segunda-feira, 23 de março de 2020

Minha primeira faxina na Era do Coronavirus

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MINHA PRIMERA FAXINA

Marcos Monteiro

No meu retiro no Recife, entre prisão domiciliar e mosteiro involuntário, na minha pequena cela no apartamento de minha filha, fiz a minha primeira faxina, no primeiro ano da Era do Coronavírus e lembrei de Tia Vasthy.

Toda prisão é justa, porque somos todas e todos pecadores diante de Deus e transgressores diante da lei, mesmo se conseguir provar que o apartamento não é meu. Mas monasticismo compulsório é desafio grande demais, embora pobreza, obediência e castidade não sejam tanto uma escolha na minha idade.

Caminhando para os setenta, pertenço por decreto à área de risco, ainda mais depois de ter sofrido um infarto. Meu corpo é ameaçado internamente pela deficiência do sistema circulatório e externamente pela complexidade louca do sistema de locomoção da grande cidade, veias e artérias sem coração. Mas, apesar do corpo e da idade, me senti feliz como um adolescente, porque a primeira faxina a gente nunca esquece.

Quando viemos morar no Recife, na Era da Ditadura que, embora meu tio poeta tenha sido torturado, nunca existiu, fomos acolhidos no apartamento de Tia Vasthy e fui incumbido de lavar o banheiro, com perfeição supervisionada. Tia Vasthy não era militar, tinha a patente de professora, e todos os seus alunos aprenderam obedientemente a ler, escrever e geografar. Então, de dia eu lavava o banheiro e de noite assistia à novela "O Sheik de Agadir", minha tia escondendo a emoção junto com algum segredo romântico.

No mosteiro obrigatório, ler, escrever e amar, serão as regras da minha ordem particular, e assistir a filmes e jogar virtualmente, nos entretempos. Um pouco antes do decreto de internamento universal, fiz uma viagem de doze horas de ônibus para Petrolina, voltei hora e meia de avião, tomei dois ônibus e dois metrôs para chegar em casa. Conferi pessoalmente a logística de contaminação da cidade grande e o desafio será tornar o contágio do amor e do humor mais veloz que a doença. Nossa família sempre achou que solidariedade e sorrisos eram contagiantes mas não temos certeza de que saberemos enfrentar vírus com gargalhadas.

Recentemente, fomos todos atingidos por uma violenta epidemia. Digo, todos os cidadãos brasileiros, eleitores ou não do mesmo, estamos sofrendo de “bolsonarite crucis”, provocada por uma bactéria disforme, e ainda não conhecemos todas as sequelas. Danos permanentes à saúde, atingindo fortemente os idosos e os mais pobres, depressão e pane no sistema nervoso central em muitos casos, esse micro-organismo baixou fortemente a imunidade da população, porta aberta para enfermidades de diversos teores, com mais óbitos do que podemos imaginar. Pouco a pouco, estamos criando resistência, mas precisamos com urgência da cura, contra a infecção e contra a virose.

Recife, 23 de março de 2020. 

17 comentários:

  1. Fantástico! Você sempre consegue traduzir a realidade com suas palavras. Muito obrigada. Beijos

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  2. Parabéns Marcos, um texto excepcionalmente belo... e contagiante. Já li e reli 3 vezes.

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  3. Marcos,
    Seu humor inteligente é um alento e uma alegria nesses tempos difíceis!
    Obrigado por me fazer rir, sentir e pensar com esse seu texto.
    Que continues bem "para nossa alergia"!
    Abraço, querido!

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  4. Parabéns Marcos. Os seus escritos e a sua presença simples revela sua capacidade de ser um contemplativo na realidade com todas as suas complexidades e beleza. Obrigada por compartilhar.

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  5. Muito lindo Marcos. Sempre poeta e agradabilíssimo para ler e ouvir. Estou aguardando aquelas anotações da Escola Bíblica. Lembra?

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    1. Tentei enviar para Irmã Dária e outras pessoas, inclusve Herlon. Aqui não traz a sua identificação. Se me enviar eu tento. Mandei emails e whatsapp. Meu zap é 82-988228784

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  6. Que massa... você escreve com asas, quanta liberdade. É por aí, andei fazendo faxinas também e deparei- me aqui com um livrinho antigo em espanhol La Oracion do Karl Barth. Abraço

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  7. Belíssimo texto meu amigo!Sempre é muito bom ler e ouvir você. Por falar nisso estou com saudades de lhe encontrar e conversar com você. Um abraço!Patrícia Souza.

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  8. Perfeito. Me sinto privilegiado por ter lhe conhecido e ter participado outrora de sua escolha para assumir como pastor da Igreja Batista do Pinheiro em Maceió. Seu texto foi belíssimo e apropriado para o momento que estamos passando. Só fiquei triste, quando no final você descreveu a eleição de um cristão para a presidência do Brasil como sendo uma violenta epidemia, chegando a chamar de Bolsonaro te crúcis. Depois de décadas nossa nação, que não foi escolhida como a terra prometida, mas foi escolhida como a terra abençoada, estava entregue a governantes que não respeitavam o cristianismo e governavam para destruir as famílias, propagar e disseminar o pecado, governantes que roubaram nossas riquezas e nossos valores, não só financeiros mas o mais importante, valores cristãos e familiares, governantes que para enriquecer ilicitamente, desviaram bilhões de reais para contribuir com ditaduras comunistas, que seus ditadores enriquecem enquanto seus povos mínguam na miséria, e que aqui desviaram recursos que deveria ser usados para saúde (sim, a saúde que você falou) e segurança como também infraestrutura, construindo estádios de futebol superfaturados que hoje estão sem uso como grandes elefantes brancos. Essa bactéria disforme como você chamou, é um cristão, apoiado pelos cristãos, que está estancando com pulso de ferro, e creio, com a orientação de Deus, todos esses desmandos que estava a décadas enraizadas na nossa terra abençoada. Chegamos lá, não foi fácil e nem será, é uma batalha atrás da outra, mas estamos vencendo com a graça de Deus. Mas a luta é grande e uma guerra longa, onde esperamos que pelo menos os verdadeiros cristãos estejam do lado do bem. Quanto a esse vírus que estrategicamente a China lançou na terra eu chamo que foi uma guerra (talvez a terceira guerra mundial que ela venceu sem usar uma bala. E vemos políticos da velha política ainda tratando a China como um parceiro e pedindo desculpas por palavras ditas contra eles.

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  9. Já estava com saudade de lhe ler! Que bom saber que está bem! Se cuida

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  10. Mirabolante. Expressa sentimentos que posso me fazem bem. Sábias palavras de quem vive com alegria. Bom exílio, amigo.

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  11. Meu amigo Marcos, que saudade de você. Que texto maravilhoso. Como sempre muito inteligente. Abraços!

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  12. Vibrante Marcos,
    Bacana trazer a memória suas experiências e transmitir seus níveis de descobertas e preocupações.
    Namastê...

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  13. Meu caro Marcos, existem pessoas que sentem-se mais confortáveis sem chão sob os pés. Estão sempre optando pelo fanatismo cego, indiferentes à responsabilidade ética cristã, preferem viver em um mundo preto e branco. Para estes o seu belo e primoroso texto é infelizmente desnecessário e inútil.
    Como disse Bonhoeffer de sua prisão nazista:
    "A parvoíce é um inimigo mais perigoso do bem do que a maldade."
    É por essas e outras que ainda prefiro conversar com cágados, meu amigo.

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