Mostrando postagens com marcador Eclesiais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Eclesiais. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

A EXÓTICA E DESCONTROLADA FESTA DO NATAL

 


Marcos Monteiro

 

O Primeiro Natal foi uma exótica e descontrolada festa e tronou-se a autorização para o nascimento de qualquer criança e de se enxergar nos olhos de qualquer pequenina o olhar do Menino-Deus.

Se Jesus, a criança palestina, em situação muito precária, nas migrações forçadas da vida, em meio a animais, cochos e molambos, nasceu, qualquer criança pode nascer como um grito de humanidade e de esperança de que Deus, mais uma vez, nos encare com um olhar infantil.

O olhar do Deus-Menino assusta palácios e templos, mas enternece estrangeiros suspeitos e faz pastores campestres dançar ao som de música cósmica. Anjos, estrelas, pastores, nômades, profetas idosos invisibilizados, animais, e até uma criança ainda não nascida, exultam com a notícia tão comum e tão incomum.

Nascimento é sempre assim, tão simples e tão denso. Nas periferias da história a humanidade alcança brilho maior e desequilibra injustiças e preconceitos. Em um mundo de desigualdades gritantes, o choro de vida de uma criança pobre faz ressoar o grito de alegria da esperança.

O primeiro Natal é festa alucinada de proscritos em que animais podem participar. As prescrições não controlam os corpos amorosos que produzem crianças nem a alegria desautorizada de futuros que se esboçam.

Celebrado em todos os lugares, de diversos modos, por diversas culturas de diversas religiões, o Natal é oportunidade e convite de dançarmos livremente, com os nossos humanos e animais de estimação,  o cântico da esperança de um mundo muito melhor, de paz abundante, de justiça irretocável e de amor sem medidas.

Recife, 25 de dezembro de 2020.

domingo, 12 de abril de 2020

CELEBRANDO A INJUSTIÇA DA RESSURREIÇÃO

pinterest


Marcos Monteiro

A morte de Jesus foi uma grande justiça. Para o poder romano era um sedicioso, e para o poder judaico um herege blasfemador, e a sua cruz não foi a única. Ele a mereceu, como mereceria Barrabás e como mereceu Espártaco e seus seis mil companheiros escravos, crucificados muitos anos antes em Roma, em plena Via Ápia.

Injusta foi a ressurreição. Se era para ressuscitar alguém, Deus desrespeitou critérios políticos, econômicos e religiosos, dando nova vida a um aldeão carpinteiro, subvertendo méritos e garantias de qualquer tipo de legislação. A ressurreição, então, é a injustiça de Deus que subverte toda a justiça humana.

A vida é o maior dos mistérios do universo. Ela simplesmente acontece, de tantas maneiras inesperadas, em exuberância e diversidade, um encantador desperdício que contraria qualquer lógica. A morte não é misteriosa.  Tem a banalidade do previsível e a lógica fria da tragédia, única certeza na incerteza da vida.

No relato do evangelho de Marcos, na cruz, Jesus dá um grande grito no momento de sua morte, último brado de revolta contra todas as justiças humanas (Mc 15,37). A injustiça da ressurreição transforma esse grito em urro de vitória, momento de subversão de todas as lógicas, critérios e legislações humanas, plena vitória da incerta vida contra a tão certa e arrogante morte.

A injustiça da ressurreição cria um desequilíbrio cósmico que afeta as estruturas e relações humanas e as certezas e incertezas, os afetos e desafetos, as expectativas otimistas ou pessimistas, vão timidamente compreendendo o que é fé, amor ou esperança.

O ressuscitado vai marcando encontro com o cotidiano dos amigos, no sepulcro, nos caminhos, à beira mar, trazendo nova vida às suas vidas. E continua marcando encontro, mesmo depois da ascensão, como aquele que transforma a justiça sanguinária de Paulo em arauto da injustiça da ressurreição. Acho bonito o texto em que ele exclama:

Quando, porém, o que é corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal, de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: "A morte foi destruída pela vitória". 1Co 15,54.

Celebramos hoje a injustiça da ressurreição que destruiu a morte. Então, diante das nossas mortes de cada dia, grandes ou pequenas, vamos viver intensamente a incerteza da vida e subverter a lógica das justiças do poder, pelo delírio do amor.

Recife, 12 de abril de 2020. 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

MAIS UM NATAL PARA A VIDA




Marcos Monteiro

Este ano foi de muita luta, muito luto, muita doença e muita dor, de pessoas ao nosso redor.

Mas chega sempre um Natal para chamar a esperança.

Anúncios de tempos em que a cumplicidade de camponeses, pastores proscritos, faz arriscarem o trabalho para ver a nova vida, por acreditarem em anjos.

Peregrinos estrangeiros, caldeus demonizados, vagam em busca de refrigério, por acreditarem nas estrelas.

E animais domésticos, num curral de uma aldeia insignificante, assistem ao parto do futuro.

Natal é o grito do cosmos de que a esperança pode ser resultado da mistura de crianças, molambos, proscritos e insignificantes que acreditam em utopias.

E o cântico de que qualquer mulher pode parir toda a vida do mundo em qualquer lugar.

Por isso, com a força do Natal, posso transformar todo luto em luta, toda dor em dom e o medo da vida em coragem de dávida.

Obrigado por você que nos ajudou, neste ano complicado, a chegar ao sempre Feliz Natal.

Recife, 25 de dezembro de 2019.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

ENTRE AS TERRAS E AS ÁGUAS

Filme Titanic

Marcos Monteiro

O culto da manhã é o programa de auditório dominical que não gosto de perder. Uma mistura de espetáculo e liturgia, de apresentação e interação, de homilia e conversa, em que oração, Bíblia, cânticos evangélicos, ou ecumênicos ou populares, podem se encontrar em uma proposta de evangelho que subverte lógicas e limites.

O local é o templo da Igreja Batista do Pinheiro. Wellington e Odja, pastor e pastora, têm carisma pessoal, conhecimento bíblico-teológico, compromisso pastoral e habilidade comunicativa suficientes para um projeto de enriquecimento familiar, em uma sociedade onde a religião é mercadoria cada vez mais lucrativa.

Mas optaram por um compromisso radical, visão teológica em que as vítimas de um sistema capitalista perverso são as prioridades da ação evangelizadora. Desse modo, o acolhimento a homossexuais, a solidariedade com a população de rua, a aproximação com o movimento dos sem-terra, uma pastoral feminista e uma pastoral da negritude, direcionam sua agenda, presença solicitada nas diversas lutas por direito da cidade de Maceió, Alagoas.

E o direito premente é a sobrevivência, direito elementar a chão, problema que ameaça todo um bairro, fissuras e rachaduras distribuídas por ruas, casas e apartamentos, sinal de fendas geológicas dispostas a abalar solo e subsolo. A extração sistemática de blocos de sal-gema, por cerca de quarenta anos, é apresentada como a possível causa maior dessa ameaça. Os sentimentos vão da insegurança ao pânico, e o êxodo aconselhado dos moradores já começou, até porque a temporada de chuvas já foi iniciada, provocando alagamentos na superfície e danos presumidos na estrutura geológica mais profunda.

Os moradores se sentem sem chão debaixo dos pés e as fissuras geológicas causam abalos psicológicos e rachaduras existenciais severas. Novamente, a força devastadora do Capital transforma em mercadoria de consumo solo, subsolo e vidas, mas os cultos precisam acontecer em meio a todo esse caos.

O de domingo passado evitou a tentação de vender amuletos e bênçãos de proteção e se tornou preparação pessoal e coletiva para a mobilização para uma luta que é de todas. Passeata de fiéis de todas as religiões, conclamação para a presença nas reivindicações junto ao poder constituído, regularização de propriedades visando reparações públicas e privadas, foram anunciadas. E houve as orações, os cânticos, as prédicas, em animada e fortalecedora celebração.

No meio à crise em que todas nos encontramos, demissões, doenças, depressão, causadas pelas fissuras políticas e econômicas provocadas pelo Capital, não mercadejar a fé significa participar solidariamente dos sofrimentos das vítimas e, no caso do pastor e pastora, ter seus salários atrasados. Salário de trabalhador, desses que não conseguem enriquecer ninguém.

Participei do culto com as imagens de solo, subsolo e chuvas na cabeça, terra e água, essa mistura de que é formada a estrutura do nosso planeta.  Estava encantado pela música, conduzida com técnica e sentimento. E lembrei de repente do filme “Titanic”. O templo da Igreja Batista é muito belo e pode afundar com o bairro, como o famoso navio.

O que fazer? No filme, em meio ao pânico provocado pela colisão com o iceberg, a orquestra resolveu continuar tocando, até o fim. Outros lutaram para salvar os mais vulneráveis, alguns abriram as grades que separavam viajantes de terceira classe, dando-lhes oportunidade de resistir e o protagonista do filme, o mocinho, segurou a mão da amada em um bote salva-vidas até morrer congelado. Ela sobreviveu. E muitas e muitos outros.

Então, se a terra ameaça desabar e as águas avançam sobre o nosso barco, cantaremos. E oraremos, e estudaremos os nossos mais preciosos textos bíblicos, e lutaremos de mãos dadas. E amaremos até o fim, e o amor vai sobreviver para que outras embarcações continuem singrando os mares, desmoralizando tempestades e icebergs.

Maceió, 25 de fevereiro de 2019

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

UM FELIZ NATAL PARA UM FELIZ ANO NOVO

La Natividad de noche (1490)
Geerting tot Sint Jans



Marcos Monteiro

Anjos e estrelas divulgaram pelas campinas próximas e pelos desertos distantes a notícia de que Deus nasceu, e desprezados pastores e estrangeiros infiéis foram averiguar.

Encontraram Deus chorando como uma criança, agasalhado com trapos no meio do frio, pobre como um pastor e peregrino como um estrangeiro.

Deram um grande suspiro de alívio, abriram um sorriso do tamanho do céu estrelado, encheram o coração de ternura e de paz, e saíram espalhando a novidade para quem quisesse ouvir.

Mas, os poderosos ficaram agitados e irritados quando descobriram que o calabouço, em que mantinham Deus aprisionado, estava vazio. Deus fugira dos templos e dos palácios para nascer em uma estribaria. Então, seria preciso urgentemente assassinar Deus, perseguição que começa com um extermínio de crianças pobres e termina com uma execução de cruz.

Com a notícia do Deus-criança, ficavam inúteis as procissões e os rituais, quando reis e sacerdotes exibiam o Deus feroz, de fortes mandíbulas e presas afiadas, conduzido por coleira, ameaçando de jogar o mesmo contra a multidão de oprimidos insatisfeitos.

O nome que deram a Deus foi Jesus (libertador) e o sobrenome Emanuel (Deus conosco) e o povo se sentiu livre da culpa dos estigmas e do medo da vida, da morte, do amor e de Deus. Caminhando com a gente, Jesus nos salvou dos medos e salvou Deus das coleiras das instituições.

Cada ano, costuramos novamente a vida, e o arremate vem através de duas festas de aniversário. Celebramos o nascimento de um novo ano e o nascimento de um novo Deus.

Primeiro é o Natal, porque precisamos apressar o ciclo, para que Jesus nasça, cresça, morra e ressuscite, o mais rápido possível. E o anúncio do Natal será sempre o prenúncio do ano novo.

Natal é festa em que anjos, estrelas, pastores e peregrinos, homens, mulheres e animais, se abraçam para celebrar a vida. Festa que precisa acontecer a cada ano, porque é necessário nascer de novo.

Tanto a alegria e a esperança, como também o Deus feroz e perigoso das instituições nascendo novamente criança, convidando-nos à responsabilidade diante da ternura da vida e da fragilidade do amor.

Feliz Natal para um Feliz Ano Novo.


Recife, 24 de dezembro de 2018.


terça-feira, 20 de novembro de 2018

CONTRA TODAS AS IMPOSSIBILIDADES

convençãobatistaalagoana


Marcos Monteiro

O acampamento foi uma impossibilidade.

A vida se aproximou apaixonada e se esparramou escandalosa por cada grão de areia, cada onda do mar e cada pontinho do horizonte, na Praia de Paripueira. O infinito se fez endereço e a eternidade relógio e o Acampamento da Família IBP 2018, de 15 a 18 de novembro, se fez em quatro dias jardim primordial, resumo de uma nova humanidade.

De mãos dadas, todas fomos pastoras e jardineiros e o nosso pastor Wellington e nossa pastora Odja desinventou a hierarquia e inventou a ciranda, para que plantássemos dançando, enquanto o Pr. Henrique Vieira, que trouxe Carol e Maria, e Marcos e Carlos (os quais vimos com os nossos próprios olhos, por fim), orando, palhaçando, magicando, abria sucos profundos em nossas almas para textos da Bíblia e recados da vida.

Sorrimos muito e cantamos muito e dançamos muito e oramos muito e choramos muito, sem soltar as mãos, nunca. Todas viemos de lugares vulneráveis ao ódio e ao medo, periferias geográficas ou existenciais. Havia um esforço de Lau e Sara, especialmente, para que ninguém deixasse de vir por falta de dinheiro, desse papel esquisito que quem não tem não come. E viemos muita gente, com e sem dinheiro, aprendendo a praticar, na história de Jesus sobre o samaritano, a solidariedade universal, radical e arriscada.

Subvertemos o tempo, a lógica, o espaço, profanamos o sagrado e sacralizamos o profano, no meio de uma cosmogênese, no centro de uma eclesiogênese. No novo mundo, Deus era gente, de carne e osso, e trabalhava na carpintaria, meio assim pedreiro de favela. Nem dono, nem patrão, nem rei ou deputado, nem juiz de toga, pegou a prancha e foi surfar nas águas rasas de Paripueira, porque sempre foi assim meio atrevido e surpreendente. E o Espírito era cheio de curvas e tinha cabelos longos e barriga grande e seios túrgidos, porque sempre grávida. Essa misteriosa mulher, Ruah Divina, parindo gente nova e energia nova, o tempo todo.

Na nova igreja, idosos se abraçam apaixonadamente, e dupla de crianças sertanejas canta a toada do boi cigano. E se louva a Deus com todo instrumento musical e com hinos e cânticos derramados e com música popular e com reggae. Sacralizamos o profano e profanamos o sagrado. Agamben acredita na profanação como necessidade do novo mundo. Todo sagrado nasceu profano e profanar é devolver ao povo o que lhe é de direito. O profano, para ele, advém através da juventude, das novas gerações. Mas na nova igreja, crianças e idosas profanam o sacro e sacralizam o profano e reinventam o tempo todo o acolhimento. Ninguém solta as mãos.


Desse modo, nessa impossível Paripueira, nunca percebi quando o culto começou ou quando a vida se interrompeu, tudo se misturou de tal maneira que a palavra acolhimento era o modo como o amor gritava o tempo todo o seu louvor à vida e sua oração a Deus. E veio o encerramento com o batismo e a ceia. Muitos gestos e muitos ditos foram inesquecíveis e a mensagem do pastor Henrique Vieira, no seu jeito e em suas palavras, ficaram gravadas profundamente em nossas vidas. Mas o batismo e a ceia foram celebração final de uma igreja e de um mundo necessitados urgentemente de subversão. E nós, os batistas, temos um amor todo especial pelo batismo e pela ceia.

Qual o significado do batismo, quem batiza e quem deve ser batizado? Há momentos em que esse significado fica mais nítido e talvez esse seja um deles. O batismo lembra que quem segue a Jesus enfrenta todo dia a violência da morte, porque o poder e a hierarquia religiosa ou política é violenta. No batismo, somos crucificadas com ele. E ele foi crucificado porque enfrentou o sistema que excluía os proscritos da sociedade. Quando cantamos que Jesus derramou sua vida por nós, estamos dizendo simplesmente que ele não aceitou fugir da luta contra todo o poder que matava, e todo poder hierárquico mata. Então, qualquer um que segue a Jesus pode batizar e qualquer uma que quer seguí-lo pode ser batizado. Interessante que isso é bem batista. O batismo é uma lembrança sangrenta, e qualquer pessoa disposta a ser sangrada por amor a Jesus e às amadas de Jesus pode ser batizada. Mergulhando nossos corpos sangrados, lavamos as feridas do nosso corpo e da nossa alma, e completamos o milagre da ressurreição, do sangue que se faz água e da água que se faz mar.

Encerramos com a ceia. Ordenança de Jesus, lembrança de pão e vinho repartido entre todas e todos. Solidariedade radical, crianças, idosos, homens, mulheres, homossexuais, negras, pobres, repetiam o milagre da multiplicação do cuidado comunitário e ninguém soltava as mãos. Celebração da vida, celebração da comunhão, mas novamente a vitória da ressurreição sobre a morte violenta. O pão não é mais pão é corpo partido, torturado, sangrado e o vinho é o próprio sangue. Somos o corpo de Cristo, mas corpo vulnerável, ameaçado dia a dia pela violência dos poderosos. Repartir pão e vinho é repartir corpo e sangue, é comprometer-se com a vida dos que sofrem até à morte.

E quem são os que sofrem? Parece a pergunta sobre o próximo, na parábola do samaritano. Entre os novos batizados, havia pessoas que sofriam de depressão crônica e bipolaridade. Batizou-se uma budista. Sabem o que ela disse? Não entendia muito bem o que estava acontecendo, mas tinha certeza de querer seguir a Jesus. Sabem a orientação da pastora Odja? Que ela seguisse a Jesus intensamente, mas não abandonasse a sua herança budista. Nesses tempos de intolerância em que o diálogo inter-religioso é uma necessidade mundial, ela tinha a oportunidade única de experimentar esse diálogo em sua interioridade profunda e nos ajudar a compreender.

Bem, esse texto grande demais é pequeno demais para descrever a intensidade de sentimentos e o universo de compreensão que nos atingiu. Mas o batismo de uma jovem negra, homossexual, formada em psicologia, e o seu testemunho, nos comoveu a todos. Enfrentando na pele e na vida racismo e homofobia, nos descreve o seu crescimento em uma igreja pentecostal e a rejeição dos próprios pais, a impossibilidade de viver integralmente a sua fé cristã, proibida pela família e pela igreja. Sua namorada estava presente para a alegria de todos nós. A sua família não, por solicitação da própria. Decisão muito difícil, mas muito corajosa. Hoje, dia 20 é o dia da consciência negra e estaremos juntos e juntas lutando contra todo tipo de preconceito. Ela chorou muito, mas lágrimas foi o que não faltaram para regar o chão de nosso jardim do amanhã.

O acampamento da Família da Igreja Batista do Pinheiro, na Praia de Paripueira, litoral alagoano foi uma impossibilidade. Mas desvelou a possibilidade de uma nova igreja e de um novo mundo.

Maceió, 20 de novembro de 2018


domingo, 24 de dezembro de 2017

Ave Maria! Feliz Natal!

veronicabenesi

Ave Maria e Feliz Natal

Marcos Monteiro

O Natal é o ponto nodal de variadas significações, o lugar de encontro de tradições antigas e novas, a encruzilhada de transeuntes celestes e terrestres e o albergue de pastores e magos peregrinos.

Celebração que surge como festa de proscritos, daqueles que aprendem nos becos da história a inventar o máximo de alegria do mínimo de condições, mas que vai se tornando com o desenrolar da história em festa de opressores, bacanal de esbanjamento que disfarça violência.

Numa pequena vila, um casal pobre de viajantes tem uma pequena criança, tendo como visitantes pastores, trabalhadores desclassificados, e magos, religiosos estrangeiros suspeitos. Jesus nasce em um estábulo e tem como berço um cocho de animais. No encontro entre insignificância e insignificantes, o nascimento da criança torna-se mensagem de nova vida. Os anjos compõem a nova canção para que os pequeninos inventem a nova dança, da paz e da boa vontade entre os homens.

O acontecimento aparentemente banal abala o equilíbrio dos céus e da terra. Os astros e os magos se tornam errantes e o medo chega ao palácio que transforma a alegria do nascimento em lágrimas por crianças assassinadas pelo poder covarde. O crime planejado contra o menino será consumado contra o homem Jesus, mais tarde.

Mas faz bem lembrar que o Natal é a comemoração de um parto. O corpo da jovem camponesa Maria, da desprezada cidade de Nazaré, tornou-se útero de Deus, lugar de gestação da nova humanidade.

No Natal somos convidados e convidadas a participar dessa re-creação. Convidados a sermos úteros em festa de gestação continuada, na alegria e paciência de um parto que mesmo doloroso é esperança e antecipação de um mundo em que a paz e a boa vontade entre as pessoas estão sempre à espreita. Portanto, ave Maria e Feliz Natal.

Recife, 24 de dezembro de 2017



sexta-feira, 16 de setembro de 2016

RELEMBRAR E REIMAGINAR


Marcos Monteiro

Amanda distribuía o pão e o vinho e banhava o sorriso em lágrimas, muitas lágrimas. Havíamos acabado de dançar a ciranda da inclusão no circo da vida e o pastor Wellington transformou Amanda na síntese do nosso encontro “Reimaginar”. Era a celebração de encerramento, uma Ceia do Senhor, e a torrente de lágrimas de Amanda umedecia os nossos olhos e as nossa almas. Na nossa sociedade rotuladora, Amanda carrega uma etiqueta, e toda etiqueta tem marca e preço. A sua marca é “lésbica” e o preço que paga é toda a sua corporeidade dolorida, deformada por olhares enviesados e marcada a ferro e fogo por estigmas. O encontro era a oportunidade de nos livrarmos de todos os rótulos e de assumirmos a beleza da nossa humanidade plural e diversa. A Ceia era lembrança e partilha do corpo de Jesus, também alvo de olhares oblíquos e também lugar de estigmas, por ter partilhado sua vida com pecadores, publicanos e prostitutas, proscritas de seu tempo.

Quando conheci Amanda não sabia dos seus rótulos, somente percebia que ela não parava de andar, não parava de trabalhar e não parava de sorrir. Amanda nunca dessorria, nem mesmo para resolver problemas, e problema é o que mais tem na vida e na realização de encontros. Amanda é gerúndio do verbo amar, no feminino, e amada é o particípio passado. Amanda está sempre transbordante de amor e, por isso, recebe de volta muito amor também. Sente-se muito amada inclusive por sua igreja que a excluiu. Mas, por causa de sua marca não pode participar da Ceia. Mas no “Reimaginar” pode, com seu sorriso cheio de lágrimas, relembrando o movimento de Jesus e reimaginando a sua igreja.

Fomos chegando todas e todos pequenininhos, naquela fazenda perto de Brasília, no coração do Brasil, pisando o chão devagarinho, como Ronilso Pacheco avisou e como ele está acostumado a fazer. Carrega na pele o último tom do preto e denuncia, com o pé nas ruas e a Bíblia na mão, racismos epistemológicos, culturais e ambientais. A juventude negra está sendo exterminada, pretos, pretas e pobres são empurrados para as periferias do saber e para territórios cada vez mais precarizados. São os últimos a entrarem na universidade e os primeiros na cadeia, nesse disangelho racial perverso que as igrejas não percebem e não querem perceber.

O Deus da igreja não parece mesmo ser o Deus da cidade. As práticas das igrejas não são proféticas e as igrejas confundem a sua mobilidade com a mobilidade de Deus, além de criarem um Deus à sua própria imagem, masculino, branco, colonizador, todo poderoso. Joerg Rieger nos desafia a enxergar na cidade o Deus do outro lado, do lado dos marginalizados e proscritas, em sua diversidade e fraqueza. Um Deus negro, segundo Ronilso Pacheco e Sarah Thompson, torna-se símbolo sagrado acima de qualquer preconceito, e o feminino em Deus desautoriza a desigualdade ontológica entre o homem e a mulher que é o balizamento sagrado do machismo e da violência. As mulheres desorganizadas, um recorte feito por Ivone Gebara, carregam um Deus que não é nem o Deus da Igreja nem o Deus da teologia. Presente nos eco-sistemas que constituem a cultura ocidental, Deus é sempre lugar de embate teológico e político. Uma teologia feminista ou negra ou queer, recuperam o caráter libertador de um Deus cuja misericórdia o faz incluir sempre aquele e aquela que são alvos de discriminação, exploração e opressão. Para Joerg Rieger precisamos discernir o inimigo, esse capitalismo sistêmico, a quem todos esses procedimentos danosos interessam.

Naquele ambiente de exuberância de estrelas, nuvens, árvores, pássaros, águas e insetos, vislumbramos possibilidades de novos mundos com novas igrejas. A nossa própria diversidade era janela para lembranças e esperanças. Devagarinho fomos conversando, cantando, comendo, bebendo, dançando, participando de palestras, oficinas, noites culturais, e a palestina de Jesus de Nazaré lá no passado parecia uma recordação capaz de mudar, quem sabe, o destino dos palestinos de hoje. As antigas escrituras sagradas foram pretexto para se ocupar terras sem escrituras, e Nancy e Odja nos desafiavam o tempo todo a ler a Bíblia pelo olhar feminista. Se Jesus de Nazaré, a sofia de Deus, foi o corpo que enfrentou o império romano até à morte, todos os corpos oprimidos passam a ser lugar de enfrentamento, capaz de derrubar a lógica dos novos impérios, a lógica do Capital. As igrejas, infelizmente, transformaram-se em lugar de opressão do corpo, proibindo o prazer e deserotizando a vida, legando à juventude uma sexualidade miserável, caminho de culpa e de dor. As pessoas são excluídas das igrejas, nunca por exploração ou por opressão, ou qualquer outro tipo de injustiça ou violência, mas por quebrarem normas sexuais restritivas.

Entre conversação, oficinas e festivais, de 7 a 11 de setembro de 2016, foram cinco dias impactantes. O Reimaginar, de tantas protagonistas, foi resultado da imaginação, articulação e mobilização de Flávio Conrado, aquele que costumo dizer que caminha com uma ideia na cabeça e um laptop na mão. Na última mesa, Odja, pastora da Igreja Batista do Pinheiro, igreja que foi excluída da Convenção Batista Brasileira por decidir em assembleia aceitar pessoas homossexuais, LGBTTI, no seu rol de membros (excluída pela ousadia de incluir), nos trouxe em reflexão bíblica a lembrança do direito que temos de ler a Bíblia na liberdade da nossa compreensão. Estava ao lado de André Musskopf, teólogo luterano, homossexual, que nos desafiava com o seu humor inigualável a compreender da mesma maneira que a Bíblia pertence a todas e todos, e deve ser interpretada em comunidade. E então veio o momento de encerramento, dirigido por Wellington, marido de Odja, também pastor da mesma igreja batista.

A sua palavra desafiadora colocou Amanda e a Bíblia como principais referências para que nos colocássemos no mesmo círculo, de mãos dadas, enquanto nos preparávamos para a ceia. Ciranda da solidariedade profunda, em que cabíamos todas e todos, quaisquer que fossem as etiquetas que carregássemos em nossos corpos. E Amanda foi chamada para começar a distribuir o pão e o vinho. Transferida do espaço de exclusão não para o discurso triunfalista, mas para a tarefa humana e humanizadora do serviço e do cuidado, Amanda banhava o seu sorriso e a todas e todos nós com suas lágrimas. Coloquei Dom nos braços e fui buscar o meu pão e o meu vinho. Dom é um menino de três anos, filho de um amigo, Messias, e uma amiga, Elba. Dom não podia tomar vinho, por ser criança, mas tomou das mãos de Amanda um grande naco de pão, criança tem o direito de não medir, e saiu comendo e repartindo o pão da lembrança e da esperança, comigo e com muita gente, como sempre fazia Jesus de Nazaré.


quarta-feira, 20 de julho de 2016

CARTA A WELINGTON SANTOS

Estou tentando escrever essa carta há quanto tempo? Nesses momentos de plenitude e ambiguidade queria lhe prestar uma homenagem de amigo, coisa assim meio particular, mas que gostaria de publicar.  Imagine, então, a complicação.

Nessas coincidências extraordinárias, estou tendo o privilégio de estar por perto exatamente na densidade desses tempos e isso me faz muito bem. Poderia estender essa homenagem a Odja, Andréia e Alana, e a toda a Igreja Batista do Pinheiro, claro. Mas quero me concentrar em você por diversos motivos e por uma razão admitida por todas e todos nós: a carga recai especialmente sobre você, talvez manias de estruturas inevitavelmente hierárquicas misturadas com o seu próprio temperamento e jeito de ser.

Engraçado, você tem um temperamento muito forte e tem colocado toda essa força a serviço das pessoas, diante até das estruturas. Mas você transita muito bem nas estruturas, com habilidade, coragem e desenvoltura; sempre transitou. Nesses espaços você se movimenta como quem é da casa, talvez uma criança meio traquina, talvez um adolescente rebelde.

Desse jeito, recolhe reações diversas, todas apaixonadas, e todas dentro do amplo espectro do ódio e do amor. Às vezes até misturados, mas sempre muito mais amor do que ódio. Fico me divertindo, lembrando de ódios de pais que não conseguem evitar amor e admiração de filhos. Crianças e avós, os dois extremos da vida, têm um profundo encantamento por você. Podem perguntar a Dona Jete e a Seu Jorge, ou a Valtinho e Jamile. No São João da Igreja do Pinheiro, ver você dançando forró com as avós e coco com as crianças, foi inesquecível.

Bem, estava pensando umas coisas. No domingo, 10 de julho, você chorou ao comentar a expulsão da Igreja Batista do Pinheiro do rol da Convenção Batista Brasileira. Eu estava viajando e não vi, somente ouvi os comentários. Lembrei quanto já esperávamos por esse lamentável acontecimento, e quando ouvi pessoas dizerem que não entendiam o nosso constrangimento, porque desde que nos decidimos a afrontar princípios e regras estruturadas, já sabíamos que isso aconteceria. É como se nós mesmos estivéssemos provocando tudo isso.

Mas, uma coisa é a dor de saber que a flecha está apontada, outra é receber o tiro. A dor pressentida se concretiza e a violência ganha a intensidade do corpo atingido e do sangue derramado. Jesus já pressentia a crucificação e sofreu todas as dores futuras no Getsêmani; mas na cruz as dores simbólicas e as dores físicas se encontram na fragilidade de um corpo que sangra como qualquer outro.

Epa! Parece que estou indo longe demais nas comparações. Você não é Jesus. Aliás, você se chama Wellington Santos, mas não é nenhum santo. Pelo contrário, todos e todas conhecemos os seus defeitos e ambivalências. Mas, que coisa surpreendente, poucos e poucas nos incomodamos com isso. Amamos você do jeito que é. E a impressão que temos é de que Deus lhe ama do jeito que você é, sem nenhuma intenção de que mude.

Pois é, somos diferentes e bem diferentes, mas somos amigos.

Então, chega a questão de porque você foi expulso da Convenção. Foi por acolher os diferentes do jeito que são. Foi por respeitar, admitir e até celebrar a alteridade. Alteridade é simplesmente a humanidade em sua diversidade exuberante, mas parece que algumas alteridades incomodam mais. E a alteridade aqui não era questão de desonestidade, ou de violência, ou de autoritarismo, mas apenas a alteridade do amor, ou dizendo de outro modo, o jeito diferente do outro ou da outra amar.

Apareceu na minha cabeça uma questão bem complicada. Por ter uma personalidade bastante forte, você personifica as instituições. Deixe eu ver se explico melhor. A Igreja Batista do Pinheiro é, de certo modo, a Igreja do Pastor Wellington, ou o próprio Wellington. Você viveu tanto essa igreja que a incorporou e não conseguimos imaginar Pinheiro sem você.

Mas você viveu muito também a Convenção Batista Brasileira e também a personificou. A Convenção de Wellington expulsou a Igreja de Wellington, ou Wellington expulsou Wellington. Percebe a minha confusão? Algum tipo de esquizofrenia institucional?

Mas posso afirmar com toda certeza: A Convenção perde mais do que você quando lhe expulsa. Ela se descaracteriza enquanto lugar de diversidade. E, partindo do conhecimento de que você não foi expulso nem por corrupção nem por desmando nem por mentira ou devassidão, todo mundo que não foi expulso deveria se sentir um pouco desconfortável.

Achei esse coração e os dizeres fantásticos, e uma representação do que acontece agora de fato. Expulso de uma Convenção, você continua acolhido em espaços bem maiores. O povo lhe acolhe totalmente, inclusive através dos seus movimentos organizados. Os depoimentos ao seu favor se multiplicam. Os sem-terra, sem-teto, Aliança de Batistas, Aliance, CEPESC, CEBI, grupos LGBTI, e pessoas, e igrejas, e gente, e cidadãos, e cidadãs, e pais, e mães, e filhas, e jovens, e adultos, e idosos, e crianças.

Siga em paz, meu amigo, em sua imensa liberdade e coragem de acolher,  nem o povo nem Deus nunca lhe excluirá.

Maceió, 20 de julho de 2016, por pura coincidência, dia do amigo.

domingo, 13 de março de 2016

A IGREJA, A BÍBLIA E A ÉTICA: HOMOSSEXUALIDADE NA IGREJA BATISTA DO PINHEIRO


Quando terminou a votação, a Igreja encerrou um longo processo deliberativo e abriu um longo caminho de reflexão. Participamos exultantes da alegria dos irmãos e irmãs homossexuais da Igreja Batista do Pinheiro, que finalmente poderão ser batizados, e sabemos o que isso significa para milhares de cristãos, dentro das igrejas ou fora delas, formalmente libertados de um estigma. Porque a questão era nimiamente formal e institucional: a assembleia tinha o poder de proibir os irmãos ou irmãs de serem batizadas, mas não poderia proibi-los de crer em Jesus Cristo e de amar a Deus. Em outras palavras, por mais forte que seja, a instituição não tem controle sobre a subjetividade, e a liberdade de crer só pode ser cerceada formalmente.

A história é um livro de diversos gêneros literários e a assembleia extraordinária de 28 de fevereiro de 2016 tem um quê de lirismo, típico final feliz de uma trama novelesca que se desenvolveu por dez anos. Tantas lutas de tantos nomes, incluindo o do pastor Wellington e da pastora Odja, sempre intensamente envolvidos em pautas de busca por um mundo menos injusto e mais igualitário. As canções que cabem nesse momento são hinos de celebração com refrões que convidam a uma ação responsável e consistente.

Todo final feliz encerra períodos de dores e de alegrias, de avanços e recuos, de sentimentos de desânimo e de esperança. Na densidade dos acontecimentos, pessoas vão mostrando faces desconhecidas, súbitas irrupções de atitudes nunca esperadas, causando conflitos talvez desnecessários. Do mesmo modo, outras vão crescendo e se descobrindo como capazes de inesperada generosidade e da capacidade de repensar valores calcificados, pedras duras usadas como armas de agressão sobre vítimas diversas, abrindo-se pouco a pouco para a ternura do abraço acolhedor.

Mas todo final feliz é um novo começo de lutas e todo encerramento de pauta é um convite para outras mais. A história da Igreja Batista do Pinheiro torna-se lugar de pelo menos três questões históricas que precisam ser encaradas com determinação. A questão ética, em que a sexualidade ocupa lugar proeminente, a questão teológica, com a Bíblia precisando de acesso hermenêutico menos danoso, e a questão eclesiológica, tendo em vista os processos administrativos de inclusão ou exclusão.

No âmbito eclesiológico, a Igreja do Pinheiro agiu como igreja local, na tradição batista, em um processo lento mas eficaz, com todas as prerrogativas democráticas respeitadas. Uma decisão de tal teor, tomada por uma comunidade consciente e comprometida, desautoriza autoritarismos manipuladores, como também desmascara desculpas acomodadas de líderes que não se dispõem a gastar energia e tempo necessários na direção de mudanças importantes.

Investir em teologia é investir com todo o vigor em estudo bíblico. Isso significa também esforço intelectual e coragem moral para dentro de uma espiritualidade séria admitir e enfrentar os problemas advindos da leitura dos textos. Todo fundamentalismo é demoníaco por não ter compromisso nenhum com a verdade que defende. Não querer encarar as questões teológicas não é sinônimo de piedade, quase sempre interesses outros, alguns muito escusos, regem a forma como se interpreta a Bíblia. Raramente a seleção de textos segue os mesmos critérios diante de diversas circunstâncias.

Finalmente, a questão ética, de uma complexidade inesgotável, parece sempre desembocar na questão da sexualidade. Teoricamente consideramos outros valores como maiores, mas na prática cotidiana e especialmente na prática religiosa, a sexualidade tem um poder de atração irresistível. A decisão da Igreja Batista propõe implicitamente a sexualidade como um direito humano e admite a diversidade com que o amor se apresenta na experiência humana. Batizar um homossexual, assumido como tal, é reconhecer-lhe todos os direitos eclesiásticos e administrativos, como votar e ser votado.

Na tradição batista isso significa muito mais do que podemos imaginar. Com o batismo, ele deixa de ser um cristão de segunda categoria, podendo agora ser visto apenas a partir de sua contribuição pessoal para os destinos e propósitos da comunidade à qual pertence. Pode ocupar qualquer cargo eletivo, para exercer funções que a igreja requeira. Na tradição batista, isso significa o direito de ser zelador, ministro de música, ou pastor, se a igreja assim o quiser. Cumpridos os requisitos, ninguém poderá questionar a sua vida amorosa ou sexual, será eleito por motivos maiores, habilidade funcional, afetividade nos relacionamentos com os irmãos e irmãs, compromissos com o Reino de Deus, com a oração e com o estudo da Bíblia. Esses são os grandes valores para uma igreja; todo mundo sabe, mas age como se não soubesse.



quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

FELIZ NATAL NOVO



Marcos Monteiro*

Estamos às vésperas da festa de Ano Novo, mas cada ano recomeça de verdade no Carnaval, faz sua travessia pela Páscoa e termina no Natal. Peregrinação simbólica que se inaugura como euforia nacional, caminha para uma interioridade mística, espécie de Via Crucis, e se encerra como oportunidade de reflexão, na ambiguidade do chamado espírito natalino, entre o consumismo e a solidariedade.

Festa tem sempre jeito de suspensão do tempo, intervalo para mergulho em diversas profundidades, possibilidade de reconstrução de mundos na reconstrução das relações e da nossa humanidade. Como seres históricos e construtos de relações, estamos sempre caminhando para o futuro em contato com pessoas, com a sociedade, com o planeta e com o mistério de uma transcendência que aponta sempre para uma superação. No intervalo da vida que chamamos de festa, brota dentro de nós um apelo difícil de definir que pode até redefinir rumos. Por outro lado, a festa nunca é um lugar totalmente neutro, as representações sociais e as contradições humanas também cantam e dançam. Festa, portanto, pode ser anúncio de possibilidades e denúncia de contradições.

Nessa direção a festa do Natal, sempre festa de encerramento de cada ano, se fragmenta em um sem-número de festas, comemorações em que quase sempre comida, bebida, conversa e alegria comparecem. Famílias que se reúnem e escondem atritos e diferenças dentro do fogão, enquanto assam o peru. Empresas que reúnem gerentes e funcionários para vestirem a mesma camisa, a camisa da empresa, e guardam a roupa suja para lavar depois. Igrejas que celebram um Natal tão bonito, com sermões tão edificantes e cânticos de tanta fraternidade que as diferenças e os preconceitos desaparecem como um milagre.

Das muitas festas de Natal de que participei neste ano, duas foram bem marcantes. Dia vinte e cinco de dezembro na Primeira Igreja Batista em Bultrins, Olinda, e dia dezenove, um Natal antecipado, na Praça Deodoro em Maceió, com a população de rua, promovido pela “Cristolândia”.

Em Bultrins, a festa foi culto, celebração sagrada de trabalhadores e de pessoas que moram em favelas dos arredores. Não são muitos os de classe média que frequentam aquela igreja, mas se alguém quiser aprender mais sobre solidariedade precisa passar por ali. De alguma forma, Natal ali é mais Natal e o encerramento por aquela orquestra de crianças trouxe canções de esperança para quem quisesse ouvir. A orquestra do Alto da Mina reúne mais de trinta crianças aprendendo a tocar violino. O maestro, Israel de França, está em Recife, licenciado de sua orquestra na Espanha, e se encanta e se emociona ensinando às crianças os primeiros passos da técnica musical. Alto da Mina é uma das favelas próximas. Ali um grupo de pessoas da Igreja, lideradas pela pastora Vana e pelo pastor Paulo César, realizam uma série de atividades que ajudam a transformar o lugar em um espaço melhor.

Mas foi a festa da Praça Deodoro, no dia dezenove de dezembro, Natal com a população de rua, que me trouxe mais emoções e provocou imagens de mundos possíveis e impossíveis. Também festa em forma de culto. A praça estava iluminada e a população de rua se sentava às mesas ou circulava à vontade. Fomos convidados por Alain e Wanessa que lideram o projeto Cristolândia na cidade de Maceió. Depois de muitos cânticos evangélicos e de uma rápida palavra, o jantar foi servido e o povo de rua era quem recebia nas suas mesas o alimento farto e bem feito.

De algum modo misterioso, a festa era o encontro de grupos que se encontram em relação complexa na sociedade: o povo da igreja, o povo da sociedade e o povo da rua. Esse último é o grupo de excluídos que não transitam facilmente nem pela igreja nem pela sociedade. Na festa que era culto, eles eram três imagens diferentes do mesmo Deus. Quem convive há tempo com a população de rua sabe que muitos já passaram por igrejas e centros de recuperação religiosos e que carregam de algum modo uma relação diferente com Deus, mas nunca conseguem se enquadrar. Alain me apresentou um jovem simpático que recebeu nome de homem, mas que inventou para si um nome de mulher, um travesti. Na rua e naquela festa ele/ela podia ser do jeito que gosta.

Entre o consumismo, representado por Papai Noel, e a solidariedade, lembrada pelo nascimento de Jesus, os natais nos convidam a avaliar o ano que passou e que todos sabemos que foi um ano complicado. Mas um novo ano começa agora e caminhará pelas suas festas, Carnaval, Páscoa e Natal. Que no próximo Natal possamos ter a multiplicação de festas que celebrem e potencializem mais cidadania, mais inclusão social e mais fraternidade. Que o espírito natalino do próximo ano desperte um sorriso maior no rosto do menino Jesus.


Para todas e para todos, um Mais Feliz Natal Para o Próximo Ano Novo!