quinta-feira, 26 de março de 2020

O coronavírus na VilaMaravila

instituto humanitas unsinos

Marcos Monteiro

Nesses tempos loucos, precisava chegar na Vila Maravila e, aproveitando o primeiro descuido, fugi e fui me esgueirando por ruas, becos, pontes, morros, até descer a gruta e chegar. Encontrei no trajeto olhares hostis, escutei palavrões, constatando que estou no grupo de risco (para os outros), perigo de contaminação da humanidade. Na entrada, a turma da pesada me cercou até chegar Paranísio que depois de uma longa conversa me convidou para a sua casa.

Fiquei surpreso com a casa cheia de gente. A morada de Paranísio e Valdelice é um galpão bem grande, onde tudo acontece inclusive nada, com oito pequenas suítes. Ocupei uma e fiquei impressionado com cerca de trinta pessoas no galpão, junto com suas tralhas e colchonetes enrolados. Valdelice me explicou que faziam parte da população de rua dos arredores e foram convidados a enfrentarem juntos esse momento absurdo que o mundo vivia. Ela chamava isso de “convivialidade profilática”, uma alternativa ao “isolamento social” desse globo capitalista. Paraníso acrescentou que como “socialista de vergonha” tinha vergonha de viver isolado, tipo ermitão medieval, com medo da vida ou da morte.

A decisão pela “convivialidade profilática” tinha sido uma decisão coletiva, como as decisões mais sérias da Vila. Quase um mês antes da “confusão global”, Doutor Rildo conversou com Paranísio sobre os perigos de uma pandemia.  Aí Paranísio conversou com Mãe Silícia que conversou com Zé Cambraia que conversou com Seu Honório que conversou com Cocada e foi todo mundo conversando o tempo todo, discutindo tudo enquanto a vida continuava. Paranísio chama isso de “assembleia de índio” e quando chega a assembleia final está tudo mastigadinho, todo mundo tirando as dúvidas de todo mundo, Doutor Rildo e a esposa Maria das Graças, opinando como especialistas em saúde e então se estabeleceu na Vila, antes do país isolar tudo e todos, a comunidade da saúde.

Então, estou por aqui, na Vila Maravila, não sei por quanto tempo, cuidando do corpo, do coração e do olhar e vou explicando porque.

Paranísio é ateu e Valdelice é filha de santo. Então, como pastor evangélico, nessa comunidade quase socialista, eu me sinto acolhido e privilegiado, até por discutir textos da Bíblia, independente da religião de cada. E um pedaço do Sermão do Monte está há dias martelando na minha cabeça. Convivo há muito tempo com as mensagens do Sermão do Monte, como se fossem bailarinas do evangelho que me convidam a dançar. O que me encanta é que sempre há algum passo novo nessa dança. Vou tentar resumir um pouco dos caminhos da minha cabeça, tentando entender o que ia pela cabeça de Jesus e dos seus primeiros seguidores.

Em todo o ensino e vivência de Jesus, o Pai e o Reino, são duas realidades constantes. Chamar Javé de Pai, no carinhoso coloquial “Abba” podia ser considerada atrevida heresia, e entender esse misterioso Pai de Jesus tem sido complicada e inútil tarefa de minha existência. A questão sobre Deus, não-deus, o sagrado, o divino, pessoalidade, não pessoalidade de Deus, santos, deusas, deuses, infinita pergunta, tem a candente resposta de “Pai”, modo infantil de não responder, vocativo que apenas exclama, sem se preocupar com grandes questões. Leonardo Boff diz que Jesus aprendeu sobre a paternidade de Deus no convívio com seu pai, José. Presentes ou implícitos em todos os textos do evangelho, o Pai e o Reino também são a moldura maior do Sermão do Monte. Mas nesse pedaço específico, gosto de realçar o corpo e dois dos seus componentes, o coração e o olhar.

O Sermão do Monte inteiro se encontra nos capítulos 5, 6 e 7 do evangelho de Mateus e o pedaço que eu tenho ruminado é o texto que vai do capítulo 6, versículo 9 até o 34. Lá pelo meio, os versos de Mateus 6, 21-22 vão dizendo assim para mim:

Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração.
Os olhos são a candeia do corpo. Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio de luz.

Um coração descompassado e olhos brilhando é descrição para alguém feliz e esse texto começa dizendo para não concentrar o coração no dinheiro, não brilhar os olhos para a sedução do consumo. O grande adversário de Jesus era o deus Mamom, deus da riqueza, equivalente ao deus Capital que a Vila Maravila enfrenta o mais possível e todas e todos precisamos, talvez, reeducar o olhar.

Os tempos de Jesus não eram fáceis, com proliferação de muita pobreza e muita doença, e isso era um convite à angústia e preocupação. Um olhar iluminado, no entanto, não olha para a escassez, de comidas ou roupas, mas olha para a liberdade dos pássaros e para a exuberância das flores e consegue enxergar o cuidado do Pai. Nos versos 31 e 32 do capítulo 6, temos um convite a não gastar tanta energia com esse tipo de preocupação.

“Portanto, não se preocupem, dizendo: 'Que vamos comer?' ou 'Que vamos beber?' ou 'Que vamos vestir?'
Pois os pagãos é que correm atrás dessas coisas; mas o Pai celestial sabe que vocês precisam delas.”

A energia que a ansiedade pela falta de comida, bebida, roupa, dinheiro, consome é um desperdício inútil, o qual não acrescenta nenhum centímetro de vida ao nosso tempo. A vida é maior do que o alimento e o corpo é mais importante do que a aparência. Se tirarmos o olhar do que não temos e olhar ao redor, poderemos ver sinais do cuidado do Pai em todos os lugares, pássaros voando, flores brotando, gente se amando, às vezes em lugares inesperados. Mas para que não tornemos essa contemplação do Pai em religiosidade escapista é preciso procurar o Reino de Deus, como diz o verso 33 do mesmo capítulo.

Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas serão acrescentadas a vocês.”

Toda a energia dissipada em preocupação estressante deve ser usada na busca do Reino de Deus, e isso é um convite a uma nova prática. Esse Reino de Deus pode ser entendido como a visão de Jesus de um novo mundo, oposto ao imperialismo romano e à provinciana opressão judaica. A ideia tem uma complexa discussão, ao longo da história, mas pensar em um mundo melhor, próximo das utopias históricas, ou até do bem-viver do Acosta, pode nos ajudar a entender. Um mundo em que palavras como justiça, amor e verdade, se organizam em estruturas e relações diferentes.  Paranísio pensaria, com certeza, em uma Vila Maravila socialista, uma revolução total da política, da economia e das relações culturais e sociais, com muito mais igualdade para todas e cadas.

Chegou a hora do almoço e eu não pude evitar de me sentir em uma ceia eucarística, em que as mãos de Jesus eram as muitas mãos, cozinhando em muitos fogões, gente de todo tipo, idade, religião, orientação sexual, alegria liberada, conversa que nunca parava, diversidade de cores, sabores, assuntos, gentes. O último pedaço do trecho que dançava na minha cabeça era de uma força incomum, o verso 34.

Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã trará as suas próprias preocupações. Basta a cada dia o seu próprio mal.”

Combater o mal de cada dia, é convite a uma atitude teimosa diante de uma tarefa que não parece ter fim. Busque um mundo melhor hoje, combatendo com um olhar luminoso e um coração inteiro, inventando e reinventando a cada dia estruturas melhores e relacionamentos mais equânimes, diante do mal de hoje. Durma bem e quando amanhecer lute intensamente contra o mal de amanhã. Todo dia, aqui, então, estaremos lutado contra esse mal que acometeu a humanidade. Em “convivialidade profilática”, tomaremos todas as medidas para evitar contágio, incluindo o controle de acesso à comunidade, mas não abandonaremos nunca a solidariedade e a busca por um mundo de mais justiça, mais verdade e mais amor. Por causa disso, em plena Era do Coronavírus, os meus olhos estão brilhando.

Recife, 26 de março de 2020.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Minha primeira faxina na Era do Coronavirus

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MINHA PRIMERA FAXINA

Marcos Monteiro

No meu retiro no Recife, entre prisão domiciliar e mosteiro involuntário, na minha pequena cela no apartamento de minha filha, fiz a minha primeira faxina, no primeiro ano da Era do Coronavírus e lembrei de Tia Vasthy.

Toda prisão é justa, porque somos todas e todos pecadores diante de Deus e transgressores diante da lei, mesmo se conseguir provar que o apartamento não é meu. Mas monasticismo compulsório é desafio grande demais, embora pobreza, obediência e castidade não sejam tanto uma escolha na minha idade.

Caminhando para os setenta, pertenço por decreto à área de risco, ainda mais depois de ter sofrido um infarto. Meu corpo é ameaçado internamente pela deficiência do sistema circulatório e externamente pela complexidade louca do sistema de locomoção da grande cidade, veias e artérias sem coração. Mas, apesar do corpo e da idade, me senti feliz como um adolescente, porque a primeira faxina a gente nunca esquece.

Quando viemos morar no Recife, na Era da Ditadura que, embora meu tio poeta tenha sido torturado, nunca existiu, fomos acolhidos no apartamento de Tia Vasthy e fui incumbido de lavar o banheiro, com perfeição supervisionada. Tia Vasthy não era militar, tinha a patente de professora, e todos os seus alunos aprenderam obedientemente a ler, escrever e geografar. Então, de dia eu lavava o banheiro e de noite assistia à novela "O Sheik de Agadir", minha tia escondendo a emoção junto com algum segredo romântico.

No mosteiro obrigatório, ler, escrever e amar, serão as regras da minha ordem particular, e assistir a filmes e jogar virtualmente, nos entretempos. Um pouco antes do decreto de internamento universal, fiz uma viagem de doze horas de ônibus para Petrolina, voltei hora e meia de avião, tomei dois ônibus e dois metrôs para chegar em casa. Conferi pessoalmente a logística de contaminação da cidade grande e o desafio será tornar o contágio do amor e do humor mais veloz que a doença. Nossa família sempre achou que solidariedade e sorrisos eram contagiantes mas não temos certeza de que saberemos enfrentar vírus com gargalhadas.

Recentemente, fomos todos atingidos por uma violenta epidemia. Digo, todos os cidadãos brasileiros, eleitores ou não do mesmo, estamos sofrendo de “bolsonarite crucis”, provocada por uma bactéria disforme, e ainda não conhecemos todas as sequelas. Danos permanentes à saúde, atingindo fortemente os idosos e os mais pobres, depressão e pane no sistema nervoso central em muitos casos, esse micro-organismo baixou fortemente a imunidade da população, porta aberta para enfermidades de diversos teores, com mais óbitos do que podemos imaginar. Pouco a pouco, estamos criando resistência, mas precisamos com urgência da cura, contra a infecção e contra a virose.

Recife, 23 de março de 2020. 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

MAIS UM NATAL PARA A VIDA




Marcos Monteiro

Este ano foi de muita luta, muito luto, muita doença e muita dor, de pessoas ao nosso redor.

Mas chega sempre um Natal para chamar a esperança.

Anúncios de tempos em que a cumplicidade de camponeses, pastores proscritos, faz arriscarem o trabalho para ver a nova vida, por acreditarem em anjos.

Peregrinos estrangeiros, caldeus demonizados, vagam em busca de refrigério, por acreditarem nas estrelas.

E animais domésticos, num curral de uma aldeia insignificante, assistem ao parto do futuro.

Natal é o grito do cosmos de que a esperança pode ser resultado da mistura de crianças, molambos, proscritos e insignificantes que acreditam em utopias.

E o cântico de que qualquer mulher pode parir toda a vida do mundo em qualquer lugar.

Por isso, com a força do Natal, posso transformar todo luto em luta, toda dor em dom e o medo da vida em coragem de dávida.

Obrigado por você que nos ajudou, neste ano complicado, a chegar ao sempre Feliz Natal.

Recife, 25 de dezembro de 2019.