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terça-feira, 15 de julho de 2014

UMA COPA COM UMA PRIVADA

Marcos Monteiro

A semana na Vila não foi lá das melhores. Teve a discussão pública entre Valdelice e Paranísio, com barraco garantido e indexação de palavras de baixo calão. E outras discussões com barracos menores porque de casais não tão referendados. Teve a notícia da morte de Plínio Arruda Sampaio, unanimidade local depois de Paranísio apoiar. E teve a gripe com tosse braba de Mãe Silícia que deixa toda a Vila assim com a preocupação meio gripada também. Teve o encerramento da Copa do Mundo com a premiação merecida da Alemanha. Mas, antes de tudo teve a goleada também merecida de sete a um sobre a seleção brasileira dessa mesma Alemanha. E aí foi demais.

Não adiantava Paranísio explicar mais uma vez que Copa do Mundo era somente um torneio entre milionários assistido por milionários porque isso todo mundo entendia sem querer entender. Quando o milionário Neymar quebrou uma vértebra, o pessoal ficou meio quebrado, porque entendia que Neymar era tão bom jogador que talvez até tivesse lugar no banco do atual Maravila F. C, em que o centroavante Cocada ainda reina absoluto, como melhor jogador do mundo, apesar de seus trinta e nove anos.

Sem Neymar, o Brasil ficou dependendo dos milionários Hulk e Oscar que se esforçaram, mas não conseguiram enfrentar os milionários da Alemanha, ainda mais com a defesa sem o milionário Tiago Silva, cumprindo suspensão. Aliás, futebol talvez seja o único lugar onde milionário é suspenso ou expulso. Pena que o milionário Felipe Scolari e os milionários Parreira e Murtori não foram expulsos antes da Copa por algum juiz também milionário, mas sensato, que aproveitasse o ensejo e também expulsasse mais milionários, como os comentaristas tipo Galvão Bueno e outros.

Passar de futebol para a política era passar de Felipão para Dilma, mas novamente para a explicação de Paranísio que nesse sistema capitalista também a política era coisa de milionário. Portanto, a candidatura da milionária Dilma tinha a oposição do milionário Aécio e do outro milionário Eduardo Campos ou de outros milionários ou candidatos a milionários.

Então teve aquele comentário sobre essa estranha Copa em que os pequenos enfrentaram os grandes com muita força e que nem um papa argentino nem um Deus brasileiro conseguiram garantir a taça aqui nesse Brasil que nem sempre lembra que é sul-americano. O comentário somente serviu para Paranísio dar continuidade à sua doutrinação socialista e explicar mais uma vez que também a religião é coisa de milionário nesse mundo em que o único Deus que manda é o Capital.

Então, religião, política e futebol, esse reduto do sistema capitalista, no cotidiano da Vila Maravila, tornou-se espaço de resistência de outra possibilidade de vida, em que a existência não venha com etiquetas com preços afixados. Nesse campinho em que se joga com gosto e por diversão, onde as pessoas convivem apesar de suas diferenças, nessas rodas em que os assuntos se apresentam sem censura e o assunto da religião é benvindo entre outros e nessas reuniões em que as decisões mais importantes são tomadas a partir de longas discussões, futebol, política e religião passam a ser componentes existenciais de vida que não pode ser vendida.

Em uma roda dessas se lembrou dos estádios construídos e dos postos de saúde não construídos, mas entre uma coisa e outra se lembrou da insegurança do torcedor que pode morrer porque um louco qualquer pode lançar uma privada sobre a torcida sem pensar em consequências.

E então, Paranísio, aproveitando a deixa sem dó nem piedade, assegurou que as privadas têm sido jogadas sobre nossas cabeças há muito tempo. A copa do mundo mesmo era uma grande privada arremessada sobre uma grande torcida que paga sem saber o preço das manobras do capital no mundo todo. A FIFA é essa grande empresa privada multinacional que conseguiu fazer do futebol uma imensa fonte de lucro, produzindo, implementando e comercializando essa estranha mercadoria chamada paixão. Estranha essa construção com privada na copa.

Mas também as multinacionais privadas vêm dominando o nosso alimento, o nosso lazer, a nossa arte, a nossa educação, o nosso tempo, o nosso espaço, a nossa vida. As privadas vêm sendo arremessadas sobre as nossas cabeças há tanto tempo e com tanta força que nem podemos entender como sobrevivemos até agora. Somos cidadãos que resistem em um mundo que não compreendemos, precisados de reaprender o significado da palavra violência.

Resta-nos, talvez, a dignidade do pequenino gaulês Asterix que, sob a ameaça do grande império romano, tinha somente o medo que o céu caísse algum dia sobre a sua cabeça. E nesses dias em que a poderosa Alemanha derramou um sete a um sobre as nossas esperanças, podemos continuar enfrentando todo tipo de adversidade e ameaça de fronte erguida, torcedores corajosos e apaixonados pelo jogo da vida, somente com esse medo não mais surrealista de que uma privada caia em algum momento sobre nós.


Feira de Santana, 14 de julho de 2014.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Um lateral chamado Biuzão

gartic

Segundo seu Madeira, o melhor time de futebol de todos os tempos foi a seguinte formação do Maravila F. C. que todos os moradores sabem de cor e salteado de tanto ouvir seu Madeira recitar, naquele honroso e consagrado quatro dois quatro que ninguém quer mais usar.

Terêncio, Biuzão e Magela. Loureiro e Genival. Rubenírio e Aratunga. Roído, Rapaz, Biu do Efeito e Caçula. O técnico era Aroeira.

Biuzão tinha fama de grosso, mas não era grosso. Era que com a lapa de perna que tinha e com o tamanho e musculatura do tórax, era um milagre que conseguisse dominar a bola e matar a faceira no peito. Mesmo assim ele a dominava. É verdade que quando  resolvia partir, esquipando, resfolegando e relinchando para cima dos adversários, o outro time tremia e até a redondinha desejava sair de perto. Ninguém segurava. Milicunha do Ipiranga, sempre o Ipiranga, armou um toco na maldade e Biuzão sentiu, mas Milicunha foi direto pro hospital com fratura na tíbia e torcicolo no pescoço, tamanho foi o choque. Um tiro de Biuzão, goleiro tinha de ter técnica para desviar, senão quebrava a mão. Se tentasse segurar, entrava com bola e tudo, o juiz marcava o gol e expulsava o besta pela loucura.

Biuzão só não fazia mais gol, porque delicado e educado como ninguém, evitava o máximo as arrancadas ou os tiros certeiros em direção ao gol, como se pedisse desculpa pela força descomunal de que dispunha. O técnico Aroeira, desesperado por dispor e não dispor desse recurso colossal, vivia tentando descobrir meios de fazer o Biuzão perder a enorme paciência (bem maior ainda do que os seus bíceps, tríceps ou quadríceps -  sei lá),  único caminho de levar Biuzão a fazer irresistíveis gols. Roído, a mando do técnico, só conseguira uma vez.  Nas outras vezes, só conseguira mesmo fora dobrar o Biuzão (maior aficcionado de suas brincadeiras) de tanto rir, pondo inclusive partidas em situação de risco. 

Um dia, Roído tirara uma brincadeira com Maria Odete e finalmente despertara o ódio alucinado de Biuzão. Mas a reação não fora a esperada arrancada em direção ao gol adversário. Biuzão partiu mesmo foi para cima de Roído, levantou-o pelo pescoço e o Maravila F. C. somente não ficou sem o seu luminar ponta direita porque a ira de Biuzão do mesmo modo como viera passou subitamente. A partir daí, nem Roído nem ninguém tirou mais qualquer tipo de brincadeira com Maria Odete.

Biuzão era um entroncado e atarracado mulato de olhos verdes. Mas, se era musculoso,  era muito mais delicado e gentil. Pelo tamanho do bíceps (tríceps?), porém,  ninguém se atrevia a pensar, quanto mais a insinuar que era homossexual, mesmo quando ninguém o via com mulher. Naquela época (seu Madeira teve o cuidado de contar) dezessete mocinhas de boa família viviam suspirando pelo Biuzão que só suspirava por Maria Odete (segredo descoberto muito depois) que não suspirava por ele nem por ninguém.

Foi nesse período que Biuzão começara as suas famosas e irresistíveis arrancadas que quase o tornaram no grande artilheiro do time, desbancando mesmo o consagradíssimo Biu do Efeito. Na decisão do campeonato, contra o famoso Ipiranga, Biuzão fez quatro gols em uma partida só. Dois de irresistíveis arrancadas, um de falta e outro de um tiro de longa distância, cuja violência furou a rede e derrubou uma jaca de uma frutífera jaqueira a cerca de vinte metros do campo de futebol suburbano. O resultado final sete a cinco completa a inesquecível história do primeiro tricampeonato do Maravila F. C. Carregado em triunfo, a alegria de Biuzão exibia lampejos de melancolia.

Um dia, entretanto, Maria Odete tropeçou e foi imediata e instintivamente amparada pelo tímido e musculoso abraço de Biuzão. Ali cruzaram os olhos, as almas e as vidas tão plenamente, a ponto de Biuzão abrir imenso sorriso que só conseguiria fechar oito meses depois, passado o efeito da surpresa, permanecendo entretanto a face de beatífica felicidade infinita. Maria Odete, naquele mágico instante, tornou-se para Biuzão o que Biuzão já havia se tornado para Maria Odete, fechada assim essa equação de primeiro, segundo, vigésimo e milionésimo grau, extinguindo-se, para desespero do técnico Aroeira, o motivo para as frutíferas arrancadas e tiros de longa distância de Biuzão.

Foi quando Aroeira, que técnico excepcional era Aroeira, descobriu uma nova maneira de Biuzão fazer gol: comemoração e homenagem.

Em sua perspicácia, Aroeira sabia que não podia abusar e que era preciso convencer Biuzão da validade tanto da homenagem quanto da comemoração e tudo tinha de estar relacionado com Maria Odete.

Seis meses de namoro e olhe o motivo para um gol de comemoração; a beleza e a simplicidade de Maria Odete e eis um motivo para outro gol. Nunca na mesma partida, mas Aroeira tornou Biuzão o artilheiro mais regular do time. Um gol por jogo, religiosamente, para a mãe, o pai e as três irmãs de Maria Odete ou pelo aniversário de Maria Odete, a aprovação de Maria Odete em determinada matéria, como aplicada estudante que era, a cura de Maria Odete de um resfriado, e haja descobrir e reinventar a cada jogo, além do esquema tático do time, o motivo para o garantido gol de Biuzão.

A fórmula só terminou quando Biuzão resolveu abandonar o futebol. E foi assim, sem mais nem menos, no meio de uma partida importantíssima, depois de fazer o gol que homenageava o aniversário de um ano do primeiro filho de Maria Odete, Biuzão saiu tranqüilamente do gramado, sem pedir licença para ninguém, e, tomando a criança no colo e dando o braço para Maria Odete, foram caminhar, passear, sorrir e viver a vida sem mais jogar futebol por obrigação. Assim, do campo para a história, de noventa minutos estruturados e concretos para o jogo mitológico da fama. Desespero de Aroeira, saudade dos torcedores e prestígio eternizado de Biuzão que, de vez em quando, para matar a saudade, participava de um ou outro racha.

(Esse texto se encontra no livro “Vila Maravila: um lugar diferente e cheio de graça”. O livro pode ser adquirido em contato com o autor ou na Livraria Nobel, Av. Maria Quitéria, 2013, Feira de Santana – BA. Da mesma maneira você pode encontrar o segundo volume: “Vila Maravila: gols de esperança no campo da vida”)

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Além da prática e da teoria

blogdozanei

Toda prática alimenta uma boa teoria, toda boa teoria redunda em uma boa prática, ou não existe nada mais prático do que uma boa teoria, é o que diria o filósofo Karl Popper examinando os fundamentos da ciência e da técnica. Mas o que dizer do lance de Ronaldinho Gaúcho contra o Celta de Vigo na partida em que o bicampeonato espanhol foi conquistado por antecipação? e conseqüentemente o que dizer de todo o seu futebol? Teórico ou prático? Que conceitos ou sistemas lógicos alimentam as suas inusitadas e perfeitas jogadas?
           
O Barcelona ganhou por um a zero e o gol de Eto foi bonito e importante, mas a jogada que ganhou destaque na mídia foi um lançamento, uma inversão efetuada do meio do campo para o lado do gramado, onde Ronaldinho, no lado esquerdo recolhe elegantemente a bola e quase imediatamente dá um passe preciso para Larson, na cara do gol. E novamente, quando se trata de Ronaldinho Gaúcho, o sentimento de impotência em descrever um lance que está acima da possibilidade de descrição. Talvez se analisarmos o lance do ponto de vista da Física ou de outros conceitos e ciências, possamos entender melhor o acontecido.
           
A bola veio alta demais e com força demais para que teoricamente a matada de bola de Ronaldinho Gaúcho acontecesse de verdade. Portanto, as leis da balística e a lei da desacelaração dos corpos em movimento foi desrespeitada pelo modo como a bola foi maciamente recolhida pela chuteira do maior jogador do mundo da atualidade. A física clássica, as leis de Newton, não podem, por conseguinte, explicar a jogada. E o lançamento para o Larson, depois de um corte preciso no defensor, alcançou aquilo que o saudoso treinador Cláudio Coutinho (exatamente o técnico campeão moral da Copa de 78) chamava de ponto futuro. E tudo isso em uma fração de tempo que contrariava inclusive a lei da relatividade de Einstein.
           
A exatidão da bola nos pés de Larson (no exatíssimo ponto futuro) que não se pode haver com as ciências exatas deve procurar nos mistérios religiosos, no esoterismo, a sua base teórica. Não foi realmente um passe, mas uma profecia, um vaticínio, uma antecipação misteriosa de fatos e eventos através de métodos transcendentais, fora do alcance dos meros humanos. Mas a exatidão do lance contraria até mesmo a proverbial dubiedade dos oráculos, a necessária ambigüidade da advinhação.
           
Aliás, de Ronaldinho Gaúcho, Pelé, o principal deus do futebol, chega a afirmar que o mesmo faz jogadas de que ele próprio não era capaz. Portanto, o referido jogador estaria acima da onisciência e da onipotência dos deuses. Só não teria sido ainda castigado pelos deuses gregos, porque os mesmos, apesar da inveja e da certeza de que o mesmo teria cometido a famosa hybris, ou seja, ultrapassado a medida destinada aos mortais, quedam-se extasiados com a grandeza do seu futebol e também temem que a habilidade de Ronaldinho desmoralize o tártaro e seus mitológicos castigos.
           
Porque, pelo futebol que está jogando, Ronaldinho Gaúcho seria capaz de driblar a águia do rochedo de Gibraltar e impedir que a mesma devorasse eternamente o fígado de Prometeu, rolaria montanha acima a enorme pedra de Sísifo, à base de embaixadas, e iludiria com dibles inusitados frutas e água para alimentar e dessedentar a necessidade de Tântalo. E assim, Ronaldinho vai jogando o seu futebol herege e profano, para delírio de multidões e adeptos.
           
Larson recebeu o passe perfeito e perdeu o gol. Não por falta de sorte ou habilidade, mas porque tinha de ser assim. A perfeição da jogada não poderia ser contaminada com a mediocridade do gol. Porque depois de Ronaldinho Gaúcho, o gol, essa monótona moeda de valor do futebol, passou a ser medíocre e questionado. Se houvesse outros critérios de decisão, o Barcelona ainda seria o campeão, mas o placar de cada partida seria totalmente diferente e mais exuberante. Cinco assistências perfeitas a zero, quatro lençóis a um, seis dribles maravilhosos a dois. Ou então, mesmo quando o placar fosse apertado, o Barcelona sempre ganharia, sem nunca sofrer revés, pelo critério diferente de jogada genial indescritível. Uma jogada genial indescritível a zero ou, no máximo, duas jogadas geniais indescritíveis a zero, somente, mas o bastante para garantir o espetáculo e aumentar em muito o número de aficcionados.
         
Cientista, profeta, blasfemo ou artista, não importa bem o que Ronaldinho Gaúcho seja de fato. Além da teoria e da prática está todo o seu futebol e a certeza de que existem verdades absolutas fora da ciência, da religião e da arte. Mais ainda, a certeza de que só existem verdades absolutas nos pés e nas chuteiras cósmicas desse extraordinário jogador.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Seleção brasileira de turistas e aposentados

Alcir pompone

Para o pessoal da Vila Maravila, quando a seleção ganha não faz mais do que a sua obrigação e quando perde a culpa é mesmo do técnico que já começa a falhar na hora da convocação. Este, com a sua mania incontrolável de chamar jogadores estrangeiros e de escalar jogadores antigos que vivem se arrastando em campo, tem demonstrado muita capacidade para dar nó em gravata, mas nenhuma para acertar e comandar o time.

A suspeita de todo mundo, nas rodas de conversa da vila, é de que outros interesses comandem a lista de convocados e a escalação de jogadores durante as partidas. Para Paranísio, socialista convicto, presidente do sindicato dos ambulantes da Vila Maravila,  o técnico com certeza recebe muito dinheiro por fora, por conta de acordos que interferem na administração da seleção. Com certeza, convoca tantos estrangeiros assim para incentivar o turismo e tantos jogadores antigos talvez por receber dinheiro dos companheiros do sindicato dos aposentados.

Que a nossa seleção entende mais de turismo e de lazer do que de dribles e gols é a opinião de todo o mundo. Por isso, a facilidade com que aceitaram o passeio do Chile e o conformismo com que fizeram fila para os dribles de Salas e Zamorano. Aliás, filas e aposentadoria são praticamente sinônimos na realidade brasileira e todo aposentado tem sido driblado cotidianamente pela jurisprudência nacional.

Para tranquüilizar o pessoal, o Doutor Rildo, médico da vila e ala direita do Maravila F. C., bom de bola e de estetoscópio, garantiu que o departamento médico-geriátrico da CBF estará cuidando o melhor possível de nossos atletas para que na próxima partida o time tenha um desempenho melhor. Pena que não possa garantir a mesma coisa por parte do INSS para os nossos outros aposentados.

Aposentados por aposentados, Paranísio garante que os nossos são melhores do que os da seleção, já que pelo menos os nossos são obrigados a trabalhar para sobreviver porque a pensão sozinha não dá nem para pagar entrada em jogo de portões abertos. Os aposentados de seleção não trabalham, mas curiosamente ganham bastante dinheiro. 

Em vista disso, depois da vergonhosa derrota dos milionários “velhinhos” para o Chile, Paranísio sugere aos companheiros do sindicato dos aposentados que parem de gastar dinheiro subornando treinadores e comecem a lutar por isonomia e equiparação de pensão salarial entre todos os aposentados do país e os aposentados da seleção brasileira de futebol.


(Esse texto se encontra no livro “Vila Maravila: um lugar diferente e cheio de graça”. O livro pode ser adquirido em contato com o autor ou na Livraria Nobel, Av. Maria Quitéria, 2013, Feira de Santana – BA. Da mesma maneira você pode encontrar o segundo volume: “Vila Maravila: gols de esperança no campo da vida”)

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

O novo técnico da seleção

Cimplesocio-futebol

Na ligeira pesquisa efetuada na Vila Maravila sobre quem deveria ser o novo técnico da seleção brasileira de futebol, Luiz Felipe Scolari ocupou um honroso segundo lugar com a considerada excelente percentagem de cinco por cento. Nenhum outro dos chamados grandes técnicos receberam qualquer menção; nem mesmo o Parreira que o pessoal da Vila não perdoa por ter ganho a Copa de 94 vencendo a hospitalizada seleção da Itália por zero a zero. O campeão absoluto foi naturalmente o técnico Poeira, treinador do Maravila F. C., pentacampeão da liga de futebol de subúrbio da cidade.

Procurando descobrir a razão de tanto sucesso, encontrei coisas surpreendentes.  Primeiro que o glorioso Maravila F. C. amargava um longo e desacreditado período de fracassos, antes de o Poeira assumir a equipe, e que o mesmo antes nunca havia sido técnico e que ficara cotado para o cargo por ser o melhor jogador de dominó que a Vila já conhecera. Portanto, a ausência de requisitos seria, para os moradores da Vila, o seu maior requisito para o exercício da profissão.

Mas como o matreiro jogador de dominó conseguira restaurar a credibilidade do ex-glorioso time? Ele garante que foi através de muito estudo, muita pesquisa e principalmente de muita psicologia. Mais do que táticas e regras, estudou a vida de grandes jogadores e grandes times do passado e do presente, prestando atenção aos pequenos detalhes de onde, segundo afirma, vêm as grandes soluções.

Descobrindo que os maiores jogadores não gostavam de treinar, aboliu os treinos físicos, táticos e técnicos e multiplicou as peladas criativas e os campeonatos de diversas coisas.  Toda noite, há multiplicidade de peladas abertas na Vila, onde os jogadores do time disputam com outros candidatos a jogadores, criativas variações. São peladas de futevôlei, futetênis, basquetefute e até de futeágua que, diferente do pólo aquático, se joga com os pés e haja fôlego e malabarismo para se conseguir nadar e chutar ao mesmo tempo. Há campeonatos de embaixada, cabeçada, cruzamento, falta, pênalti, gol olímpico, sem-pulo, bicicleta. Há divertidas peladas só de calcanhar (que ele instituiu em homenagem a Sócrates), outras só de efeito (homenagem ao lendário Biu do Efeito) e os interessantes campeonatos de futebol morro acima e morro abaixo, em um declive, que é para melhorar o condicionamento físico.

Como todo mundo pode participar das peladas e dos campeonatos, estão sempre surgindo novos jogadores que ele vai escalando na medida da necessidade. Para descobrir a posição do jogador, ele aplica os testes psicológicos de sua autoria, cujos princípios básicos compartilha: goleiro tem de ser alto e calmo, zagueiro tem de ser sisudo, meio de campo tem de ser equilibrado e atacante tem de ser falastrão, polêmico, problemático e tem de gostar de aparecer. Ele desconversa, mas o pessoal garante que ele já telefonou duas vezes para Romário, convidando-o para compor o ataque do Maravila F.  C.

(Esse texto se encontra no livro “Vila Maravila: um lugar diferente e cheio de graça”. O livro pode ser adquirido em contato com o autor ou na Livraria Nobel, Av. Maria Quitéria, 2013, Feira de Santana – BA. Da mesma maneira você pode encontrar o segundo volume: “Vila Maravila: gols de esperança no campo da vida”)

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Roído e o gol de bicicleta

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Segundo seu Madeira, o melhor time de futebol de todos os tempos foi a seguinte formação do Maravila F. C., que todos os moradores sabem de cor e salteado de tanto ouvi-lo recitar, naquele honroso e consagrado quatro dois quatro que ninguém quer mais usar: Terêncio, Biuzão e Magela. Loureiro e Genival. Rubenírio e Aratunga. Roído,  Rapaz, Biu do Efeito e Caçula. O técnico era Aroeira. Roído era o seu endiabrado ponta direita. Roído era doido, nos diz seu Madeira, perdia o gol mas não perdia o drible, perdia o campeonato mas não perdia a molecagem. E a torcida adorava Roído. Seu Madeira fala de uma conversa que presenciou entre Roído e o Biu do Efeito:

– Por que não deu o banho de cuia antes de fazer o gol? – perguntou Roído – o camarada tava no ponto... E Biu do Efeito retrucou: – E se eu perdesse o gol?  Aí Roído saiu-se com as dele: – Era só um gol. Pois sempre, depois de suas armações, algumas hilariantes, quando o pessoal tentava reclamar ele respondia: “É só um jogo”, ou então “é só um campeonato”, ou “foi somente um pênalti.” Pois para Roído a vida era melhor do que o jogo, o jogo era melhor do que o título, o drible melhor do que o gol e a brincadeira e a alegria melhor do que tudo.

Conhecendo o Roído, o seu grande futebol e o seu gosto por presepadas, o pessoal tinha o maior cuidado. Ninguém gritava “segura a bola” porque Roído segurava e se fosse dentro da área era pênalti. Ninguém gritava “segura o homem” porque Roído segurava e se fosse dentro da área era pênalti. Aliás, depois de algum tempo, ninguém gritava nada, ninguém  falava nada, ninguém respirava perto do Roído, com medo do que podia vir.

Roído detestava zero a zero. Depois dos trinta minutos do segundo tempo de uma partida com placar em branco, o técnico Aroeira o substituía porque todo mundo sabia que Roído era capaz de fazer gol contra para evitar a desonra e a nulidade do zero a zero. Também detestava gol feio. Gol feio para ele não era gol, era um arroto, uma meleca, um palavrão, como costumava dizer. De certa feita, quando o goleiro do Ipiranga chutou o tiro de meta e a bola batendo no zagueiro desviou inadvertidamente na direção do gol, Roído correu como um doido até dominar a bola e pará-la sobre a marca de cal. Quando os desanimados zagueiros se aproximaram, quando os companheiros já comemoravam, Roído virou de lado e deu um chute para o meio de campo. Um gol daqueles seria uma meleca, não seria um gol. Quanto a gol bonito Roído comemorava até do adversário. Era esquisito ver Roído pular depois de levar um gol. Mas pulava. Não era todo gol, mas tinha gol que ele pulava mesmo. 

Roído mancava ligeiramente de uma perna, mas não havia driblador igual a ele. Garrincha driblava só para a direita, mas Roído driblava para a direita, para a esquerda, para o meio, para cima, para baixo, para frente, para trás e para onde mais ele quisesse.

O sonho de Roído era fazer um gol de bicicleta no finzinho do segundo tempo em uma partida empatada e olhe que ele tentou. A bola bateu na trave, passou perto, o goleiro pegou ou outra coisa mais. Um belo dia, decisão de torneio início contra o Ipiranga, sempre o Ipiranga, finzinho do jogo, zero a zero, a bola sobra limpa e linda para Roído dentro da área e ele consegue a bicicleta perfeita. O goleiro se estica todo, mas não consegue deter a glamurosa. O problema era que a área era do time dele, do Maravila, e o gol foi contra. Mas Roído, no que ele confessava sempre que havia sido o melhor momento de sua vida, pulou em grande estilo de comemoração e correu para abraçar os jogadores adversários. “É só um torneio”, explicou, mas o pessoal demorou a perdoar e o técnico Aroeira o barrou por duas partidas. 

De volta aos gramados, Roído, feliz, apaziguado e com saudade da dengosa, estava jogando mais do que nunca. Mas, incorrigível, continuava driblando e armando presepadas, para delírio e felicidade da torcida passada, para eterna felicidade de seu Madeira e da torcida presente em torno dele, e para a solitária indignação de Paranísio que, socialista convicto, declamava monótona e destoantemente alguma coisa como se colocar sempre inventividade e criatividade a serviço unicamente da solidariedade.


(Esse texto se encontra no livro “Vila Maravila: um lugar diferente e cheio de graça”. O livro pode ser adquirido em contato com o autor ou na Livraria Nobel, Av. Maria Quitéria, 2013, Feira de Santana – BA. Da mesma maneira você pode encontrar o segundo volume: “Vila Maravila: gols de esperança no campo da vida”).

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O Brasil de técnico novo


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Como sempre, o pessoal da Vila Maravila comentou muito a partida entre Brasil e Colômbia e o assunto era o novo técnico.  A turma resolveu, depois do jogo, abrir uma caderneta de poupança com um pequeno depósito de confiança para o Leão que, mesmo não sendo nenhum Poeira (o surpreendente treinador do Maravila F. C.),  tem levado o Sport de Recife a incríveis resultados. Todo mundo reconhecia que afinal, mais uma vez, um zagueiro usa a cabeça, para a única finalidade conhecida de zagueiro para a dita,  e salva a pele da seleção.

A moçada só deu desconto para Juninho, o paulista,  que driblou,  correu,  combateu,  lançou,  chutou a gol e que mais não fez porque mais não sabe fazer,  já que,  apesar de tudo,  ele não é nenhum Edivânio,  o veloz e habilidoso meio campista do Maravila F. C,  professor de matemática,  dentro e fora do campo. 

Quanto a Rivaldo,  se não vem rendendo bem na seleção,  a culpa,  todo mundo concorda,  é da estrutura do futebol,  da CBF,  da FIFA,  dos companheiros,  do treinador,  dessa política neo-liberal de Fernando Henrique Cardoso,  da globalização,  do pós-modernismo ou de qualquer outra coisa,  porque Cocada,  o artilheiro do Maravila F. C.  e amigo de infância do referido Rivaldo,  disparado o melhor jogador do mundo,  confirma que o mesmo é craque. 

Diante disso,  o pessoal abandona qualquer maldade e fica comentando tudo que Rivaldo quase fez.  O passe de calcanhar que quase chegou no companheiro,  o chute de longa distância que quase acertou,  o lançamento quase perfeito e o chute de bicicleta que quase foi gol.

Tentando descobrir a contribuição do treinador,  o pessoal chegou à conclusão de que a arma secreta do Leão foi (como não podia deixar de ser) o goleiro que ele posicionou de atacante e de líbero ao mesmo tempo e deu liberdade para sair driblando e para repetir a jogada secreta exaustivamente ensaiada:  o beque atrasa toda hora para o goleiro que toda hora dá um chutão para frente,  procurando surpreender a defesa adversária.

Aliás, o locutor disse que o gol do Brasil saiu de uma jogada ensaiada: Juninho cobrou o escanteio no primeiro pau e Roque Júnior cabeceou direito para o gol. Bem, parece que somente o Poeira continua ensaiando jogadas como antigamente:  domingo passado o Maravila venceu o Ipiranga com uma artística jogada ensaiada,  onde não faltou o corta-luz nem o surpreendente passe de calcanhar para o chute rasteiro de Júlio no canto da meta do desesperado goleiro adversário.  Se ensaiar seriamente dá certo na Vila,  pode ser que dê certo também na seleção e,  quem sabe,  até mesmo no Planalto que,  a bem da verdade,  precisa mesmo é de um novo treinador.

(Esse texto se encontra no livro “Vila Maravila: um lugar diferente e cheio de graça”. O livro pode ser adquirido em contato com o autor ou na Livraria Nobel, Av. Getúlio Vargas, 2410, Feira de Santana – BA. Da mesma maneira você pode encontrar o segundo volume: “Vila Maravila: gols de esperança no campo da vida”)

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Pedala, Robinho

Veja.abril


Robinho pedala, pedela, pedila, pedola, pedula. Leônidas inventou a bicicleta e colocou ela no ar e de cabeça para baixo. Genial e esquisito esse Leônidas. Robinho somente botou a bicicleta novamente na grama e pedala e pebala, para desespero de zagueiro forçado a aprender urgente sobre bicicross.
            
Pedala o pé dela, Robinho, da inventividade da vida, ou o pé dele, defensor adversário que não lhe bastam mil formas de defender para quem tem dez mil formas de pedalar. Jogar feito jardineiro que transforma a bola em margarida e pedala cada pétala, mal-me-quer, bem-me-quer.
            
Partir elegante na direção da bola, a pedi-la em silêncio, a saudade de pedalar. Pedala e pedila, Robinho, até o oponente hipnotizado abrir as pernas como prostituta dengosa e se submeter desorientado a estupro e estuprador.
            
Pedola e pebola, Robinho, o pé atrás da bola e a bola atrás do pé, pedólar e pé euro, e a alegria e esperança de quem não tem dinheiro pra vê-lo pedalar. Mesmo assim, pedala, pedela, pedila, pedola e pedula, Robinho. Pedoida o jogo, pelota o sonho, profeta o riso e garanta o espaço no coração de cada criança do planeta para o direito de pedalar.
            
Pedula, Robinho, hiperdulia, quase-deus de quase-crentes. O jogo é assim mesmo, perdulário, como a lembrar que a vida poderia ser exuberância. Petula, Robinho, com o seu talento você adquiriu em algum lugar o direito de ser petulante, pelo menos com a pulha nos pés. Pedala, pedela, pedila, pedola, pedula.
            
Pedala o pé dele sem pedir e pedola mole que ele é pé duro. Requebra e resvala, resrelva, respinga um gole de poesia pura no desandar da bola e pedala, pedela, pedila, pedola, pedula até o gol.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Biu do Efeito


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Devido aos últimos acontecimentos, derrotas e polícia atrás do técnico da canarinha, o pessoal da Vila Maravila anda um tanto desanimado e como seleção brasileira,  pátria,  governo e política são a mesma coisa,  cresce na Vila o movimento pelo “impeachment” do presidente da república e espera-se para as próximas eleições vitória esmagadora, nas urnas locais, de todo e qualquer candidato de oposição.

Nesse momento, nas rodas de conversa, a tendência é olhar-se para o passado e ficar-se falando emocionado da seleção de setenta, sessenta e dois e cinqüenta e oito e do governo de João Goulart, Kubitschek e até de Getúlio Vargas. Fala todo mundo, porque os mais velhos viram e os mais novos quase viram de tanto ouvir falar.  Então, o Seu Madeira, o perito na história do futebol da Vila, com voz grave e pausada e com a invariável tossezinha inicial,  começa dizendo,  a pretexto nenhum,  que ninguém bota efeito na bola como Biu do Efeito,  falecido jogador lá da Vila,  e a contar,  perante uma platéia eletrizada,   a história da máxima façanha do legendário jogador.

Quando o Sport Clube do Recife foi jogar no campo do Maravila F. C, e o Sport já era um grande time, quem realmente sobrou em campo foi Biu do Efeito. Bola de calcanhar de efeito, banho de cuia de efeito, deu um drible da vaca de efeito em Tonhão sem sair do canto que Tonhão ficou tão tonto que teve que ser substituído e recolhido ao hospital com suspeita de aneurisma. Mas o jogo, bola para lá, bola para cá, e o placar em branco até quarenta minutos do segundo tempo. O Sport realmente era time bom.

Foi quando aconteceu o pênalti em Rubenírio (passe de efeito de Biu do Efeito) e o Biu do Efeito, claro, foi cobrar.  Caminhou impávido até a bola, alojou a redonda na marca de cal e sem dar distância deu, com toda pose e empáfia, escarnecendo do goleiro adversário,  coisa que não se faz, um chute despretensioso na bola que saiu uma “cafofa”, lenta, lentamente na direção da baliza. O goleiro, surpreso e agradecido, segurou firmemente a pelota e olhou atônito para a torcida que comemorava na geral e na improvisada arquibancada a cobrança do Biu do Efeito. 

O goleiro, com o balão bem firmado entre as duas mãos, deu dois passos e quicou a pelota para o chute para frente. E aí aconteceu. No quique, a bola se desviou e rapidamente foi se aninhar dentro do gol há tempos já comemorado pela torcida. O juiz apitou, apontou para o centro do gramado, e daqui a pouco encerrou a partida que já devia de ter sido encerrada desde o gol do Biu porque depois de um gol daqueles era até imoralidade continuar jogando.

O pessoal ouve a história em indefinido e inacabável silêncio até o momento em que Paranísio diz:

- Grande cidadão esse Biu do Efeito.  Devia de ter sido era ministro: de preferência, da reforma agrária.

(Esse texto se encontra no livro “Vila Maravila: um lugar diferente e cheio de graça”. O livro pode ser adquirido em contato com o autor ou na Livraria Nobel, Av. Getúlio Vargas, 2410, Feira de Santana – BA. Da mesma maneira você pode encontrar o segundo volume: “Vila Maravila: gols de esperança no campo da vida”)

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Quando o Brasil ganha da Argentina

jornaloexpresso


Quando o Brasil ganha da Argentina, nem Josilda agride Juca nem Juca xinga Josilda.  O harmonioso casal se abraça apertadamente e se beija sofregamente e se mantém em paz pelo menos por uns quinze dias. O sorriso da Vila verdeamarelece e há uma efusão de cumprimentos e de votos de boa vontade circulando gratuitamente entre todos os moradores.                                

E quando o Brasil ganha da Argentina jogando bem e partindo pra cima, como na quarta-feira passada, 25 de julho do ano 2000, até o salário mínimo fica menos mínimo e o Brasil tem jeito e a CPI do narcotráfico não terminará em pizza. Ronaldinho Gaúcho deu banho de cuia na inflação, Vampeta fez dois gols na eterna corrupção que ronda os nossos poderes e Alex mostrou que o brasileiro tem muita cabeça até mesmo para virar o jogo da história.

Cada jogador da seleção joga parecido com algum jogador da Vila Maravila, que todos somos jogadores, mas tem alguns que não seriam nunca escalados pelo técnico Poeira no Maravila F. C. Já Rivaldo, o melhor do mundo, é craque mesmo porque bateu bola por aqui  com o Cocada e o Cocada disse que o camarada joga de verdade. Deve de estar cansado porque ele joga muito melhor do que isso. Ronaldinho e Alex fizeram uma tabela que lembrou a tabela entre Júlio e Mineiro na semana passada, no terceiro gol do Maravila,  na partida contra o Ipiranga, na casa do adversário. De todo jeito, o Brasil fez o que devia fazer e o técnico não conseguiu atrapalhar muito.

No outro dia em todas as rodas da Vila o assunto ainda era o futebol e não podia faltar comentários sobre a questão salarial. O que o pessoal não entende não é a diferença entre salário de jogador de futebol e salário de balconista, por exemplo. Ninguém entende na Vila é porque jogador de futebol ganha salário, já que todo mundo é jogador de futebol. Doutor Rildo atende na clínica de manhã e de tarde e joga futebol de salão toda noite e futebol de campo todo domingo no Maravila F. C. Ala direita mais técnico e mais inteligente do que Cafu. Professor Edivânio ensina matemática e joga futebol, Givaldo é eletricista e joga futebol, Galdino é pedreiro e joga futebol. Todo mundo joga futebol e ninguém ganha dinheiro jogando, só trabalhando. O pessoal da seleção não faz nada, só joga futebol, e ainda ganha dinheiro!?

Paranísio, socialista convicto, presidente do sindicato dos ambulantes de Vila Maravila, diz que a revolução socialista acontecerá logo depois de um jogo entre Brasil e Argentina. Nem antes, nem obviamente durante, mas depois de qualquer jogo entre os dois, qualquer que seja o resultado. Se o Brasil perder, o ódio acumulado durante a partida desencadeará a sangrenta revolução; se ganhar, faremos a revolução à brasileira, com muito samba, alegria e ginga de corpo. Se empatar.... Bem, jogo entre Brasil e Argentina nunca empata  se empatar é capaz de dar confusão e a revolução começar ali mesmo, no campo, envolvendo os argentinos. E aí veremos como ficarão as relações internacionais.


(Esse texto se encontra no livro “Vila Maravila: um lugar diferente e cheio de graça”. O livro pode ser adquirido em contato com o autor ou na Livraria Nobel, Av. Getúlio Vargas, 2410, Feira de Santana – BA. Da mesma maneira você pode encontrar o segundo volume: “Vila Maravila: gols de esperança no campo da vida”)


quinta-feira, 18 de julho de 2013

Sua divindade, o gramado.



clubeconcordia 


O gramado é uma entidade divina que deve ser acariciada com os pés por artistas da bola e nunca, nunca, ofendido por cavalgadores do futebol, incapazes de entender a sensibilidade de um jogo criado para, mais do que entreter, despertar paixões e compromissos radicais.

Ninguém pode se admirar, portanto, de sua irritação recorrente, especialmente quando, na nostalgia da saudade de antológicos sacerdotes, personalidades místicas que percorreram suas dimensões, depara-se com aficionados irreverentes, crente vulgares que, desatentos, tropeçam nos rituais.

Paciente no início, pode ir se exasperando à medida que o lançamento precipitado faz a bola escorrer pela linha de fundo ou ser cortada pelo zagueiro, e o resfolegante velocista, frustrado com a corrida indevida e a bola que chega sempre ou antes demais ou depois demais, desperta a saudade de Didi, Gerson ou Marcelinho Carioca.
           
Mas o jogo vai seguindo e os esforçados jogadores, talvez mais esforçados que jogadores, vão se revezando em demonstração da capacidade de exibir a própria incapacidade, tropeçando na bola e no gramado, divindade desprezada, até magnânimo no desejo de perdoar, mas um tanto ou quanto arrepiado por vulgaridades de heresias futebolísticas.
           
Como divindade, não toma partido, mas se alimenta da reverência e da elegância de quem consegue desenvolver a liturgia com o zelo do crente praticante, incansável em sua fé e cuidadoso na execução dos exercícios espirituais. Tardio em irar-se, põe-se à disposição dos novatos, iniciantes em tradições tão complexas (admite), especialmente daqueles que aparentam se encaminhar para a iluminação, algum dia.
           
Sente-se agraciado com uma finta bem feita, com um lance criativo e inesperado, e se oferece benevolente ao passo cadenciado desse adorador. Conhece, porém, a sua impaciência, aquele zagueiro inseguro e indelicado, ofensivo em suas maneiras apressadas, atabalhoado em sua ânsia de interromper a jogada. Para esses se põe como obstáculo, de modo sutil, às vezes, mas em não raros momentos como vontade punitiva que joga ao chão o infiel.
           
Pleno de lances bisonhos para apenas alguns poucos momentos de um realmente bom futebol, a partida segue se arrastando e sua divindade, o gramado, começa a mostrar crescente indignação. O jogo não está se desenrolando dentro dos cânones e, se todos participam do frustrante espetáculo, alguns são intoleráveis em seu insolente desrespeito.
           
De tal maneira que, sua divindade o gramado, resolve abandonar a sua passividade e intervir. E no final de um melancólico jogo que terminaria em inevitável zero a zero, aquele desastrado zagueiro, marcador que não se sabe marcado por sua divindade, resolve atrasar devagar, mas levianamente uma bola para o goleiro. E quando a pelota já se prepara para ser mansamente acolhida pelas mãos do experiente guardião, sua divindade, o gramado, exasperado e divertido ao mesmo tempo, dá-lhe um súbito piparote e a bola se desvia rapidamente para os fundos da rede.


quarta-feira, 10 de julho de 2013

O maior escândalo dos últimos anos

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Para os moradores da Vila Maravila,  a derrota do Brasil para o Paraguai pelas eliminatórias da Copa do Mundo,  na fatídica terça-feira de 18 de julho de 2000,  constitui-se evidentemente no maior escândalo dos últimos vinte anos.

Que a corrupção tenha ramificações no Planalto é esperado,  que o narcotráfico tenha representantes no Congresso não é nenhuma novidade,  mas derrota da seleção brasileira,  ainda mais em jogo oficial,  é absurdamente escandaloso.

O fato é que a bola é o único elemento de identificação nacional.  Somos realmente um país chamado Brasil porque jogamos futebol e jogamos bem.  Aquilo que muitos países almejam e se esforçam para conseguir,  nós o fazemos naturalmente,  sem muito esforço,  e o fazemos melhor do que todos.  De Roraima ao Rio Grande do Sul,  de Goiás a Pernambuco,  todos (são inexpressivas as exceções) sabemos conduzir muito bem a bola com os pés.

Por isso,  a derrota para o Paraguai é catastrófica e escandalosa e deixou os pacíficos moradores da Vila indignados e deprimidos.  Afinal,  temos o melhor futebol do mundo,  somos oficialmente a melhor seleção de futebol do mundo e,  pelo que nos consta,  além de em má distribuição de renda,  leishmanniose,  chaguíase e alguma outra doença tropical exótica,  não somos os melhores do mundo em mais nada.  É vergonhoso que os jogadores da seleção brasileira,  nossos únicos,  legítimos e bem pagos representantes,  tenham sido derrotados pelo país vizinho.

É lugar comum dizer que o futebol é um esporte democrático,  mas sem dúvida é a nossa mais importante atividade comunitária e o nosso mais importante fator de integração nacional.  Falta apenas a pesquisa sociológica confirmar que a unidade nacional foi começada a partir da introdução do futebol por Charles Miller no Brasil,  e completada entre 1950 e 1962,  do período que vai da derrota para o Uruguai em pleno Maracanã à conquista do bicampeonato mundial no Chile.

Os furiosos comentadores da Vila ressentiam-se de que estivessem querendo transformar o nosso esporte comunitário e integrador em um grande negócio.  Lançados no imenso mercado globalizado,  nossos jogadores foram forçados a se adaptar,  pelo técnico é claro,  ao modo de jogar dos outros países e,  em vez de jogar para frente,  dar “banho de cuia” e fazer gol de bicicleta,  aprendemos a tocar de lado e a atrasar a bola para o goleiro (que todo mundo sabe que é a coisa mais vergonhosa do futebol).  A solução é óbvia:  demite-se o técnico e convidamos os argentinos para um racha.  Aí vamos ver quem é quem.  Se essa medida der certo,  podemos pensar em aplicá-la no Planalto. 


(Esse texto se encontra no livro “Vila Maravila: um lugar diferente e cheio de graça”. O livro pode ser adquirido em contato com o autor ou na Livraria Nobel, Av. Getúlio Vargas, 2410, Feira de Santana – BA.)

terça-feira, 2 de julho de 2013

A Copa das Confederações na Vila Maravila

esmaelmorais

O sorriso de Seu Dolivaldo acontece somente de vez em quando, mas aconteceu o dia todo depois da vitória do Brasil sobre a Espanha. Brasil é tetracampeão da Copa das Confederações, com o primeiro gol, de Fred, avisando ao mundo que o gigante joga futebol até deitado em gramado esplêndido.

Os elogios sobre o novo Maracanã faz a conversa voltar para o eterno tema da política, porque o pessoal de lá só trata de futebol, política e religião, as coisas mais importantes do mundo, enquanto se ama, que o amor tem que estar no meio de tudo.

O pessoal garante que o Brasil só foi campeão por causa da pressão popular nas ruas. Os jogadores milionários, participantes das elites econômicas do pais, ficaram com medo das manifestações e arriscaram suas canelas douradas, prensando bola com espanhol, europeu metido a jogador, que andava desrespeitando a nossa seleção.

Todo mundo na Vila acha estranho jogador ganhar dinheiro para não trabalhar, mas já que são pagos pra isso, o mínimo que têm que fazer é assinar ponto e cumprir obrigação e ganhar tudo que é jogo. O Maravila F. C. faz isso sempre, de graça. Aliás, todo mundo na Vila espera o dia em que a seleção brasileira vai ter a coragem de jogar contra o seu time, coisa que nunca aconteceu. Houve tempo em que até parecia que ia ocorrer o confronto, mas a seleção brasileira desistiu. Teve medo, garantem os moradores.

Em resposta à mobilização das ruas o Brasil mostrou que pode ganhar copa e construir estádios, falta mostrar que pode prender corrupto e construir hospital.

Essa seleção de milionários pode servir de meta para as políticas públicas do país e Paranísio em discurso emocionante desejou a partir de hoje para o Brasil, a saúde de Tiago Silva, um serviço de saúde condigno, a mobilidade de David Luís, serviço de transporte eficiente, o empenho e a criatividade de Oscar, projeto de educação modelo, e conclamou todo brasileiro a ir para as ruas para que o salário mínimo seja equiparado ao de Neymar.

Todos os moradores assistiram ao jogo, em suas casas, nos bares, ou no telão armado por Paranísio e o seu sindicato dos ambulantes. Mas os beatos de todas as cores estavam em dúvida se assistiam o jogo ou iam para os seus próprios rituais, até Mãe Silícia, em seus cerca de oitenta e quatro anos de sabedoria declarar que quem fosse procurar Deus em igreja, terreiro, centro espírita, ou qualquer outro lugar, ia se dar mal, porque ela tinha certeza de que Deus ia assistir a partida.

Depois do jogo, os teólogos do futebol discutiam se Deus tinha soprado o pênalti cobrado por Sérgio Ramos mais para a esquerda, se tinha ajudado a bola a tocar exatamente no ponto da canela de David Luís que desse aquela precisa trajetória para desviar a bola do gol, e outros lances mais.


A vila toda sempre admitiu que o melhor técnico do mundo é o Poeira, do Maravila F. C., mas Felipão está subindo de conceito, especialmente depois que escalou Deus e Fred como titulares. E todo mundo tem certeza de que se a mobilização popular continuar vamos ganhar a copa do mundo. Nesse futuro quase presente, o Brasil todo estará sorridente e Felipão terá que decidir se se candidata ou não para a presidência do Brasil.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

A história de Zé Cotó

Chamava-se José e não tinha a perna direita. A maldade do apelido o fizera Zé Cotó, claro, mas o seu bom humor era a segunda perna, ele mesmo dizia, e quando dizia abria aquele sorriso luminoso e encantador que assegurava o seu equilíbrio nos caminhos da vida. Se somente isso já merece comentários, era também jogador de futebol, nos garante Seu Madeira, e um dos melhores, reserva daquele maravilhoso time, o melhor de todos os tempos, cuja escalação Seu Madeira nos repete para que nunca esqueçamos: Terêncio, Biuzão e Magela, Loureiro e Genival, Rubenírio e Aratunga, Roído, Rapaz, Biu do Efeito e Caçula.

Zé Cotó jogava somente com a perna esquerda e com o apoio de uma muleta. Como alguns dos inesquecíveis craques do Brasil e do mundo fazia com a esquerda o que ninguém fazia com as duas, mas aprendera também a usar a muleta para conduzir a bola o que lhe trouxe confusões. Se na pelada tudo era permitido, para jogar no time em torneios oficiais, e todo mundo queria que jogasse, foi preciso luta e argumentação. Os times oponentes sempre protestavam, especialmente o Ipiranga, como era de se esperar. Óbvio que se Zé fosse um perna-de-pau (infame e esquisito trocadilho) não haveria objeções, mas era craque mesmo, na reserva apenas porque nesse time não tinha lugar para todos os craques, apenas os excepcionalmente excepcionais.

Nada no regulamento (se confiarmos nas palavras do Seu Madeira) proibia um jogador sem uma das pernas (nem mesmo sem as duas) jogar bola. Mas os adversários apelaram para a obrigação de disputar campeonatos com chuteiras e não quiseram dar o mesmo direito que já haviam dado a Caçula, o ponta esquerda bom de bola e bom de conversa. O jeito foi confeccionar uma chuteira especial para a muleta e calar a última objeção. A muleta de Zé Cotó calçada com uma chuteira apropriada era mais um espetáculo nesse time e nesse esporte espetacular.

Complicado era quando Zé se aproveitava do alcance da muleta para fazer gol o que fazia de vez em quando, deixando juiz coçando cabeça, adversário irritado e torcida feliz, quase em delírio. Nessas horas ele saía correndo de muletas e sorrindo como nunca, inventando jeitos de fazer rir povo que gostava de rir. O gol sempre tinha que ser validado, coisas de futebol e manias de regulamentos. A chuteira da muleta de Zé podia se orgulhar de alguns gols decisivos, quando entrara para substituir algum jogador importante.

Com a perna esquerda, driblava, lançava e chutava; faltas, então, eram chutes quase indefensáveis. A muleta e o bom humor eram a outra perna que lhe garantia amigos e amigas, algumas poucas namoradas, porque ele era uma pessoa meio religiosa (alguns diziam religiosa e meia), católico, apostólico, romano, mas de Romão, o Padre Cícero, seu padrinho de muitas datas.

Pois bem, nessa história de jogar bola e de ir à missa, como bom católico, apareceu pela Vila uma freirinha que Seu Madeira garante que era muito bonita, Irmã Angélica, e Zé Cotó, aliás, José Apolinário da Conceição das Mercês, seu nome de batistério, tomou-se de suspiro pela freira e, se já era católico ficou quase beato. Pensou, pensou, e decidiu que estava em pecado, perdidamente apaixonado pela mulher do próximo. E que próximo! todo mundo sabe, lembra-nos de novo Seu Madeira, que toda freira é casada com Jesus Cristo.

Confessou-se pecador primeiro ao marido, mas argumentou que ele com tantas freiras no mundo, possuía um harém, e ele, coitado, pecador e cotó, não tinha nenhuma. Teve certeza da autorização de Jesus e partiu para a segunda parte do ato.

Queria se confessar com a freira. Não podia, não devia, o padre não deixava, o sacristão obstava, o povo aconselhava, mas ele não se demovia. E tanto fez que (na Vila Maravila acontece de tudo) conseguiu ser ouvido no confessionário pela Irmã Angélica, a linda freira, objeto de seus desejos e de sua cobiça. Confessou o seu pecado, com tanta eloqüência e ardor, que a freira se sentiu obrigada a carregar na penitência, muito pai nosso e muita ave-maria e muito joelho em cima de caroço de milho, mas sem jeito. Toda semana o penitente voltava ao confessionário, cada vez mais pecador e apaixonado.

Bem, a irmã Angélica não era muito chegada a futebol, mas começou a ir para os jogos, primeiro devagar, depois torcendo um pouco, depois pulando de hábito e tudo, especialmente quando Zé Cotó fazia gol. Ele, quando avistava a irmã na torcida, enlouquecia de vontade de jogar e se multiplicava em sorrisos; e tanto lutava que terminava fazendo um gol que ela lá dentro sabia que era para ela.

O coração, havia entregado a Jesus Cristo para sempre, mas o sorriso, primeiro, e depois tudo o mais, corpo que não cabia mais no hábito, hábito que não cabia mais no corpo, foi sendo entregue a Zé Cotó. Este, foi ficando cada vez mais com cara de deslumbrado, até que um dia o escândalo chegou com toda força. Flagraram os dois perto da sacristia. A freira, sem o hábito que estava jogado pelo chão e Zé, sem roupa e sem muleta, mas com o sorriso dos místicos quando avistam o paraíso.

No esconde-esconde das conveniências, conseguiram abafar o caso o melhor possível, até o dia em que os dois casaram na Igreja, ela trocando o hábito pelo véu e grinalda, com as vestes brancas fingindo virgindade e toda a Vila fingindo que acreditava.

Zé Cotó jogou bola ainda muito tempo, sempre na reserva, por motivos que já sabemos: os outros jogadores eram muito bons. A irmã Angélica agora era Dona Anja, torcedora fanática do Maravila F. C., especialmente desse reserva bom de bola e bom de humor. Tiveram filhos sim e o sorriso dele ficou maior ainda. Dona Anja sempre foi bonita e um jeito assim meio misterioso lhe acompanhava sempre a face. Continuavam religiosos os dois. Zé não tinha nada para reclamar de Jesus Cristo. Pelo contrário, até permitia que a mulher conversasse todo dia com o ex-marido.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Rito e os seus gols adolescentes

O povo comenta na Vila a volta dos craques mais velhos chegando para jogar pelos times do Brasil. Rivaldo, amigo de infância de Cocada, fez um golaço pelo São Paulo, com direito a banho de cuia, e mostrou que ainda está em forma e reforçou a defesa de Cocada que sempre garante que ele é craque. Mas os olhos de todos estão em Ronaldinho Gaúcho e seu Flamengo, embora todo o mundo duvide que o Gaúcho teria lugar no time da Vila, o Maravila F.C., mesmo o atual, porque poderia até entrar no lugar de alguns dos titulares atuais, o que não seria fácil, mas ainda teria de convencer técnico e torcedores, diante do novo fenômeno do Vila Maravila F.C., Rito, o maravilhoso juvenil que completou essa semana 16 anos de idade.

Como prêmio de aniversário, Poeira o escalou para os quinze minutos finais. Condições para ser titular todo o mundo acha que tem, mas a gente sabe que é uma maldade expor um menino tão novo à sanha dos violentos zagueiros adversários. Deixe ele ir jogando, pegando malícia, se acostumando, aprendendo especialmente o pulo do gato para se livrar das botinadas. O jogo era contra o Ipiranga e decidia o primeiro turno do torneio desse semestre, que ainda não é o campeonato anual.

Quando entrou, tinha fita no cabelo e dentadura postiça, que usava quando imitava Ronaldinho Gaúcho, e todo o pessoal se preparou para as jogadas de efeito parecidas com a do craque que volta aos gramados brasileiros. Realmente aconteceram. Dribles habilidosos, passes para um jogador bem colocado, mas olhando para o outro lado, e chegou finalmente o momento de bater falta perto da área. Ritoninho Gaúcho, como gostava de se autodenominar nessas horas, se preparou e todo o mundo sabia de sua mania de imitador. Esperavam um chute de efeito, no ângulo esquerdo do goleiro, para repetir a cobrança do homenageado na decisão do primeiro turno do campeonato carioca, contra o Boa Vista.

Mas Rito, de bobo não tem nada, fez jeito de Ronaldinho, olhou o ângulo onde a bola havia entrado, e chutou quase rasteira, a meia força (somente o suficiente) para o lado oposto, no contra-pé do goleiro desconsolado, como desconsolados estavam todos os zagueiros, todos pulando para defender o ângulo, tão certos estavam das manias imitativas do fabuloso juvenil. Mas na comemoração do gol que deu a vitória a seu time, Rito puxou um trenzinho, a La Ronaldinho, comemorando em dança, criatividade e molecagem o lance decisivo.

Cocada vibrou muito, mas muito coçou a cabeça, preocupado com esse menino que ainda iria correr mundo. Cocada é o maior jogador do mundo, para todo morador da Vila Maravila, e só não joga em time grande porque não quer, nem gosta da idéia de concentração, ou de ser proibido de transar com sua mulata, Vânia, somente para disputar uma partida. Ele melhor joga quando melhor ama e o segredo do seu grande futebol está no corpo amado da amada, garante.

Pois bem, Cocada, anda acompanhando com cuidado o presente do Rito, pensando no seu futuro. Na Vila, o pequeno craque não consome “crack”. Uma das vitórias de Paranísio foi conseguir com muito esforço a cooperação do pessoal do tráfico, os chamados “companheiros do narcô” para não comercializar a droga dentro da Vila. E conseguiu. Foi o máximo que conseguiu, até porque a Vila ainda falta um “agá”. Quando se tornar socialista não falta mais nada, garante. Ou seja, a Vila será “maravilha”. O pessoal, meio na brincadeira, meio no pessimismo, diz que nesse dia a Vila será chamada Vila “Maravelha”. Mas, com Rito fora da Vila, por esse mundão de Deus, Cocada se preocupa com noitadas, farras e consumo de drogas a que os jovens jogadores são apresentados.

Rito já recebeu propostas para jogar fora do Brasil, mas ainda não aceitou. Talvez a influência de Cocada seja positiva. Cocada o colocou como sócio no seu armazém. Um sócio esquisito, que ainda ganha pouco e faz mandado o tempo todo e carrega todo tipo de carga. Cocada garante que isso faz bem à cabeça e ao físico, às vezes colocando o menino literalmente para correr de um lado para o outro da Vila, fazendo cobranças ou atendendo pedidos, a pé ou de bicicleta. Todo o pessoal acha que parte do preparo físico do menino vem desse “exercício comercial”

Como sócio, Rito ganha o suficiente para se vestir bem e bem se perfumar, como gosta o vaidoso moleque. Até porque não desgruda de Lúcia, de treze anos, filha do seu sócio, morena adolescente, deslumbrante em beleza e fascinante em inteligência. Nas cláusulas da sociedade, Cocada exige matrícula no colégio sem direito a reprovação, mas Rito começou a estudar de verdade quando começou a paquerar Lúcia (que Cocada não saiba) e a paquera se tonou namoro escondido do pai, que já marcou idade mínima para namoro da filha, quinze anos.

Cocada sabe ou não sabe desse namoro? De todo o jeito faz bem em não saber ou em fingir que não sabe, tornando mais saborosa a relação, supostamente proibida. Tudo isso faz pensar. Tudo indica que, por enquanto, Rito prefere a Vila em que Lúcia habita, do que o mundo do futebol lá fora, sem sua namorada por perto. O tempo decidirá o futuro desse garoto.

Paranísio, que nunca precisou doutrinar Cocada (que já nasceu socialista, garante), vive cercando Rito de textos e contando as histórias das grandes lutas da Vila para chegar onde chegou. Sua esperança é que Rito, enquanto futebolista, seja um difusor das idéias socialista que prega, e depois, quem sabe, talvez possa ser seu sucessor na presidência do Sindicato dos Ambulantes da Vila Maravila, o mais combativo sindicato do país.

Por enquanto, Rito se preocupa apenas em ser feliz do jeito que é. E felicidade, para ele, não existe sem bola nos pés. Tem tudo que um garoto da Vila podia desejar. Sócio no armazém, beijos e abraços da menina mais bonita do lugar, e principalmente lugar (de vez em quando, por enquanto) no maior time de futebol do mundo. Com Lúcia, todo dia é especial. Mas, no domingo, tem Lúcia e tem jogo. Gosta de jogar e de encantar a platéia. Afinal, a mais encantadora das torcedoras está lá, pulando o tempo todo, gritando o seu nome, para quem quiser ouvir.