domingo, 24 de dezembro de 2017

Ave Maria! Feliz Natal!

veronicabenesi

Ave Maria e Feliz Natal

Marcos Monteiro

O Natal é o ponto nodal de variadas significações, o lugar de encontro de tradições antigas e novas, a encruzilhada de transeuntes celestes e terrestres e o albergue de pastores e magos peregrinos.

Celebração que surge como festa de proscritos, daqueles que aprendem nos becos da história a inventar o máximo de alegria do mínimo de condições, mas que vai se tornando com o desenrolar da história em festa de opressores, bacanal de esbanjamento que disfarça violência.

Numa pequena vila, um casal pobre de viajantes tem uma pequena criança, tendo como visitantes pastores, trabalhadores desclassificados, e magos, religiosos estrangeiros suspeitos. Jesus nasce em um estábulo e tem como berço um cocho de animais. No encontro entre insignificância e insignificantes, o nascimento da criança torna-se mensagem de nova vida. Os anjos compõem a nova canção para que os pequeninos inventem a nova dança, da paz e da boa vontade entre os homens.

O acontecimento aparentemente banal abala o equilíbrio dos céus e da terra. Os astros e os magos se tornam errantes e o medo chega ao palácio que transforma a alegria do nascimento em lágrimas por crianças assassinadas pelo poder covarde. O crime planejado contra o menino será consumado contra o homem Jesus, mais tarde.

Mas faz bem lembrar que o Natal é a comemoração de um parto. O corpo da jovem camponesa Maria, da desprezada cidade de Nazaré, tornou-se útero de Deus, lugar de gestação da nova humanidade.

No Natal somos convidados e convidadas a participar dessa re-creação. Convidados a sermos úteros em festa de gestação continuada, na alegria e paciência de um parto que mesmo doloroso é esperança e antecipação de um mundo em que a paz e a boa vontade entre as pessoas estão sempre à espreita. Portanto, ave Maria e Feliz Natal.

Recife, 24 de dezembro de 2017



quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

CINQUENTA CORES DO ARCO-ÍRIS



Cleide Amada

1. No dia do seu aniversário não sabia como fazer a homenagem que você merece. Então já que você completa cinquenta anos, fiz um inventário das emoções do nosso cotidiano. Uma para cada ano de sua vida.
São cinquenta tons, não de cinza, mas com todas as cores do arco-íris, como a diversidade que defendemos e celebramos.
2. Estabeleci uma estrutura concêntrica para que o AMOR fosse o centro de uma ordem descendente e ascendente.
3. Considero cada emoção bem positiva, mas para compor as cinquenta inseri cinco negativas para lembrar que o amor comporta desafios.
4. Algumas palavras tive que inventar senão não diriam bem o que pretendem.

AQUI VAI O COMPLEXO DE EMOÇÕES DE  Z-A e A-Z.

Zelo, xumbregamento, velocidade, unidade, totalidade, tristeza, suavidade, realização, quero-mais, paixão, óbolo, novidade, maravilhamento, ludicidade, justiça, intimidade, humildade, graça, fé, êxtase, desvelamento, dor, coragem, benevolência, AMOR, beatitude, companheirismo, dedicação, exuberância, fidelidade, glória, hilaridade, inteireza, impaciência, juvenilidade, leveza, mistério, nobreza, oração, pânico, pertencimento, querência, respeito, senilidade, surpresa, tenacidade, ubiquidade, verdade, xotemania, zen-ludismo.

Tudo isso para dizer que te amo a cada dia um pouco mais e que a nossa vida, em meio a um cotidiano desafiador, pode ser tudo menos monótona. E mais do que isso que você é a maior responsável pelo melhor de nossa relação e a sua vida merece comemorações e comemorações até que complete um século. Então será a hora de começar outro.

Um feliz aniversário com todo amor.

Marcos Monteiro

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

UMA PENÚLTIMA HOMENAGEM A BETE

Não esperávamos a notícia da morte de Elisabete, o que nos comoveu muito. Acostumados a vê-la enfrentar o câncer, em situações algumas vezes tão drásticas quanto, esperávamos simplesmente a sua volta de mais um internamento. Foram dez anos de uma luta que nos marcou, mas na noite de 19 de outubro deste ano de 2017 recebemos a notícia. Doeu muito.

A presença de Bete nos cultos da Igreja Batista do Pinheiro trazia um toque litúrgico especial. Estava sempre ali, quando o corpo deixava, com um sorriso meio enigmático, como quem sabe segredos que gostaríamos de perguntar. Na alma e no corpo levava essas misturas importantes para a nossa humanidade de cada dia, feminista, cristã, atenta a grandes e pequenas questões, intensa capacidade de crer, de lutar, de amar e de sofrer.

No Boquim da minha infância, no estado de Sergipe, havia um busto na praça, homenagem ao poeta da cidade, Hermes Fontes, com os seguintes dizeres, os quais parecem de encomenda para essa ocasião:

“Somente os que têm amado e têm sofrido
E quanto mais sofrido mais amado
Podem mostrar no coração ferido
O seu altar o seu apostolado.”

Amar cada vez mais a cada maior sofrimento parece ter sido missão e apostolado para Elisabete. O sofrimento é parte da vida e carrega a ambiguidade de ser lugar de destruição ou de aprendizado. O pastor Martin Luther King Jr, nos anos sessenta, conclamava os negros americanos a transformarem a sua “imensa capacidade de sofrer” em instrumento de luta por direitos. Bete lutou, além dos seus limites, pela igualdade de direitos, dentro da categoria de gênero e além, conversando, escrevendo, vivendo e especialmente estudando a Bíblia.

Na cerimônia do sepultamento, à qual não pude comparecer, Bete estava vestida com a camisa da Flor de Manacá. Lembramos o quanto ela falava sobre esse ministério da Igreja do Pinheiro, o quanto uma hermenêutica bíblica, a partir de um olhar feminista, havia sido libertadora na sua vida. A palavra “gênero” tão difamada hoje em dia, era seu campo de luta e o acolhimento a proscritos e proscritas da sociedade era jeito cotidiano de ser.

Pois é, Bete é flor de Manacá, símbolo de beleza e resistência, talvez flor sempre viva que o câncer não conseguiu impedir de distribuir profusão de sementes, maneira de se multiplicar em outras flores, e a morte, para a nossa esperança cristã é apenas caminho para jardins mais floridos.

Essa é uma penúltima homenagem a Elisabete de Lima Bezerra, diante de sua família, sua igreja, sua pastora Odja, seu pastor Wellington, e todas as suas amadas e amados. Penúltima como tantas que virão, porque na teologia de Dietrich Bonhoeffer, aquele que foi executado pela Alemanha de Hitler, vivemos aqui e agora o penúltimo, o último é a eternidade.


Maceió, 27 de outubro de 2017.