Marcos Monteiro*
Se um regime democrático é
constituído por regras que definem pessoas responsáveis por tomarem decisões em
prol de uma coletividade, o jogo político deve ser analisado a partir dos seus
jogadores e também das suas regras. Ser democrata seria minimamente cumprir as
regras do jogo. Essa definição minimalista que nos remete a Norberto Bobbio não
nos revela toda a complexidade que se estabelece quando o jogo começa a ser
jogado.
Os jogadores, via de regra, não
estão afeitos ao jogo democrático. Em outras palavras, o sistema não
disponibiliza uma educação do cidadão que exerce um poder partilhado. Em todas
as instâncias da sociedade, seja na empresa, na escola, em instituições e
movimentos, a tendência à autocracia, a multiplicação de procedimentos para
burlar as regras do jogo, a facilidade de não se fazer prevalecer o interesse
da maioria acontece mais comumente. Tornar uma sociedade fortemente
hierarquizada em sociedade democrática é o desafio impossível que poucos tentam
de verdade.
Quando nos aproximamos de
eleições majoritárias, especialmente da eleição presidencial, o jogo se torna
mais visível e sua complexidade mais evidente. Ganhar o jogo se torna objetivo
máximo (não é esse o objetivo de qualquer jogo?) e as regras são postas em
segundo plano. Os interesses individuais achincalham de tal modo os interesses
coletivos que esquecemos algumas noções básicas que fazem de uma democracia um
sistema mais forte.
No noticiário, as manobras dos
presidenciáveis são tão esdrúxulas que fazem do jogo um espetáculo imprevisível
em que os pronunciamentos se tornam provisórios e instáveis. Uma rede que não
seria um partido tenta virar partido e reclama das regras quando não consegue.
Ambientalistas e desenvolvimentistas se unem em torno de um grande ideal:
ganhar as eleições, não importando o preço que o planeta terá de pagar depois.
Militantes históricos de esquerda e lobistas experimentados de direita
conseguem se encontrar também debaixo do mesmo guarda-chuva. E assim vai.
A participação do cidadão nesse
jogo democrático acontece de modo tênue e esporádico, escolhendo representantes
sem que existam mecanismos claros de prestação de contas do mandato. Os espaços
de maior participação, como os conselhos democráticos, orçamentos
participativos, congressos de cidadania, tendem via de regra a ser cortinas de
fumaça que desviam a atenção para o lugar onde o jogo realmente está sendo
jogado.
Então, temos os grandes jogadores
desse jogo que sempre saem ganhando, qualquer que seja o resultado de qualquer
eleição. Grandes conglomerados econômicos, comandados por oligarquias, são
jogadores experientes que sabem manobrar muito bem as regras e procedimentos.
Esse poder invisível vicia de saída o jogo democrático, baralho de cartas marcadas
distribuídas por seus interesses.
Candidatas e candidatos sabem
disso e compreendem que sem parceiros econômicos de peso não conseguem nem
mesmo participar do jogo. Uma eleição presidencial é também um grande negócio
que requer um grande investimento financeiro. Mais do que convencer eleitores, todo
candidato precisa encontrar financiadores para os seus objetivos pessoais.
Ganhar o jogo é o que realmente interessa. Seguir as regras, se possível, ou
burlar as regras, se a impunidade for garantida, está em função desse objetivo.
*Marcos Monteiro é assessor de pesquisa do
CEPESC. Mestre em Filosofia, faz parte do colégio pastoral da Comunidade de
Jesus em Feira de Santana, BA e do grupo de pastores da Primeira Igreja Batista
em Bultrins, Olinda, PE. Também faz parte da diretoria da Aliança de Batistas
do Brasil e é membro da Fraternidade Teológica Latino-Americana do Brasil.
CEPESC – Centro de Pesquisa, Estudos e
Serviço Cristão. E-mail cepesc@bol.com.br, site www.cepesc.com.
Fone: (71) 3266-0055.
Nenhum comentário:
Postar um comentário