sexta-feira, 16 de setembro de 2016

RELEMBRAR E REIMAGINAR


Marcos Monteiro

Amanda distribuía o pão e o vinho e banhava o sorriso em lágrimas, muitas lágrimas. Havíamos acabado de dançar a ciranda da inclusão no circo da vida e o pastor Wellington transformou Amanda na síntese do nosso encontro “Reimaginar”. Era a celebração de encerramento, uma Ceia do Senhor, e a torrente de lágrimas de Amanda umedecia os nossos olhos e as nossa almas. Na nossa sociedade rotuladora, Amanda carrega uma etiqueta, e toda etiqueta tem marca e preço. A sua marca é “lésbica” e o preço que paga é toda a sua corporeidade dolorida, deformada por olhares enviesados e marcada a ferro e fogo por estigmas. O encontro era a oportunidade de nos livrarmos de todos os rótulos e de assumirmos a beleza da nossa humanidade plural e diversa. A Ceia era lembrança e partilha do corpo de Jesus, também alvo de olhares oblíquos e também lugar de estigmas, por ter partilhado sua vida com pecadores, publicanos e prostitutas, proscritas de seu tempo.

Quando conheci Amanda não sabia dos seus rótulos, somente percebia que ela não parava de andar, não parava de trabalhar e não parava de sorrir. Amanda nunca dessorria, nem mesmo para resolver problemas, e problema é o que mais tem na vida e na realização de encontros. Amanda é gerúndio do verbo amar, no feminino, e amada é o particípio passado. Amanda está sempre transbordante de amor e, por isso, recebe de volta muito amor também. Sente-se muito amada inclusive por sua igreja que a excluiu. Mas, por causa de sua marca não pode participar da Ceia. Mas no “Reimaginar” pode, com seu sorriso cheio de lágrimas, relembrando o movimento de Jesus e reimaginando a sua igreja.

Fomos chegando todas e todos pequenininhos, naquela fazenda perto de Brasília, no coração do Brasil, pisando o chão devagarinho, como Ronilso Pacheco avisou e como ele está acostumado a fazer. Carrega na pele o último tom do preto e denuncia, com o pé nas ruas e a Bíblia na mão, racismos epistemológicos, culturais e ambientais. A juventude negra está sendo exterminada, pretos, pretas e pobres são empurrados para as periferias do saber e para territórios cada vez mais precarizados. São os últimos a entrarem na universidade e os primeiros na cadeia, nesse disangelho racial perverso que as igrejas não percebem e não querem perceber.

O Deus da igreja não parece mesmo ser o Deus da cidade. As práticas das igrejas não são proféticas e as igrejas confundem a sua mobilidade com a mobilidade de Deus, além de criarem um Deus à sua própria imagem, masculino, branco, colonizador, todo poderoso. Joerg Rieger nos desafia a enxergar na cidade o Deus do outro lado, do lado dos marginalizados e proscritas, em sua diversidade e fraqueza. Um Deus negro, segundo Ronilso Pacheco e Sarah Thompson, torna-se símbolo sagrado acima de qualquer preconceito, e o feminino em Deus desautoriza a desigualdade ontológica entre o homem e a mulher que é o balizamento sagrado do machismo e da violência. As mulheres desorganizadas, um recorte feito por Ivone Gebara, carregam um Deus que não é nem o Deus da Igreja nem o Deus da teologia. Presente nos eco-sistemas que constituem a cultura ocidental, Deus é sempre lugar de embate teológico e político. Uma teologia feminista ou negra ou queer, recuperam o caráter libertador de um Deus cuja misericórdia o faz incluir sempre aquele e aquela que são alvos de discriminação, exploração e opressão. Para Joerg Rieger precisamos discernir o inimigo, esse capitalismo sistêmico, a quem todos esses procedimentos danosos interessam.

Naquele ambiente de exuberância de estrelas, nuvens, árvores, pássaros, águas e insetos, vislumbramos possibilidades de novos mundos com novas igrejas. A nossa própria diversidade era janela para lembranças e esperanças. Devagarinho fomos conversando, cantando, comendo, bebendo, dançando, participando de palestras, oficinas, noites culturais, e a palestina de Jesus de Nazaré lá no passado parecia uma recordação capaz de mudar, quem sabe, o destino dos palestinos de hoje. As antigas escrituras sagradas foram pretexto para se ocupar terras sem escrituras, e Nancy e Odja nos desafiavam o tempo todo a ler a Bíblia pelo olhar feminista. Se Jesus de Nazaré, a sofia de Deus, foi o corpo que enfrentou o império romano até à morte, todos os corpos oprimidos passam a ser lugar de enfrentamento, capaz de derrubar a lógica dos novos impérios, a lógica do Capital. As igrejas, infelizmente, transformaram-se em lugar de opressão do corpo, proibindo o prazer e deserotizando a vida, legando à juventude uma sexualidade miserável, caminho de culpa e de dor. As pessoas são excluídas das igrejas, nunca por exploração ou por opressão, ou qualquer outro tipo de injustiça ou violência, mas por quebrarem normas sexuais restritivas.

Entre conversação, oficinas e festivais, de 7 a 11 de setembro de 2016, foram cinco dias impactantes. O Reimaginar, de tantas protagonistas, foi resultado da imaginação, articulação e mobilização de Flávio Conrado, aquele que costumo dizer que caminha com uma ideia na cabeça e um laptop na mão. Na última mesa, Odja, pastora da Igreja Batista do Pinheiro, igreja que foi excluída da Convenção Batista Brasileira por decidir em assembleia aceitar pessoas homossexuais, LGBTTI, no seu rol de membros (excluída pela ousadia de incluir), nos trouxe em reflexão bíblica a lembrança do direito que temos de ler a Bíblia na liberdade da nossa compreensão. Estava ao lado de André Musskopf, teólogo luterano, homossexual, que nos desafiava com o seu humor inigualável a compreender da mesma maneira que a Bíblia pertence a todas e todos, e deve ser interpretada em comunidade. E então veio o momento de encerramento, dirigido por Wellington, marido de Odja, também pastor da mesma igreja batista.

A sua palavra desafiadora colocou Amanda e a Bíblia como principais referências para que nos colocássemos no mesmo círculo, de mãos dadas, enquanto nos preparávamos para a ceia. Ciranda da solidariedade profunda, em que cabíamos todas e todos, quaisquer que fossem as etiquetas que carregássemos em nossos corpos. E Amanda foi chamada para começar a distribuir o pão e o vinho. Transferida do espaço de exclusão não para o discurso triunfalista, mas para a tarefa humana e humanizadora do serviço e do cuidado, Amanda banhava o seu sorriso e a todas e todos nós com suas lágrimas. Coloquei Dom nos braços e fui buscar o meu pão e o meu vinho. Dom é um menino de três anos, filho de um amigo, Messias, e uma amiga, Elba. Dom não podia tomar vinho, por ser criança, mas tomou das mãos de Amanda um grande naco de pão, criança tem o direito de não medir, e saiu comendo e repartindo o pão da lembrança e da esperança, comigo e com muita gente, como sempre fazia Jesus de Nazaré.


quarta-feira, 20 de julho de 2016

CARTA A WELINGTON SANTOS

Estou tentando escrever essa carta há quanto tempo? Nesses momentos de plenitude e ambiguidade queria lhe prestar uma homenagem de amigo, coisa assim meio particular, mas que gostaria de publicar.  Imagine, então, a complicação.

Nessas coincidências extraordinárias, estou tendo o privilégio de estar por perto exatamente na densidade desses tempos e isso me faz muito bem. Poderia estender essa homenagem a Odja, Andréia e Alana, e a toda a Igreja Batista do Pinheiro, claro. Mas quero me concentrar em você por diversos motivos e por uma razão admitida por todas e todos nós: a carga recai especialmente sobre você, talvez manias de estruturas inevitavelmente hierárquicas misturadas com o seu próprio temperamento e jeito de ser.

Engraçado, você tem um temperamento muito forte e tem colocado toda essa força a serviço das pessoas, diante até das estruturas. Mas você transita muito bem nas estruturas, com habilidade, coragem e desenvoltura; sempre transitou. Nesses espaços você se movimenta como quem é da casa, talvez uma criança meio traquina, talvez um adolescente rebelde.

Desse jeito, recolhe reações diversas, todas apaixonadas, e todas dentro do amplo espectro do ódio e do amor. Às vezes até misturados, mas sempre muito mais amor do que ódio. Fico me divertindo, lembrando de ódios de pais que não conseguem evitar amor e admiração de filhos. Crianças e avós, os dois extremos da vida, têm um profundo encantamento por você. Podem perguntar a Dona Jete e a Seu Jorge, ou a Valtinho e Jamile. No São João da Igreja do Pinheiro, ver você dançando forró com as avós e coco com as crianças, foi inesquecível.

Bem, estava pensando umas coisas. No domingo, 10 de julho, você chorou ao comentar a expulsão da Igreja Batista do Pinheiro do rol da Convenção Batista Brasileira. Eu estava viajando e não vi, somente ouvi os comentários. Lembrei quanto já esperávamos por esse lamentável acontecimento, e quando ouvi pessoas dizerem que não entendiam o nosso constrangimento, porque desde que nos decidimos a afrontar princípios e regras estruturadas, já sabíamos que isso aconteceria. É como se nós mesmos estivéssemos provocando tudo isso.

Mas, uma coisa é a dor de saber que a flecha está apontada, outra é receber o tiro. A dor pressentida se concretiza e a violência ganha a intensidade do corpo atingido e do sangue derramado. Jesus já pressentia a crucificação e sofreu todas as dores futuras no Getsêmani; mas na cruz as dores simbólicas e as dores físicas se encontram na fragilidade de um corpo que sangra como qualquer outro.

Epa! Parece que estou indo longe demais nas comparações. Você não é Jesus. Aliás, você se chama Wellington Santos, mas não é nenhum santo. Pelo contrário, todos e todas conhecemos os seus defeitos e ambivalências. Mas, que coisa surpreendente, poucos e poucas nos incomodamos com isso. Amamos você do jeito que é. E a impressão que temos é de que Deus lhe ama do jeito que você é, sem nenhuma intenção de que mude.

Pois é, somos diferentes e bem diferentes, mas somos amigos.

Então, chega a questão de porque você foi expulso da Convenção. Foi por acolher os diferentes do jeito que são. Foi por respeitar, admitir e até celebrar a alteridade. Alteridade é simplesmente a humanidade em sua diversidade exuberante, mas parece que algumas alteridades incomodam mais. E a alteridade aqui não era questão de desonestidade, ou de violência, ou de autoritarismo, mas apenas a alteridade do amor, ou dizendo de outro modo, o jeito diferente do outro ou da outra amar.

Apareceu na minha cabeça uma questão bem complicada. Por ter uma personalidade bastante forte, você personifica as instituições. Deixe eu ver se explico melhor. A Igreja Batista do Pinheiro é, de certo modo, a Igreja do Pastor Wellington, ou o próprio Wellington. Você viveu tanto essa igreja que a incorporou e não conseguimos imaginar Pinheiro sem você.

Mas você viveu muito também a Convenção Batista Brasileira e também a personificou. A Convenção de Wellington expulsou a Igreja de Wellington, ou Wellington expulsou Wellington. Percebe a minha confusão? Algum tipo de esquizofrenia institucional?

Mas posso afirmar com toda certeza: A Convenção perde mais do que você quando lhe expulsa. Ela se descaracteriza enquanto lugar de diversidade. E, partindo do conhecimento de que você não foi expulso nem por corrupção nem por desmando nem por mentira ou devassidão, todo mundo que não foi expulso deveria se sentir um pouco desconfortável.

Achei esse coração e os dizeres fantásticos, e uma representação do que acontece agora de fato. Expulso de uma Convenção, você continua acolhido em espaços bem maiores. O povo lhe acolhe totalmente, inclusive através dos seus movimentos organizados. Os depoimentos ao seu favor se multiplicam. Os sem-terra, sem-teto, Aliança de Batistas, Aliance, CEPESC, CEBI, grupos LGBTI, e pessoas, e igrejas, e gente, e cidadãos, e cidadãs, e pais, e mães, e filhas, e jovens, e adultos, e idosos, e crianças.

Siga em paz, meu amigo, em sua imensa liberdade e coragem de acolher,  nem o povo nem Deus nunca lhe excluirá.

Maceió, 20 de julho de 2016, por pura coincidência, dia do amigo.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

O IMPEACHMENT DE DEUS E A VILA MARAVILA

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Marcos Monteiro

Dessa vez fiquei bem irritado. Do mesmo modo que eu respeitava o ateísmo de Paranísio, esperava que ele respeitasse a minha religiosidade. Mas quando cheguei na Vila Maravila e o vi comandando a confecção de faixas, cartazes, dizeres, organizando cânticos e palavras de ordem para sair em passeata reivindicando o impeachment de Deus, não suportei e o interpelei nervoso. Mas ele me respondeu primeiro com aquela gargalhada que eu conhecia e depois foi argumentando pedagogicamente.

– Calma, pastor. O Deus que a gente está denunciando não é o seu não. Estamos solicitando o impeachment de Mamom, o deus do Capital, que está ocupando o púlpito de tudo que é Igreja. O seu Deus é o da libertação, do lado do oprimido e da justiça; o Deus que está agora no comando é o Deus da opressão que discrimina tudo que é minoria e vive fazendo lobby pra burguês, banqueiro e latifundiário. Esse Deus de direita está fazendo o maior estrago. E digo mais: Esse Deus é machista, corrupto, bandido e assassino.

As palavras vinham pesadas, mas o argumento era o mesmo de Gândhi, que afirmava que o Ocidente tinha se vendido a Mamom. Uma ideologia da prosperidade se disseminou por todos os cantos do país junto com uma pregação individualista, que coloca o fervor religioso no circo das benesses e modela um ser humano voltado para si mesmo, preocupado com vantagens pessoais, disposto a correr para a zona do conforto, sempre que gritam a palavra crise, cujo versículo principal pode muito bem ser o dito popular “panela quente, meu pirão primeiro”. Nos cânticos das igrejas, o pronome pessoal “eu” e o possessivo “meu” superam todos os outros, desenvolvendo uma egolatria de consequências nefastas para o cotidiano dos fiéis. Para Santo Agostinho, esse seria o verdadeiro significado da palavra idolatria (adoração do “mesmo”).

Mais uma vez eu tinha de ponderar e tentar pensar do lado de Paranísio, meu socialista predileto, pronto para lutar pelo mundo em que acredita e a construir o melhor socialismo possível em sua querida Vila Maravila. E tive que admitir que o cristianismo de hoje está sendo o “crack” do povo, adormecendo consciências e imobilizando atitudes concretas. Mamom é o verdadeiro Deus das igrejas, e Paranísio defende que todas as religiões estão vendidas e que diálogo religioso só não acontece de modo mais fácil, porque é típico do Capital fracionar e dividir, estratégia que alimenta a cultura de morte. Mamom é um Deus cruel, além de promover sacrifícios humanos em massa, transforma suas vítimas em cordeiros obedientes e passivos, disponíveis para a imolação, doutrinados por uma teologia do martírio muito conveniente.

Mamom também é um Deus vingativo, incitando o ódio contra seus hereges, cerceando seus espaços e dificultando a sua sobrevivência, ou simplesmente lançando-os na fogueira, sem direito a julgamento ou apelação. São muitos os que lutam por um mundo melhor que são simplesmente assassinados.

Fiquei pensando também no aparato ideológico que constitui a teologia do Deus Mamom e dos seus sacerdotes, espalhados por todos os setores da sociedade, mas especialmente pelo setor religioso, considerando, com dolorosa honestidade, cada sermão cooptado, disfarçado de amor ao próximo. Lembrei de Althusser afirmando que o responso litúrgico “amém” é a declaração verbal de uma disposição de aceitação passiva diante de todo tipo de autoridade, seja professor, patrão ou pastor. Com o crescimento do movimento carismático, desconfio que ao “amém” se acrescentou um “aleluia” que não apenas confirma, mas celebra entusiasticamente tudo aquilo que Mamom diz ou faz.

Foi muito interessante lembrar que antigamente os poderes do Capital proibiam religiosos e cristãos de participarem da política. Muitos de nós que queríamos lutar por um mundo melhor, de natureza socialista, éramos acusados de misturar indevidamente religião e política. Hoje toda igreja e todo pastor participa com entusiasmo de uma política partidária, desse partido único comandado por Mamom.

E fui assim pensando e achando que tinha muito mais a pensar, mas era preciso mais do que isso, tomar uma atitude. Então, me juntei a Paranísio e seus companheiros e companheiras e também escrevi em letras garrafais a minha faixa, numa mistura de dor e revolta: FORA DEUS, E LEVE JUNTO A BANCADA EVANGÉLICA.