segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O DEUS DO BARRO

Uma tarde de conversa na casa de Mãe Silícia, ao som de músicas de Petrúcio Amorim e em volta do mesmo café com pão e ovo frito. A música, "Deus do Barro", homenageava o saudoso artesão de Caruaru, Vitalino, e os seus internacionalmente conhecidos bonecos de barro. Nossa imaginação e nossa fala se moviam no ritmo do forró e nas possibilidades de sentido trazidas por essa música especial. De modo criativo, o compositor associa a criação do Mestre Vitalino às narrativas bíblicas da criação, com extremada sensibilidade.

Quando Deus fez o homem e sua semelhança
Foi amassando o barro com a mão.
Deu um sopro de vida de esperança,
Espalhou pelo mundo a criação.

Pra fazer com amor é preciso fé
Da mistura da lama saber tirar
A imagem de toda Maria e todo Zé
Tudo aquilo que a terra pudesse dar

– “Todo mundo é isso, filho – sopro de Deus sujo de lama. Mas quando Deus sopra, a lama não é mais lama”.

Lembrei do mito órfico, de que somos feitos de terra e de céu, ou filhos da terra e do céu estrelado, como diziam os antigos. Mas também lembrei que vidro é exatamente isso, areia soprada a altas temperaturas, e as belíssimas esculturas que os artesãos do vidro conseguem produzir. Homens e mulheres somos e vivemos o paradoxo, a mistura, a contradição entre o possível e o impossível, entre o frágil e o forte, entre o finito e o infinito. A nossa beleza e grandeza consiste exatamente nisso.

Na construção do poeta, somos “sopro de vida de esperança” espalhados pelo mundo, criados com amor e fé. Nos relatos bíblicos, lama transformada em imagem de Deus, definidas nas imagens concretas de “toda Maria e todo Zé”. Como imagens do criador, somos também chamados a criar, da mesma maneira que o mestre Vitalino. Criando os seus bonecos, Vitalino torna-se símbolo de um Deus que cria com sabedoria, capaz também de tirar beleza e grandeza do barro.

Ficamos conversando e pensando nessas conversas em que vamos também nos criando conjuntamente, processo educativo em que a nossa imagem é desafiada a crescimento constante na busca incessante dessa imago dei, a qual na concepção de Jung é essa imagem de nós mesmo em plenitude de sabedoria. Criamos a nós mesmos e criamos o outro, tríade educativa de amor, esperança e fé, lembrada por Paulo Freire. Amar as pessoas, esperar por suas transformações e libertação e crer em seu potencial e na força do diálogo e da comunhão. Assim, juntos nos arriscarmos à criação artesanal de uma nova humanidade.

O boneco do Mestre Vitalino
É grandeza por ter simplicidade
Com o barro ele fez o seu destino
Pelo barro ganhou eternidade.

Amassa com a mão, a massa.
Um boneco, uma banda de pife,
um dentista, um cavalo, um boi de carro.
Amassa com a mão, a massa.
Se Deus é um vitalino
Vitalino é o Deus do barro.

A grandeza da criação se alcança pela simplicidade do barro. O que é preciso é pôr a mão na massa, sujar as mãos com a lama para que a beleza surja em sua plenitude. Destino de criador é sujar as mãos com o barro e isso é seu caminho de eternidade.

A criação aparece na vitalidade do diverso, “um boneco, uma banda de pife, um dentista, um cavalo, um boi de carro”. As possibilidades da criação são infinitas e precisamos aprender a celebrar “tudo aquilo que a terra pudesse dar”. Criar, enquanto participantes do processo educativo, não é limitar, mas respeitar a multiplicidade de formas da vida e celebrá-la. É preciso pôr a mão na massa e deixar que o próprio barro vá escolhendo os seus caminhos e suas formas.

O poeta do forró, Petrúcio Amorim, termina na ousadia belíssima da comparação entre Deus e Vitalino. Deus é um vitalino, sábio ancião, ancestral que reúne toda a sabedoria acumulada pelos séculos. Mãe Silícia é um símbolo dessa sabedoria criativa capaz de permitir que a vida siga cursos inesperados e encontre caminhos inusitados de simplicidade, grandeza e beleza.

Vitalino, na lógica poética, é o Deus do barro, aquele que encontrou todo o potencial divino de transformar barro em grandeza, desenhos da vida que vão se espalhando pelo mundo todo, transmitindo a esperança na capacidade humana de encontrar caminhos do viver. Ele nos comunica a certeza das possibilidades do barro e nos convida a sujar as mãos com a lama criativa e criadora capaz de produzir uma humanidade mais digna e mais bela.

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