festa alucinada de proscritos em que animais podem participar. As prescrições não controlam os corpos amorosos que produzem crianças nem a alegria desautorizada de futuros que se esboçam.

Celebrado em todos os lugares, de diversos modos, por diversas culturas de diversas religiões, o Natal é oportunidade e convite de dançarmos livremente, com os nossos humanos e animais de estimação,  o cântico da esperança de um mundo muito melhor, de paz abundante, de justiça irretocável e de amor sem medidas.

Recife, 25 de dezembro de 2020.

domingo, 16 de agosto de 2020

MINHA IRMÃ ÁUREA MARTA: ENTRE DOCES E TAMANCOS



 

Marcos Monteiro

Áurea

Você tem o direito de comer todos os doces do mundo sem levar nenhuma tamancada no seu aniversário.

Eu me preparei para escrever um texto neste dia e achei que seria fácil. Mas não foi não. Acordei cedo e fiquei percorrendo lembranças, procurando um fio para pendurá-las no varal e com o mesmo amarrar o seu presente.

Claro que lembrei de você pequenininha, percorrendo a vizinhança, recolhendo guloseimas. “Dona Mercedes, tem bananada? Dona Luzinda, tem biscoito? Seu Dioclécio tem cocada?” Imagino a expectativa de cada, sorriso deslumbrado guardado no bolso para a sua aparição. Mas em casa, uma mãe aflita lhe esperava de tamanco na mão. Naqueles tempos a pedagogia do tamanco já havia sido abolida na escola como absurdo dos absurdos, mas ainda era usada em casa quando uma mãe não sabia o que fazer da filha fujona.

       

Você não ligava. Achava, inocente, que doces e tamancos eram parte da vida. Em casa, seus pequeninos pés viviam calçando os tamancões da mãe amada, mas todo dia fugia de novo pelos caminhos dos doces. Mamãe, um dia teve uma grande ideia (mãe sempre tem grandes ideias) e lhe deu de presente de aniversário um tamanco grande que engolia seus pés e você fugiu toda orgulhosa pela vizinhança de doces.

Quando seu Dioclécio, que era marceneiro, foi buscar o seu doce, olhou pros seus pés e comentou: “Quem fez essa maldade com essa criança?” E cortou o excesso, presente de aniversário desses de colocar gosto ruim em cocada.

Pois bem, nessa história de fugir, um dia você foi parar longe, não sei direito como. De Boquim, interiorzinho de Sergipe, para a cidade grande de Natal, no Rio Grande do Norte, eram muitas léguas para pouco tamanco, mas um ano depois você voltou. E nos seus oito anos de idade não era mais criança, eu via uma adolescente deslumbrante, bela, e me senti tímido como um matuto diante de uma moça da capital e estava doido pra me “amostrar”. Se eu pudesse, dava todos os doces da casa pra você.

Amo muito você, minha irmã, e fomos muito companheiros de infância e adolescência. Já jovem, em novo descuido de mamãe, você fugiu para São Paulo e trouxe de lá um doce do tamanho de um marido. Nosso primo, Beg, apaixonado, se instalou dentro de casa. Mamãe não gostou muito, mas não usava mais tamanco. Beg, meio artista da vida, virou trabalhador braçal, primeiro, depois fez cursos e concursos até se tornar funcionário público. Hoje, aposentado, é o doce à sua disposição dentro de casa. Como lembrança indiscreta, a música preferida de Beg, naqueles tempos foi “você não gosta de mim, mas sua filha gosta”. Coisas dessa relação histórica com sogra. Fico aqui pensando que ele merecia tamancadas. Mas foi com ele que vocês prepararam filhos, netos e netas doces.

Lembrei de tanta coisa mais. De sua facilidade de aprender, de sua criatividade insuperável e da sua vocação para liderar. Sempre administradora, dessas com tanta capacidade que tem de controlar o jeito para não humilhar ninguém. Nunca é fácil.

Mas fiquei meditando, como religioso incorrigível que sou, que a graça do Pai, de Jesus e da Ruah Divina, esse trio ternura de nossa herança cristã, têm sido o seu pote de doces de reserva quando os tamancos da vida lhe ameaçam ou quando querem diminuir o tamanho do conforto dos seus grandes tamancos.

                    

O meu desejo é de que essa graça venha imensamente sobre o seu aniversário e lhe empanturre de doces e que você desfile orgulhosa calçando tamancos do tamanho da esperança.

Recife, 15 de agosto de 2020.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

UM PEQUENO INTERVALO NA ERA DO CORONAVÍRUS


Marcos Monteiro

Desses momentos em que chorar e orar se tornam sinônimos da minha impotência e recolho pequenas alegrias, como o sorriso da minha filha e o conforto do café quente deslizando pela garganta.

Enquanto lavo pratos, o dia se aproxima em silêncio passado e silêncio futuro, nomes próprios e substantivos comuns, fruição e responsabilidade, lembranças e expectativas.

Venho para o computador e o tempo escorre pelos meus dedos para um teclado que já foi coisa externa, mas se tornou ao longo da vida órgão do meu corpo, surpresas da amizade.

Quando a pandemia chegou,”amor e dor” foi cada vez mais se estabelecendo como rima, mesmo proibida pela canção, até porque recordar, saber e cuidar é vício da humanidade.

E eu lembro do romance de Camus, “A peste”, e sei que quando os ratos saem dos seus esconderijos e revelam doença e morte, precisamos decidir diante dos chamados escancarados, qual a nossa vocação, ou santos, ou humanos, ou médicos.

Sem saber o que fazer, diante das múltiplas encruzilhadas, no meu espaço cenobítico em monasticismo involuntário, na Era do Coronavírus, na Idade do Bolsonauro, simplesmente escrevo.

Recife, 27 de julho de 2020

segunda-feira, 20 de julho de 2020

AO MEU IRMÃO AMADOR SÉRGIO PAULO NA ERA DO CORONAVÍRUS


Cercado de amadas


Sérgio

Divulgar no meu blog essa carta é reivindicar o direito à indiscrição nessa Era do Coronavírus, na Idade do Bolsonauro. E minha tarefa, designada por seu par Marconi, é escrever celebrando o seu aniversário de sessenta e três anos, indiscrição primeira. Somos sete filhos de D. Honorina, organizados aos pares: os caçulas, Mary Ruth e Pedro Jr carregam as suas lembranças, os quase mais velhos, eu e Áurea Marta, nos acompanhamos infância e adolescência a fora e tem a mais antiga, Ana Maria. Mais do que tudo, essa irmã amada paira acima de todas e todos nós como uma espécie de entidade a ser adorada, apesar da proibição protestante de idolatria. Próprio das divindades, ela forma um par consigo mesma, ou Ana forma um par com Maria; ainda não compreendemos bem esse mistério.

Pois bem, Sérgio Paulo, você e Marconi formam o par do meio, o que não é fácil de explicar ou entender. Marconi, ontem, tentou me explicar que ele é o caçula dos mais velhos e o mais velho dos caçulas, precisamente o irmão do meio, fonte talvez da sua facilidade de ser tão preciso em tudo que faz. Você é o par do nosso irmão mais amado, por nós e por mamãe (menos por papai que só sabia amar mamãe, tão apaixonadamente que nos tornamos detalhe, paisagem, moldura, sei lá). Então, não foi fácil lhe definir, nesse emaranhado de irmãs e irmãos que nos tornamos.

Na tentativa de desenrolar esse novelo, pensei e pensei e estou lhe chamando de “meu irmão mais amador”, apesar de você ter se tornado um excelente profissional. Amar a sua amada, a sua filha, as suas amigas, os seus amigos, as suas irmãs, os seus irmãos, e especialmente a nossa mãe não foi arte aprendida. Nas oficinas do amor, você sempre foi mestre e seu amor não é um romantismo profissional, você sabe ser você mesmo e amar de modo concreto: é um amador. Conversando, confirmamos que todas e todos em algum momento fomos cuidados objetivamente. E o seu cuidado por D. Honorina, nossa mãe, significou a dignidade de uma habitação e o acesso a saúde de qualidade, providenciando vida que se estenderá por mais tempo do que os noventa e cinco anos que ela completou.

Nas lutas sindicais e no partido socialista, o seu amor se tornou mais efetivo ainda, embate por estruturas mais justas e igualitárias, peleja complexa em que nunca se tornou um militante profissional, sempre socialista amador, ampliando jeitos e gestos de sempre ser.

Ontem, estávamos irmãs e irmãos procurando no sótão de lembranças e recolhi duas especiais. A primeira, estávamos conversando sobre dons, os quais na nossa tradição cristã é gratuidade, jeito especial de cada viver para si e para os outros. Jorro da Ruah Divina que nos acolhe e energiza. Lembro que você pensou um pouco e me disse: “o meu dom é ser feliz”. Achei interessante e fiquei interessado, acompanhando a sua trajetória. Será que Almir Sater lhe plagiou? (“Cada um de nós recebe o dom de ser capaz, de ser feliz”). Pois não é que você nunca desaprendeu disso e ainda mais: distribuir felicidade é natural em você, coisa de amador!

Depois, lembrei de você dirigindo uma pequena peça teatral natalina na Igreja Batista do Cordeiro. Nuances teatrais que revelavam uma das paixões que você partilhou. Os livros de teatro que me indicou são caminhos de leitura que nunca abandonei e começo a perceber que alguém sempre lhe imita depois. Dessa vez foi o nosso caçula Pedro Domingues Monteiro Jr, imitador de papai na imagem e no nome e imitador profissional de você no desempenho artístico.
Sérgio de chapéu na mão, mamãe, irmãs e irmãos.


Bem, meu irmão, a sala virtual está aberta e estou querendo ler essa carta na presença dos seus amados. Nessa Era do Coronavírus, na Idade do Bolsonauro, sei que seu amor está sendo desafiado a atitudes complicadas e o dom de ser feliz nos impressiona. Até nessa loucura toda o seu sorriso, bom humor e capacidade de amar concretamente tantas e tantos continua.

Parabéns e continue sendo quem você é, amador apaixonado por pessoas e por valores, como justiça e verdade. E continue amando o amor, tão fragilizado nesses nossos dias.

Do seu irmão
Marcos Monteiro


domingo, 5 de julho de 2020

A BÊNÇÃO MINHA MÃE, OU A CELEBRAÇÃO DA DECADÊNCIA NA ERA DO CORONAVÍRUS



Marcos Monteiro


Ontem, antecipamos a festa do aniversário de 95 anos de minha mãe, Honorina. Embrulhamos as idades em décadas e comemoramos os fechamentos de modo diferente.  E, se a vida é um ciclo, aos cinquenta anos levamos o sentimento de cumprir o tempo de ascender e começamos a cadência da descida. Mas, se por um lado, a visão da morte no fim do ciclo começa a se tornar mais nítida, descobrimos, por outro lado, a possibilidade de uma nova leveza, a desnecessidade de prestar contas demais e a chance de viver com menos culpas. Então, na descida da vida, ao nos sentirmos decadentes, somos convidadas à celebração da decadência.

Neste ano de 2020, duas décadas fechadas do século XXI, três matriarcas de minha família completaram diferentes décadas, com celebrações especiais em datas diferentes. Minha tia, Miriam Lemos, a mais nova e mais linda das filhas de vovó Mariquinha (exceto minha mãe em seus 95 anos, a cinco do centenário que comemoraremos) fez oitenta anos. Minha irmã mais velha, Ana Maria, em sua digna e bem humorada maneira de mandar em todos nós, fez setenta. E minha irmã mais nova, a mais linda e fascinante de todas as matriarcas da família, completou sessenta anos e celebramos muito sua decadência. Hoje, a minha matriarca mais amada, Honorina, completa 95 anos, com o olhar bem aberto, e com músicas e conhecimentos bem escondidos de nossa inesgotável curiosidade.

Faço parte de uma família nordestina, elegantemente matriarcal, e sou um dos chamados “manicacas”, no idiomês potiguar, homens dominados pelas mulheres, com muita honra. Completarei sessenta e nove anos, em outubro, vivendo alegremente minha inexorável decadência. Fui descobrindo surpreso, nessa Era do Coronavírus, nessa Idade do Bolsonauro, que pertenço ao grupo de risco.

No início pensei que seria o risco maior de ser contaminado, mas fui percebendo pouco a pouco que levo o risco de contaminar a humanidade com a minha dança decadente. Logo no início da quarentena, apelidado decentemente de “isolamento social”, andei inocente à procura de uma farmácia para comprar medicamentos, e alguém, jovem, num automóvel qualquer, gritou “vá para casa, seu velho idiota”. A partir desse dia, comemoro a minha decadência em casa, saboreando feliz meu cuscuz com ovo e meu feijão com arroz, preparado por minha filha.

Tenho pensado, desde então, dos riscos que trazemos, o perigo de contaminar mais e mais pessoas com lembranças e esperanças. Talvez não seja o contágio do vírus o que mais assuste os outros.

Cada vez mais socialista (nenhum decadente perde fácil suas manias), sou testemunha de uma história que sempre usou o medo de nossa crítica radical do capitalismo para mais fortemente oprimir as vítimas desse sistema maligno. A ditadura, essa que dizem que nunca existiu, usou o pretexto do combate à nossa mensagem de esperança, para mais torturar e mais vitimar as populações vulneráveis. E cada vez mais cristão e cada vez mais pastor, com as devidas ressignificações que a cadência da vida me propôs, sou provavelmente mais perigoso ainda, por saber de uma igreja evangélica tão alienada, omissa, preconceituosa e intolerante quanto a atual.

Apenas menor e com menos poder público, a igreja evangélica celebrou a ditadura militar com uma voracidade feliz. Mas, nessa ciranda da decadência, posso também testemunhar que havia resistências, corajosas, belas, que pagaram preços altos por viverem a fé, o amor e a esperança até as últimas consequências.

Bem, mas hoje minha matriarca Honorina completa noventa e cinco anos e sei que o matriarcado carrega forças e segredos, aliados a uma gentileza e elegância sutis. No meu deslizar pelas décadas, minha esperança socialista é cada vez mais matriarcal: a revolução virá das mulheres. Na minha família, todas as mulheres ocupam lugares estratégicos, e sei que na hora que decidirem, nós, os manicacas (assumidos ou não), seremos compelidos a melhorar o mundo.

A bênção, minha mãe, minha matriarca lindíssima, em seus silêncios de olhos vivos, escondendo na profundidade de seu corpo e de sua alma, danças, músicas, hinos, poemas, versículos, mensagens infinitas de graça e de alegria, convite a uma ciranda sideral de celebração da decadência. Feliz aniversário.

Recife, 05 de julho de 2020. 



segunda-feira, 25 de maio de 2020

No sábado da morte de Djalma Torres




Marcos Monteiro

Foi um sábado difícil. Começou com uma chuva descontrolada, aqui no Recife, e com algumas lágrimas controladas, por conta do áudio de Clarisse, informando gentil e emocionada, que provavelmente Djalma partiria naquele dia. Minha filha, quando me viu chorar, perguntou se Deus estava chorando e eu respondi que sim. Depois, pensando melhor, concluí que a chuva era da natureza, angústia do planeta, por um filho que partia; Deus estava alegre, sorriso aberto, antecipando o reencontro. Mas foi um sábado aquoso.

As águas do Tororó acamparam na minha imaginação e eu queria escrever um texto, homenagem ao meu amigo, mas os caminhos da linguagem eram tantos e tão diversos que não consegui; e fiquei alerta, vivendo o dia e aguardando os acontecimentos. No fim da tarde, quando a notícia da morte chegou, as comportas da minha alma se abriram e chorei como nunca: o sábado tornou-se líquido. E li tanta coisa bela, ouvi tantos depoimentos fortes, troquei mensagens rápidas com tantos amigos comuns, com uma dor tão intensa, que percebi que pensava que Djalma era eterno, não esperava que se fosse, não agora, não sem podermos nos encontrar novamente, em algum lugar da cidade de São Salvador, Bahia.

Lembrei dos encontros mais recentes. Uma visita ao hospital, no início do diagnóstico do câncer agressivo, uns tempos depois no apartamento de Maurício, quando começava a convalescer, e o mais recente de todos, quase uma semana juntos (precisava revisar um texto que ele estava publicando) no lugar sagrado do Tororó, sede do CEPESC, da Igreja Evangélica de Antioquia, oficialmente, e de tantas instituições, organizações, movimentos, encontros, provisória ou informalmente. Mas também era um dos refúgios de Djalma, o mais sagrados de todos, com espaço para dormir, comer e acolher pessoas. Nesse último momento, estava leve e livre, com a vivacidade de sempre, compromissos que não sei como conseguia dar conta, energia e alegria funcionando com toda a carga.

Djalma tinha uma geografia existencial bem própria, com hierarquias ainda a serem deslindadas pelos historiadores que se debruçarão sobre a sua trajetória. Salvador era o berço da humanidade, e quando me chamava para aparecer, repetia sempre: “Venha tomar um banho de civilização”. Jequié era a fonte de sua origem, craque de futebol que se transforma em pastor evangélico, mas Canudos era a cidade síntese, modelo de como o mundo pode se tornar lugar da “Utopia Religiosa”, título do livro que não terminou de escrever. Caminhava com Canudos na valise da alma, e quando esteve em Paris, com Olusivone, tenho certeza de que olhava para a Torre Eiffel, pensando nas míticas “ribanceiras de cuscuz com rios de leite”, andava pelas margens do Sena sabendo que nunca conheceria o Vaza-Barris, que a inépcia governamental mandou aterrar, e quando se deliciava nos restaurantes franceses, sentia saudade da pousada de Maria, cujo cardápio era abundante e refinadíssimo, garantia do pirão de bode e da moqueca de peixe inigualável.

As refeições com ele eram simples e significativas, religiosas em si mesmas. “Não pode haver culto sem comida”, dizia e praticava, e misturar esdruxulamente os sabores, sorvete com farinha (como frisou Vanessa em seu tocante texto) era ritual inter-culinário. Tenho certeza que foi por aí que começou o diálogo inter-religioso. A mesa farta é parte integrante dos rituais afro-brasileiros, momentos em que a saciedade da fome de vida e da fome de Deus é oferecida. Os cultos dominicais da Igreja Batista de Nazareth, onde foi pastor durante trinta anos, e da Igreja de Antioquia, sempre terminam com uma refeição comunitária.

Djalma não sabia caminhar com palavras vazias, enchia as mesmas de vida, e concretizava sonhos em estruturas organizadas. Libertação era mapa para visitar jovens presos pela ditadura militar e para acolher clandestinamente perseguidos pelo regime. Evangelho era um convite à intensidade da meditação sobre a Bíblia e a uma vida de oração e compromissos inteiros. Espiritualidade era a misteriosa palavra sobre o mistério das noites em que se debruçava sobre as raízes da vida e sobre os santuários, lugares escolhidos para o seu recolhimento. Uma vez me mostrou, na fazenda, um espaço onde se recolhia em solidão sagrada. Na exuberância de sua agenda, encontrou espaço para realizarmos algumas coisas juntos. Mas, entre o que desejamos e não alcançamos, um encontro sobre espiritualidade em que pudéssemos partilhar a nossa própria vivência, quase chegou a acontecer. Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso foram duas palavras que receberam forma, tempo e lugar especial em sua trajetória. O prêmio nacional na área de direitos humanos, pelo seu combate contra a intolerância religiosa, foi um pequeno reconhecimento pela grandiosidade de sua atuação.

No começo da noite do sábado, a enxurrada de homenagens, de ideias e de lembranças, se tornaram em cachoeira, e chorar e orar eram rimas e sinônimos. Não consegui dormir pela madrugada e estava com muita raiva, da morte de crianças e da morte de Djalma, duas coisas inexplicáveis. Porque ele era criança, amada por netos e outras pequeninas e pequeninos, e o seu jeito não conseguia ser dissimulado, mesmo em meio a um momento sério, como se ser adulto fosse um dos seus jogos infantis. Afinal, pastor que começa sermão com piada de Zelezim, ou que peregrina para Canudos, ouvindo Mussão, não existem fáceis por aí.

Na liquidez do meu sábado, lembrei de Djalma de calção, tomando banho no Jorrinho e desejei que haja uma réplica no espaço celestial em que transita agora. As águas pareciam revelar toda a sua pujança e toda a sua alegria de viver. Então pensei que o Dique do Tororó, com suas belíssimas imagens das entidades africanas, parecem com o meu amigo, e que naquelas águas correm lágrimas do povo negro, oprimido por uma religiosidade disfarçada de cristianismo. Tenho certeza de que, no sábado, o Dique do Tororó se rompeu e suas águas se espalharam cidade e mundo afora, levando as lágrimas de quantos o amaram e vão eternizar a saudade. E me senti desafiado a uma entrega radical à vida, ao Pai e à sua misteriosa agenda. A sensação é de que a morte revela a plenitude da vida. Nunca mais fui o que era e cada vez mais me sinto desafiado a ser mais do que sou, porque conheci e fui acolhido por Djalma.

Recife, 25 de maio de 2020.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Caminhando entre o sol e a lua na Era do Coronavírus

Picart

NA ERA DO CORONAVÍRUS

Caminhando entre o sol e a lua

Marcos Monteiro

Antigamente, muito antigamente, o tempo teria sido marcado poeticamente, ou fenômenos cósmicos, ou sociais, ou míticos. No dia em que a lua correu e alcançou o sol, ou no ano em que a primeira mangueira surgiu repleta de frutos, ou na manhã em que Potira não viu Itagibá voltar. Pois bem, ontem foi o dia em que dei um passeio pequeno pela cidade grande, na Era do Coronavírus, modo épico de nomear tempos indefinidos, meio tragédia, meio comédia metida a farsa.

O sol de meio dia nos acompanhou por uma peregrinação econômica, comprar comida e fazer transferências bancárias, e descobrir que o mundo pode mudar, mas as filas continuam, com algumas mudanças. Há mais idosos nas filas e o medo que tínhamos de mascarados, agora é de quem não usa, tempos em que uma mulher de burca nos deixa extasiados e em paz. Porque o medo é a emoção do momento, sinto medo de andar, de parar, de tossir, de coçar, de doer, de cansar, de respirar. E depois de tudo, o medo de não ter sintoma nenhum, do perigo de ser assintomático.

Pois bem, Eu e Zailda, minha filha, nos preparamos a manhã inteira para dar a nossa saída, meio preocupados, meio empolgados. Entendia que precisava me disfarçar o mais possível de não-idoso e passei um tempão tirando a barba branca, meio grande, meio irregular, meio ridícula, mas eu gosto. Deixar a barba crescer foi uma decisão tardia, pelos fins dos cinquenta e inícios dos meus sessenta anos, e foi um alívio assumir um rosto com pelos, dispensar os estojos e cremes de barbear de cada dia. Disse-me um amigo que desisti de tentar ser talentoso e optei por ser exótico. Em casa, passeamos pelo celular e computador e depois do almoço saímos.

As ruas e as poucas e pequenas lojas abertas ainda eram razoáveis, mas o grande supermercado, com o seu ar-condicionado potente, garantindo o prolongamento da vida de vírus e bactérias, e a grande quantidade dos macro-organismos da espécie humana, talvez em extinção, era quase aterrorizante. Usar máscaras e respeitar distâncias não estão ainda acontecendo de modo contundente, hábitos construídos por tanto tempo não são fáceis de serem desinstalados de repente. Estamos na estranha era em que ama mais o próximo quem mais se afasta. E nós os latinos, famosos por se esfregar e abraçar, talvez tenhamos de adotar o costume oriental da leve inclinação à distância. Claro que no confinamento de casa, manter distância é um dilema que em alguns momentos não dá. Um casal amigo está tentando aprender a transar a um metro e meio de distância, mas confessam que ainda não conseguiram. Por enquanto, usam álcool gel nas partes.

Com boletos e cartões bancários nos bolsos, encontrei uma lotérica com filas razoáveis, três gerais e duas preferenciais, superlotadas de mascaradas e desmascarados. Não tive coragem de optar e assumi meu lugar na fila de idosos, mesmo sabendo que essa história de fila preferencial foi estratégia de discriminação e, com pouca fila pra tanto idoso, o fluxo será sempre mais devagar. Fiquei à distância de três metros para não assustar a humanidade e demorou, mas fui atendido. Então voltei pra casa, feliz, com a sensação de ter feito mais exercício do que o meu cardiologista recomenda. Minha filha me mostrou a lua na janela, grande e linda. Registrei nas minhas anotações: Na Era do Coronavírus, no dia da superlua.

Recife, 08 de abril de 2020.


quarta-feira, 16 de outubro de 2019

EXISTÊNCIA E INEXISTÊNCIA DE ERIC MONTEIRO FEITOZA




Marcos Monteiro

Domingo celebramos 43 anos da vida de Eric e na terça-feira seguinte choramos a sua morte. A passagem dos risos às lágrimas, da alegria à dor, da existência à inexistência, nos veio como um choque, notícia devastadora, dessas que nos lançam em sofrimentos desconhecidos e reveladores. O menino que ficou adolescente, que casou com Leu e que virou pai de João Mateus e de Deric, terminou seu tempo e foi inventar outros tempos em outros espaços. Seu sorriso fácil, seu humor irreverente e sua criatividade aguda não mais nos pertencem, estão pendurados em outros varais, num outro tipo de quintal.


Um ser humano inimitável tornou-se um inexistente, o que significa talvez a capacidade de escolher uma ou mais inexistências, entre tantas disponíveis. Pode muito bem estar agora em Pasárgada e, sendo amigo do rei, escolher cama e mulher, claro que parecida com Leu. Ou na Terra de São Saruê, com seus rios de leite e ribanceiras de cuscuz, em que plantações de ovos, já estrelados, oferecem a mistura para completar o café da manhã.

Sou sampaulino convicto e Eric era o sobrinho que tinha a lucidez e a coragem de torcer pelo São Paulo em casa de corintiano. Foi assim que aprendeu a enfrentar injustiça, preconceito, desigualdade, exploração e opressão, com obstinado bom humor. Tinha facilidade de amar e ser amado e, namorado apaixonado da justiça, andava de mãos dadas com a diva, pelas ruas e avenidas da grande cidade.

Meu sobrinho, Eric Monteiro Feitoza, filho de Áurea Marta e de Gutemberg, e irmão de Sérgio Daniel e de Jônatas. A sua festa de tanta vida nos deixou exultantes, comidas, conversas, sorrisos, e agora você é um inexistente. Imagine o tamanho de nossa dor. Dentro da nossa tradição cristã, você pode caminhar por algumas das nossas inexistências de desenho bíblico, como a Nova Jerusalém que desceu do céu, ou como a que Jesus chamava de Reino de Deus e tentava nos fazer entender tantas vezes.


Na nova Cidade Santa, você vai caminhar por ruas de ouro, ou seja, vai ter o prazer de pisar aquilo que vem pisando a humanidade na história. Ouro serve de adorno ou de asfalto, ou de material para construção de coisas úteis, nunca para ostentação e acumulação. Se sair procurando, não vai encontrar nem templos nem palácios, vai encontrar praça. Como bom socialista vai transitar bem em um mundo sem igreja, sem estado e sem eleição para escolher dirigentes idiotas, porque a praça é do povo e quando o povo governar vai ser desnecessário ficar brigando contra tiranias em whatsapp e facebook e frequentar manifestações contra o arbítrio, levando os dois filhos nos ombros. Era muito bonito de ver todas essas suas atividades aqui.

Na inexistência chamada de Reino de Deus, o único nome santo é o de Deus e nunca vai ser utilizado para autorizar pastor ou político a imbecilizar e oprimir o povo. Deus é o Pai nosso do pão nosso, do amor nosso, da esperança nossa, e fé nunca será sinônimo de violência, tortura, racismo, machismo, homofobia, injustiça. Vida, igualdade, alegria, poesia, saúde, serão de todas e todos, nessa inexistência em que a paz e a justiça andam juntas. O Reino de Deus será o abrigo de pobres, mansos, famintos de justiça, sofridos e perseguidos. Assim, se estabelecendo como Reinado da Igualdade.


Talvez você esteja nos observando em sua inexistência em mundos paralelos e se enterneça com as nossas trapalhadas, dê gargalhadas de nosso destempero e se comova com a nossa saudade. Mas conheço o recado que ainda nos quer passar e já foi dado na véspera do seu aniversário.

“Nunca desejo vida longa a ninguém. Sempre desejo vida feliz, seja a vida longa ou breve.
Até porque é mais difícil ter uma vida feliz do que ter uma vida longa.
Que a vida seja feliz e que as felicidades nunca sejam breves, mas longevas o máximo possível”.

Então, esse é o desafio que a saudade de sua vida nos propõe. Que alcancemos uma vida feliz, cheia de longas felicidades.

Recife, 16 de outubro de 2019.


domingo, 11 de agosto de 2019

TITULAÇÃO DOUTORAL PARA ODJA BARROS




Marcos Monteiro

Ficamos todas e todos muito felizes com o doutorado de Odja Barros, titulação credenciada que distingue pessoas que aceitam se submeter a uma formação intensiva, exaustiva e desafiadora, e Odja mereceu o título e muito mais. Sabemos que não foi fácil, como nunca foi fácil para uma mulher, nordestina, de família pobre, pastora evangélica feminista, enfrentar olhares oblíquos, pronunciamentos preconceituosos e estruturas religiosas hierárquicas, elitistas, machistas e fundamentalistas.

Um doutorado, todo mundo sabe, deve ser feito em um ambiente amplo, silencioso, diante de uma paisagem bucólica, com uma equipe de pesquisadores disponíveis, uma biblioteca de vinte andares e um sistema ágil de comunicação. Odja, não, além de precisar incessantemente de ler e escrever, teve de aprender a surfar em maremotos e a navegar em furacões, acompanhando vítimas dessa instabilidade social, além de atender à demanda litúrgica da Igreja Batista do Pinheiro. Inesquecíveis os momentos em que abria a Bíblia e falava de Deus e da Vida, soprando palavras no ritmo da Ruah Divina, para que entendêssemos mais e mais do mistério de Jesus de Nazaré.

Lembro do momento em que, com as narrativas das parábolas de semente, nos lembrava do gosto perdido do cuscuz da nossa infância, fruto da adulteração das sementes do milho pela tecnologia massificadora, destruidora genética de tantas variedades, pela ganância desenfreada do Capital. Mas, com brilho nos olhos, descrevia o encontro com comunidades que preservavam as sementes crioulas, esperança de regeneração do gosto e da saúde do povo. Nesse momento, a Bíblia, lida em uma perspectiva libertadora, e a própria Odja, eram sementes crioulas de um futuro que sempre advém. O seu doutorado é na área de Bíblia, Bíblia que lê gente, estruturas religiosas, estruturas político-sociais, lê a vida.

Por tudo isso, acho que o título de doutorado em teologia é apenas o credenciamento visível de tantos outros invisíveis. Talvez precisemos organizar uma cerimônia de diplomação e entregar a Odja uma carrada de doutorados. Doutorado em Cuidado Pastoral, Doutorado em Libertação Feminina, Doutorado em Espiritualidade e Oração, Doutorado em Luta Popular, Doutorado em Diálogo Inter-religioso, Doutorado em Acolhimento da Alteridade, e outros mais.

Lembro quando, na minha adolescência me deparei com docentes em teologia, os quais haviam recebido o título de Doutor em Divindade. Eu me sentia reverente diante de tanta competência e hoje daria esse título a Odja com tranquilidade. Mas o título que ofereceria com mais reverência anda seria o de Doutora em Humanidade.


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

ENTRE AS TERRAS E AS ÁGUAS

Filme Titanic

Marcos Monteiro

O culto da manhã é o programa de auditório dominical que não gosto de perder. Uma mistura de espetáculo e liturgia, de apresentação e interação, de homilia e conversa, em que oração, Bíblia, cânticos evangélicos, ou ecumênicos ou populares, podem se encontrar em uma proposta de evangelho que subverte lógicas e limites.

O local é o templo da Igreja Batista do Pinheiro. Wellington e Odja, pastor e pastora, têm carisma pessoal, conhecimento bíblico-teológico, compromisso pastoral e habilidade comunicativa suficientes para um projeto de enriquecimento familiar, em uma sociedade onde a religião é mercadoria cada vez mais lucrativa.

Mas optaram por um compromisso radical, visão teológica em que as vítimas de um sistema capitalista perverso são as prioridades da ação evangelizadora. Desse modo, o acolhimento a homossexuais, a solidariedade com a população de rua, a aproximação com o movimento dos sem-terra, uma pastoral feminista e uma pastoral da negritude, direcionam sua agenda, presença solicitada nas diversas lutas por direito da cidade de Maceió, Alagoas.

E o direito premente é a sobrevivência, direito elementar a chão, problema que ameaça todo um bairro, fissuras e rachaduras distribuídas por ruas, casas e apartamentos, sinal de fendas geológicas dispostas a abalar solo e subsolo. A extração sistemática de blocos de sal-gema, por cerca de quarenta anos, é apresentada como a possível causa maior dessa ameaça. Os sentimentos vão da insegurança ao pânico, e o êxodo aconselhado dos moradores já começou, até porque a temporada de chuvas já foi iniciada, provocando alagamentos na superfície e danos presumidos na estrutura geológica mais profunda.

Os moradores se sentem sem chão debaixo dos pés e as fissuras geológicas causam abalos psicológicos e rachaduras existenciais severas. Novamente, a força devastadora do Capital transforma em mercadoria de consumo solo, subsolo e vidas, mas os cultos precisam acontecer em meio a todo esse caos.

O de domingo passado evitou a tentação de vender amuletos e bênçãos de proteção e se tornou preparação pessoal e coletiva para a mobilização para uma luta que é de todas. Passeata de fiéis de todas as religiões, conclamação para a presença nas reivindicações junto ao poder constituído, regularização de propriedades visando reparações públicas e privadas, foram anunciadas. E houve as orações, os cânticos, as prédicas, em animada e fortalecedora celebração.

No meio à crise em que todas nos encontramos, demissões, doenças, depressão, causadas pelas fissuras políticas e econômicas provocadas pelo Capital, não mercadejar a fé significa participar solidariamente dos sofrimentos das vítimas e, no caso do pastor e pastora, ter seus salários atrasados. Salário de trabalhador, desses que não conseguem enriquecer ninguém.

Participei do culto com as imagens de solo, subsolo e chuvas na cabeça, terra e água, essa mistura de que é formada a estrutura do nosso planeta.  Estava encantado pela música, conduzida com técnica e sentimento. E lembrei de repente do filme “Titanic”. O templo da Igreja Batista é muito belo e pode afundar com o bairro, como o famoso navio.

O que fazer? No filme, em meio ao pânico provocado pela colisão com o iceberg, a orquestra resolveu continuar tocando, até o fim. Outros lutaram para salvar os mais vulneráveis, alguns abriram as grades que separavam viajantes de terceira classe, dando-lhes oportunidade de resistir e o protagonista do filme, o mocinho, segurou a mão da amada em um bote salva-vidas até morrer congelado. Ela sobreviveu. E muitas e muitos outros.

Então, se a terra ameaça desabar e as águas avançam sobre o nosso barco, cantaremos. E oraremos, e estudaremos os nossos mais preciosos textos bíblicos, e lutaremos de mãos dadas. E amaremos até o fim, e o amor vai sobreviver para que outras embarcações continuem singrando os mares, desmoralizando tempestades e icebergs.

Maceió, 25 de fevereiro de 2019

sábado, 16 de fevereiro de 2019

CONVERSAR COM CÁGADOS


Marcos Monteiro

Os tempos estão difíceis e para aprender a ser cristão é preciso conversar com cágados. Deixe eu tentar explicar melhor. Vivemos esses momentos em que para melhor ser cristão é preciso detestar os cristãos e recusar terminantemente conversar com cristãos, converse com cágados. Isso estou aprendendo humildemente com o meu amigo Walter, Bambam. Ele tem um cágado com quem vive conversando e, se sua esposa chama isso de solidão, estou propenso a chamar de filosofia e com o desafio de transformar em teologia, talvez a “teologia do jabuti”.

Em uma palestra do teólogo José Comblin, ouvi surpreso ele sugerir que houve um tempo em que a Igreja estava tão mal que o Espírito Santo inspirou um grupo de ateus para combatê-la, tentando melhorar. Também, o filósofo Kierkegaard, o “poeta que desejava ser cristão”, na expressão do pastor e professor Merval Rosa, acreditava que a única maneira de ser cristão era se afastar das igrejas. Do mesmo modo, o jovem teólogo e pastor, combatente do nazismo, Dietrich Bonhoeffer, defendia que para ser realmente cristão era preciso viver como se Deus não existisse, crítica à inércia cristã diante do discurso hitlerista, convite à maioridade de um cristianismo que insiste numa crédula infantilidade.

Pois bem, esses e outros, poderiam nos ajudar a formular a teologia do jabuti, a conversar com cágados. Lembro do romance Quarup, de Antonio Callado, em que um personagem nos propõe a organizar a nossa história, através das fábulas populares do jabuti, em sua luta para escapar das armadilhas da onça, da raposa, ou de outros, defendendo sua fruta típica, o taperebá. Uma igreja brasileira “colonizada, sempre se colonizando”, continua abençoando o colonizador e sagrando suas fórmulas políticas e econômicas. Como bons jabutis precisamos aprender a utilizar nossa couraça e inventar truques para confundir a destreza e voracidade de predadores.

Walter, Bambam, cansou de tentar conversar com cristãos e argumentar contra essa sua tendência misógina, homofóbica, racista, legalista, capitalista, narcisista, arrogante e triunfalista; papagaios domesticados pelos colonizadores, capazes de repetir os seus discursos, sem nenhuma capacidade crítica e sem nenhuma vontade de sair do conforto dogmático. Quando adolescente, Walter praticava saltos ornamentais e, por causa disso, recebeu o apelido de Bambam, a criança dos Flintestones de força descomunal. Com muito gosto pela leitura e muito senso de humor, lembro de um episódio em que foi cobrar um pênalti, com uma técnica nada sutil. Fez carreira e soltou a bomba, mirando na cabeça do goleiro que se abaixou. Era bom goleiro, mas não era doido: gol.

Olavo Bilac seria capaz de oferecer para Walter um poema mais ou menos assim: “Ora, direis, conversar com cágados, certo perdeste o senso”, mas bom senso é o que não falta nas conversas de Bambam. Gosta de ler, de escrever e de conversar, mas esse último às vezes é cansativo, confessa, e com cristãos é impossível. Gosto de conversar com ele, mas sou cristão, embora meio jabuti, disposto o tempo toda a caminhar até Aracaju, nesse passo tartarugal, para colecionar citações, histórias e argumentos pitorescos do seu inesgotável bom humor. Chegando lá, preciso da coragem de levantar a cabeça da carapaça, para ouvir mais atento, com certo receio de levar uma bolada.

Uma teologia do jabuti teria de ser da prioridade da graça e da misericórdia sobre leis e dogmas, e recitaria um versículo mais ou menos assim: “Ainda que eu fale a língua dos anjos e dos cágados, se não tiver amor será ruído inútil, barulho redundante”. Porque é disso que versa a vida e que alimenta a nossa conversa de todo o dia, as aventuras, as peripécias e as responsabilidades do amor. Por amor somos capazes de cruzar fronteiras, inventar empreendimentos e pintar pássaros e peixes. E é em nome do amor e da misericórdia que não estamos conseguindo dialogar com os cristãos, preferimos os cágados.

Maceió, 15 de fevereiro de 2019.

sábado, 12 de janeiro de 2019

O DIA DE ANIVERSÁRIO DE SEU JORGE


Jorge e Cleide

Todo dia é dia de Jorge, mas hoje é especial, aniversário de oitenta e sete anos, ou quatorze. Vale a pena conferir.

Daqui a pouco chega o mundo todo, filhas e filhos e netas e netos e bisnetos e bisnetas, e chega Shirley, neta que faz anos no mesmo dia, e que traz de presente a bisneta,  Eshley.

Shirley no casamento
Parabéns Jorge e parabéns Shirley.

A família Galvão é do tamanho do mundo e o mundo todo é de Jorge Galvão dos Santos, que cresceu na Chã do Pereira, que casou com Ana, que teve uma penca de filhos e filhas e que lhe deram uma penca de descendentes.

Hoje de manhã, já comemos o gurugugu de cada dia, já fizemos a oração de cada dia e cantamos a música de todo dia: “Minha vida é andar por esse país” e “Mandacaru quando fulora na seca”, e Cleide gravou o vídeo.

Na hora da oração tem de pronunciar o nome dele, “abençoa Jorge Galvão dos Santos”, pra ele confirmar: “é verdade”. E se demorar orando, ele interrompe porque Deus é amigo e parceiro, e gosta de Seu Jorge como todo mundo. Quando ele senta e conversa, repete de quando em vez: “Se não fosse Nosso Senhor Jesus Cristo” e a gente fica querendo saber, meio sem coragem de perguntar.

Nós avisamos que é aniversário e ele ri sem acreditar e quando perguntamos sobre a idade, ele diz que tem quatorze, e conversa e faz graça e faz birra, como um adolescente.

E então desconfiamos que oitenta e sete é conta de quem não sabe que cada qual tem a idade que quer. O resto é drama.

Nós sabemos que Seu Jorge ainda vai viver mais oitenta e sete ou mais quatorze anos, depende de quem contar. Porque Jorge Galvão dos Santos, desse jeito de todo dia, quer nos ensinar a viver. Ele sabe que viemos ao mundo para comer, dormir, um pouquinho de cada vez, conversar muito e amar demais.

Jorge ri muito e brinca muito e conversa muito. Tem vez que fica com raiva, mas a culpa ou é nossa ou desse mundo que não sabe viver. Quando aprendermos a ficar o tempo todo, manhã, tarde, noite e de madrugada com ele, tudo vai estar no lugar e todo mundo vai ficar feliz.

Parabéns, Seu Jorge, por oitenta e sete anos de vida, ou quatorze. Hoje, mais do que nunca é dia de Jorge. E também é dia de Shirley, sua neta.

E louvado seja o Nosso Senhor Jesus Cristo, para sempre seja louvado.
Jorge e Marcos

Marcos Monteiro

Maceió, 12 de janeiro de 2019

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

UM FELIZ NATAL PARA UM FELIZ ANO NOVO

La Natividad de noche (1490)
Geerting tot Sint Jans



Marcos Monteiro

Anjos e estrelas divulgaram pelas campinas próximas e pelos desertos distantes a notícia de que Deus nasceu, e desprezados pastores e estrangeiros infiéis foram averiguar.

Encontraram Deus chorando como uma criança, agasalhado com trapos no meio do frio, pobre como um pastor e peregrino como um estrangeiro.

Deram um grande suspiro de alívio, abriram um sorriso do tamanho do céu estrelado, encheram o coração de ternura e de paz, e saíram espalhando a novidade para quem quisesse ouvir.

Mas, os poderosos ficaram agitados e irritados quando descobriram que o calabouço, em que mantinham Deus aprisionado, estava vazio. Deus fugira dos templos e dos palácios para nascer em uma estribaria. Então, seria preciso urgentemente assassinar Deus, perseguição que começa com um extermínio de crianças pobres e termina com uma execução de cruz.

Com a notícia do Deus-criança, ficavam inúteis as procissões e os rituais, quando reis e sacerdotes exibiam o Deus feroz, de fortes mandíbulas e presas afiadas, conduzido por coleira, ameaçando de jogar o mesmo contra a multidão de oprimidos insatisfeitos.

O nome que deram a Deus foi Jesus (libertador) e o sobrenome Emanuel (Deus conosco) e o povo se sentiu livre da culpa dos estigmas e do medo da vida, da morte, do amor e de Deus. Caminhando com a gente, Jesus nos salvou dos medos e salvou Deus das coleiras das instituições.

Cada ano, costuramos novamente a vida, e o arremate vem através de duas festas de aniversário. Celebramos o nascimento de um novo ano e o nascimento de um novo Deus.

Primeiro é o Natal, porque precisamos apressar o ciclo, para que Jesus nasça, cresça, morra e ressuscite, o mais rápido possível. E o anúncio do Natal será sempre o prenúncio do ano novo.

Natal é festa em que anjos, estrelas, pastores e peregrinos, homens, mulheres e animais, se abraçam para celebrar a vida. Festa que precisa acontecer a cada ano, porque é necessário nascer de novo.

Tanto a alegria e a esperança, como também o Deus feroz e perigoso das instituições nascendo novamente criança, convidando-nos à responsabilidade diante da ternura da vida e da fragilidade do amor.

Feliz Natal para um Feliz Ano Novo.


Recife, 24 de dezembro de 2018.


domingo, 25 de novembro de 2018

MEU PAI, PEDRO MONTEIRO, FARIA CEM ANOS

foto provisória Pedro Jr

Marcos Monteiro

Hoje, faz cem anos que papai começou a chorar. Mas um belo dia, as mãos que seguravam enxada precisavam aprender poesia e pegaram um trem para Recife com baldeação de algum tempo em Maceió.

Ele ficou uns anos conversando com Deus, que morava no Colégio Batista Alagoano. Mas o roçado de Pedro Monteiro não tinha cerca, nem cancela, e papai seguiu adiante para pastorear Honorina, uma cabrita que nunca foi ovelha de ninguém, nem queria.

Papai estudou grego e fez teologia e perseguiu mamãe por tudo que era igreja e tudo que era bonde, até ela perceber que o melhor mesmo era casar e ir morar em Garanhuns para eu nascer, o filho mais bonito, porque sou eu que estou escrevendo o texto.

Foram habitar em Boquim, um lugar que todo mundo sabe que existe, mas ninguém sabe onde é, e ensinaram inglês, português, ciências e tudo mais, e pastorearam a cidade toda, Stael, Yolanda, Dona Cidália, descendência e mais 10.997 habitantes. Dali começaram uma nova humanidade e fizeram ao todo sete filhos, três meninas e quatro meninos que nasceram em tudo que era Nordeste, e o mais bonito sou eu porque o texto fui eu que fiz.

Papai era pastor da vida, por isso se alguém estava perto de morrer, lá ia ele resolver coisas pelo mundo e deixava mamãe de guarda para fazer cerimônia fúnebre. O roçado de Pedro nunca teve cerca nem cancela e se mudou para Aracaju, depois para Natal, depois para Recife, mas nunca saiu de Boquim, cidade pequena mas lugar grande demais.

Em Aracaju, Pedro e Honorina inventaram uma igreja e papai comprou uma bicicleta para subir e descer ladeira e voltar mais depressa pra casa pra ver mamãe. Quando pegou uma pneumonia, resolveram seguir para Natal, pastorear a Igreja Batista do Alecrim, e era muito bom, eu me lembro, e era como em todas as igrejas.

Mamãe dirigia a música, a Sociedade Feminina, a Sociedade de Moças, as Mensageiras do Rei, a Sociedade Masculina, as Reuniões Sociais, os Embaixadores. Fazia tanta coisa e ocupava tanto espaço que sobrava pra papai ser pastor, somente, e ele gostava, e vivia feliz. Só chorava quando não via mamãe.

Porque papai tinha um defeito na vista, só enxergava mamãe, o resto era borrão. Eu era a mancha mais bonita, claro, esse texto é meu. Bem, Marconi me lembrou que papai era homem de Deus e era verdade. Mas Deus tinha o nariz afilado, o Espírito Santo o cabelo cacheado e Jesus gostava de cantar e fazer rima e organizar brincadeiras de roda.  Coincidências.

Pois bem, uma vez mamãe , que gostava de Convenções, Acampamentos e Retiros, foi bater não sei onde, ou Andrômeda ou Rio de Janeiro, e papai gostava de mamãe livre, mas sentia falta e pegou sandália, bicicleta e caminhão e correu atrás, mas não conseguiu chegar e a cabeça doeu tanto que precisamos, a família toda, ir morar no Recife para papai se curar e o remédio sempre foi mamãe.

Nesses tempo em que mamãe estudava e trabalhava manhã, tarde e noite, papai começou a vender figurinha, bíblia mirim e a dar Bíblia de presente para a Rainha da Inglaterra. E começou a inventar coisas. Traduziu livros em inglês, inventou o passe livre, construiu a transamazônica, e fez o croquis da trans-sulamericana que não sabemos em que gaveta foi parar.

O tempo que passava sem mamãe, papai choramingava pra Deus “Eu sei que Deus é sabedor do meu sofrer, da minha dor” e Deus sabia que a dor de papai era saudade. Papai continuava “meu Deus, meu pai, vem minorar a minha dor” e mamãe chegava, a dor diminuía e o “penar se transformava em gozo”.

O roçado de Pedro não tinha cerca nem cancela e um dia, ninguém entendeu, papai resolveu mudar de nível e foi brincar de nuvens lá por cima. Honorina ficou e brincava e sonhava com ele e parecia tudo certo, esse desacerto todo, mas desconfiei.

Uma noite, eu vi mamãe no sofá, quieta e assistindo à televisão, quando a cadeira balançou sozinha, a toalha da mesa esvoaçou e a porta rangeu sem motivo. Fui até o elevador e a luz se acendeu e depois se apagou e não tinha ninguém. Agucei o ouvido e ouvi uma música choramingada, “Eu sei que Deus é sabedor do meu sofrer, da minha dor”. Então eu sorri contente.

Hoje faz cem anos que Pedro começou a chorar, mas sei que de novo ele vai estar por aqui, enquanto a gente lembra almoçando galinha, porque todo dia ele aparece para esperar mamãe, até o dia em que possam juntos ir lá pra cima, brincar de nuvem.

Recife, 25 de novembro de 2018.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

PARA SANDRA HELENA, A AMADINHA DE TODAS NÓS

Marcos Monteiro

A vida é essa corrida diferente em que ninguém deseja chegar ao final. Fila bem comportada em que não se disputa lugar e até se permite, gentilmente, ser ultrapassado. Como a humanidade é vivência complicada, tem gente que se lança doidamente para a frente e até gente que apressa o passo dos outros, ou de vez ou dia a dia.

Mas tem também as circunstâncias, momentos em que somos lançados para o pelotão de frente e avistamos as baionetas do inimigo roçando a nossa pele. E Sandra Helena, a amadinha de todas nós, foi acometida de câncer, descobriu que carregava o inimigo dentro do próprio corpo, e está nesse procedimento aterrorizador chamado quimioterapia, o que parece para a nossa laicidade mania da medicina de tentar curar doença com outra maior.

Pois bem, quis homenagear Sandra porque Cleide me lembrou que escrevi um texto para Bete, mas depois que ela chegou ao fim e partiu para novos começos desconhecidos. Neste texto quero incluir Nadja, Rose, e quantas e quantos estão lutando contra o próprio corpo para ter mais vida. Mas quero focar na amadinha de todos nós. Eu mesmo, depois do infarto do ano passado, me sinto na frente da fila e tenho a mania de todo dia achar que vou morrer hoje. Um dia eu acerto, eu sei. Mas desejo de verdade chegar do outro lado antes, e aguardar Sandra.

Sandra sempre chegou empapando os nossos cabelos com o mantra “amadinhas e amadinhos”, e se lançando corpo inteiro, conversa inteira e sorriso inteiro sobre as nossas vidas. Mas depois do câncer, parece que o seu corpo balança mais e sua conversa é ainda mais viva e o seu sorriso do tamanho do mundo se tornou maior do que a vida e do que a morte. Porque Sandra sempre foi exagerada e nenhuma doença é capaz de diminuir isso, pelo contrário.

Exageradamente, Sandra se lança missionária evangélica feminista pelo Jacaré dos Homens (quase das Mulheres agora) e junto com Rita e com Renilza evangeliza homens e mulheres e organiza a resistência. E exagera em amar a Deus, a Jesus, à Ruah Divina, e à população sertaneja, especialmente a parte mais vulnerável, e a netos e netas e a filhas e filhos e a Wilson, o seu amadinho predileto, caubói laçado e capturado pelas redes dessa mulher habilidosa.


Wilson é grandão e gentil, mas é pitbull disfarçado de poodle, pronto para estraçalhar quem ameace a sua amadinha, cercando Sandra de muito carinho e cuidados, como quem carrega uma argola na ponta da lança, montado no cavalo em disparada. E gosta de cavalos, de toada, de cordel e de humor, como nordestino de bem com a vida e com o amor, amado e amando.

Pois bem, de tanto distribuir mantras, Sandra recebeu de volta tudo que lançou e muito mais e se tornou a amadinha de todas nós. Com o câncer, tornou-se um oceano de amor e de energia e de saúde para distribuir de graça. Costumo dizer que quando me sinto meio triste invento de visitar Sandra. Ou melhor, invento de me visitar na casa de Sandra e saio revigorado. Ainda não sei quantos dons Sandra tem, são muitos, mas um eu descobri por acaso, a visão de raio x. Podem perguntar a Aninha.

Estávamos conversando na sala, enquanto Aninha preparava o peixe, e conversa vem, Sandra grita pra Aninha, “você está mexendo errado no fogão” e estava mesmo. Tinha uma parede no meio e então descobri que a visão de Sandra ultrapassa obstáculos e é por isso que consegue enxergar o coração das pessoas e encontra beleza por traz das carcaças. Nesse novo momento, diante da ameaça da morte, Sandra parece saber mais da vida, como quem precisou aprender a sorver goles de ar no deserto, a se alimentar de sementes e a extrair perfume de espinhos.

Para terminar o texto, quero descrever a cena final que imaginei. Eu consigo chegar primeiro do outro lado e estou aguardando um bocado de gente, quando Sandra chega e eu grito logo, “Amadinha”. Ela sorri, me abraça e sai abraçando meio mundo que vai ficando mais contente. O sorriso do Pai fica luminoso, a Ruah Divina começa a gargalhar e o Carpinteiro de Nazaré a convida pra dançar. Ela fica muito feliz, mas de repente se aquieta em um canto, e eu pergunto: “O que foi?”. Ela me diz: “Estou com saudade do meu caubói. Parece que vai demorar”.

Maceió, 21 de novembro de 2018.