segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O homem que achou fontes no deserto

palavradevidaaocoracao


Gn 35,6 – 36.

A civilização ocidental foi formada pela Bíblia hebraica, narrativas em torno de homens que caminham com o seu Deus, Javé. Narrativas belas em sua simplicidade de historietas populares e na complexidade de seus temas e valores. O livro de Gênesis é o livro dos começos, narrativas construídas em torno de muitos nomes próprios. O nome de Jacó sobressai no final como o nome de Israel. “Já não te chamarás Jacó, porém Israel será o teu nome” (Gn 35,10). O livro então pode ser lido como a passagem da personagem Jacó de uma situação de tribo para uma situação de nação, a confederação tribal que vai constituir Israel.

Muitos acontecimentos, em torno de muitos nomes próprios, a maioria nome de homens. As mulheres ocupam a narrativa de modo subalterno ou criptografado, estão perdidas pelas entrelinhas dos textos. Mas são as entrelinhas que realmente conduzem as linhas, o não-dito precede o dito.

Fazer altar para Javé em Betel e enterrar a mulher amada Raquel em Belém são tarefas distintas de um mesmo ciclo de vida. Morreu durante o parto, como quem transmite a outrem sua própria vida, e o filho que nasce é a continuidade de um amor especial. Benjamim, o mais novo de todos os filhos, tão amado como José, os dois filhos da silenciosa, e silenciada pela morte, Raquel, mas que continuará como lembrança até a morte de Jacó e será perpetuada em poesia e literatura.

Jacó e Esaú juntos cumprem também a tarefa de enterrar Isaque, o pai de cento e oitenta anos que morre “velho e farto de dias” (Gn 35,29). No capítulo 35 são listados os filhos de Jacó e o capítulo 36 traz a extensa genealogia de Esaú, mais uma vez um amontoado de nomes próprios de homens. Os poucos nomes femininos são das mulheres de Esaú, Ada, Olisama e Basemate, de uma concubina de seu filho Elifaz, chamada Timna e uma descendente, esposa de Hadar, chamada Meetabel. A presença dessas mulheres em rol de homens é coisa admirável que nos leva a imaginar coisas.

Mas, talvez o mais interessante nessa narrativa seja o nome de um desconhecido Aná, filho de Zibeão. Ele é o pai de Oolibama, mulher de Esaú. Mas consta o seguinte sobre ele:

“Estes os filhos de Zibeão: Aiá e Aná; este é o Aná que achou as fontes termais no deserto, quando apascentava os jumentos de Zibeão, seu pai” (Gn 36,24).

A vida é feita de feitos intencionados e não intencionados, de grandes projetos e pequenas casualidades. Aliás, o que é o grande acontecimento? As guerras provocadas entre cidades e tribos? As grandes construções dos faraós? A bravura de Esaú e de seus descendentes?

O grande acontecimento aqui é um achado e descoberta, muito importante para os habitantes daquelas paragens. Aiá merece ser lembrado porque descobriu o lugar onde o deserto jorra fontes de águas. Descobriu como? Não seria propriamente um desbravador. Apenas apascentava as jumentas do pai. Em uma tarefa de todo dia, surge o inesperado que faz o homem comum se lançar na história e merecer registro separado em genealogia de tantos heróis.

Aná é o nome que nos lembra a todos e a todas que o deserto de nosso cotidiano pode se tornar em fontes termais.

3 comentários:

  1. NÃO FOI AIÁ E SIM ANÁ QUE DESCOBRIU A FONTE.

    ResponderExcluir
  2. NÃO FOI AIÁ E SIM ANÁ QUE DESCOBRIU A FONTE.

    ResponderExcluir
  3. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir