domingo, 4 de abril de 2021

APRENDIZES DE RESSURREIÇÕES NA COMUNHÃO DAS CICATRIZES

APRENDIZES DE RESSURREIÇÕES NA COMUNHÃO DAS CICATRIZES

 Marcos Monteiro

 E Jesus disse a Tomé: "Coloque o seu dedo aqui; veja as minhas mãos. Estenda a mão e coloque-a no meu lado. Pare de duvidar e creia". João 20,27. 

Completamos hoje o ciclo da Páscoa, na Festa da Ressurreição, e o Artesão de Nazareth, mais ressuscitado do que nunca, caminha desbravando espaços, mostrando com altivez as suas cicatrizes.

No meu cotidiano, fizemos o inventário de tantas ressurreições, enquanto recebia da Igreja Batista de Bultrins, pão, pó para suco de uva e chocolate meio amargo. Nessa igreja de periferia, o Artesão de Nazareth celebrará conosco, juntas e distantes, por conta da pandemia, a Comunhão das Cicatrizes.

Nos pés do Jesus peregrino de savanas e povoados, nas mãos do Jesus que tocou leprosos e proscritas, no corpo do Jesus acariciado por crianças e prostitutas, as cicatrizes são decalques inúteis de um sistema político, econômico e religioso, maligno, violento e assassino. Ele caminha mais vivo do que nunca.

A ressurreição é a mensagem de que existem suspiros depois do último e de que a opressão nunca terá a gargalhada final; essa pertence ao amor e à vida.

Então, gargalhemos. Se a Páscoa nos diz que cruz e ressurreição são inseparáveis, aprendamos com o Jesus de Nazareth a ressuscitar, com as nossas cicatrizes à mostra.

Desse modo, crer será insistir em ressuscitar espaços, tempos, instituições, organizações, movimentos, mundos e pessoas de todos os tamanhos, sabores e cores, ameaçados pela morte.

Aprendamos a ressuscitar, ressuscitemos!

Recife, 04 de abril de 2021


sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

A EXÓTICA E DESCONTROLADA FESTA DO NATAL

 


Marcos Monteiro

 

O Primeiro Natal foi uma exótica e descontrolada festa e tronou-se a autorização para o nascimento de qualquer criança e de se enxergar nos olhos de qualquer pequenina o olhar do Menino-Deus.

Se Jesus, a criança palestina, em situação muito precária, nas migrações forçadas da vida, em meio a animais, cochos e molambos, nasceu, qualquer criança pode nascer como um grito de humanidade e de esperança de que Deus, mais uma vez, nos encare com um olhar infantil.

O olhar do Deus-Menino assusta palácios e templos, mas enternece estrangeiros suspeitos e faz pastores campestres dançar ao som de música cósmica. Anjos, estrelas, pastores, nômades, profetas idosos invisibilizados, animais, e até uma criança ainda não nascida, exultam com a notícia tão comum e tão incomum.

Nascimento é sempre assim, tão simples e tão denso. Nas periferias da história a humanidade alcança brilho maior e desequilibra injustiças e preconceitos. Em um mundo de desigualdades gritantes, o choro de vida de uma criança pobre faz ressoar o grito de alegria da esperança.

O primeiro Natal é festa alucinada de proscritos em que animais podem participar. As prescrições não controlam os corpos amorosos que produzem crianças nem a alegria desautorizada de futuros que se esboçam.

Celebrado em todos os lugares, de diversos modos, por diversas culturas de diversas religiões, o Natal é oportunidade e convite de dançarmos livremente, com os nossos humanos e animais de estimação,  o cântico da esperança de um mundo muito melhor, de paz abundante, de justiça irretocável e de amor sem medidas.

Recife, 25 de dezembro de 2020.

domingo, 16 de agosto de 2020

MINHA IRMÃ ÁUREA MARTA: ENTRE DOCES E TAMANCOS



 

Marcos Monteiro

Áurea

Você tem o direito de comer todos os doces do mundo sem levar nenhuma tamancada no seu aniversário.

Eu me preparei para escrever um texto neste dia e achei que seria fácil. Mas não foi não. Acordei cedo e fiquei percorrendo lembranças, procurando um fio para pendurá-las no varal e com o mesmo amarrar o seu presente.

Claro que lembrei de você pequenininha, percorrendo a vizinhança, recolhendo guloseimas. “Dona Mercedes, tem bananada? Dona Luzinda, tem biscoito? Seu Dioclécio tem cocada?” Imagino a expectativa de cada, sorriso deslumbrado guardado no bolso para a sua aparição. Mas em casa, uma mãe aflita lhe esperava de tamanco na mão. Naqueles tempos a pedagogia do tamanco já havia sido abolida na escola como absurdo dos absurdos, mas ainda era usada em casa quando uma mãe não sabia o que fazer da filha fujona.

       

Você não ligava. Achava, inocente, que doces e tamancos eram parte da vida. Em casa, seus pequeninos pés viviam calçando os tamancões da mãe amada, mas todo dia fugia de novo pelos caminhos dos doces. Mamãe, um dia teve uma grande ideia (mãe sempre tem grandes ideias) e lhe deu de presente de aniversário um tamanco grande que engolia seus pés e você fugiu toda orgulhosa pela vizinhança de doces.

Quando seu Dioclécio, que era marceneiro, foi buscar o seu doce, olhou pros seus pés e comentou: “Quem fez essa maldade com essa criança?” E cortou o excesso, presente de aniversário desses de colocar gosto ruim em cocada.

Pois bem, nessa história de fugir, um dia você foi parar longe, não sei direito como. De Boquim, interiorzinho de Sergipe, para a cidade grande de Natal, no Rio Grande do Norte, eram muitas léguas para pouco tamanco, mas um ano depois você voltou. E nos seus oito anos de idade não era mais criança, eu via uma adolescente deslumbrante, bela, e me senti tímido como um matuto diante de uma moça da capital e estava doido pra me “amostrar”. Se eu pudesse, dava todos os doces da casa pra você.

Amo muito você, minha irmã, e fomos muito companheiros de infância e adolescência. Já jovem, em novo descuido de mamãe, você fugiu para São Paulo e trouxe de lá um doce do tamanho de um marido. Nosso primo, Beg, apaixonado, se instalou dentro de casa. Mamãe não gostou muito, mas não usava mais tamanco. Beg, meio artista da vida, virou trabalhador braçal, primeiro, depois fez cursos e concursos até se tornar funcionário público. Hoje, aposentado, é o doce à sua disposição dentro de casa. Como lembrança indiscreta, a música preferida de Beg, naqueles tempos foi “você não gosta de mim, mas sua filha gosta”. Coisas dessa relação histórica com sogra. Fico aqui pensando que ele merecia tamancadas. Mas foi com ele que vocês prepararam filhos, netos e netas doces.

Lembrei de tanta coisa mais. De sua facilidade de aprender, de sua criatividade insuperável e da sua vocação para liderar. Sempre administradora, dessas com tanta capacidade que tem de controlar o jeito para não humilhar ninguém. Nunca é fácil.

Mas fiquei meditando, como religioso incorrigível que sou, que a graça do Pai, de Jesus e da Ruah Divina, esse trio ternura de nossa herança cristã, têm sido o seu pote de doces de reserva quando os tamancos da vida lhe ameaçam ou quando querem diminuir o tamanho do conforto dos seus grandes tamancos.

                    

O meu desejo é de que essa graça venha imensamente sobre o seu aniversário e lhe empanturre de doces e que você desfile orgulhosa calçando tamancos do tamanho da esperança.

Recife, 15 de agosto de 2020.