sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A HOMOSSEXUALIDADE DE PLÍNIO E O ABORTO DE MARINA - II

Marcos Monteiro*

No texto da semana passada, aproveitei a homossexualidade do meu amigo Plínio, que não é o presidenciável do PSOL, em quem pretendo votar, para discutir a questão homossexual. E recordo agora o aborto de Marina; não é a candidata do PV também, nem sei se seu sobrenome é Silva, mas bem poderia, até porque dilemas sobre aborto estão mais próximos das silvas do que de outros sobrenomes mais confortáveis.

Não sei se há trabalho mais maçante do que o bancário. Para o meu jeito inquieto e minha formação crítica, trabalhar na Caixa Econômica Federal, nos anos oitenta, seria menos privilégio e muito mais circunstância: era o jeito. Assim que pude me livrei desse fardo. Aliava a isso a sensação de que trabalhava contra o cidadão comum, alimentando o sistema bancário, ainda mais lembrando de Bertrand Russell a afirmar que banco, em si, era crime muito maior do que assalto a banco.

Marina era uma cliente que tornava as nossas tarde bancárias menos monótonas, com a sua exuberância jovem e sua alegria contagiante. Lembro de Clemildo, a cara sempre feia e sempre fechada se desmanchando em sorrisos abertos pela irreverência da menina. Porque era uma menina, nos seus dezenove anos, disposta como toda jovem a descobrir as estradas da vida, programada para a alegria e para a paixão. Uma segunda-feira, Marina não apareceu e a tarde ficou mais triste; e não compareceu nunca mais.

Somente alguns dias depois soubemos da morte de Marina (que seria ou não seria da Silva). Morreu ao tentar aborto em clínica clandestina, vítima de bisturi açougueiro, migrando de uma mesa cirúrgica mal aparelhada para as estatísticas desumanizantes. Tornou-se número, definição, conceito, generalização, dogma, coisas que já afirmei me interessarem bem menos que as pessoas humanas, as Marinas e os Plínios dos descaminhos da vida.

Se essa historinha serve de ilustração tanto aos militantes que são contra quanto aos que são a favor do aborto, ela nos remete às situações humanas e às decisões existenciais em situação limite, onde os nomes próprios valem mais. E as decisões sobre enfrentar uma gravidez não planejada ou realizar um aborto surgem para mulheres de todas as classes sociais, em diversas circunstâncias, por diversos motivos.

A discussão sobre ética não se resume na opção plebiscitária, contra ou a favor, bem ou mal, mas existem os adiáforos (os tanto faz). Ainda mais, as decisões não se estabelecem sempre entre bem ou mal, o chamado conflito ético; quando é assim é fácil decidir. O problema maior é decidir entre dois bens ou entre dois males, o chamado dilema ético. Isso sempre acontece em situações limites, costumeiramente onde o aborto se apresenta.

Novamente, quero evitar a discussão filosófica sobre direitos do embrião, ser potencial e ser atual (conceito meio aristotélico), realidade e idealidade, existência enquanto história, e me concentrar na questão da saúde pública e da legislação sobre o aborto. No caso específico de Marina, houve não somente um aborto, mas dois abortos. Marina abortou a criança e a sociedade, como um todo, abortou Marina. Morreram um feto, criança que viria a existir, e uma jovem (quase adolescente) pessoa que já existia. A criminalização não resolveu (e a fiscalização não resolveria) a questão em pauta. Mulheres decidem abortar, apesar da legislação atual e da vigilância punitiva dos religiosos.

Não conheço ninguém, em sã consciência, que seja favorável ao aborto em si. Mas conheço muitas mulheres que praticaram o aborto (sempre em meio a muita dor e levando todo o processo decisório em enlouquecedor silêncio). Aprendi a compreender o movimento católico “Mulheres pelo direito de decidir” e as militantes que percebem que a decisão nem sempre é sobre aborto ou não aborto, mas sobre qual aborto se pode escolher em situações concretas de pessoas com nome próprio.

Não estou do lado do aborto (esse conceito onde cabe tanta história), estou do lado dessas pessoas, mulheres em suas angustiantes decisões. Por isso, sou favorável à descriminalização do aborto e a políticas públicas que garantam acompanhamento psicológico e assistência médica às mulheres que optaram pelo aborto. Em vez dos conceitos, das generalizações e dos dogmas estou do lado dos plínios e das marinas, em suas vivências complexas.

Recife, 17 de setembro de 2010

*Marcos Monteiro é assessor de pesquisa do CEPESC. Mestre em Filosofia, faz parte do colégio pastoral da Comunidade de Jesus em Feira de Santana, BA. Também é coordenador do Portal da Vida e faz parte das diretorias do Centro de Ética Social Martin Luther King Jr. e da Fraternidade Teológica Latino-Americana do Brasil
CEPESC – Centro de Pesquisa, Estudos e Serviço Cristão. E-mail cepesc@bol.com.br, site www.cepesc.com.
Fone: (71) 3266-0055. Veja esse texto também no blog http://www.informativo-portal.blogspot.com/

Um comentário:

  1. Meu amigo e mestre Marcos! Você, cujas andanças por essa vida são bem maiores que as minhas, me diga uma coisa: por quê é tão difícil para a maioria das pessoas de igreja aceitarem que a vida humana é mais valiosa que os dogmas religiosos? Olhe, o que lhe peço é o seguinte: faça-nos o favor de viver pelo menos uns 200 anos!!!

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