quarta-feira, 20 de julho de 2016

CARTA A WELINGTON SANTOS

Estou tentando escrever essa carta há quanto tempo? Nesses momentos de plenitude e ambiguidade queria lhe prestar uma homenagem de amigo, coisa assim meio particular, mas que gostaria de publicar.  Imagine, então, a complicação.

Nessas coincidências extraordinárias, estou tendo o privilégio de estar por perto exatamente na densidade desses tempos e isso me faz muito bem. Poderia estender essa homenagem a Odja, Andréia e Alana, e a toda a Igreja Batista do Pinheiro, claro. Mas quero me concentrar em você por diversos motivos e por uma razão admitida por todas e todos nós: a carga recai especialmente sobre você, talvez manias de estruturas inevitavelmente hierárquicas misturadas com o seu próprio temperamento e jeito de ser.

Engraçado, você tem um temperamento muito forte e tem colocado toda essa força a serviço das pessoas, diante até das estruturas. Mas você transita muito bem nas estruturas, com habilidade, coragem e desenvoltura; sempre transitou. Nesses espaços você se movimenta como quem é da casa, talvez uma criança meio traquina, talvez um adolescente rebelde.

Desse jeito, recolhe reações diversas, todas apaixonadas, e todas dentro do amplo espectro do ódio e do amor. Às vezes até misturados, mas sempre muito mais amor do que ódio. Fico me divertindo, lembrando de ódios de pais que não conseguem evitar amor e admiração de filhos. Crianças e avós, os dois extremos da vida, têm um profundo encantamento por você. Podem perguntar a Dona Jete e a Seu Jorge, ou a Valtinho e Jamile. No São João da Igreja do Pinheiro, ver você dançando forró com as avós e coco com as crianças, foi inesquecível.

Bem, estava pensando umas coisas. No domingo, 10 de julho, você chorou ao comentar a expulsão da Igreja Batista do Pinheiro do rol da Convenção Batista Brasileira. Eu estava viajando e não vi, somente ouvi os comentários. Lembrei quanto já esperávamos por esse lamentável acontecimento, e quando ouvi pessoas dizerem que não entendiam o nosso constrangimento, porque desde que nos decidimos a afrontar princípios e regras estruturadas, já sabíamos que isso aconteceria. É como se nós mesmos estivéssemos provocando tudo isso.

Mas, uma coisa é a dor de saber que a flecha está apontada, outra é receber o tiro. A dor pressentida se concretiza e a violência ganha a intensidade do corpo atingido e do sangue derramado. Jesus já pressentia a crucificação e sofreu todas as dores futuras no Getsêmani; mas na cruz as dores simbólicas e as dores físicas se encontram na fragilidade de um corpo que sangra como qualquer outro.

Epa! Parece que estou indo longe demais nas comparações. Você não é Jesus. Aliás, você se chama Wellington Santos, mas não é nenhum santo. Pelo contrário, todos e todas conhecemos os seus defeitos e ambivalências. Mas, que coisa surpreendente, poucos e poucas nos incomodamos com isso. Amamos você do jeito que é. E a impressão que temos é de que Deus lhe ama do jeito que você é, sem nenhuma intenção de que mude.

Pois é, somos diferentes e bem diferentes, mas somos amigos.

Então, chega a questão de porque você foi expulso da Convenção. Foi por acolher os diferentes do jeito que são. Foi por respeitar, admitir e até celebrar a alteridade. Alteridade é simplesmente a humanidade em sua diversidade exuberante, mas parece que algumas alteridades incomodam mais. E a alteridade aqui não era questão de desonestidade, ou de violência, ou de autoritarismo, mas apenas a alteridade do amor, ou dizendo de outro modo, o jeito diferente do outro ou da outra amar.

Apareceu na minha cabeça uma questão bem complicada. Por ter uma personalidade bastante forte, você personifica as instituições. Deixe eu ver se explico melhor. A Igreja Batista do Pinheiro é, de certo modo, a Igreja do Pastor Wellington, ou o próprio Wellington. Você viveu tanto essa igreja que a incorporou e não conseguimos imaginar Pinheiro sem você.

Mas você viveu muito também a Convenção Batista Brasileira e também a personificou. A Convenção de Wellington expulsou a Igreja de Wellington, ou Wellington expulsou Wellington. Percebe a minha confusão? Algum tipo de esquizofrenia institucional?

Mas posso afirmar com toda certeza: A Convenção perde mais do que você quando lhe expulsa. Ela se descaracteriza enquanto lugar de diversidade. E, partindo do conhecimento de que você não foi expulso nem por corrupção nem por desmando nem por mentira ou devassidão, todo mundo que não foi expulso deveria se sentir um pouco desconfortável.

Achei esse coração e os dizeres fantásticos, e uma representação do que acontece agora de fato. Expulso de uma Convenção, você continua acolhido em espaços bem maiores. O povo lhe acolhe totalmente, inclusive através dos seus movimentos organizados. Os depoimentos ao seu favor se multiplicam. Os sem-terra, sem-teto, Aliança de Batistas, Aliance, CEPESC, CEBI, grupos LGBTI, e pessoas, e igrejas, e gente, e cidadãos, e cidadãs, e pais, e mães, e filhas, e jovens, e adultos, e idosos, e crianças.

Siga em paz, meu amigo, em sua imensa liberdade e coragem de acolher,  nem o povo nem Deus nunca lhe excluirá.

Maceió, 20 de julho de 2016, por pura coincidência, dia do amigo.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

O IMPEACHMENT DE DEUS E A VILA MARAVILA

jornalgnn


Marcos Monteiro

Dessa vez fiquei bem irritado. Do mesmo modo que eu respeitava o ateísmo de Paranísio, esperava que ele respeitasse a minha religiosidade. Mas quando cheguei na Vila Maravila e o vi comandando a confecção de faixas, cartazes, dizeres, organizando cânticos e palavras de ordem para sair em passeata reivindicando o impeachment de Deus, não suportei e o interpelei nervoso. Mas ele me respondeu primeiro com aquela gargalhada que eu conhecia e depois foi argumentando pedagogicamente.

– Calma, pastor. O Deus que a gente está denunciando não é o seu não. Estamos solicitando o impeachment de Mamom, o deus do Capital, que está ocupando o púlpito de tudo que é Igreja. O seu Deus é o da libertação, do lado do oprimido e da justiça; o Deus que está agora no comando é o Deus da opressão que discrimina tudo que é minoria e vive fazendo lobby pra burguês, banqueiro e latifundiário. Esse Deus de direita está fazendo o maior estrago. E digo mais: Esse Deus é machista, corrupto, bandido e assassino.

As palavras vinham pesadas, mas o argumento era o mesmo de Gândhi, que afirmava que o Ocidente tinha se vendido a Mamom. Uma ideologia da prosperidade se disseminou por todos os cantos do país junto com uma pregação individualista, que coloca o fervor religioso no circo das benesses e modela um ser humano voltado para si mesmo, preocupado com vantagens pessoais, disposto a correr para a zona do conforto, sempre que gritam a palavra crise, cujo versículo principal pode muito bem ser o dito popular “panela quente, meu pirão primeiro”. Nos cânticos das igrejas, o pronome pessoal “eu” e o possessivo “meu” superam todos os outros, desenvolvendo uma egolatria de consequências nefastas para o cotidiano dos fiéis. Para Santo Agostinho, esse seria o verdadeiro significado da palavra idolatria (adoração do “mesmo”).

Mais uma vez eu tinha de ponderar e tentar pensar do lado de Paranísio, meu socialista predileto, pronto para lutar pelo mundo em que acredita e a construir o melhor socialismo possível em sua querida Vila Maravila. E tive que admitir que o cristianismo de hoje está sendo o “crack” do povo, adormecendo consciências e imobilizando atitudes concretas. Mamom é o verdadeiro Deus das igrejas, e Paranísio defende que todas as religiões estão vendidas e que diálogo religioso só não acontece de modo mais fácil, porque é típico do Capital fracionar e dividir, estratégia que alimenta a cultura de morte. Mamom é um Deus cruel, além de promover sacrifícios humanos em massa, transforma suas vítimas em cordeiros obedientes e passivos, disponíveis para a imolação, doutrinados por uma teologia do martírio muito conveniente.

Mamom também é um Deus vingativo, incitando o ódio contra seus hereges, cerceando seus espaços e dificultando a sua sobrevivência, ou simplesmente lançando-os na fogueira, sem direito a julgamento ou apelação. São muitos os que lutam por um mundo melhor que são simplesmente assassinados.

Fiquei pensando também no aparato ideológico que constitui a teologia do Deus Mamom e dos seus sacerdotes, espalhados por todos os setores da sociedade, mas especialmente pelo setor religioso, considerando, com dolorosa honestidade, cada sermão cooptado, disfarçado de amor ao próximo. Lembrei de Althusser afirmando que o responso litúrgico “amém” é a declaração verbal de uma disposição de aceitação passiva diante de todo tipo de autoridade, seja professor, patrão ou pastor. Com o crescimento do movimento carismático, desconfio que ao “amém” se acrescentou um “aleluia” que não apenas confirma, mas celebra entusiasticamente tudo aquilo que Mamom diz ou faz.

Foi muito interessante lembrar que antigamente os poderes do Capital proibiam religiosos e cristãos de participarem da política. Muitos de nós que queríamos lutar por um mundo melhor, de natureza socialista, éramos acusados de misturar indevidamente religião e política. Hoje toda igreja e todo pastor participa com entusiasmo de uma política partidária, desse partido único comandado por Mamom.

E fui assim pensando e achando que tinha muito mais a pensar, mas era preciso mais do que isso, tomar uma atitude. Então, me juntei a Paranísio e seus companheiros e companheiras e também escrevi em letras garrafais a minha faixa, numa mistura de dor e revolta: FORA DEUS, E LEVE JUNTO A BANCADA EVANGÉLICA.

sábado, 18 de junho de 2016

CRÔNICA DE UM MASSACRE AUTORIZADO

pragmatismopolitico

Marcos Monteiro

Sobre o massacre acontecido domingo passado, em Orlando, Flórida, EUA, é imperativo que se derrame uma enxurrada de textos e uma dose maciça de silêncio. Muita coisa se tem dito e muita análise de qualidade tem sido feita, mas a impressão que tenho é de que é muito pouco ainda. Quase como se fosse necessário parar todo outro pronunciamento e toda outra notícia para nos debruçarmos sobre esse momento, simbólico e assustador. De repente, toda a violência humana invadiu aquela boate, tornada uma espécie de buraco negro social, sugando toda a energia ao redor e aprisionando toda luminosidade humana.

Nesses momentos, simplesmente detesto as notícias televisivas. Porque o repórter precisa transmitir informações e fazer comentários no tom adequado com a emoção estudada, e o massacre me deu o direito de não ser obrigado a suportar isso. O jornalista hoje em dia tornou-se um fofoqueiro profissional e um ator de si mesmo, a serviço de qualquer coisa. Por isso, sobre tamanho derramamento de sangue precisamos de um derramamento de textos, desde textos panfletários até textos acadêmicos, com o compromisso apenas de que sejam textos dolorosos e indignados porque o massacre de seres humanos é massacre da humanidade. Também quando um ser humano assassina outro, assassina no outro a sua própria humanidade. Emblematicamente, Omar Mateen recebeu de volta a violência que desencadeou e foi morto pela polícia.

O massacre ocorreu nos EUA, espécie de paraíso da ideologia neo-liberal, mas confortavelmente o assassino tinha nome de estrangeiro e era filho de afegãos, o que todo mundo tenta ressaltar, as vítimas ainda são anônimas. Convenientemente também, o Estado Islâmico reconheceu a autoria, o que limita o massacre a um atentado terrorista feito por estrangeiros, fanáticos de outra religião: foi um massacre autorizado.

Mas, esse ato é o holograma de uma totalidade cultural de violência em que estamos mergulhados, violência física, estrutural e simbólica. No campo do simbólico, a violência sagrada ocupa um lugar destacado porque propriamente sagrada, feita em nome de absolutos que não precisam, por definição, prestar contas a ninguém. Então, mais do que nunca textos teológicos dolorosos e indignados precisam fazer parte da cachoeira de textos de que precisamos. Um pastor batista fez imediatamente um pronunciamento classificando o massacre como “excelente” e disse banalizando a dor de centenas de “gays” e de suas famílias  que “podíamos hoje dormir mais tranquilos”. Afinal, os “sodomitas” precisam desaparecer da sociedade porque são “abominação”.

Infelizmente, esse pastor não está sozinho. Sermões, estudos, pronunciamentos públicos ou rancorosos ou disfarçados de amorosidade, campanhas para negar mais direitos aos gays, são organizados por pastores e igrejas cristãs ocidentais, que reforçam preconceito e discriminação e autorizam direta ou indiretamente a violência. A luta contra a chamada “ideologia de gênero” na educação é apenas a luta para que as crianças não tenham nas escolas a oportunidade de contraponto a uma educação homofóbica que recebem em casa e nas igrejas cristãs, em sua maioria.

A homofobia está incrustrada igualmente na estrutura social. Desde a discriminação diante da oportunidade de trabalho até à proibição implícita de um comportamento homossexuais visível, na maioria dos lugares públicos. Os meus amigos homossexuais sabem que não podem passear de mãos dadas em um Shopping Center, por exemplo. Beijo na boca, nem pensar, isso é um direito apenas para héteros. A comunidade evangélica organizou uma verdadeira cruzada contra uma novela em que aparecia um beijo na boca entre mulheres no primeiro capítulo e nunca organizou nenhum movimento contra o assassinato sistemático de gays, nem vai fazer algum pronunciamento público contra o massacre acontecido agora. Entre o beijo e a morte, o problema é o beijo.

A existência de boates gay é a denúncia de um apartheid sexual óbvio. Todo mundo sabe que numa boate de todas e todos, gays não podem dançar juntos, desejem ou não desejem, se beijarem na boca ou se esfregarem escandalosamente. Héteros podem. “Gay” significa alegre e toda alegria não normativa é perigosa, já achava a teologia de “O nome da Rosa”, o famoso romance de Umberto Eco. Um lugar programado para a alegria e para o prazer se tornou em matadouro de carne humana. E parte da população oferece esse sacrifício humano a Alá, a Javé e até mesmo a Jesus Cristo.

Então, Omar Mateen  é apenas o braço armado de uma sociedade homofóbica e o momento é de profunda reflexão sobre os instantes  em que cada um de nós colocou mais pressão na panela e mais lenha na fogueira. O simples fato de repassar aquilo recebido sem exames mais profundos e com um tipo de misericórdia melosa e superficial nos faz cúmplices, faltando apenas a honestidade do Estado Islâmico de reconhecer a autoria. O massacre também foi autorizado por nossa teologia que tem cheiro de mofo e está manchada de sangue. Não dá mais para esconder.

Precisamos de uma abundância de textos e depois de silêncio. Precisamos desautorizar todo pronunciamento, toda chacota, todo riso nervoso diante de piadinhas sem graça, toda repetição de chavões populares, todo sermão superficial e generalizante, toda discussão descabida, todo estudo bíblico superficial, todo debate inútil sobre se o amor entre homossexuais é pecado. Porque diante de tamanha violência sobre tantas vítimas, um minuto de silêncio é muito pouco, precisamos de uma eternidade.