segunda-feira, 27 de julho de 2020

UM PEQUENO INTERVALO NA ERA DO CORONAVÍRUS


Marcos Monteiro

Desses momentos em que chorar e orar se tornam sinônimos da minha impotência e recolho pequenas alegrias, como o sorriso da minha filha e o conforto do café quente deslizando pela garganta.

Enquanto lavo pratos, o dia se aproxima em silêncio passado e silêncio futuro, nomes próprios e substantivos comuns, fruição e responsabilidade, lembranças e expectativas.

Venho para o computador e o tempo escorre pelos meus dedos para um teclado que já foi coisa externa, mas se tornou ao longo da vida órgão do meu corpo, surpresas da amizade.

Quando a pandemia chegou,”amor e dor” foi cada vez mais se estabelecendo como rima, mesmo proibida pela canção, até porque recordar, saber e cuidar é vício da humanidade.

E eu lembro do romance de Camus, “A peste”, e sei que quando os ratos saem dos seus esconderijos e revelam doença e morte, precisamos decidir diante dos chamados escancarados, qual a nossa vocação, ou santos, ou humanos, ou médicos.

Sem saber o que fazer, diante das múltiplas encruzilhadas, no meu espaço cenobítico em monasticismo involuntário, na Era do Coronavírus, na Idade do Bolsonauro, simplesmente escrevo.

Recife, 27 de julho de 2020

segunda-feira, 20 de julho de 2020

AO MEU IRMÃO AMADOR SÉRGIO PAULO NA ERA DO CORONAVÍRUS


Cercado de amadas


Sérgio

Divulgar no meu blog essa carta é reivindicar o direito à indiscrição nessa Era do Coronavírus, na Idade do Bolsonauro. E minha tarefa, designada por seu par Marconi, é escrever celebrando o seu aniversário de sessenta e três anos, indiscrição primeira. Somos sete filhos de D. Honorina, organizados aos pares: os caçulas, Mary Ruth e Pedro Jr carregam as suas lembranças, os quase mais velhos, eu e Áurea Marta, nos acompanhamos infância e adolescência a fora e tem a mais antiga, Ana Maria. Mais do que tudo, essa irmã amada paira acima de todas e todos nós como uma espécie de entidade a ser adorada, apesar da proibição protestante de idolatria. Próprio das divindades, ela forma um par consigo mesma, ou Ana forma um par com Maria; ainda não compreendemos bem esse mistério.

Pois bem, Sérgio Paulo, você e Marconi formam o par do meio, o que não é fácil de explicar ou entender. Marconi, ontem, tentou me explicar que ele é o caçula dos mais velhos e o mais velho dos caçulas, precisamente o irmão do meio, fonte talvez da sua facilidade de ser tão preciso em tudo que faz. Você é o par do nosso irmão mais amado, por nós e por mamãe (menos por papai que só sabia amar mamãe, tão apaixonadamente que nos tornamos detalhe, paisagem, moldura, sei lá). Então, não foi fácil lhe definir, nesse emaranhado de irmãs e irmãos que nos tornamos.

Na tentativa de desenrolar esse novelo, pensei e pensei e estou lhe chamando de “meu irmão mais amador”, apesar de você ter se tornado um excelente profissional. Amar a sua amada, a sua filha, as suas amigas, os seus amigos, as suas irmãs, os seus irmãos, e especialmente a nossa mãe não foi arte aprendida. Nas oficinas do amor, você sempre foi mestre e seu amor não é um romantismo profissional, você sabe ser você mesmo e amar de modo concreto: é um amador. Conversando, confirmamos que todas e todos em algum momento fomos cuidados objetivamente. E o seu cuidado por D. Honorina, nossa mãe, significou a dignidade de uma habitação e o acesso a saúde de qualidade, providenciando vida que se estenderá por mais tempo do que os noventa e cinco anos que ela completou.

Nas lutas sindicais e no partido socialista, o seu amor se tornou mais efetivo ainda, embate por estruturas mais justas e igualitárias, peleja complexa em que nunca se tornou um militante profissional, sempre socialista amador, ampliando jeitos e gestos de sempre ser.

Ontem, estávamos irmãs e irmãos procurando no sótão de lembranças e recolhi duas especiais. A primeira, estávamos conversando sobre dons, os quais na nossa tradição cristã é gratuidade, jeito especial de cada viver para si e para os outros. Jorro da Ruah Divina que nos acolhe e energiza. Lembro que você pensou um pouco e me disse: “o meu dom é ser feliz”. Achei interessante e fiquei interessado, acompanhando a sua trajetória. Será que Almir Sater lhe plagiou? (“Cada um de nós recebe o dom de ser capaz, de ser feliz”). Pois não é que você nunca desaprendeu disso e ainda mais: distribuir felicidade é natural em você, coisa de amador!

Depois, lembrei de você dirigindo uma pequena peça teatral natalina na Igreja Batista do Cordeiro. Nuances teatrais que revelavam uma das paixões que você partilhou. Os livros de teatro que me indicou são caminhos de leitura que nunca abandonei e começo a perceber que alguém sempre lhe imita depois. Dessa vez foi o nosso caçula Pedro Domingues Monteiro Jr, imitador de papai na imagem e no nome e imitador profissional de você no desempenho artístico.
Sérgio de chapéu na mão, mamãe, irmãs e irmãos.


Bem, meu irmão, a sala virtual está aberta e estou querendo ler essa carta na presença dos seus amados. Nessa Era do Coronavírus, na Idade do Bolsonauro, sei que seu amor está sendo desafiado a atitudes complicadas e o dom de ser feliz nos impressiona. Até nessa loucura toda o seu sorriso, bom humor e capacidade de amar concretamente tantas e tantos continua.

Parabéns e continue sendo quem você é, amador apaixonado por pessoas e por valores, como justiça e verdade. E continue amando o amor, tão fragilizado nesses nossos dias.

Do seu irmão
Marcos Monteiro


domingo, 5 de julho de 2020

A BÊNÇÃO MINHA MÃE, OU A CELEBRAÇÃO DA DECADÊNCIA NA ERA DO CORONAVÍRUS



Marcos Monteiro


Ontem, antecipamos a festa do aniversário de 95 anos de minha mãe, Honorina. Embrulhamos as idades em décadas e comemoramos os fechamentos de modo diferente.  E, se a vida é um ciclo, aos cinquenta anos levamos o sentimento de cumprir o tempo de ascender e começamos a cadência da descida. Mas, se por um lado, a visão da morte no fim do ciclo começa a se tornar mais nítida, descobrimos, por outro lado, a possibilidade de uma nova leveza, a desnecessidade de prestar contas demais e a chance de viver com menos culpas. Então, na descida da vida, ao nos sentirmos decadentes, somos convidadas à celebração da decadência.

Neste ano de 2020, duas décadas fechadas do século XXI, três matriarcas de minha família completaram diferentes décadas, com celebrações especiais em datas diferentes. Minha tia, Miriam Lemos, a mais nova e mais linda das filhas de vovó Mariquinha (exceto minha mãe em seus 95 anos, a cinco do centenário que comemoraremos) fez oitenta anos. Minha irmã mais velha, Ana Maria, em sua digna e bem humorada maneira de mandar em todos nós, fez setenta. E minha irmã mais nova, a mais linda e fascinante de todas as matriarcas da família, completou sessenta anos e celebramos muito sua decadência. Hoje, a minha matriarca mais amada, Honorina, completa 95 anos, com o olhar bem aberto, e com músicas e conhecimentos bem escondidos de nossa inesgotável curiosidade.

Faço parte de uma família nordestina, elegantemente matriarcal, e sou um dos chamados “manicacas”, no idiomês potiguar, homens dominados pelas mulheres, com muita honra. Completarei sessenta e nove anos, em outubro, vivendo alegremente minha inexorável decadência. Fui descobrindo surpreso, nessa Era do Coronavírus, nessa Idade do Bolsonauro, que pertenço ao grupo de risco.

No início pensei que seria o risco maior de ser contaminado, mas fui percebendo pouco a pouco que levo o risco de contaminar a humanidade com a minha dança decadente. Logo no início da quarentena, apelidado decentemente de “isolamento social”, andei inocente à procura de uma farmácia para comprar medicamentos, e alguém, jovem, num automóvel qualquer, gritou “vá para casa, seu velho idiota”. A partir desse dia, comemoro a minha decadência em casa, saboreando feliz meu cuscuz com ovo e meu feijão com arroz, preparado por minha filha.

Tenho pensado, desde então, dos riscos que trazemos, o perigo de contaminar mais e mais pessoas com lembranças e esperanças. Talvez não seja o contágio do vírus o que mais assuste os outros.

Cada vez mais socialista (nenhum decadente perde fácil suas manias), sou testemunha de uma história que sempre usou o medo de nossa crítica radical do capitalismo para mais fortemente oprimir as vítimas desse sistema maligno. A ditadura, essa que dizem que nunca existiu, usou o pretexto do combate à nossa mensagem de esperança, para mais torturar e mais vitimar as populações vulneráveis. E cada vez mais cristão e cada vez mais pastor, com as devidas ressignificações que a cadência da vida me propôs, sou provavelmente mais perigoso ainda, por saber de uma igreja evangélica tão alienada, omissa, preconceituosa e intolerante quanto a atual.

Apenas menor e com menos poder público, a igreja evangélica celebrou a ditadura militar com uma voracidade feliz. Mas, nessa ciranda da decadência, posso também testemunhar que havia resistências, corajosas, belas, que pagaram preços altos por viverem a fé, o amor e a esperança até as últimas consequências.

Bem, mas hoje minha matriarca Honorina completa noventa e cinco anos e sei que o matriarcado carrega forças e segredos, aliados a uma gentileza e elegância sutis. No meu deslizar pelas décadas, minha esperança socialista é cada vez mais matriarcal: a revolução virá das mulheres. Na minha família, todas as mulheres ocupam lugares estratégicos, e sei que na hora que decidirem, nós, os manicacas (assumidos ou não), seremos compelidos a melhorar o mundo.

A bênção, minha mãe, minha matriarca lindíssima, em seus silêncios de olhos vivos, escondendo na profundidade de seu corpo e de sua alma, danças, músicas, hinos, poemas, versículos, mensagens infinitas de graça e de alegria, convite a uma ciranda sideral de celebração da decadência. Feliz aniversário.

Recife, 05 de julho de 2020.