quinta-feira, 21 de junho de 2018

ANIVERSÁRIO, PIZZA E POESIA


Marcos Monteiro

Samir

Desde ontem que estou esperando um texto para o seu aniversário e são onze da noite e ele ainda não chegou. Pensei em falar de você como filho poeta e pizzaiolo, e dizer que você inventa pizza como faz poesia ou que inventa poesia como faz pizza, mas a comparação não pareceu tão bem como suas pizzas ou poesias. Você sabe que lhe acho o maior poeta da humanidade, quase no nível de Bandeira, Cabral e Pessoa. Vamos explicar claramente, para quem não conhece ainda minha opinião criteriosa e isenta: se eles tivessem sido mais cuidadosos (como quem faz pizza) teriam chegado ao seu nível.

Então pensei no seu jeito de ser andarilho e ser garçom, e que já planejou um dia percorrer o Brasil a cavalo e, de plano em plano, embarcou como garçom em um navio e foi bater na Noruega e na Alemanha e terminou mesmo em Paris. Três meses pelo metrô de Paris, quase sem nenhum euro, é uma boa história para contar para os netos quando Heitor lhe der esse presente. Você viaja como faz poesia ou suas viagens também são poesia, e sua mãe dizia que você tinha asas nos pés, e aí estão as cidades da Argentina, ou da Bolívia, ou da Espanha e Portugal, que não me deixam mentir. Fora as muitas viagens pelo Brasil. Mas também não era bem isso que eu pretendia escrever.

Lembrei da nossa longa história de contato, desses de pai e filho, construção de trinta e sete anos de amizade, porque sempre me achei mais amigo do que pai e acho que o seu jeito de ser filho é como o jeito de ser poeta, versejando os encontros e me encantando com criatividade lírica, sempre surpreendente. A gente junta muita lembrança quando se junta e prepara caminhos enquanto caminha, mas também não era por aí que eu desejava conduzir meu texto.

Sofri sofrimentos seus e gargalhei seus sorrisos e você sofre profundamente como um poeta e tem um senso de humor sutil como poesia e tem muita intensidade quando caminha pelas calçadas do amor ou das perdas e não era bem isso que eu queria lembrar.

Pois bem, já que é aniversário de filho e eu preciso terminar o texto antes que o dia termine (afinal, não fica bem escrever depois do aniversário), quero parabenizar pelo seu filho, porque você fez e faz um filho como quem faz poesia e o título é Heitor. Lembro que suas poesias são feitas e refeitas constantemente e vejo você criando e recriando Heitor diariamente, sendo pai o dia todo e ainda fazendo hora extra (claro que a frase é de Mafalda).

Parabéns Samir pelas pizzas, pelas viagens, pelas poesias, pelos amores e pelo Heitor. E parabéns pelo aniversário.

Maceió, 21 de junho de 2018            

terça-feira, 19 de junho de 2018

OS SEIS E TRINTA ANOS DE ZAILDA


Marcos Monteiro

Zaildinha

No seu aniversário eu quero reinventar a matemática e informar que você completou seis e trinta anos, em vez de trinta e seis, alterando a ordem para reiterar o dia em que comemorei seus seis anos de idade: os trinta vieram de lambuja. Lembro de você todo dia, mas hoje lembrei o dia todo. Quando acordei, quando almocei, quando caminhei e agora, enquanto escrevo, seu jeito suave de menina peralta, com a alegria de brincar de viver e a mania de criar e divulgar verdades.

Como eu sei que você gosta de inventar (não esqueço alguns dos seus planos criativos), fico pensando se você poderia inventar um aplicativo sutil que enviasse mensagens para serem sentidas. Então eu mandaria uma com cheiro de pipoca, com gosto de alface e que lhe acolhesse no colo, como tantas vezes. E quando eu escrevesse as palavras, viriam as imagens de você se jogando nas ondas, as ondas lhe jogando na areia e você, pingo de gente pingando água, meio sorrindo e meio se afogando, se jogando de novo no barulho do mar.

Esse jogo de empurra-empurra você também fazia com o futebol e era a menininha de seis anos, no meio de um pacote de meninos mais fortes, e às vezes você jogava bola e outras vezes a bola jogava você, e às vezes fazia gol e outras o gol lhe fazia. Mas você gostava de sorrir e de correr e também de fazer sorrir e de fazer correr. Tem momentos que eu penso que esse é o seu jeito de ser viva. Você empurra a vida e a vida lhe empurra e então você começa a empurrar de novo.

Ou então, esse é o seu jeito musical de viver, porque música e você sempre foram inseparáveis, amigas de todas as horas, caminho de interioridade que nunca acabou. A música empurra você e você empurra a música, e as duas vão correndo e sorrindo pela vida.

Hoje, você fez seis anos e trinta. Próximo ano, talvez eu consiga que você faça sete e trinta, porque lembrança de quem a gente ama nunca cabe em um aniversário ou em um texto. Lembrei de sua história de menina que quase se afogou quando nasceu e lembrei de sua facilidade de acolher crianças mal acolhidas. No meio da algazarra da criançada, você parava a sua e ia buscar o menino tímido e fora de roda. Você também foi “salva das águas”, como Moisés, mas não tem nome bíblico e não consegue completar mais de seis anos. Moisés precisou de oitenta anos para libertar um povo, e eu desconfio que se eu permitir que você chegue aos sete, você inventa uma revolução.

Lembrei que você foi me ensinando devagarinho a ser pai e um dia eu aprendo, prometo, dentro dos meus seis e sessenta anos. E queria muito aprender a lhe amar com a intensidade com que você ama. Se eu tivesse perto, esse texto eu lhe entregava depois do almoço. Como estou distante, fico imaginando um almoço surpresa que eu prepararia com um sorriso de quem está fazendo traquinagem.

E na mesa tem uma panela de pipoca, uma tigela bem grande de alface, um guisado de berinjela e um charuto de todo tipo para comermos juntos. Para os desavisados, informamos que charuto é o nome da comida árabe que saboreávamos e era uma grande panela repleta de couve, repolho, pimentão, cebola, tomate, berinjela, todos recheados, e que você era capaz de comer quente, frio ou gelado, e todo dia, se tivesse, e ainda levava para a escola, como merenda.

A sobremesa seria um pote de jambo e depois, cantávamos parabéns pra você e eu desejaria solenemente: Feliz aniversário, filha amada, parabéns pelos seus seis e trinta anos.

Maceió, 19 de junho de 2018

sexta-feira, 1 de junho de 2018

A novidade deste dia


Marcos Monteiro


A novidade deste dia é que Mary Ruth está grávida. Grávida de vida, de cinquenta e oito anos. Medida exata, resolve a quantidade mas não detalha a qualidade de tempo, porque Meirinha é parideira, o tempo todo, até hoje no seu aniversário. Grávida de sonhos, de ideias e de pessoas, principalmente.

O nome dela é mistura de duas figuras estranhas, Maria e Rute, bíblicas e esquisitas como essa minha irmã. Maria era uma palestina que engravidava fácil, até com o Vento, e foi a mãe de Jesus. Rute era uma herege atrevida e sedutora, seduziu Noemi e Boaz, e foi a bisavó de Davi, o qual foi o tralalalalavô de Jesus. Mary Ruth vive grávida da Ruah, nos seduzindo a todas e todos, com suas artimanhas sem arte.

Rute seduziu Noemi recitando poemas de amor e seduziu Boaz cuidando dos seus pés. Talvez tenha sido assim que Jesus, esse esquisito Filho de Deus, adquiriu a mania de lavar os pés dos outros. Com poesia na conversa e com cuidado nas mãos, Mary Ruth vive nos seduzindo e nos parindo a todas e todos, e cuidando de nossos pés, mãos, olhos e caminhos.

Gravidez é um processo complicado, acompanhado de dores e sorrisos, e Meirinha às vezes dói (ou tem vez que não dói?), e a sua gravidez parece que não acaba nunca, porque criança nem sempre tem vontade de nascer. Um dia, gostaria de ter tempo de contar quantas crianças Mary vem parindo e quais as novas.

Quando eu tenho coragem, eu me penso como um feto velho, gordo e vagaroso, com a maior preguiça de sair do útero dessa irmã que seria mais nova do que eu, se houvesse lógica no tempo. E lembro então daquela Maria palestina, parideira de humanos e humanas e parideira de Deus, que engravidava com o Vento.

Mary Ruth engravida com a Terra, com a Água, com o Fogo e com o Vento, e também é parideira do humano e do divino. No útero de Mary Ruth, nós vamos nos sentindo mais pessoas, com o melhor da nossa humanidade aflorando, e vemos Deus se tornar criança, leve, livre e feliz, nessa sabedoria que os adultos reprimem.

Nessas minhas insistentes curiosidades de criança, um dia eu sonhei e vi a Ruah, e ela parecia com os cabelos de Meirinha ao vento. E olhei para Deus e ele tinha o nariz e olhar inquieto de Mary Ruth. E olhei pra Jesus e era a cara e a coragem dessa minha irmã que arranja tempo e jeito pra tudo e pra todos. E eu acordei feliz e já quase posso dizer que conheço Deus.

Mas é isso e só isso: a novidade de hoje é que não há novidade, Mary Ruth está grávida, e de cinquenta e oito anos de vida. Parabéns, minha irmã muito amada.

Recife, 01 de junho de 2018