quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

NA GALÁXIA DE GUTEMBERG

NA GALÁXIA DE GUTEMBERG

Marcos Monteiro

Desde a invenção da imprensa, os tipos móveis aumentaram a nossa capacidade de comunicação, diminuíram a necessidade de locomoção e a vida passou a ser escrita. Somos personagens de livros que não sabemos quem é o autor e literatura é um tipo de escrita que se resolve por si. Quando um texto nos escreve, permite a ilusão de que somos autores e nos guia em uma busca por nós mesmos. Conhecemos bem o último capítulo do nosso livro e a morte nos dirá se vivemos em comédia ou em tragédia. Talvez alguém imagine que leu o nosso livro e faça discursos sobre o que desconhece, em nome de uma familiaridade, por não saber que proximidade é antônimo de conhecimento.

 A história do Brasil tem sido escrita e reescrita e a última revisão é uma comédia cujo final tem chances de não ser trágico porque os redatores econômicos, políticos e religiosos estão tentando multiplicar textos que façam a história retomar caminhos mais saudáveis.

 A idade da terra chamada Brasil se perde nas cavernas da pré-história. Mas a história começa com a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei Dom Manuel. O Tratado de Tordesilhas, mediado pelo papa, é um documento que legitima a posse de metade do mundo desconhecido para Portugal. A outra metade pertence à Espanha. Talvez possamos considerar essa a primeira grilagem da história, disfarçada nos livros, a primeira utilização da invenção de Gutemberg em larga escala. Na pré-história do Brasil, a terra pertencia a sociedades tribais, com espécimes de hábitos estranhos, como tomar banho todos os dias, andarem nus e viverem de comidas não industrializadas. Suas guerras matavam menos do que as guerras europeias e suas armas eram tão antigas que demonstravam a ignorância de seus guerreiros. Viviam da caça e da pesca e em nenhuma de suas muitas línguas existia a expressão idiomática “desequilíbrio ecológico”. Demonstravam respeito excessivo para os seus anciãos e até os antepassados participavam de seu convívio, Os que haviam passado para o outro lado davam sugestões nas reuniões do conselho, recebiam o alimento diário com gratidão e sugeriam estratégias de combates a invasores. Os portugueses vieram trazer a civilização para que a barbárie fosse erradicada e trouxeram colonos para ensinar os nativos, pelo exemplo ou pela força,  a vestirem roupas, a atualizarem o cardápio e principalmente a simplificar a religião. Diante da abundância de deuses tribais, o cristianismo era uma religião de um deus só: O Pai, o Filho, o Espírito Santo, a Virgem Maria e o santo de cada dia, capazes de curar todo tipo de doença e de garantir um lugar no purgatório, porque o céu estava todo ocupado com os habitantes de além-mar. Para escapar do inferno bastava se batizar, assistir missa, confessar pecado e pagar a penitência prescrita.

 A carta de Pero Vaz de Caminha pode ser considerada o documento que inaugura o programa de colonização, o qual ainda não conseguiu ser aplicado totalmente, escrito em estilo elegante, com os elogios de praxe a El-Rei e com o pedido de emprego para um amigo. Talvez isso explique porque o programa de colonização ainda se arrasta. Todo mundo sabe que os amigos são ótimos para garantir que as coisas não aconteçam. Os colonizadores transformaram Pindorama em um novo mundo, trazendo para a nova Terra de Santa Cruz roupa, queijo, gripe e gonorreia. Cartas e bilhetes ainda são os documentos mais importantes nessa terra em que se plantando tudo dá. Mais importantes do que livros. Os dois principais livros dos novos tempos, a Bíblia e a Constituição, de vez em quando são rasgados por bilhetes imperativos ou por cartas amigáveis.

Não é a primeira vez que experimentamos tempos difíceis, mas temos de admitir que a tentativa de rasgar Bíblia e Constituição tem ganhado muita força nesse novo milênio. A democracia burguesa e liberal, com todas as suas contradições, pode ser vista nesses momentos como uma das importações inevitáveis. Nunca tivemos muito tempo de experimentar qualquer tipo de democracia, mas depois de tanto tumulto governamental, a maioria do nosso povo aceita uma democracia liberal insuficiente, mesmo que nossas instituições sejam fracas. A frente ampla que reúne dinossauros e monstros marinhos é o abrigo de uma esperança que tenta saltitar em um terreno cheio de armadilhas. Nesse espaço, os discursos que defendem os procedimentos judiciais, as negociações e o respeito à nossa carta magna fortalecem a resistência. No espaço evangélico, a tentativa de se rasgar a Bíblia tem sido feita até com versículos bíblicos, mas muitos estamos resistindo. Libertar a Bíblia de uma hermenêutica inconsequente e de um uso antidemocrático é tarefa nossa.

Recife, 06 de fevereiro de 2023. 

domingo, 4 de abril de 2021

APRENDIZES DE RESSURREIÇÕES NA COMUNHÃO DAS CICATRIZES

APRENDIZES DE RESSURREIÇÕES NA COMUNHÃO DAS CICATRIZES

 Marcos Monteiro

 E Jesus disse a Tomé: "Coloque o seu dedo aqui; veja as minhas mãos. Estenda a mão e coloque-a no meu lado. Pare de duvidar e creia". João 20,27. 

Completamos hoje o ciclo da Páscoa, na Festa da Ressurreição, e o Artesão de Nazareth, mais ressuscitado do que nunca, caminha desbravando espaços, mostrando com altivez as suas cicatrizes.

No meu cotidiano, fizemos o inventário de tantas ressurreições, enquanto recebia da Igreja Batista de Bultrins, pão, pó para suco de uva e chocolate meio amargo. Nessa igreja de periferia, o Artesão de Nazareth celebrará conosco, juntas e distantes, por conta da pandemia, a Comunhão das Cicatrizes.

Nos pés do Jesus peregrino de savanas e povoados, nas mãos do Jesus que tocou leprosos e proscritas, no corpo do Jesus acariciado por crianças e prostitutas, as cicatrizes são decalques inúteis de um sistema político, econômico e religioso, maligno, violento e assassino. Ele caminha mais vivo do que nunca.

A ressurreição é a mensagem de que existem suspiros depois do último e de que a opressão nunca terá a gargalhada final; essa pertence ao amor e à vida.

Então, gargalhemos. Se a Páscoa nos diz que cruz e ressurreição são inseparáveis, aprendamos com o Jesus de Nazareth a ressuscitar, com as nossas cicatrizes à mostra.

Desse modo, crer será insistir em ressuscitar espaços, tempos, instituições, organizações, movimentos, mundos e pessoas de todos os tamanhos, sabores e cores, ameaçados pela morte.

Aprendamos a ressuscitar, ressuscitemos!

Recife, 04 de abril de 2021


sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

A EXÓTICA E DESCONTROLADA FESTA DO NATAL

 


Marcos Monteiro

 

O Primeiro Natal foi uma exótica e descontrolada festa e tronou-se a autorização para o nascimento de qualquer criança e de se enxergar nos olhos de qualquer pequenina o olhar do Menino-Deus.

Se Jesus, a criança palestina, em situação muito precária, nas migrações forçadas da vida, em meio a animais, cochos e molambos, nasceu, qualquer criança pode nascer como um grito de humanidade e de esperança de que Deus, mais uma vez, nos encare com um olhar infantil.

O olhar do Deus-Menino assusta palácios e templos, mas enternece estrangeiros suspeitos e faz pastores campestres dançar ao som de música cósmica. Anjos, estrelas, pastores, nômades, profetas idosos invisibilizados, animais, e até uma criança ainda não nascida, exultam com a notícia tão comum e tão incomum.

Nascimento é sempre assim, tão simples e tão denso. Nas periferias da história a humanidade alcança brilho maior e desequilibra injustiças e preconceitos. Em um mundo de desigualdades gritantes, o choro de vida de uma criança pobre faz ressoar o grito de alegria da esperança.

O primeiro Natal é festa alucinada de proscritos em que animais podem participar. As prescrições não controlam os corpos amorosos que produzem crianças nem a alegria desautorizada de futuros que se esboçam.

Celebrado em todos os lugares, de diversos modos, por diversas culturas de diversas religiões, o Natal é oportunidade e convite de dançarmos livremente, com os nossos humanos e animais de estimação,  o cântico da esperança de um mundo muito melhor, de paz abundante, de justiça irretocável e de amor sem medidas.

Recife, 25 de dezembro de 2020.

domingo, 16 de agosto de 2020

MINHA IRMÃ ÁUREA MARTA: ENTRE DOCES E TAMANCOS



 

Marcos Monteiro

Áurea

Você tem o direito de comer todos os doces do mundo sem levar nenhuma tamancada no seu aniversário.

Eu me preparei para escrever um texto neste dia e achei que seria fácil. Mas não foi não. Acordei cedo e fiquei percorrendo lembranças, procurando um fio para pendurá-las no varal e com o mesmo amarrar o seu presente.

Claro que lembrei de você pequenininha, percorrendo a vizinhança, recolhendo guloseimas. “Dona Mercedes, tem bananada? Dona Luzinda, tem biscoito? Seu Dioclécio tem cocada?” Imagino a expectativa de cada, sorriso deslumbrado guardado no bolso para a sua aparição. Mas em casa, uma mãe aflita lhe esperava de tamanco na mão. Naqueles tempos a pedagogia do tamanco já havia sido abolida na escola como absurdo dos absurdos, mas ainda era usada em casa quando uma mãe não sabia o que fazer da filha fujona.

       

Você não ligava. Achava, inocente, que doces e tamancos eram parte da vida. Em casa, seus pequeninos pés viviam calçando os tamancões da mãe amada, mas todo dia fugia de novo pelos caminhos dos doces. Mamãe, um dia teve uma grande ideia (mãe sempre tem grandes ideias) e lhe deu de presente de aniversário um tamanco grande que engolia seus pés e você fugiu toda orgulhosa pela vizinhança de doces.

Quando seu Dioclécio, que era marceneiro, foi buscar o seu doce, olhou pros seus pés e comentou: “Quem fez essa maldade com essa criança?” E cortou o excesso, presente de aniversário desses de colocar gosto ruim em cocada.

Pois bem, nessa história de fugir, um dia você foi parar longe, não sei direito como. De Boquim, interiorzinho de Sergipe, para a cidade grande de Natal, no Rio Grande do Norte, eram muitas léguas para pouco tamanco, mas um ano depois você voltou. E nos seus oito anos de idade não era mais criança, eu via uma adolescente deslumbrante, bela, e me senti tímido como um matuto diante de uma moça da capital e estava doido pra me “amostrar”. Se eu pudesse, dava todos os doces da casa pra você.

Amo muito você, minha irmã, e fomos muito companheiros de infância e adolescência. Já jovem, em novo descuido de mamãe, você fugiu para São Paulo e trouxe de lá um doce do tamanho de um marido. Nosso primo, Beg, apaixonado, se instalou dentro de casa. Mamãe não gostou muito, mas não usava mais tamanco. Beg, meio artista da vida, virou trabalhador braçal, primeiro, depois fez cursos e concursos até se tornar funcionário público. Hoje, aposentado, é o doce à sua disposição dentro de casa. Como lembrança indiscreta, a música preferida de Beg, naqueles tempos foi “você não gosta de mim, mas sua filha gosta”. Coisas dessa relação histórica com sogra. Fico aqui pensando que ele merecia tamancadas. Mas foi com ele que vocês prepararam filhos, netos e netas doces.

Lembrei de tanta coisa mais. De sua facilidade de aprender, de sua criatividade insuperável e da sua vocação para liderar. Sempre administradora, dessas com tanta capacidade que tem de controlar o jeito para não humilhar ninguém. Nunca é fácil.

Mas fiquei meditando, como religioso incorrigível que sou, que a graça do Pai, de Jesus e da Ruah Divina, esse trio ternura de nossa herança cristã, têm sido o seu pote de doces de reserva quando os tamancos da vida lhe ameaçam ou quando querem diminuir o tamanho do conforto dos seus grandes tamancos.

                    

O meu desejo é de que essa graça venha imensamente sobre o seu aniversário e lhe empanturre de doces e que você desfile orgulhosa calçando tamancos do tamanho da esperança.

Recife, 15 de agosto de 2020.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

UM PEQUENO INTERVALO NA ERA DO CORONAVÍRUS


Marcos Monteiro

Desses momentos em que chorar e orar se tornam sinônimos da minha impotência e recolho pequenas alegrias, como o sorriso da minha filha e o conforto do café quente deslizando pela garganta.

Enquanto lavo pratos, o dia se aproxima em silêncio passado e silêncio futuro, nomes próprios e substantivos comuns, fruição e responsabilidade, lembranças e expectativas.

Venho para o computador e o tempo escorre pelos meus dedos para um teclado que já foi coisa externa, mas se tornou ao longo da vida órgão do meu corpo, surpresas da amizade.

Quando a pandemia chegou,”amor e dor” foi cada vez mais se estabelecendo como rima, mesmo proibida pela canção, até porque recordar, saber e cuidar é vício da humanidade.

E eu lembro do romance de Camus, “A peste”, e sei que quando os ratos saem dos seus esconderijos e revelam doença e morte, precisamos decidir diante dos chamados escancarados, qual a nossa vocação, ou santos, ou humanos, ou médicos.

Sem saber o que fazer, diante das múltiplas encruzilhadas, no meu espaço cenobítico em monasticismo involuntário, na Era do Coronavírus, na Idade do Bolsonauro, simplesmente escrevo.

Recife, 27 de julho de 2020

segunda-feira, 20 de julho de 2020

AO MEU IRMÃO AMADOR SÉRGIO PAULO NA ERA DO CORONAVÍRUS


Cercado de amadas


Sérgio

Divulgar no meu blog essa carta é reivindicar o direito à indiscrição nessa Era do Coronavírus, na Idade do Bolsonauro. E minha tarefa, designada por seu par Marconi, é escrever celebrando o seu aniversário de sessenta e três anos, indiscrição primeira. Somos sete filhos de D. Honorina, organizados aos pares: os caçulas, Mary Ruth e Pedro Jr carregam as suas lembranças, os quase mais velhos, eu e Áurea Marta, nos acompanhamos infância e adolescência a fora e tem a mais antiga, Ana Maria. Mais do que tudo, essa irmã amada paira acima de todas e todos nós como uma espécie de entidade a ser adorada, apesar da proibição protestante de idolatria. Próprio das divindades, ela forma um par consigo mesma, ou Ana forma um par com Maria; ainda não compreendemos bem esse mistério.

Pois bem, Sérgio Paulo, você e Marconi formam o par do meio, o que não é fácil de explicar ou entender. Marconi, ontem, tentou me explicar que ele é o caçula dos mais velhos e o mais velho dos caçulas, precisamente o irmão do meio, fonte talvez da sua facilidade de ser tão preciso em tudo que faz. Você é o par do nosso irmão mais amado, por nós e por mamãe (menos por papai que só sabia amar mamãe, tão apaixonadamente que nos tornamos detalhe, paisagem, moldura, sei lá). Então, não foi fácil lhe definir, nesse emaranhado de irmãs e irmãos que nos tornamos.

Na tentativa de desenrolar esse novelo, pensei e pensei e estou lhe chamando de “meu irmão mais amador”, apesar de você ter se tornado um excelente profissional. Amar a sua amada, a sua filha, as suas amigas, os seus amigos, as suas irmãs, os seus irmãos, e especialmente a nossa mãe não foi arte aprendida. Nas oficinas do amor, você sempre foi mestre e seu amor não é um romantismo profissional, você sabe ser você mesmo e amar de modo concreto: é um amador. Conversando, confirmamos que todas e todos em algum momento fomos cuidados objetivamente. E o seu cuidado por D. Honorina, nossa mãe, significou a dignidade de uma habitação e o acesso a saúde de qualidade, providenciando vida que se estenderá por mais tempo do que os noventa e cinco anos que ela completou.

Nas lutas sindicais e no partido socialista, o seu amor se tornou mais efetivo ainda, embate por estruturas mais justas e igualitárias, peleja complexa em que nunca se tornou um militante profissional, sempre socialista amador, ampliando jeitos e gestos de sempre ser.

Ontem, estávamos irmãs e irmãos procurando no sótão de lembranças e recolhi duas especiais. A primeira, estávamos conversando sobre dons, os quais na nossa tradição cristã é gratuidade, jeito especial de cada viver para si e para os outros. Jorro da Ruah Divina que nos acolhe e energiza. Lembro que você pensou um pouco e me disse: “o meu dom é ser feliz”. Achei interessante e fiquei interessado, acompanhando a sua trajetória. Será que Almir Sater lhe plagiou? (“Cada um de nós recebe o dom de ser capaz, de ser feliz”). Pois não é que você nunca desaprendeu disso e ainda mais: distribuir felicidade é natural em você, coisa de amador!

Depois, lembrei de você dirigindo uma pequena peça teatral natalina na Igreja Batista do Cordeiro. Nuances teatrais que revelavam uma das paixões que você partilhou. Os livros de teatro que me indicou são caminhos de leitura que nunca abandonei e começo a perceber que alguém sempre lhe imita depois. Dessa vez foi o nosso caçula Pedro Domingues Monteiro Jr, imitador de papai na imagem e no nome e imitador profissional de você no desempenho artístico.
Sérgio de chapéu na mão, mamãe, irmãs e irmãos.


Bem, meu irmão, a sala virtual está aberta e estou querendo ler essa carta na presença dos seus amados. Nessa Era do Coronavírus, na Idade do Bolsonauro, sei que seu amor está sendo desafiado a atitudes complicadas e o dom de ser feliz nos impressiona. Até nessa loucura toda o seu sorriso, bom humor e capacidade de amar concretamente tantas e tantos continua.

Parabéns e continue sendo quem você é, amador apaixonado por pessoas e por valores, como justiça e verdade. E continue amando o amor, tão fragilizado nesses nossos dias.

Do seu irmão
Marcos Monteiro


domingo, 5 de julho de 2020

A BÊNÇÃO MINHA MÃE, OU A CELEBRAÇÃO DA DECADÊNCIA NA ERA DO CORONAVÍRUS



Marcos Monteiro


Ontem, antecipamos a festa do aniversário de 95 anos de minha mãe, Honorina. Embrulhamos as idades em décadas e comemoramos os fechamentos de modo diferente.  E, se a vida é um ciclo, aos cinquenta anos levamos o sentimento de cumprir o tempo de ascender e começamos a cadência da descida. Mas, se por um lado, a visão da morte no fim do ciclo começa a se tornar mais nítida, descobrimos, por outro lado, a possibilidade de uma nova leveza, a desnecessidade de prestar contas demais e a chance de viver com menos culpas. Então, na descida da vida, ao nos sentirmos decadentes, somos convidadas à celebração da decadência.

Neste ano de 2020, duas décadas fechadas do século XXI, três matriarcas de minha família completaram diferentes décadas, com celebrações especiais em datas diferentes. Minha tia, Miriam Lemos, a mais nova e mais linda das filhas de vovó Mariquinha (exceto minha mãe em seus 95 anos, a cinco do centenário que comemoraremos) fez oitenta anos. Minha irmã mais velha, Ana Maria, em sua digna e bem humorada maneira de mandar em todos nós, fez setenta. E minha irmã mais nova, a mais linda e fascinante de todas as matriarcas da família, completou sessenta anos e celebramos muito sua decadência. Hoje, a minha matriarca mais amada, Honorina, completa 95 anos, com o olhar bem aberto, e com músicas e conhecimentos bem escondidos de nossa inesgotável curiosidade.

Faço parte de uma família nordestina, elegantemente matriarcal, e sou um dos chamados “manicacas”, no idiomês potiguar, homens dominados pelas mulheres, com muita honra. Completarei sessenta e nove anos, em outubro, vivendo alegremente minha inexorável decadência. Fui descobrindo surpreso, nessa Era do Coronavírus, nessa Idade do Bolsonauro, que pertenço ao grupo de risco.

No início pensei que seria o risco maior de ser contaminado, mas fui percebendo pouco a pouco que levo o risco de contaminar a humanidade com a minha dança decadente. Logo no início da quarentena, apelidado decentemente de “isolamento social”, andei inocente à procura de uma farmácia para comprar medicamentos, e alguém, jovem, num automóvel qualquer, gritou “vá para casa, seu velho idiota”. A partir desse dia, comemoro a minha decadência em casa, saboreando feliz meu cuscuz com ovo e meu feijão com arroz, preparado por minha filha.

Tenho pensado, desde então, dos riscos que trazemos, o perigo de contaminar mais e mais pessoas com lembranças e esperanças. Talvez não seja o contágio do vírus o que mais assuste os outros.

Cada vez mais socialista (nenhum decadente perde fácil suas manias), sou testemunha de uma história que sempre usou o medo de nossa crítica radical do capitalismo para mais fortemente oprimir as vítimas desse sistema maligno. A ditadura, essa que dizem que nunca existiu, usou o pretexto do combate à nossa mensagem de esperança, para mais torturar e mais vitimar as populações vulneráveis. E cada vez mais cristão e cada vez mais pastor, com as devidas ressignificações que a cadência da vida me propôs, sou provavelmente mais perigoso ainda, por saber de uma igreja evangélica tão alienada, omissa, preconceituosa e intolerante quanto a atual.

Apenas menor e com menos poder público, a igreja evangélica celebrou a ditadura militar com uma voracidade feliz. Mas, nessa ciranda da decadência, posso também testemunhar que havia resistências, corajosas, belas, que pagaram preços altos por viverem a fé, o amor e a esperança até as últimas consequências.

Bem, mas hoje minha matriarca Honorina completa noventa e cinco anos e sei que o matriarcado carrega forças e segredos, aliados a uma gentileza e elegância sutis. No meu deslizar pelas décadas, minha esperança socialista é cada vez mais matriarcal: a revolução virá das mulheres. Na minha família, todas as mulheres ocupam lugares estratégicos, e sei que na hora que decidirem, nós, os manicacas (assumidos ou não), seremos compelidos a melhorar o mundo.

A bênção, minha mãe, minha matriarca lindíssima, em seus silêncios de olhos vivos, escondendo na profundidade de seu corpo e de sua alma, danças, músicas, hinos, poemas, versículos, mensagens infinitas de graça e de alegria, convite a uma ciranda sideral de celebração da decadência. Feliz aniversário.

Recife, 05 de julho de 2020. 



segunda-feira, 25 de maio de 2020

No sábado da morte de Djalma Torres




Marcos Monteiro

Foi um sábado difícil. Começou com uma chuva descontrolada, aqui no Recife, e com algumas lágrimas controladas, por conta do áudio de Clarisse, informando gentil e emocionada, que provavelmente Djalma partiria naquele dia. Minha filha, quando me viu chorar, perguntou se Deus estava chorando e eu respondi que sim. Depois, pensando melhor, concluí que a chuva era da natureza, angústia do planeta, por um filho que partia; Deus estava alegre, sorriso aberto, antecipando o reencontro. Mas foi um sábado aquoso.

As águas do Tororó acamparam na minha imaginação e eu queria escrever um texto, homenagem ao meu amigo, mas os caminhos da linguagem eram tantos e tão diversos que não consegui; e fiquei alerta, vivendo o dia e aguardando os acontecimentos. No fim da tarde, quando a notícia da morte chegou, as comportas da minha alma se abriram e chorei como nunca: o sábado tornou-se líquido. E li tanta coisa bela, ouvi tantos depoimentos fortes, troquei mensagens rápidas com tantos amigos comuns, com uma dor tão intensa, que percebi que pensava que Djalma era eterno, não esperava que se fosse, não agora, não sem podermos nos encontrar novamente, em algum lugar da cidade de São Salvador, Bahia.

Lembrei dos encontros mais recentes. Uma visita ao hospital, no início do diagnóstico do câncer agressivo, uns tempos depois no apartamento de Maurício, quando começava a convalescer, e o mais recente de todos, quase uma semana juntos (precisava revisar um texto que ele estava publicando) no lugar sagrado do Tororó, sede do CEPESC, da Igreja Evangélica de Antioquia, oficialmente, e de tantas instituições, organizações, movimentos, encontros, provisória ou informalmente. Mas também era um dos refúgios de Djalma, o mais sagrados de todos, com espaço para dormir, comer e acolher pessoas. Nesse último momento, estava leve e livre, com a vivacidade de sempre, compromissos que não sei como conseguia dar conta, energia e alegria funcionando com toda a carga.

Djalma tinha uma geografia existencial bem própria, com hierarquias ainda a serem deslindadas pelos historiadores que se debruçarão sobre a sua trajetória. Salvador era o berço da humanidade, e quando me chamava para aparecer, repetia sempre: “Venha tomar um banho de civilização”. Jequié era a fonte de sua origem, craque de futebol que se transforma em pastor evangélico, mas Canudos era a cidade síntese, modelo de como o mundo pode se tornar lugar da “Utopia Religiosa”, título do livro que não terminou de escrever. Caminhava com Canudos na valise da alma, e quando esteve em Paris, com Olusivone, tenho certeza de que olhava para a Torre Eiffel, pensando nas míticas “ribanceiras de cuscuz com rios de leite”, andava pelas margens do Sena sabendo que nunca conheceria o Vaza-Barris, que a inépcia governamental mandou aterrar, e quando se deliciava nos restaurantes franceses, sentia saudade da pousada de Maria, cujo cardápio era abundante e refinadíssimo, garantia do pirão de bode e da moqueca de peixe inigualável.

As refeições com ele eram simples e significativas, religiosas em si mesmas. “Não pode haver culto sem comida”, dizia e praticava, e misturar esdruxulamente os sabores, sorvete com farinha (como frisou Vanessa em seu tocante texto) era ritual inter-culinário. Tenho certeza que foi por aí que começou o diálogo inter-religioso. A mesa farta é parte integrante dos rituais afro-brasileiros, momentos em que a saciedade da fome de vida e da fome de Deus é oferecida. Os cultos dominicais da Igreja Batista de Nazareth, onde foi pastor durante trinta anos, e da Igreja de Antioquia, sempre terminam com uma refeição comunitária.

Djalma não sabia caminhar com palavras vazias, enchia as mesmas de vida, e concretizava sonhos em estruturas organizadas. Libertação era mapa para visitar jovens presos pela ditadura militar e para acolher clandestinamente perseguidos pelo regime. Evangelho era um convite à intensidade da meditação sobre a Bíblia e a uma vida de oração e compromissos inteiros. Espiritualidade era a misteriosa palavra sobre o mistério das noites em que se debruçava sobre as raízes da vida e sobre os santuários, lugares escolhidos para o seu recolhimento. Uma vez me mostrou, na fazenda, um espaço onde se recolhia em solidão sagrada. Na exuberância de sua agenda, encontrou espaço para realizarmos algumas coisas juntos. Mas, entre o que desejamos e não alcançamos, um encontro sobre espiritualidade em que pudéssemos partilhar a nossa própria vivência, quase chegou a acontecer. Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso foram duas palavras que receberam forma, tempo e lugar especial em sua trajetória. O prêmio nacional na área de direitos humanos, pelo seu combate contra a intolerância religiosa, foi um pequeno reconhecimento pela grandiosidade de sua atuação.

No começo da noite do sábado, a enxurrada de homenagens, de ideias e de lembranças, se tornaram em cachoeira, e chorar e orar eram rimas e sinônimos. Não consegui dormir pela madrugada e estava com muita raiva, da morte de crianças e da morte de Djalma, duas coisas inexplicáveis. Porque ele era criança, amada por netos e outras pequeninas e pequeninos, e o seu jeito não conseguia ser dissimulado, mesmo em meio a um momento sério, como se ser adulto fosse um dos seus jogos infantis. Afinal, pastor que começa sermão com piada de Zelezim, ou que peregrina para Canudos, ouvindo Mussão, não existem fáceis por aí.

Na liquidez do meu sábado, lembrei de Djalma de calção, tomando banho no Jorrinho e desejei que haja uma réplica no espaço celestial em que transita agora. As águas pareciam revelar toda a sua pujança e toda a sua alegria de viver. Então pensei que o Dique do Tororó, com suas belíssimas imagens das entidades africanas, parecem com o meu amigo, e que naquelas águas correm lágrimas do povo negro, oprimido por uma religiosidade disfarçada de cristianismo. Tenho certeza de que, no sábado, o Dique do Tororó se rompeu e suas águas se espalharam cidade e mundo afora, levando as lágrimas de quantos o amaram e vão eternizar a saudade. E me senti desafiado a uma entrega radical à vida, ao Pai e à sua misteriosa agenda. A sensação é de que a morte revela a plenitude da vida. Nunca mais fui o que era e cada vez mais me sinto desafiado a ser mais do que sou, porque conheci e fui acolhido por Djalma.

Recife, 25 de maio de 2020.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Nosso pó estelar de cada dia na Era do Coronavírus

medium
Marcos Monteiro

Ele veio novamente, o pó, e com a insistência de sempre ocupou os lugares de onde o expulsei ontem, munido de pá e vassoura. Discretamente, em todos os lugares impossíveis, alojou-se novamente com aquele risinho irônico que qualquer pó carrega. E recomecei a atividade diária de expulsar um resíduo irredutível que virá novamente amanhã, ritual mútuo que dá algum sentido à nossa relação.

O que imagina o pó inútil quando o terror da vassoura desce sobre si? Havia um soldado pago por Alexandre, o Grande, para todo dia repetir solenemente diante do poder: “Lembra-te, ó Alexandre, que és pó e ao pó retornarás”. O que imaginava o soldado quando a ordem do imperador descia sobre a sua vida e lhe dava a tarefa inútil de lembrar a inutilidade da grandeza humana?

A missão de Alexandre era conquistar o mundo, e ninguém sabe quem lhe deu essa ridícula missão. A missão do soldado era obedecer ordens ridículas e a missão do pó é rir do ridículo de todas e todos nós. Ornamentados com vestes imperiais, calçados de coturnos ou mal cobertos de andrajos, somos todos ridículos, caricaturas dos humanos que mais desprezamos. Então, seremos sempre mais saudáveis quando aprendermos com Sócrates a rir de nós mesmos. Quando em suas peças cômicas, Aristófanes ridicularizava Sócrates, considerado pelo oráculo o mais sábio de todos os humanos, este era o expectador que mais ria, porque ser sábio é aprender a rir de si mesmo.

Ser humano é assumir o pó que somos, em diferentes caminhos existenciais, em diversos momentos estruturais, mas há também um lado luminoso de nossa polvilhidade.

Somos do mesmo pó das estrelas, teimosos pozinhos cósmicos, obstinados em brilhar no compasso do sol ou no ritmo dos astros. Quando a arrogância das vassouras e a truculência dos coturnos políticos, econômicos, jurídicos e religiosos, querem nos reduzir a pó, sem terra, sem teto, sem prazer e sem direitos, resistimos e insistimos em ocupar todos os espaços, pela lógica do pó estelar.

Foi instalada a Era do Coronavírus e estamos na Idade do Bolsonauro. Micro e macrorganismos se dedicam a pulverizar nossa saúde, mas resistiremos; a degradar os nossos salários, mas os enfrentaremos; a fragmentar a nossa existência, mas lutaremos. Quando essa Idade passar e outra Era chegar, teremos finalmente a oportunidade de perceber que quanto mais pó eles tentaram produzir, mais aprendemos a resplandecer, como pó primordial, partículas do Universo.

Recife, 18 de maio de 2020

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Os sete pecados na Era do Coronavírus


Marcos Monteiro

No meu mosteiro compulsório, na Era do Coronavírus, na Idade do Bolsonáurio, a única regra sobre os pecados é cometê-los, e eu começo invejando. Muitos amigos e amigas, em suas próprias celas, têm mais luxúria do que posso, mas faço um esforço, mesmo admitindo que luxúria imaginada nunca será a mesma. Então, eu misturo os pecados e saboreio gulosamente uma manga, bem devagarinho, sentindo as nuances e texturas palatáveis, deixando o prazer escorrer pelas lembranças.

A gula é um dos meus pecados favoritos, embora sob receita médica e controle nutricionista; e eu vou saboreando, a prestações, o meu amendoim torrado e o feijão com arroz de cada dia, com tempero de filha. Às vezes, por puro exibicionismo, tiro uma foto e envio seletivamente, com requintes de crueldade, admito. Mas também degusto textos, vídeos, filmes, imagens, e, até sonhando, devoro alimentos exóticos. Essa noite, sonhei com parlamentares ao forno e pronunciamentos executivos ao molho pardo. Acordei com uma bruta indigestão.

Confesso que confessar é estratégia de pura ostentação, tipo campeonato de cicatrizes e narrativas de fragilidades, em que as vítimas perdedoras esperam os aplausos. Então, vou acumulando a minha ira, para saber se despejo em quem recebe ou em quem não investiga facadas, aguardando as supremas decisões sobre se estamos ou não em estado de sítio, em Atibaia. Interrompo a raiva do sistema econômico e das redes de desinformação, somente para me espreguiçar numa rede de pano e me desinteressar até do meu desinteresse, e abrir espaço virtual para piadas de primas, primos, irmãos e irmãs, sobrinhos e sobrinhas, os melhores humoristas do planeta (dos quais me orgulho), sendo o meu irmão caçula o melhor de todos, um cearense que nasceu em Sergipe.

Com tantos amigos e amores acumulados, vaidade é um pecado que não tenho direito de não cometer, até porque os vídeos com as acrobacias do melhor neto do mundo, são enviadas por meu filho, os quais moram em Feira de Santana. Morei muito tempo nessa cidade baiana, o suficiente para garantir que muitos melhores do mundo em alguma coisa estão ou estiveram por lá. Balançando na rede novamente, saboreio as poesias do meu filho e curto as fotos de suas pizzas, com água na boca; como vocês já desconfiam, do melhor poeta e pizzaiolo do planeta.

Fico pensando que o contrário da vaidade é a avareza; guardo segredos e ternuras, no fundo do baú, as quais não pretendo dividir nem por testamento. Tranquei lembranças e escondi palavras em túneis, sobre as quais me debruço solitário, proprietário único, olhando de soslaio possíveis predadores. E lembro, como era difícil, quando criança, dividir doces e guloseimas. Mamãe teve que me ensinar a partilhar, e eu já perdoei. Na nossa casa, toda a minha família sabe, eu comia metade do cuscuz com leite de cada manhã. A outra metade, os outros e outras dividiam. Mas eu ficava um pouco triste. Foi quando no meu aniversário, mamãe me permitiu, como presente, comer o cuscuz sozinho. Sou muito grato, e acumulo as lembranças de todos os cuscuz que já comi. A imagem de um cuscuz tornou-se símbolo de meus pecados prediletos. E confesso que, se eu tivesse um cofre, o protegeria com uma combinação bem complexa, e guardava lá dentro, longe de acessos indiscretos, cuscuz, leite e ovos.

Recife, 07 de maio de 2017

sábado, 25 de abril de 2020

O tempo e os tempos na Era do Coronavírus

lucia cantinho

Marcos Monteiro

Na medida em que meu espaço diminui, o meu tempo aumenta, um dos fenômenos da Era do Coronavírus. Administrar a histórica questão dos excedentes, passa a ser desafio de investimento, e invisto o tempo a mais para mais refletir, inclusive sobre o próprio tempo, estabelecendo hipóteses e suposições. Sobre a antiga questão filosófica, se o tempo é contínuo ou discreto, o meu tempo atual é descontínuo e indiscreto, oscilações e curiosidades novas, que ajudam a delimitar este momento atual.

Tenho estado me perguntando quem primeiro inventou de fatiar o tempo, imaginando que ele já foi pura fruição, sem relógios, cronômetros e agendas. Dividido em pedaços cada vez menores, muitas vezes resiste, se estendendo sem limites, e o rápido sorriso de meu neto Heitor tem a duração de seis infinitos. Reverente, diante da imagem enviada por Laís pelo whatsapp, consigo entender Kerkegaard, quando diz que “o instante é um átomo de eternidade”.

Mas estamos em um novo tempo, que gosto de chamar de Era do Coronavírus, fatia ainda sem definição de durabilidade, característica das eras: não sabemos quando começam nem quando terminam. Em algum momento, na Idade Média, alguém percebeu que estávamos na Era Cristã, e já havia mais de quinhentos anos. O povo medieval nunca soube em que tempo estava, porque sua época só foi batizada como Idade Média, muito depois que acabou, pelos historiadores da Idade Contemporânea. Idades, podemos perceber, são pedaços de tempo menores do que Eras, espalhados dentro delas.

Nesse espaço reduzido para ampliação do meu tempo, as perguntas que chegam não têm fáceis soluções. Qual a duração de uma angústia? ou de um susto? Quantas alegrias cabem no tempo da tristeza? ou o contrário? Quanto tempo dura na minha pele um abraço tímido da minha filha? São algumas das descontinuidades, oscilações e incertezas do meu tempo; mas algumas certezas prevalecem. Imagens, frases, contatos, lembranças, nomes próprios, têm a liberdade de caminhar, no seu ritmo e do seu jeito, pelos ritmos e jeitos do meu tempo. Trazem densidades, e as certezas de que o amor é uma duração que não acaba e a saudade um tempo que não sabe ser fatiado, nunca.

Admito que foi um apressamento atrevido nomear esses novos tempos como a Era do Coronavírus. Mas, pode ser que pesquisadores futuros se debrucem sobre o antes e depois dos acontecimentos atuais e acumulem comparações detalhadas sobre esse novíssimo a.C e d.C, desde que todas e todos admitimos que jamais a vida será como antes. Se muitos e muitas já anunciavam a proximidade de um novo tempo, uma mudança drástica e radical de natureza cósmica e planetária, talvez não devesse ser surpresa que essa virada tenha causa virótica. Os vírus e bactérias vêm se espalhando pela nossa humanidade, de forma violenta, inclusive em sua cepa digital.

Ontem assisti a um filme e depois a uma cena na televisão. No filme, “A origem”, o herói, protagonizado por Leonardo DiCáprio, propõe que uma ideia é mais violenta e contagiosa do que vírus e bactérias. Na cena televisada, o presidente do Brasil faz um pronunciamento, cercado de ministros, todos com aspecto de doentes. Tenho alertado sobre a epidemia de “bolsonarite crucis” que assola o país, causada por uma bactéria disforme, com sintomas ainda em observação. Todos os ministros apresentavam sintomas de infecção avançada: sudorese, faces pálidas e confusão mental, com uma cara de “o que estou fazendo aqui?”, como tentou definir minha filha. A doença é grave e tem natureza ideológica. Fiquei pensando que na Era do Coronavírus, talvez estejamos na Idade do Bolsonaurus, e o meu desejo é de que essa Era não se prolongue muito e essa Idade acabe hoje.

Recife, 25 de abril de 2020.

domingo, 12 de abril de 2020

CELEBRANDO A INJUSTIÇA DA RESSURREIÇÃO

pinterest


Marcos Monteiro

A morte de Jesus foi uma grande justiça. Para o poder romano era um sedicioso, e para o poder judaico um herege blasfemador, e a sua cruz não foi a única. Ele a mereceu, como mereceria Barrabás e como mereceu Espártaco e seus seis mil companheiros escravos, crucificados muitos anos antes em Roma, em plena Via Ápia.

Injusta foi a ressurreição. Se era para ressuscitar alguém, Deus desrespeitou critérios políticos, econômicos e religiosos, dando nova vida a um aldeão carpinteiro, subvertendo méritos e garantias de qualquer tipo de legislação. A ressurreição, então, é a injustiça de Deus que subverte toda a justiça humana.

A vida é o maior dos mistérios do universo. Ela simplesmente acontece, de tantas maneiras inesperadas, em exuberância e diversidade, um encantador desperdício que contraria qualquer lógica. A morte não é misteriosa.  Tem a banalidade do previsível e a lógica fria da tragédia, única certeza na incerteza da vida.

No relato do evangelho de Marcos, na cruz, Jesus dá um grande grito no momento de sua morte, último brado de revolta contra todas as justiças humanas (Mc 15,37). A injustiça da ressurreição transforma esse grito em urro de vitória, momento de subversão de todas as lógicas, critérios e legislações humanas, plena vitória da incerta vida contra a tão certa e arrogante morte.

A injustiça da ressurreição cria um desequilíbrio cósmico que afeta as estruturas e relações humanas e as certezas e incertezas, os afetos e desafetos, as expectativas otimistas ou pessimistas, vão timidamente compreendendo o que é fé, amor ou esperança.

O ressuscitado vai marcando encontro com o cotidiano dos amigos, no sepulcro, nos caminhos, à beira mar, trazendo nova vida às suas vidas. E continua marcando encontro, mesmo depois da ascensão, como aquele que transforma a justiça sanguinária de Paulo em arauto da injustiça da ressurreição. Acho bonito o texto em que ele exclama:

Quando, porém, o que é corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal, de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: "A morte foi destruída pela vitória". 1Co 15,54.

Celebramos hoje a injustiça da ressurreição que destruiu a morte. Então, diante das nossas mortes de cada dia, grandes ou pequenas, vamos viver intensamente a incerteza da vida e subverter a lógica das justiças do poder, pelo delírio do amor.

Recife, 12 de abril de 2020. 

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Caminhando entre o sol e a lua na Era do Coronavírus

Picart

NA ERA DO CORONAVÍRUS

Caminhando entre o sol e a lua

Marcos Monteiro

Antigamente, muito antigamente, o tempo teria sido marcado poeticamente, ou fenômenos cósmicos, ou sociais, ou míticos. No dia em que a lua correu e alcançou o sol, ou no ano em que a primeira mangueira surgiu repleta de frutos, ou na manhã em que Potira não viu Itagibá voltar. Pois bem, ontem foi o dia em que dei um passeio pequeno pela cidade grande, na Era do Coronavírus, modo épico de nomear tempos indefinidos, meio tragédia, meio comédia metida a farsa.

O sol de meio dia nos acompanhou por uma peregrinação econômica, comprar comida e fazer transferências bancárias, e descobrir que o mundo pode mudar, mas as filas continuam, com algumas mudanças. Há mais idosos nas filas e o medo que tínhamos de mascarados, agora é de quem não usa, tempos em que uma mulher de burca nos deixa extasiados e em paz. Porque o medo é a emoção do momento, sinto medo de andar, de parar, de tossir, de coçar, de doer, de cansar, de respirar. E depois de tudo, o medo de não ter sintoma nenhum, do perigo de ser assintomático.

Pois bem, Eu e Zailda, minha filha, nos preparamos a manhã inteira para dar a nossa saída, meio preocupados, meio empolgados. Entendia que precisava me disfarçar o mais possível de não-idoso e passei um tempão tirando a barba branca, meio grande, meio irregular, meio ridícula, mas eu gosto. Deixar a barba crescer foi uma decisão tardia, pelos fins dos cinquenta e inícios dos meus sessenta anos, e foi um alívio assumir um rosto com pelos, dispensar os estojos e cremes de barbear de cada dia. Disse-me um amigo que desisti de tentar ser talentoso e optei por ser exótico. Em casa, passeamos pelo celular e computador e depois do almoço saímos.

As ruas e as poucas e pequenas lojas abertas ainda eram razoáveis, mas o grande supermercado, com o seu ar-condicionado potente, garantindo o prolongamento da vida de vírus e bactérias, e a grande quantidade dos macro-organismos da espécie humana, talvez em extinção, era quase aterrorizante. Usar máscaras e respeitar distâncias não estão ainda acontecendo de modo contundente, hábitos construídos por tanto tempo não são fáceis de serem desinstalados de repente. Estamos na estranha era em que ama mais o próximo quem mais se afasta. E nós os latinos, famosos por se esfregar e abraçar, talvez tenhamos de adotar o costume oriental da leve inclinação à distância. Claro que no confinamento de casa, manter distância é um dilema que em alguns momentos não dá. Um casal amigo está tentando aprender a transar a um metro e meio de distância, mas confessam que ainda não conseguiram. Por enquanto, usam álcool gel nas partes.

Com boletos e cartões bancários nos bolsos, encontrei uma lotérica com filas razoáveis, três gerais e duas preferenciais, superlotadas de mascaradas e desmascarados. Não tive coragem de optar e assumi meu lugar na fila de idosos, mesmo sabendo que essa história de fila preferencial foi estratégia de discriminação e, com pouca fila pra tanto idoso, o fluxo será sempre mais devagar. Fiquei à distância de três metros para não assustar a humanidade e demorou, mas fui atendido. Então voltei pra casa, feliz, com a sensação de ter feito mais exercício do que o meu cardiologista recomenda. Minha filha me mostrou a lua na janela, grande e linda. Registrei nas minhas anotações: Na Era do Coronavírus, no dia da superlua.

Recife, 08 de abril de 2020.


quinta-feira, 26 de março de 2020

O coronavírus na VilaMaravila

instituto humanitas unsinos

Marcos Monteiro

Nesses tempos loucos, precisava chegar na Vila Maravila e, aproveitando o primeiro descuido, fugi e fui me esgueirando por ruas, becos, pontes, morros, até descer a gruta e chegar. Encontrei no trajeto olhares hostis, escutei palavrões, constatando que estou no grupo de risco (para os outros), perigo de contaminação da humanidade. Na entrada, a turma da pesada me cercou até chegar Paranísio que depois de uma longa conversa me convidou para a sua casa.

Fiquei surpreso com a casa cheia de gente. A morada de Paranísio e Valdelice é um galpão bem grande, onde tudo acontece inclusive nada, com oito pequenas suítes. Ocupei uma e fiquei impressionado com cerca de trinta pessoas no galpão, junto com suas tralhas e colchonetes enrolados. Valdelice me explicou que faziam parte da população de rua dos arredores e foram convidados a enfrentarem juntos esse momento absurdo que o mundo vivia. Ela chamava isso de “convivialidade profilática”, uma alternativa ao “isolamento social” desse globo capitalista. Paraníso acrescentou que como “socialista de vergonha” tinha vergonha de viver isolado, tipo ermitão medieval, com medo da vida ou da morte.

A decisão pela “convivialidade profilática” tinha sido uma decisão coletiva, como as decisões mais sérias da Vila. Quase um mês antes da “confusão global”, Doutor Rildo conversou com Paranísio sobre os perigos de uma pandemia.  Aí Paranísio conversou com Mãe Silícia que conversou com Zé Cambraia que conversou com Seu Honório que conversou com Cocada e foi todo mundo conversando o tempo todo, discutindo tudo enquanto a vida continuava. Paranísio chama isso de “assembleia de índio” e quando chega a assembleia final está tudo mastigadinho, todo mundo tirando as dúvidas de todo mundo, Doutor Rildo e a esposa Maria das Graças, opinando como especialistas em saúde e então se estabeleceu na Vila, antes do país isolar tudo e todos, a comunidade da saúde.

Então, estou por aqui, na Vila Maravila, não sei por quanto tempo, cuidando do corpo, do coração e do olhar e vou explicando porque.

Paranísio é ateu e Valdelice é filha de santo. Então, como pastor evangélico, nessa comunidade quase socialista, eu me sinto acolhido e privilegiado, até por discutir textos da Bíblia, independente da religião de cada. E um pedaço do Sermão do Monte está há dias martelando na minha cabeça. Convivo há muito tempo com as mensagens do Sermão do Monte, como se fossem bailarinas do evangelho que me convidam a dançar. O que me encanta é que sempre há algum passo novo nessa dança. Vou tentar resumir um pouco dos caminhos da minha cabeça, tentando entender o que ia pela cabeça de Jesus e dos seus primeiros seguidores.

Em todo o ensino e vivência de Jesus, o Pai e o Reino, são duas realidades constantes. Chamar Javé de Pai, no carinhoso coloquial “Abba” podia ser considerada atrevida heresia, e entender esse misterioso Pai de Jesus tem sido complicada e inútil tarefa de minha existência. A questão sobre Deus, não-deus, o sagrado, o divino, pessoalidade, não pessoalidade de Deus, santos, deusas, deuses, infinita pergunta, tem a candente resposta de “Pai”, modo infantil de não responder, vocativo que apenas exclama, sem se preocupar com grandes questões. Leonardo Boff diz que Jesus aprendeu sobre a paternidade de Deus no convívio com seu pai, José. Presentes ou implícitos em todos os textos do evangelho, o Pai e o Reino também são a moldura maior do Sermão do Monte. Mas nesse pedaço específico, gosto de realçar o corpo e dois dos seus componentes, o coração e o olhar.

O Sermão do Monte inteiro se encontra nos capítulos 5, 6 e 7 do evangelho de Mateus e o pedaço que eu tenho ruminado é o texto que vai do capítulo 6, versículo 9 até o 34. Lá pelo meio, os versos de Mateus 6, 21-22 vão dizendo assim para mim:

Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração.
Os olhos são a candeia do corpo. Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio de luz.

Um coração descompassado e olhos brilhando é descrição para alguém feliz e esse texto começa dizendo para não concentrar o coração no dinheiro, não brilhar os olhos para a sedução do consumo. O grande adversário de Jesus era o deus Mamom, deus da riqueza, equivalente ao deus Capital que a Vila Maravila enfrenta o mais possível e todas e todos precisamos, talvez, reeducar o olhar.

Os tempos de Jesus não eram fáceis, com proliferação de muita pobreza e muita doença, e isso era um convite à angústia e preocupação. Um olhar iluminado, no entanto, não olha para a escassez, de comidas ou roupas, mas olha para a liberdade dos pássaros e para a exuberância das flores e consegue enxergar o cuidado do Pai. Nos versos 31 e 32 do capítulo 6, temos um convite a não gastar tanta energia com esse tipo de preocupação.

“Portanto, não se preocupem, dizendo: 'Que vamos comer?' ou 'Que vamos beber?' ou 'Que vamos vestir?'
Pois os pagãos é que correm atrás dessas coisas; mas o Pai celestial sabe que vocês precisam delas.”

A energia que a ansiedade pela falta de comida, bebida, roupa, dinheiro, consome é um desperdício inútil, o qual não acrescenta nenhum centímetro de vida ao nosso tempo. A vida é maior do que o alimento e o corpo é mais importante do que a aparência. Se tirarmos o olhar do que não temos e olhar ao redor, poderemos ver sinais do cuidado do Pai em todos os lugares, pássaros voando, flores brotando, gente se amando, às vezes em lugares inesperados. Mas para que não tornemos essa contemplação do Pai em religiosidade escapista é preciso procurar o Reino de Deus, como diz o verso 33 do mesmo capítulo.

Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas serão acrescentadas a vocês.”

Toda a energia dissipada em preocupação estressante deve ser usada na busca do Reino de Deus, e isso é um convite a uma nova prática. Esse Reino de Deus pode ser entendido como a visão de Jesus de um novo mundo, oposto ao imperialismo romano e à provinciana opressão judaica. A ideia tem uma complexa discussão, ao longo da história, mas pensar em um mundo melhor, próximo das utopias históricas, ou até do bem-viver do Acosta, pode nos ajudar a entender. Um mundo em que palavras como justiça, amor e verdade, se organizam em estruturas e relações diferentes.  Paranísio pensaria, com certeza, em uma Vila Maravila socialista, uma revolução total da política, da economia e das relações culturais e sociais, com muito mais igualdade para todas e cadas.

Chegou a hora do almoço e eu não pude evitar de me sentir em uma ceia eucarística, em que as mãos de Jesus eram as muitas mãos, cozinhando em muitos fogões, gente de todo tipo, idade, religião, orientação sexual, alegria liberada, conversa que nunca parava, diversidade de cores, sabores, assuntos, gentes. O último pedaço do trecho que dançava na minha cabeça era de uma força incomum, o verso 34.

Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã trará as suas próprias preocupações. Basta a cada dia o seu próprio mal.”

Combater o mal de cada dia, é convite a uma atitude teimosa diante de uma tarefa que não parece ter fim. Busque um mundo melhor hoje, combatendo com um olhar luminoso e um coração inteiro, inventando e reinventando a cada dia estruturas melhores e relacionamentos mais equânimes, diante do mal de hoje. Durma bem e quando amanhecer lute intensamente contra o mal de amanhã. Todo dia, aqui, então, estaremos lutado contra esse mal que acometeu a humanidade. Em “convivialidade profilática”, tomaremos todas as medidas para evitar contágio, incluindo o controle de acesso à comunidade, mas não abandonaremos nunca a solidariedade e a busca por um mundo de mais justiça, mais verdade e mais amor. Por causa disso, em plena Era do Coronavírus, os meus olhos estão brilhando.

Recife, 26 de março de 2020.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Minha primeira faxina na Era do Coronavirus

canal.blog
MINHA PRIMERA FAXINA

Marcos Monteiro

No meu retiro no Recife, entre prisão domiciliar e mosteiro involuntário, na minha pequena cela no apartamento de minha filha, fiz a minha primeira faxina do primeiro ano da Era do Coronavírus e lembrei de Tia Vasthy.

Toda prisão é justa, porque somos todas e todos pecadores diante de Deus e transgressores diante da lei, mesmo se conseguir provar que o apartamento não é meu. Mas monasticismo compulsório é desafio grande demais, embora pobreza, obediência e castidade não sejam tanto uma escolha na minha idade.

Caminhando para os setenta, pertenço por decreto à área de risco, ainda mais depois de ter sofrido um infarto. Meu corpo é ameaçado internamente pela deficiência do sistema circulatório e externamente pela complexidade louca do sistema de locomoção da grande cidade, veias e artérias sem coração. Mas, apesar do corpo e da idade, me senti feliz como um adolescente, porque a primeira faxina a gente nunca esquece.

Quando viemos morar no Recife, na Era da Ditadura que, embora meu tio poeta tenha sido torturado, nunca existiu, fomos acolhidos no apartamento de Tia Vasthy e fui incumbido de lavar o banheiro com perfeição supervisionada. Tia Vasthy não era militar, tinha a patente de professora, e todos os seus alunos aprenderam obedientemente a ler, escrever e geografar. Então, de dia eu lavava o banheiro e de noite, assistia à novela "O Sheik de Agadir", minha tia escondendo a emoção junto com algum segredo romântico.

No mosteiro obrigatório, ler, escrever e amar, serão as regras da minha ordem particular, e assistir a filmes e jogar virtualmente, nos entretempos. Um pouco antes do decreto de internamento universal, fiz uma viagem de doze horas de ônibus para Petrolina, voltei hora e meia de avião, tomei dois ônibus e dois metrôs para chegar em casa. Conferi pessoalmente a logística de contaminação da cidade grande e o desafio será tornar o contágio do amor e do humor mais veloz que a doença. Nossa família sempre achou que solidariedade e sorrisos eram contagiantes mas não temos certeza de que saberemos enfrentar vírus com gargalhadas.

Recentemente, fomos todos atingidos por uma violenta epidemia. Digo, todos os cidadãos brasileiros, eleitores ou não do mesmo, estamos sofrendo de “bolsonarite crucis”, provocada por uma bactéria disforme, e ainda não conhecemos todas as sequelas. Danos permanentes à saúde, atingindo fortemente os idosos e os mais pobres, depressão e pane no sistema nervoso central em muitos casos, esse microrganismo baixou fortemente a imunidade da população, porta aberta para enfermidades de diversos teores, com mais óbitos do que podemos imaginar. Pouco a pouco, estamos criando resistência, mas precisamos com urgência da cura, contra a infecção e contra a virose.

Recife, 23 de março de 2020. 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

MAIS UM NATAL PARA A VIDA




Marcos Monteiro

Este ano foi de muita luta, muito luto, muita doença e muita dor, de pessoas ao nosso redor.

Mas chega sempre um Natal para chamar a esperança.

Anúncios de tempos em que a cumplicidade de camponeses, pastores proscritos, faz arriscarem o trabalho para ver a nova vida, por acreditarem em anjos.

Peregrinos estrangeiros, caldeus demonizados, vagam em busca de refrigério, por acreditarem nas estrelas.

E animais domésticos, num curral de uma aldeia insignificante, assistem ao parto do futuro.

Natal é o grito do cosmos de que a esperança pode ser resultado da mistura de crianças, molambos, proscritos e insignificantes que acreditam em utopias.

E o cântico de que qualquer mulher pode parir toda a vida do mundo em qualquer lugar.

Por isso, com a força do Natal, posso transformar todo luto em luta, toda dor em dom e o medo da vida em coragem de dávida.

Obrigado por você que nos ajudou, neste ano complicado, a chegar ao sempre Feliz Natal.

Recife, 25 de dezembro de 2019.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

EXISTÊNCIA E INEXISTÊNCIA DE ERIC MONTEIRO FEITOZA




Marcos Monteiro

Domingo celebramos 43 anos da vida de Eric e na terça-feira seguinte choramos a sua morte. A passagem dos risos às lágrimas, da alegria à dor, da existência à inexistência, nos veio como um choque, notícia devastadora, dessas que nos lançam em sofrimentos desconhecidos e reveladores. O menino que ficou adolescente, que casou com Leu e que virou pai de João Mateus e de Deric, terminou seu tempo e foi inventar outros tempos em outros espaços. Seu sorriso fácil, seu humor irreverente e sua criatividade aguda não mais nos pertencem, estão pendurados em outros varais, num outro tipo de quintal.


Um ser humano inimitável tornou-se um inexistente, o que significa talvez a capacidade de escolher uma ou mais inexistências, entre tantas disponíveis. Pode muito bem estar agora em Pasárgada e, sendo amigo do rei, escolher cama e mulher, claro que parecida com Leu. Ou na Terra de São Saruê, com seus rios de leite e ribanceiras de cuscuz, em que plantações de ovos, já estrelados, oferecem a mistura para completar o café da manhã.

Sou sampaulino convicto e Eric era o sobrinho que tinha a lucidez e a coragem de torcer pelo São Paulo em casa de corintiano. Foi assim que aprendeu a enfrentar injustiça, preconceito, desigualdade, exploração e opressão, com obstinado bom humor. Tinha facilidade de amar e ser amado e, namorado apaixonado da justiça, andava de mãos dadas com a diva, pelas ruas e avenidas da grande cidade.

Meu sobrinho, Eric Monteiro Feitoza, filho de Áurea Marta e de Gutemberg, e irmão de Sérgio Daniel e de Jônatas. A sua festa de tanta vida nos deixou exultantes, comidas, conversas, sorrisos, e agora você é um inexistente. Imagine o tamanho de nossa dor. Dentro da nossa tradição cristã, você pode caminhar por algumas das nossas inexistências de desenho bíblico, como a Nova Jerusalém que desceu do céu, ou como a que Jesus chamava de Reino de Deus e tentava nos fazer entender tantas vezes.


Na nova Cidade Santa, você vai caminhar por ruas de ouro, ou seja, vai ter o prazer de pisar aquilo que vem pisando a humanidade na história. Ouro serve de adorno ou de asfalto, ou de material para construção de coisas úteis, nunca para ostentação e acumulação. Se sair procurando, não vai encontrar nem templos nem palácios, vai encontrar praça. Como bom socialista vai transitar bem em um mundo sem igreja, sem estado e sem eleição para escolher dirigentes idiotas, porque a praça é do povo e quando o povo governar vai ser desnecessário ficar brigando contra tiranias em whatsapp e facebook e frequentar manifestações contra o arbítrio, levando os dois filhos nos ombros. Era muito bonito de ver todas essas suas atividades aqui.

Na inexistência chamada de Reino de Deus, o único nome santo é o de Deus e nunca vai ser utilizado para autorizar pastor ou político a imbecilizar e oprimir o povo. Deus é o Pai nosso do pão nosso, do amor nosso, da esperança nossa, e fé nunca será sinônimo de violência, tortura, racismo, machismo, homofobia, injustiça. Vida, igualdade, alegria, poesia, saúde, serão de todas e todos, nessa inexistência em que a paz e a justiça andam juntas. O Reino de Deus será o abrigo de pobres, mansos, famintos de justiça, sofridos e perseguidos. Assim, se estabelecendo como Reinado da Igualdade.


Talvez você esteja nos observando em sua inexistência em mundos paralelos e se enterneça com as nossas trapalhadas, dê gargalhadas de nosso destempero e se comova com a nossa saudade. Mas conheço o recado que ainda nos quer passar e já foi dado na véspera do seu aniversário.

“Nunca desejo vida longa a ninguém. Sempre desejo vida feliz, seja a vida longa ou breve.
Até porque é mais difícil ter uma vida feliz do que ter uma vida longa.
Que a vida seja feliz e que as felicidades nunca sejam breves, mas longevas o máximo possível”.

Então, esse é o desafio que a saudade de sua vida nos propõe. Que alcancemos uma vida feliz, cheia de longas felicidades.

Recife, 16 de outubro de 2019.