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domingo, 4 de abril de 2021

APRENDIZES DE RESSURREIÇÕES NA COMUNHÃO DAS CICATRIZES

APRENDIZES DE RESSURREIÇÕES NA COMUNHÃO DAS CICATRIZES

 Marcos Monteiro

 E Jesus disse a Tomé: "Coloque o seu dedo aqui; veja as minhas mãos. Estenda a mão e coloque-a no meu lado. Pare de duvidar e creia". João 20,27. 

Completamos hoje o ciclo da Páscoa, na Festa da Ressurreição, e o Artesão de Nazareth, mais ressuscitado do que nunca, caminha desbravando espaços, mostrando com altivez as suas cicatrizes.

No meu cotidiano, fizemos o inventário de tantas ressurreições, enquanto recebia da Igreja Batista de Bultrins, pão, pó para suco de uva e chocolate meio amargo. Nessa igreja de periferia, o Artesão de Nazareth celebrará conosco, juntas e distantes, por conta da pandemia, a Comunhão das Cicatrizes.

Nos pés do Jesus peregrino de savanas e povoados, nas mãos do Jesus que tocou leprosos e proscritas, no corpo do Jesus acariciado por crianças e prostitutas, as cicatrizes são decalques inúteis de um sistema político, econômico e religioso, maligno, violento e assassino. Ele caminha mais vivo do que nunca.

A ressurreição é a mensagem de que existem suspiros depois do último e de que a opressão nunca terá a gargalhada final; essa pertence ao amor e à vida.

Então, gargalhemos. Se a Páscoa nos diz que cruz e ressurreição são inseparáveis, aprendamos com o Jesus de Nazareth a ressuscitar, com as nossas cicatrizes à mostra.

Desse modo, crer será insistir em ressuscitar espaços, tempos, instituições, organizações, movimentos, mundos e pessoas de todos os tamanhos, sabores e cores, ameaçados pela morte.

Aprendamos a ressuscitar, ressuscitemos!

Recife, 04 de abril de 2021


sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

A EXÓTICA E DESCONTROLADA FESTA DO NATAL

 


Marcos Monteiro

 

O Primeiro Natal foi uma exótica e descontrolada festa e tronou-se a autorização para o nascimento de qualquer criança e de se enxergar nos olhos de qualquer pequenina o olhar do Menino-Deus.

Se Jesus, a criança palestina, em situação muito precária, nas migrações forçadas da vida, em meio a animais, cochos e molambos, nasceu, qualquer criança pode nascer como um grito de humanidade e de esperança de que Deus, mais uma vez, nos encare com um olhar infantil.

O olhar do Deus-Menino assusta palácios e templos, mas enternece estrangeiros suspeitos e faz pastores campestres dançar ao som de música cósmica. Anjos, estrelas, pastores, nômades, profetas idosos invisibilizados, animais, e até uma criança ainda não nascida, exultam com a notícia tão comum e tão incomum.

Nascimento é sempre assim, tão simples e tão denso. Nas periferias da história a humanidade alcança brilho maior e desequilibra injustiças e preconceitos. Em um mundo de desigualdades gritantes, o choro de vida de uma criança pobre faz ressoar o grito de alegria da esperança.

O primeiro Natal é festa alucinada de proscritos em que animais podem participar. As prescrições não controlam os corpos amorosos que produzem crianças nem a alegria desautorizada de futuros que se esboçam.

Celebrado em todos os lugares, de diversos modos, por diversas culturas de diversas religiões, o Natal é oportunidade e convite de dançarmos livremente, com os nossos humanos e animais de estimação,  o cântico da esperança de um mundo muito melhor, de paz abundante, de justiça irretocável e de amor sem medidas.

Recife, 25 de dezembro de 2020.

domingo, 12 de abril de 2020

CELEBRANDO A INJUSTIÇA DA RESSURREIÇÃO

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Marcos Monteiro

A morte de Jesus foi uma grande justiça. Para o poder romano era um sedicioso, e para o poder judaico um herege blasfemador, e a sua cruz não foi a única. Ele a mereceu, como mereceria Barrabás e como mereceu Espártaco e seus seis mil companheiros escravos, crucificados muitos anos antes em Roma, em plena Via Ápia.

Injusta foi a ressurreição. Se era para ressuscitar alguém, Deus desrespeitou critérios políticos, econômicos e religiosos, dando nova vida a um aldeão carpinteiro, subvertendo méritos e garantias de qualquer tipo de legislação. A ressurreição, então, é a injustiça de Deus que subverte toda a justiça humana.

A vida é o maior dos mistérios do universo. Ela simplesmente acontece, de tantas maneiras inesperadas, em exuberância e diversidade, um encantador desperdício que contraria qualquer lógica. A morte não é misteriosa.  Tem a banalidade do previsível e a lógica fria da tragédia, única certeza na incerteza da vida.

No relato do evangelho de Marcos, na cruz, Jesus dá um grande grito no momento de sua morte, último brado de revolta contra todas as justiças humanas (Mc 15,37). A injustiça da ressurreição transforma esse grito em urro de vitória, momento de subversão de todas as lógicas, critérios e legislações humanas, plena vitória da incerta vida contra a tão certa e arrogante morte.

A injustiça da ressurreição cria um desequilíbrio cósmico que afeta as estruturas e relações humanas e as certezas e incertezas, os afetos e desafetos, as expectativas otimistas ou pessimistas, vão timidamente compreendendo o que é fé, amor ou esperança.

O ressuscitado vai marcando encontro com o cotidiano dos amigos, no sepulcro, nos caminhos, à beira mar, trazendo nova vida às suas vidas. E continua marcando encontro, mesmo depois da ascensão, como aquele que transforma a justiça sanguinária de Paulo em arauto da injustiça da ressurreição. Acho bonito o texto em que ele exclama:

Quando, porém, o que é corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal, de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: "A morte foi destruída pela vitória". 1Co 15,54.

Celebramos hoje a injustiça da ressurreição que destruiu a morte. Então, diante das nossas mortes de cada dia, grandes ou pequenas, vamos viver intensamente a incerteza da vida e subverter a lógica das justiças do poder, pelo delírio do amor.

Recife, 12 de abril de 2020. 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Uma planta que nunca se queima: os ritmos de Javé

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Êxodo 1-3

“Apascentava Moisés o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Midiã; e, levando o rebanho para o lado ocidental do deserto, chegou ao monte de Javé, a Horebe.
Apareceu-lhe o Anjo de Javé numa chama de fogo do meio duma sarça; Moisés olhou, e eis que a sarça ardia no fogo, e a sarça não se consumia.
Então disse consigo mesmo: Irei para lá, e verei essa grande maravilha, porque a sarça não se queima.
Vendo Javé que ele se voltava para ver, Javé do meio da sarça, o chamou e disse: Moisés, Moisés! Ele respondeu: Eis-me aqui.”
(Ex 3, 1-4).

Êxodo é o livro das peregrinações, inclusive de um grupo de pessoas, amálgama de famílias descendentes de Abraão que vão se constituindo em povo. A peregrinação, com Deus e com Moisés, é também peregrinação existencial, caminhos de se encontrar, vagar em busca de ser comunidade.

Javé caminha em ritmos desiguais e inesperados. No primeiro momento, quando de setenta descendentes de Jacó surge um grupo de cerca de um milhão de pessoas, a ação de Javé parece muito irregular. Passam-se os anos e Javé não reage ao poder egípcio que tenta exterminar esse grupo pela multiplicação de trabalho escravo e pelo assassinato de suas crianças.

O seu cuidado se resume a encontrar marido para as parteiras que desobedecem ordens do poderoso faraó e a acompanhar atento a vida desse Moisés que por estratégia de sua mãe é escondido e depois adotado pela própria princesa, filha do faraó. As parteiras são artistas do parir e para não destruir vidas, para não desobedecerem a si mesmas e não negarem a sua vocação, desobedecem e enganam o faraó. Desobediência e engano são muitas vezes armas dos pequenos diante da arrogância do poder e Javé apoia isso: sutilezas da ética de Javé.

São os úteros das mulheres e as suas táticas que multiplicam e protegem esse agrupamento que se sente e é tratado como estrangeiro no lugar que ora habita. Por ardis femininos, Moisés cresce em palácio, mas não parece perder a ligação com seu grupo familiar original. Para defender um hebreu mata um egípcio e tem que fugir para Midiã, onde constitui família e se torna pastor de ovelhas.

De repente, Javé é tomado de certa pressa e sai a atrair Moisés pela estratégia da planta que, no meio do fogo, não se queima. Javé diz para Moisés tirar as sandálias. Talvez mais do que interdição é convite a caminhar descalço pela terra santa de Deus. Com muita relutância, Moisés assume a tarefa de libertador dos israelitas, depois de Javé garantir a sua poderosa ajuda. Os ritmos de Javé são desiguais. Foi muito o tempo do sofrimento sob a opressão do poderoso faraó.

A planta que não se queima torna-se parábola talvez dos ritmos da vida. A incandescente opressão do poder egípcio não conseguiu destruir o grupo dos descendentes de José. Ou talvez dos sonhos de Moisés. O desejo de libertar o seu povo não foi destruído pela fuga ou pela rotina de pastor. Mas talvez seja realmente parábola dos ritmos de Javé. Ele nunca desiste. O tempo não conseguiu destruir sua promessa.

De todo jeito, os ritmos de Javé são misteriosos. Às vezes, ele simplesmente desaparece, noutras parece que deixa as coisas acontecerem olhando como de soslaio, repentinamente irrompe com toda força na história dos seres humanos. Ninguém pode explicar o porquê.  Talvez estivesse apenas à espera do aparecimento de Moisés, um companheiro capaz de encarar a luta.


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O peregrino Javé

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Tendo, pois, partido de Sucote, acamparam-se em Elã, à entrada do deserto.
Javé ia adiante deles, durante o dia numa coluna de nuvem, para os guiar pelo caminho, durante a noite numa coluna de fogo, para os alumiar, a fim de que caminhassem de dia e de noite.
Nunca se apartou do povo a coluna de nuvem durante o dia, nem a coluna de fogo durante a noite.
(Ex 13, 20-22)

O livro de Êxodo é um dos mais belos do Antigo Testamento. História de peregrinações. Peregrinação de um povo, peregrinação de Moisés e peregrinação de Javé, o amigo íntimo de Moisés, o Deus dos pais que vai se mostrando de vários modos, em seu jeito misterioso de ser. As peregrinações acontecem de uma situação inicial, dentro do poderoso Egito, para uma terra prometida há tanto tempo aos pais, a terra de Canaã.

Entre o Egito e a terra prometida, um longo período de deserto, quarenta anos. Tempo e lugar que Javé acha necessário para construir um povo. O deserto é a forja em que a têmpora desse povo é afiada, lugar de lutas, mas de aprendizado de vida em comunidade. Lugar de desespero, mas lugar de graça, lugar de revolta, mas lugar de promessa, lugar de escassez, mas lugar de providência. Carne e pão aparecem do céu, como penhor da promessa de Javé da terra que mana leite e mel.

As relações nem sempre são amistosas. Revoltas, discórdias e conflitos sempre aparecem entre várias personagens, em algumas Javé é diretamente envolvido. Na longa caminhada, sempre alguém perde a paciência, inclusive Javé que nessas horas precisa ser contido. Moisés, o amigo íntimo, que também tem seus momentos de exasperação, é quem acalma Javé com suas ponderações e evita catástrofes maiores.

Todas as partes precisam entrar em acordos e Javé faz as suas exigências. Mas também cumpre suas promessas e guia o povo de dia e de noite. Durante o dia, quando o caminho e a vida são mais nítidos, Javé é coluna de nuvem, guia misterioso envolto em bruma. Mas na escuridão, Javé se torna coluna de fogo, candeeiro que ilumina caminhos e evita tropeços.

Javé é um deus peregrino que não fica à espera em lugares ou santuários, um deus que caminha com o povo, um deus que habita em tendas. A nossa vocação de peregrinos vem da própria peregrinação de Javé, um deus que se movimenta, caminhante das estradas, guia de caminhos.

Pelos caminhos da vida, quando o deserto nos rodeia, devemos estar atentos e perscrutar o horizonte para discernir a coluna de nuvem ou a coluna de fogo que nos aponta os caminhos.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A PALAVRA PROFÉTICA E AS SITUAÇÕES DE CRISE - I REIS 20 ( V)

cancaonova

O capítulo 20 do primeiro livro de Reis é a narrativa, com cores de história popular, das relações desses profetas anônimos com um momento concreto da história do rei Acabe. É a história da palavra profética pronunciada em um momento de crise e de suas inesperadas consequências. Dividimo-la em seis pedaços, cada um com um título meio folhetim, para manter o seu sabor popular.


APLICAÇÃO

Todo texto é rico de significados o que nos possibilita múltiplas aplicações. Para colhermos algumas,  queremos partir  da imagem da igreja como comunidade profética e como comunidade de profetas. É visível no Novo Testamento essa linha de continuidade entre a igreja e os profetas e a comunidade dos filhos dos profetas ou dos irmãos-profetas do Velho Testamento nos fornece uma imagem muito sugestiva para a nossa reflexão.

Como aquela comunidade, somos os irmãos que partilham o pão e a palavra do Senhor, agora a partir dos novos significados trazidos por Jesus. Não estamos examinando aqui o dom de profecia, dentro do significado do Novo Testamento, como um dos dons específicos de algumas pessoas da comunidade. Mas, a comunidade toda, enquanto comunidade profética, onde todos partilham essa intimidade da palavra do Senhor, onde todos desfrutam do Espírito do Senhor.

Dentro dessa perspectiva, podemos enfatizar a relação entre o profeta e a palavra profética. A palavra profética é maior do que o profeta. A palavra invade, move, configura, desfigura e transfigura o profeta. Nessa relação,  o profeta, às vezes, torna-se até anônimo, insignificante profeta diante de uma palavra que o ultrapassa. Portanto, uma igreja profética é uma igreja invadida, movida, configurada, transfigurada e, se necessário, até desfigurada pela Palavra.
            .
Em relação ao tempo, o profeta tem os pés no passado, as mãos no presente e os olhos no futuro. Ele é o guardião da tradição e protege os marcos teológicos, como a Torah, o Sinai e o pacto, não permitindo que os mesmos sejam desrespeitados ou esquecidos.  No entanto, ele cuida das questões presentes, sua mensagem é sempre nova, permanente, atualizada, na antevisão do tempo futuro. Ele perscruta os horizontes do depois, para não ser surpreendido e para trazer sentido para os fatos do presente e do passado.
                       
Como comunidade profética, a igreja é a guardiã do passado sem ser tradicional ("A tradição é o esquecimento das origens") é fabricante do presente histórico sem ser pragmática e é desvendadora do futuro sem ser escapista. Nela, passado, presente e futuro, encontram-se e reencontram-se em diversas circunstâncias e múltiplas combinações,  sob a regência maior da Palavra.

A fonte da palavra profética é a mística. O profeta rompe as cadeias da religião formal na busca da intimidade com Javé. E é essa mesma intimidade que torna a igreja comunidade profética. Mística não significa irracionalidade, mas a percepção de que as fontes da vida estão além do entendimento. A mística sadia não rompe a estrutura da razão, mas a ultrapassa.

Por último, como comunidade profética, a igreja maneja uma palavra de dupla face. A mensagem da igreja é bênção e maldição, anúncio e denúncia. Também a igreja não se permite a banalização das palavras e não tem nenhum consolo para o opressor enquanto opressor. Deseja a conversão de todos, mas não pode omitir a palavra de juízo diante da exploração e agressão desumanizantes.

Uma comunidade profética é uma comunidade que fala, que tem o que dizer, e que não reconhece o espaço-limite do "sagrado" para os seus pronunciamentos. Uma face dos seus pronunciamentos é agradável, mas a outra é desagradável. E se os seus pronunciamentos, muitas vezes, soam como invasão de espaços, ela prefere invadir em obediência ao Senhor das palavras, do que cair nesse jogo de meias-palavras, conveniente e oportunista que não incomoda ninguém.
                       
BIBLIOGRAFIA

BENTZEN,  Aage.  Introdução ao Antigo Testamento,  v. 2.  S.  Paulo:  ASTE,  1968.
LOHFINK,  Norbert.  Profetas ontem e hoje.  S.Paulo:  Paulinas,  1979.
RAD,  Gerhard Von.  Teologia do Antigo Testamento,  v.  2.  S.  Paulo:  ASTE,  1974.
SCOTT,  R.  B.  Y.  Os profetas de Israel - nossos contemporâneos.  S.  Paulo:  ASTE,  1968.
TILLICH,  Paul.  Teologia sistemática.  S. Paulo:  Paulinas,  1984.
THE BROADMAN BIBLE COMMENTARY,  v. 3.  Nashville:  Broadman,  1970.


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A PALAVRA PROFÉTICA E AS SITUAÇÕES DE CRISE I REIS ( IV )

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O capítulo 20 do primeiro livro de Reis é a narrativa, com cores de história popular, das relações desses profetas anônimos com um momento concreto da história do rei Acabe. É a história da palavra profética pronunciada em um momento de crise e de suas inesperadas consequências. Dividimo-la em seis pedaços, cada um com um título meio folhetim, para manter o seu sabor popular.

Quando um homem volta a ser rei
e age como se fosse Deus.

Vencida a crise, Acabe reassume o controle da situação. Volta ao trono e assume a responsabilidade das decisões, suas e da nação, no antigo desrespeito à palavra profética. É um homem que volta a ser rei e age como se fosse Deus. Israel volta a ser nação de uma única palavra, sem consulta à palavra profética, sem consulta ao conselho de anciãos. Nem a crise nem a vitória da palavra profética sobre a crise conseguiram a conversão de Acabe.

Se a palavra de Javé fora importante na definição da guerra, será a palavra de Acabe que ditará a estratégia de relacionamento com o tradicional inimigo e Acabe age como um grande estadista. Perdoa o inimigo  e consegue vantagens econômicas e políticas para a nação.

Então cingiram sacos aos lombos e cordas aos pescoços e,
indo ter com o rei de Israel, disseram-lhe: Deixa-me viver, rogo-te.
 Ao que disse Acabe: Pois ainda vive? É meu irmão.   
Aqueles homens, tomando isto por bom presságio, apressaram-se
 em apanhar a sua palavra, e disseram: Bene-Hadade é teu irmão! 
Respondeu-lhes ele: Ide, trazei-mo. Veio, pois, Bene-Hadade
à presença de Acabe; e este o fez subir ao carro. 
Então lhe disse Bene-Hadade: Eu te restituirei as cidades
que meu pai tomou a teu pai; e farás para ti praças em Damasco, 
como meu pai as fez em Samaria. E eu, respondeu Acabe,
com esta aliança te deixarei ir. E fez com ele aliança e o deixou ir.
(v. 32-34)

Do ponto de vista político a solução parecia satisfatória, mas para a palavra profética não há ponto de vista político: todos os pontos de vista são teológicos. A palavra profética não reconhece um espaço-limite,  intromete-se em todos os espaços.

Como guardião da Torah, o profeta não admite a banalização da palavra aliança. Não pode haver aliança fora da Torah. Aliança não é um jogo de conveniência política, mas uma questão de identidade religiosa, de fidelidade a Javé.

Do mesmo modo, a palavra irmão não pode ser usada indevidamente para o opressor do povo de Javé. O profeta não permite a manipulação das palavras da tradição. Ele é também guardião do significado. Não são os reis que escolhem e formam as palavras,  mas as palavras que escolhem e formam o povo, inclusive os reis. Diante das palavras sagradas está proibida qualquer ingenuidade e muito menos qualquer oportunismo.

Quando a palavra profética muda bruscamente de direção
 e condena o que libertara.

O texto vai chegando ao seu final, com uma brusca mudança no tom da palavra profética. Até agora ela fora aprazível e consoladora para o rei Acabe. Mas, a palavra profética é livre, não está atrelada a reis ou a conveniências e, diante da impertinência de Acabe, ela se torna palavra dura e palavra condenatória.

A palavra profética começa mostrando o seu outro lado, severo, duro, amaldiçoador, no episódio do profeta devorado pelo leão por sua desobediência. A palavra profética é exigente e quer ser levada a sério. Não pode ser tratada com a negligência de Acabe e, por isso, o profeta, guardião da palavra, é julgado sumariamente.

É um outro profeta, esmurrado a seu pedido por alguém, disfarçado de guerreiro, que vai apresentar a nova face da palavra profética a um Acabe satisfeito consigo mesmo.  Prepara uma história que é uma armadilha. É a história cifrada de Acabe e Ben-Hadad, a partir da expectativa da palavra profética. Acabe cai na armadilha e pronuncia a sentença contra si mesmo. E, recebendo explicitamente a nova e dura palavra, retira-se irritado e desgostoso.

  E disse ele ao rei: Assim diz o Senhor: 
Porquanto deixaste escapar da mão o homem que eu havia
posto para destruição, a tua vida responderá pela sua vida,
e o teu povo pelo seu povo. 
E o rei de Israel seguiu para sua casa,
desgostoso e indignado, e veio a Samaria.
(v. 35-43)

Temos dificuldade com esse aspecto destruidor da palavra profética e, mesmo lembrando dos condicionamentos históricos peculiares à época,  queremos tirar lições desses textos sombrios para os nossos dias.  Então, precisamos lembrar, entre outras coisas, que a Bíblia desautoriza uma leitura romântica, cor-de-rosa e idealizada de situações de crise. Os problemas concretos da existência são mais complexos do que as recomendações das cartilhas legalistas.

O profeta ali, era o anunciador do juízo de Deus para o opressor, e o estado, na pessoa do rei, seria o executor desse juízo. Na situação de exceção que se havia estabelecido, estava proibida qualquer clemência para o opressor. Quando Acabe assume, sem a palavra profética, a clemência oportunista, teria perdido a chance de alterar os destinos de Israel.

O capítulo começa com crise e termina ainda com crise. O texto é exatamente a história de como um homem e uma nação vencem uma crise sem escapar da crise. Não conseguiram perceber que cada crise é apenas o sinal de uma crise maior e que a maior de todas as crises é a palavra de Deus.

Dentro da perspectiva do livro dos Reis, Israel marchava para a destruição e toda a ação profética era uma tentativa de ensino sobre a grande crise da palavra de Javé. Nos múltiplos significados da palavra crise, a palavra de Javé era acrisolamento,  purificação, critério, decisão, oportunidade e perigo. Era a grande crise, a única e verdadeira crise de Israel.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A PALAVRA PROFÉTICA E AS SITUAÇÕES DE CRISE - I REIS 20 ( III )



Quando a palavra profética é libertadora
até mesmo para um sujeito infiel como Acabe.

Até aqui tudo se passara dentro do costume internacional das relações entre países. A história preparava-se para se desenrolar dentro do campo do rotineiro, do previsível, e os prognósticos eram os piores possíveis. Surge então a esquisita e imprevisível figura do profeta, acrescentando um elemento radicalmente novo ao desenvolvimento da disputa.

O profeta traz novas palavras, novas previsões, e novos significados à situação de crise. É palavra abençoadora, aprazível palavra para a angústia de Acabe. Se a crise é democrática, mais democrática ainda é a palavra profética que abençoa até mesmo o infiel Acabe. 

A palavra profética muda a direção e o significado da guerra. A guerra torna-se emblemática e educativa. Javé pretende, a partir dessa específica batalha, demonstrar mais uma vez que é o único Senhor. Nem Acabe, nem Ben-Hadad, nem os deuses de Damasco, são senhores, mas Javé. A crise é a oportunidade de conversão do infiel Acabe.

E eis que um profeta, chegando-se a Acabe, rei de Israel, lhe disse:
Assim diz o Senhor: Viste toda esta grande multidão? 
eis que hoje ta entregarei nas mãos, e saberás que eu sou o Senhor (v. 13). 

Nas inesperadas relações amistosas estabelecidas com os profetas, Acabe pede até detalhes, estratégias e táticas de combate, em uma inesperada e completa submissão. A palavra profética não lhe falha: desenha a tática de combate e lhe instrui sobre os próximos movimentos a serem realizados.

O resultado é que o confiante Ben-Hadad, tão confiante que se embriagava nas tendas com os seus trinta e dois reis, sofre fragorosa e inesperada derrota. Derrotado pela palavra profética, pelo juízo de Deus que descia subitamente sobre a sua vaidade e prepotência. 

Saíram, pois, da cidade os moços dos chefes das províncias,
e o exército que os seguia. E eles mataram cada um o seu adversário. 
Então os sírios fugiram, e Israel os perseguiu; mas Bene-Hadade, 
rei da Síria, escapou a cavalo, com alguns cavaleiros. 
E saindo o rei de Israel, destruiu os cavalos e os carros,
e infligiu aos sírios grande derrota (v. 19 -21).


Quando a palavra profética mantém
o estado de vigilância e garante a vitória total.

Instaurada com a vitória a euforia nacional, é o profeta quem mantém a serenidade e garante o estado de vigilância.  Raramente, as crises se resolvem em uma única batalha e,  por causa disso,  as tarefas não acabam com a primeira vitória. A palavra profética tem esse caráter de se antecipar às situações para não se deixar apanhar despreparado.

Então o profeta chegou-se ao rei de Israel e lhe disse:
Vai, fortalece-te; atenta bem para o que hás de fazer;
porque decorrido um ano, o rei da Síria subirá contra ti (v. 22).

A estranha derrota de Ben-Hadad  clama por explicações do lado sírio e os conselheiros preparam as suas palavras para entender o acontecimento. A guerra torna-se, então, uma guerra de significados e, inevitavelmente, uma controvérsia teológica. Para a época, toda batalha era, ao mesmo tempo, uma batalha entre deuses e alguma coisa acontecera que não deixara os deuses da Síria muito confortáveis.
 
Os servos do rei da Síria lhe disseram: Seus deuses são deuses
dos montes, por isso eles foram mais fortes do que nós; 
mas pelejemos com eles na planície, e por certo prevaleceremos
contra eles. (v. 23).

Resolvida a questão teológica,  refeito o exército,  reformulada a estratégia de combate,  um Ben-Hadad muito mais atento dispõe a sua multidão de guerreiros que enchiam a terra,  contra o pequenino rebanho de cabras dos guerreiros de Israel.  Novamente,  a palavra profética intervém decidida a provar que a questão teológica não estava resolvida e a demonstrar que Javé é Deus de toda a terra,  dos vales,  das montanhas e das planícies.

Transformada em questão de honra de Javé, a guerra torna-se em contundente destruição do exército sírio.  Cem mil homens mortos no campo de batalha, vinte e sete mil restantes esmagados pela queda dos muros de Afeque e um Ben-Hadad escondido em um quarto interior da cidade, descrevem os destroços de um poder julgado pelo poder de Deus.

A crise terminara. A palavra profética cumprira o seu ciclo educativo. Javé demonstrara o seu poder absoluto sobre as pretensões da história, libertara Acabe e a nação israelita e julgara a nação insolente e opressora. As próximas etapas do texto, tratarão das surpreendentes consequências desses episódio para a vida de Acabe e do povo de Israel.  



segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A PALAVRA PROFÉTICA E AS SITUAÇÕES DE CRISE - I REIS 20 ( II )


O capítulo 20 do primeiro livro de Reis é a narrativa, com cores de história popular,  das relações desses profetas anônimos com um momento concreto da história do rei Acabe. É a história da palavra profética pronunciada em um momento de crise e de suas inesperadas consequências.  Dividimo-la em seis pedaços, cada um com um título meio folhetim, para manter o seu sabor popular.

1. V. 1-4

Quando um rei descobre repentinamente
que é apenas um homem.

A história começa com a capital Samaria cercada pelo exército do tradicional inimigo, a Síria, com os mensageiros do rei Ben-Hadad começando o movimento costumeiro de indas e vindas de exigências que deveriam culminar em uma batalha e na rendição total da nação israelita.

E enviou à cidade mensageiros a Acabe,  rei de Israel,  a dizer-lhe:
Assim diz Ben-Hadad:  A tua prata e o teu ouro são meus; e também,
das tuas mulheres e dos teus filhos, os melhores são meus. (v. 2-3).

A mensagem desencadeia uma situação de crise, dessa democrática crise que atinge a todos, ricos e pobres, fortes e fracos, reis e plebeus. Crise pessoal e crise nacional pela imbricação inevitável entre rei e povo, líder e comunidade.

A crise de Acab é de natureza econômica, descobre que o que tem pode lhe ser tirado sumariamente; de natureza afetiva, sua família pode se desagregar a qualquer momento; mas, principalmente, de natureza política, todo o seu poder pode ser reduzido a nada diante de um poder maior. O poder usurpador pode repentinamente tirar-lhe bens,  afeto e posição social.

O impacto transforma Acabe de dominador em dominado, de explorador em explorado, de rei em vassalo. Por isso, essa é a história do momento em que um rei descobre que é apenas um homem e essa primeira parte termina com a humilde e subserviente confissão diante do sírio prepotente, por parte daquele que antes não se curvara diante de Javé ou de seus profetas.

  Ao que respondeu o rei de Israel, dizendo:
Conforme a tua palavra, ó rei meu senhor,
sou teu,  com tudo quanto tenho. (v. 4)

2. V. 5-11

Quando um homem descobre dolorosamente
que precisa ser maior do que ele mesmo.
           
Panikon.space
Há duas intenções em disputa. Acabe deseja contornar a crise e Ben-Hadad pretende agravá-la e, por conta disso,  aumenta o nível de exigências. Não apenas a declaração formal de posse que lhe dava contratualmente a soberania sobre Israel, mas o saque ostensivo e predatório que lhe daria a soberania de fato e humilharia totalmente o adversário. Qualquer resistência seria a guerra com uma diferença esmagadora na correlação de forças, favorável à Síria, tanto em guerreiros quanto em armas e artefatos de combate. 

Tornaram a vir os mensageiros, e disseram: Assim fala Ben-Hadad
dizendo: Enviei-te, na verdade, mensageiros que dissessem:
Tu me hás de entregar a tua prata e o teu ouro, as tuas mulheres
e os teus filhos; todavia amanhã a estas horas te enviarei
os meus servos, os quais esquadrinharão a tua casa, e as casas
dos teus servos: e há de ser que tudo o que de precioso tiveres,
eles tomarão consigo e o levarão. (v. 5-6).

O agravamento da crise exige novas soluções e novas atitudes. É preciso crescer diante das crises, ou sucumbir de vez, e Acabe adota uma política inteiramente nova, reinventa o bom senso e aconselha-se com todos os anciãos, representantes da sabedoria, pilares da tradição. Um rei acostumado a decidir sozinho, ou no máximo em conselho de família, com a esposa Jezabel, descobre-se homem e, como homem, sente necessidade de dividir o peso do agravamento da crise.

Com o apoio dos anciãos, Acabe enfrenta ainda timidamente o poderoso Ben-Hadad e nega-lhe o atendimento do segundo lote de exigências. Afinal, a dignidade traça limites a determinadas exigências e é preciso arregimentar forças para garantir, pelo menos, esse limite mínimo de dignidade humana. O resultado é a previsível declaração formal de guerra, com o rei sírio dizendo que tomará nas mãos o pó de Samaria.

A resposta de Acabe mostra a desesperada luta interior de um homem que descobre no agravamento da situação de crise que precisa ser maior do que ele mesmo.  Diz, com o recurso de um provérbio popular, que palavras e bravatas não ganham guerras, cada guerra tem a sua própria história, e somente após a luta se deveria cantar vitória.

O rei de Israel, porém, respondeu: Dizei-lhe:
Não se gabe quem se cinge como aquele que se descinge (v. 11).




segunda-feira, 7 de outubro de 2013

A PALAVRA PROFÉTICA E AS SITUAÇÕES DE CRISE - I REIS 20 ( I )


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Viajar de camelo e voltar de avião

Toda meditação bíblica começa com aquilo que podemos chamar de angústia polissêmica. Buscamos significado em um texto de significados limitados, mas, mesmo assim, de múltiplos significados. 

É próprio da linguagem ser polissêmica, possuir variados significados. A Cabala, esse movimento místico judaico da Idade Média, dizia que a Torah possuía 600 mil significados, um para cada israelita presente ao pé do Monte Sinai. Sem levar em conta os exageros dessa postura, um tanto mágica, essa assertiva nos ilustra o sentimento da angústia em tentar encontrar um significado que fale às nossas vidas e, ainda assim, mantenha-se fiel ao texto em sua auto-apresentação.

Para isso, assumimos uma dupla atitude: uma de natureza hermenêutica e outra, de natureza teológica, sendo que as duas atitudes se interpenetram e se complementam na busca de sentido.

Reconhecemos, inicialmente, que há um texto diante de nós e que não o compreendemos, porque esse texto fala de outro povo, de outra época, através de outra língua. Estamos distanciados dos sentidos e dos propósitos do texto em sua confecção original.

Por outro lado, esse texto foi elaborado em um mundo e, apesar das distâncias históricas ou geográficas, é o mesmo mundo em que vivemos, o que nos possibilita, através de um esforço continuado,  chegar a compreender alguns dos significados do mundo em que o texto foi produzido e do qual nos fala.

A atitude hermenêutica é a cansativa tarefa de empreender uma viagem de camelo ao mundo antigo de Acabe e de Ben-Hadad para trazê-los de avião para o nosso século, junto com os profetas, e conduzí-los, em apertados ônibus, pelas complexas e urbanizadas ruas de nossa cidade.

Entretanto, é a atitude teológica que marca a nossa procura. Não queremos somente decodificar um texto, queremos ouvir uma mensagem. Buscamos não apenas significados, mas acima de tudo procuramos no texto a palavra de Deus e procuramo-la para nós.

Na atitude hermenêutica, precedemos o texto com o nosso saber, nossa capacidade crítica e nossas ferramentas científicas. Na atitude teológica, o texto nos precede: ganha ascendência sobre nós. Meditamos o texto para que ele nos medite. Estudamos intensamente, julgamos, criticamos e analisamos o texto, para que ele nos estude, nos julgue e nos critique. Arrumamos e desarrumamos o texto, para que ele desarrume e arrume a nossa vida.

Esquisitos profetas em um mundo de reis
diocesedecaceres

Mais do que história, os livros dos Reis são teologia da história, tecida a partir do sentimento de catástrofe nacional que se abateu sobre uma nação derrotada, esmagada e exilada. Livro elaborado a partir de fontes escritas e tradições orais, defende a tese de que o problema, a crise de Israel, é função de sua desobediência à palavra de Deus, ao pacto assumido no Sinai e reassumido tantas vezes, mas nunca cumprido por parte do povo.

Há um propósito e uma ação de Deus na história e o pacto significa que Israel ocupa um lugar central nesse propósito. O pacto promulga o direito e os compromissos do soberano Javé e os direitos e os deveres do seu povo. Javé recebe a terra e o povo como propriedade,  oferece proteção contra os inimigos e exige adoração exclusiva e atitudes éticas compatíveis com a cidadania divina.

Os guardiões do pacto são esses imprevisíveis e esquisitos profetas. Palavra viva e atualizada de Javé, lembranças do Sinai e personificações da Torah. O livro dos Reis, não é o livro dos reis, mas o relato das ações e relações desses estranhos profetas, cuja palavra abençoava e amaldiçoava reis.

Os profetas dos livros dos Reis, eram profetas com nomes próprios como Elias, Eliseu, Micaías, Natã, Gate, Aías. Importantes e considerados profetas, alguns com trânsito permanente na corte. Mas também profetas sem nome, apenas profetas. Anônimos, transitórios e inesperados profetas, de uma palavra que os ultrapassava.

Grande parte deles viviam em comunidades, os filhos-de-profetas ou os irmãos-profetas, partilhando o pão e a palavra de Javé, verdadeiras reservas da palavra de Deus à espreita, vigilância contínua da história.

Frente ao poder dos reis, representavam um poder limitador. Estranho poder, sem armas nem riquezas, emanado da força da Palavra. Poder da linguagem que surgia para corrigir os rumos da história, essa construção tão humana, de interesse divino.


O capítulo 20 do primeiro livro de Reis é a narrativa, com cores de história popular,  das relações desses profetas anônimos com um momento concreto da história do rei Acabe.  É a história da palavra profética pronunciada em um momento de crise e de suas inesperadas consequências.  Dividimo-la em alguns pedaços, cada um com um título meio folhetim, para manter o seu sabor popular.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Momento de completa visão

apascentarospequeninos

Gn 48-50

A morte de Jacó encerra o livro de Gênesis. Narrativas sobre conversa coloquial com o Faraó, relações familiares, bênçãos, cerimônias fúnebres dignas de um patriarca, quase oitenta dias em lugares diferentes com os mais importantes oficiais do Egito, choro que nunca se acaba, como era de praxe, medo de vingança dos irmãos e perdão de José que diz:

“Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida” (Gn 50,20).

Javé é um Deus que de modo misterioso transforma o mal em bem.

Mas o ponto mais alto da narrativa é o momento em que Jacó, no leito da morte, distribui e pronuncia bênçãos.

Uma tradição bem antiga concebe que o homem na hora da morte torna-se vidente. A morte seria plenitude de entendimento, momento culminante de sabedoria, compreensão que se abre sobre todas as coisas sem limites. Nas bênçãos, Jacó se encontra em limiar. Entre tradição e possibilidades, entre este mundo e o mundo dos mortos, entre passado e futuro.

Portanto, quando José traz seus filhos para a bênção, Jacó subverte a ordem patriarcal e carrega de bênçãos o mais novo, Efraim, deixando o primogênito, Manassés, em segundo plano. Ele próprio se torna patriarca por meios indiretos, não por direito de primogênito. Esses netos se tornam filhos por amor a José, o filho da amada Raquel, de quem lembra a morte.

“Vindo, pois, eu de Padã, me morreu, com pesar meu, Raquel na terra de Canaã, no caminho, havendo ainda pequena distância para chegar a Efrata.” (Gn 48, 7a).

A amada morre a caminho, mas a saudade, a lembrança e o pesar caminham até o final de sua vida.

Na distribuição de bênçãos sobre os filhos vislumbra a futura organização tribal e a vindoura instituição monárquica, colocando Judá acima dos irmãos.

“O cetro não se arredará de Judá, nem o bastão de entre seus pés, até que venha Siló; e a ele obedecerão os povos” (Gn 49, 10).

A bênção se move entre passado e futuro, acerto de contas e promessas. De Ruben cobra o desrespeito de haver dormido com uma das concubinas do pai. De Simeão e Levi, a violência. Com metáforas de animais, compara Judá a um leão, Issacar a um jumento que trabalha sem parar, Dã a uma serpente à espreita na beira do caminho, Naftali a uma gazela, correndo livre e proferindo palavras formosas, e Benjamim a um lobo que despedaça a presa. Zebulom estará nas praias e será porto para navios, Gade será hábil em guerras e guerrilhas, Aser será campo de abundância e José será ramo frutífero, galhos sobre os muros que resistem aos frecheiros.

As bênçãos assumem uma forma poética e são postas a partir de Javé e sob a responsabilidade do mesmo. Na hora da morte Jacó se torna vidente. O vidente é aquele que enxerga o que Javé fez e vai fazer na história. A sua forma de falar é poética, porque quando Javé fala não escolhe a linguagem ordinária, escolhe a poesia.

Javé é o poeta que intervém na história de maneiras intrincadas para buscar um mundo sempre melhor.


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

A passagem dos sonhos à realização

conhecerkardec

Gn 39-47

Todos esses capítulos narram como os sonhos do adolescente José se tornaram uma realidade. Examinados com cuidado, eram sonhos de grandeza em que não lhe bastava ser o patriarca da família (feixes de trigos que se inclinavam reverentes), precisava ser o governador do mundo (sol, lua e estrelas em atitude de adoração). José se torna uma espécie de Faraó, governador do Egito tão poderoso quanto o próprio, senhor de uma terra faminta e castigada pela seca.

Os sonhos incomodavam seus irmãos e José tem de caminhar pelos subterrâneos da vida. De lama de cisterna a mercadoria de caravana até chegar a prisioneiro de calabouço, estranho caminho para realização de sonhos. Quais as lições aprendidas nesse tortuoso percurso? Jacó, seu pai, aprendera a ser sempre ardiloso, a usar todas as armas da transgressão para subir na estrutura patriarcal. José nunca transgride os códigos, aprende o caminho da obediência e da aliança com os mais poderosos.

Bem, Javé acompanha todas essas coisas na realização desses sonhos e Javé tem seus segredos e propósitos. Continua distribuindo sonhos: copeiro, padeiro e o próprio Faraó sonham. O sonhador José havia se tornado perito em decifrar sonhos e isso o leva a se tornar governador de todo o Egito por decreto do Faraó. Os sonhos de vacas magras e vacas gordas, espigas mirradas e espigas cheias, são avisos de Javé sobre fome no mundo e necessidade de se preparar para sobreviver.

Desse modo, diante de uma fome que atinge todo o mundo, os irmãos vão ao Egito para comprar alimento e se inclinam diante de José exatamente como nos sonhos. Aliás, o mundo todo, faminto, se inclina diante de José, que se tornou todo poderoso.

Em uma série de peripécias deliciosas, José termina por se dar a conhecer aos irmãos e desse modo garantir a sobrevivência dessa família amada por Javé, levando-a para o melhor da terra do Egito. E o resto do povo?

Aqui vale a pena perceber a ambiguidade dos sonhos realizados. Estranho esse José que sofreu bastante, mas sempre se colocou ao lado do sistema, respeitando os códigos patriarcais, inclusive os códigos sexuais. O episódio mais interessante é o momento em que escapa totalmente ao assédio da mulher de Potifar, alegando fidelidade ao comandante da guarda real.

Não há nenhuma narrativa a partir da mulher de Potifar e novamente nem sabemos o nome dela. Se há embutida uma história de amor e paixão complicada como muitas outras não interessa a ninguém. A vingança da mulher que denuncia José por assédio faz com que se confirme o estereótipo da mulher pecadora. E José passa para a história como o jovem casto e fiel capaz de enfrentar as tentações. Será?

Alguns episódios protagonizados por José são sutis e cruéis, embora aparentemente bem comportados. José joga com os seus irmão o jogo da ameaça e do perdão. Mas mais ainda: José arrecada do povo egípcio mantimento que depois vende ao mesmo povo, prerrogativas do poder. E pior ainda: toma terras e gado de todo o povo e finalmente o escraviza, tirando-lhe autonomia e dignidade pessoal. E o povo ainda agradece.

José parece ser dessas pessoas bondosas e certinhas, muito úteis para os poderosos. Desde pequeno José estava do lado do pai contra os irmãos (e contava ao pai os malfeitos que via). Do lado de Potifar contra a mulher. Do lado do carcereiro, do lado do Faraó. Sempre a serviço do poder. José era o azeite de oliva da carruagem androcêntrica e patriarcal.

Estanho José e mais estranho ainda Javé. Em suas predileções, manobrava sempre para salvar a família de Jacó, mesmo que para isso precisasse escravizar todo o povo do Egito. Sonhos quando realizados trazem a marca da ambivalência. Para que essa família querida de Javé continue sonhando com a liberdade, todo um povo torna-se impedido de sonhar. José, libertador de sua família torna-se o opressor do Egito.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Tamar, a mulher com nome próprio


 
jayadesign
Gn 38.

Essa história poderia ficar entre parênteses, pois interrompe o fluxo de narrativas sobre José. História de mulher que sempre vive nos parênteses e entrelinhas da vida, mas história de como os parênteses e entrelinhas subvertem a escrita oficial.

Podemos comparar aqui duas mulheres. A primeira, a mulher de Judá, filha de Sua e mãe de Er, Onã e Selá. Mulher sem nome próprio cercada de nomes de homens, seguindo ordenadamente na caravana patriarcal. Mulher desnomeada pelos homens.

A segunda, Tamá, a nora que para adquirir nome próprio troca suas vestes de viúva pelo véu de prostituta. A mulher que somente ganha dignidade quando subverte os costumes, quando desorganiza a ordem das caravanas.

Nos complexos códigos sexuais, Tamar deveria ter sido casada sucessivamente com os três filhos de Judá. Mas, como os dois primeiros morreram, castigo de Javé que não gostou de alguma coisa que fizeram, Judá temeu pela sorte do terceiro,    as mulheres são misteriosas e perigosas, e demorou.

A mulher de Judá, mulher sem nome, morreu e Tamar soube que Judá iria passar perto e armou sua estratégia: tirou sua roupa de viúva, escondeu-se sob um véu e ficou à espreita. Como adquirir direito e dignidade nessa sociedade de homens?

Tamar usa o corpo e o sexo como tática, subvertendo costumes e moral. Atrai Judá pelo caminho do desejo e tem relações sexuais pela promessa de um cabrito, adquirindo selo, cordão e cajado como penhor.

Quando Tamar engravida, Judá sem saber que se tratava da mulher que encontrara no caminho, propõe a fogueira para a “adúltera”, mas Tamar vira o jogo, mostrando selo, cordão e cajado, desmascarando Judá e subvertendo todos os códigos patriarcais. Judá pronuncia sentença contra si: “Ela é mais justa do que eu” (Gn 38,26).

Tamar é a mulher que adquire nome próprio porque invade os códigos dos homens com o próprio corpo e sexualidade e descobre o seu poder. Tamar desarruma a caravana dos homens pelo poder do corpo, poder do sexo e poder do útero. Poder de quem carrega dentro de si os caminhos do desejo e o mistério da vida.