segunda-feira, 25 de maio de 2020

No sábado da morte de Djalma Torres




Marcos Monteiro

Foi um sábado difícil. Começou com uma chuva descontrolada, aqui no Recife, e com algumas lágrimas controladas, por conta do áudio de Clarisse, informando gentil e emocionada, que provavelmente Djalma partiria naquele dia. Minha filha, quando me viu chorar, perguntou se Deus estava chorando e eu respondi que sim. Depois, pensando melhor, concluí que a chuva era da natureza, angústia do planeta, por um filho que partia; Deus estava alegre, sorriso aberto, antecipando o reencontro. Mas foi um sábado aquoso.

As águas do Tororó acamparam na minha imaginação e eu queria escrever um texto, homenagem ao meu amigo, mas os caminhos da linguagem eram tantos e tão diversos que não consegui; e fiquei alerta, vivendo o dia e aguardando os acontecimentos. No fim da tarde, quando a notícia da morte chegou, as comportas da minha alma se abriram e chorei como nunca: o sábado tornou-se líquido. E li tanta coisa bela, ouvi tantos depoimentos fortes, troquei mensagens rápidas com tantos amigos comuns, com uma dor tão intensa, que percebi que pensava que Djalma era eterno, não esperava que se fosse, não agora, não sem podermos nos encontrar novamente, em algum lugar da cidade de São Salvador, Bahia.

Lembrei dos encontros mais recentes. Uma visita ao hospital, no início do diagnóstico do câncer agressivo, uns tempos depois no apartamento de Maurício, quando começava a convalescer, e o mais recente de todos, quase uma semana juntos (precisava revisar um texto que ele estava publicando) no lugar sagrado do Tororó, sede do CEPESC, da Igreja Evangélica de Antioquia, oficialmente, e de tantas instituições, organizações, movimentos, encontros, provisória ou informalmente. Mas também era um dos refúgios de Djalma, o mais sagrados de todos, com espaço para dormir, comer e acolher pessoas. Nesse último momento, estava leve e livre, com a vivacidade de sempre, compromissos que não sei como conseguia dar conta, energia e alegria funcionando com toda a carga.

Djalma tinha uma geografia existencial bem própria, com hierarquias ainda a serem deslindadas pelos historiadores que se debruçarão sobre a sua trajetória. Salvador era o berço da humanidade, e quando me chamava para aparecer, repetia sempre: “Venha tomar um banho de civilização”. Jequié era a fonte de sua origem, craque de futebol que se transforma em pastor evangélico, mas Canudos era a cidade síntese, modelo de como o mundo pode se tornar lugar da “Utopia Religiosa”, título do livro que não terminou de escrever. Caminhava com Canudos na valise da alma, e quando esteve em Paris, com Olusivone, tenho certeza de que olhava para a Torre Eiffel, pensando nas míticas “ribanceiras de cuscuz com rios de leite”, andava pelas margens do Sena sabendo que nunca conheceria o Vaza-Barris, que a inépcia governamental mandou aterrar, e quando se deliciava nos restaurantes franceses, sentia saudade da pousada de Maria, cujo cardápio era abundante e refinadíssimo, garantia do pirão de bode e da moqueca de peixe inigualável.

As refeições com ele eram simples e significativas, religiosas em si mesmas. “Não pode haver culto sem comida”, dizia e praticava, e misturar esdruxulamente os sabores, sorvete com farinha (como frisou Vanessa em seu tocante texto) era ritual inter-culinário. Tenho certeza que foi por aí que começou o diálogo inter-religioso. A mesa farta é parte integrante dos rituais afro-brasileiros, momentos em que a saciedade da fome de vida e da fome de Deus é oferecida. Os cultos dominicais da Igreja Batista de Nazareth, onde foi pastor durante trinta anos, e da Igreja de Antioquia, sempre terminam com uma refeição comunitária.

Djalma não sabia caminhar com palavras vazias, enchia as mesmas de vida, e concretizava sonhos em estruturas organizadas. Libertação era mapa para visitar jovens presos pela ditadura militar e para acolher clandestinamente perseguidos pelo regime. Evangelho era um convite à intensidade da meditação sobre a Bíblia e a uma vida de oração e compromissos inteiros. Espiritualidade era a misteriosa palavra sobre o mistério das noites em que se debruçava sobre as raízes da vida e sobre os santuários, lugares escolhidos para o seu recolhimento. Uma vez me mostrou, na fazenda, um espaço onde se recolhia em solidão sagrada. Na exuberância de sua agenda, encontrou espaço para realizarmos algumas coisas juntos. Mas, entre o que desejamos e não alcançamos, um encontro sobre espiritualidade em que pudéssemos partilhar a nossa própria vivência, quase chegou a acontecer. Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso foram duas palavras que receberam forma, tempo e lugar especial em sua trajetória. O prêmio nacional na área de direitos humanos, pelo seu combate contra a intolerância religiosa, foi um pequeno reconhecimento pela grandiosidade de sua atuação.

No começo da noite do sábado, a enxurrada de homenagens, de ideias e de lembranças, se tornaram em cachoeira, e chorar e orar eram rimas e sinônimos. Não consegui dormir pela madrugada e estava com muita raiva, da morte de crianças e da morte de Djalma, duas coisas inexplicáveis. Porque ele era criança, amada por netos e outras pequeninas e pequeninos, e o seu jeito não conseguia ser dissimulado, mesmo em meio a um momento sério, como se ser adulto fosse um dos seus jogos infantis. Afinal, pastor que começa sermão com piada de Zelezim, ou que peregrina para Canudos, ouvindo Mussão, não existem fáceis por aí.

Na liquidez do meu sábado, lembrei de Djalma de calção, tomando banho no Jorrinho e desejei que haja uma réplica no espaço celestial em que transita agora. As águas pareciam revelar toda a sua pujança e toda a sua alegria de viver. Então pensei que o Dique do Tororó, com suas belíssimas imagens das entidades africanas, parecem com o meu amigo, e que naquelas águas correm lágrimas do povo negro, oprimido por uma religiosidade disfarçada de cristianismo. Tenho certeza de que, no sábado, o Dique do Tororó se rompeu e suas águas se espalharam cidade e mundo afora, levando as lágrimas de quantos o amaram e vão eternizar a saudade. E me senti desafiado a uma entrega radical à vida, ao Pai e à sua misteriosa agenda. A sensação é de que a morte revela a plenitude da vida. Nunca mais fui o que era e cada vez mais me sinto desafiado a ser mais do que sou, porque conheci e fui acolhido por Djalma.

Recife, 25 de maio de 2020.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Nosso pó estelar de cada dia na Era do Coronavírus

medium
Marcos Monteiro

Ele veio novamente, o pó, e com a insistência de sempre ocupou os lugares de onde o expulsei ontem, munido de pá e vassoura. Discretamente, em todos os lugares impossíveis, alojou-se novamente com aquele risinho irônico que qualquer pó carrega. E recomecei a atividade diária de expulsar um resíduo irredutível que virá novamente amanhã, ritual mútuo que dá algum sentido à nossa relação.

O que imagina o pó inútil quando o terror da vassoura desce sobre si? Havia um soldado pago por Alexandre, o Grande, para todo dia repetir solenemente diante do poder: “Lembra-te, ó Alexandre, que és pó e ao pó retornarás”. O que imaginava o soldado quando a ordem do imperador descia sobre a sua vida e lhe dava a tarefa inútil de lembrar a inutilidade da grandeza humana?

A missão de Alexandre era conquistar o mundo, e ninguém sabe quem lhe deu essa ridícula missão. A missão do soldado era obedecer ordens ridículas e a missão do pó é rir do ridículo de todas e todos nós. Ornamentados com vestes imperiais, calçados de coturnos ou mal cobertos de andrajos, somos todos ridículos, caricaturas dos humanos que mais desprezamos. Então, seremos sempre mais saudáveis quando aprendermos com Sócrates a rir de nós mesmos. Quando em suas peças cômicas, Aristófanes ridicularizava Sócrates, considerado pelo oráculo o mais sábio de todos os humanos, este era o expectador que mais ria, porque ser sábio é aprender a rir de si mesmo.

Ser humano é assumir o pó que somos, em diferentes caminhos existenciais, em diversos momentos estruturais, mas há também um lado luminoso de nossa polvilhidade.

Somos do mesmo pó das estrelas, teimosos pozinhos cósmicos, obstinados em brilhar no compasso do sol ou no ritmo dos astros. Quando a arrogância das vassouras e a truculência dos coturnos políticos, econômicos, jurídicos e religiosos, querem nos reduzir a pó, sem terra, sem teto, sem prazer e sem direitos, resistimos e insistimos em ocupar todos os espaços, pela lógica do pó estelar.

Foi instalada a Era do Coronavírus e estamos na Idade do Bolsonauro. Micro e macrorganismos se dedicam a pulverizar nossa saúde, mas resistiremos; a degradar os nossos salários, mas os enfrentaremos; a fragmentar a nossa existência, mas lutaremos. Quando essa Idade passar e outra Era chegar, teremos finalmente a oportunidade de perceber que quanto mais pó eles tentaram produzir, mais aprendemos a resplandecer, como pó primordial, partículas do Universo.

Recife, 18 de maio de 2020

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Os sete pecados na Era do Coronavírus


Marcos Monteiro

No meu mosteiro compulsório, na Era do Coronavírus, na Idade do Bolsonáurio, a única regra sobre os pecados é cometê-los, e eu começo invejando. Muitos amigos e amigas, em suas próprias celas, têm mais luxúria do que posso, mas faço um esforço, mesmo admitindo que luxúria imaginada nunca será a mesma. Então, eu misturo os pecados e saboreio gulosamente uma manga, bem devagarinho, sentindo as nuances e texturas palatáveis, deixando o prazer escorrer pelas lembranças.

A gula é um dos meus pecados favoritos, embora sob receita médica e controle nutricionista; e eu vou saboreando, a prestações, o meu amendoim torrado e o feijão com arroz de cada dia, com tempero de filha. Às vezes, por puro exibicionismo, tiro uma foto e envio seletivamente, com requintes de crueldade, admito. Mas também degusto textos, vídeos, filmes, imagens, e, até sonhando, devoro alimentos exóticos. Essa noite, sonhei com parlamentares ao forno e pronunciamentos executivos ao molho pardo. Acordei com uma bruta indigestão.

Confesso que confessar é estratégia de pura ostentação, tipo campeonato de cicatrizes e narrativas de fragilidades, em que as vítimas perdedoras esperam os aplausos. Então, vou acumulando a minha ira, para saber se despejo em quem recebe ou em quem não investiga facadas, aguardando as supremas decisões sobre se estamos ou não em estado de sítio, em Atibaia. Interrompo a raiva do sistema econômico e das redes de desinformação, somente para me espreguiçar numa rede de pano e me desinteressar até do meu desinteresse, e abrir espaço virtual para piadas de primas, primos, irmãos e irmãs, sobrinhos e sobrinhas, os melhores humoristas do planeta (dos quais me orgulho), sendo o meu irmão caçula o melhor de todos, um cearense que nasceu em Sergipe.

Com tantos amigos e amores acumulados, vaidade é um pecado que não tenho direito de não cometer, até porque os vídeos com as acrobacias do melhor neto do mundo, são enviadas por meu filho, os quais moram em Feira de Santana. Morei muito tempo nessa cidade baiana, o suficiente para garantir que muitos melhores do mundo em alguma coisa estão ou estiveram por lá. Balançando na rede novamente, saboreio as poesias do meu filho e curto as fotos de suas pizzas, com água na boca; como vocês já desconfiam, do melhor poeta e pizzaiolo do planeta.

Fico pensando que o contrário da vaidade é a avareza; guardo segredos e ternuras, no fundo do baú, as quais não pretendo dividir nem por testamento. Tranquei lembranças e escondi palavras em túneis, sobre as quais me debruço solitário, proprietário único, olhando de soslaio possíveis predadores. E lembro, como era difícil, quando criança, dividir doces e guloseimas. Mamãe teve que me ensinar a partilhar, e eu já perdoei. Na nossa casa, toda a minha família sabe, eu comia metade do cuscuz com leite de cada manhã. A outra metade, os outros e outras dividiam. Mas eu ficava um pouco triste. Foi quando no meu aniversário, mamãe me permitiu, como presente, comer o cuscuz sozinho. Sou muito grato, e acumulo as lembranças de todos os cuscuz que já comi. A imagem de um cuscuz tornou-se símbolo de meus pecados prediletos. E confesso que, se eu tivesse um cofre, o protegeria com uma combinação bem complexa, e guardava lá dentro, longe de acessos indiscretos, cuscuz, leite e ovos.

Recife, 07 de maio de 2017