sexta-feira, 11 de maio de 2018

A CAMISA NOVA DO PROFESSOR EFRAIM



Marcos Monteiro

A notícia me atingiu. O Professor Efraim (chamado carinhosamente assim por tantas pessoas) mudou de vida. Completou os seus noventa anos de bela vida intensa e resolveu começar outra, infinitamente. Perambulei pelo dia, entre tristezas e lembranças, recolhendo momentos, desses que se agarram para sempre em nossa pele e no coração.  

Foi um privilégio conviver com o professor Efraim,  boa parte da minha vida na mesma casa. Possuía uma sabedoria maior do que ele mesmo (e ele era grande), porque advinda de uma vida de muitas lutas e de um Deus e de um Jesus com os quais conversava todo dia. Professor Efraim amava muito Jesus e era muito amado por Ele (além de ser muito amado por todas e todos nós).

Há poucos anos atrás, ele me levou ao seu quarto e me mostrou uma camisa nova bem elegante e me explicou: “Marcos, eu tenho certeza de que Jesus vai voltar antes de eu morrer e comprei essa camisa para o nosso encontro”. E me explicava que a inimiga chamada morte seria derrotada com a volta de Jesus. Para ele, então, a chamada Parusia não era teologia ou doutrina, mas desejo e saudade.

Desajeitamente, confesso, muitas vezes tento aplicar lições ditas ou não ditas da sua vida. Muito bom em relações humanas (ou muito humano em suas relações), tratava cada pessoa como se fosse única e tinha todo o tempo do mundo para ouvir, refletir, aconselhar e orar com esta. Não interessa se a fila era grande, ou se estava administrando uma grande empresa, como presenciei no Colégio Americano Batista, quando ele era o diretor.

Eram duas horas da tarde e havia mais de dez pessoas esperando para falar com o Professor Efraim que ainda não havia almoçado. Passei rapidamente pela porta do seu gabinete, somente para um aceno, através do vidro, e ele me fez entrar. Fiquei meio encabulado e tentei me apressar, pensando na fila. Mas foi ele que puxou conversa e demorou nos assuntos e eu saí meio pensativo. Olhei para as pessoas que esperavam e não achei que estavam ansiosas ou irritadas. Conhecendo o diretor, sabiam que na sua vez teriam um tratamento pelo qual valia a pena esperar.

Efraim Pinto Benjamim nunca assumiu o fato de que era pastor, não de uma igreja, que era coisa muito pequena, mas da humanidade, de qualquer ser humano que precisasse dele ou cruzasse o seu caminho. Mais de uma vez precisei da sua atenção e do seu conselho. Diácono batista, líder respeitado, sua palavra em qualquer assembleia carregava o peso de um oráculo, pronunciamento sábio que resolvia questões e conflitos e abria o caminho para as melhores decisões.

Em uma das cenas de que lembrei, ele não estava presente, mas foi trazido à memória. Estávamos celebrando um Dia dos Pais, na Comunidade de Jesus, em Feira de Santana, e sua filha Cleise ainda vivia entre nós. Fomos casados e eu sei que ela me amava, mas tinha um amor todo especial pelo Professor Efraim, seu pai. Cada um referia-se a algo muito importante sobre o próprio pai e Cleise narrou um momento da infância.  Era um Dia dos Pais e ela disse que se descobriu muito feliz porque seu pai estava em casa, simplesmente.

Nos últimos dias de sua vida, Cleise ficava impaciente com o contato de algumas pessoas, umas dessas até eram amigas, mas ficava extremamente feliz quando o seu pai subia pesadamente as escadas para conversar horas com a filha amada. Esse pai que viajara muito nunca fora omisso ou irresponsável e sua presença física enchia o ambiente de Cleise e sua ausência era um tipo de presença diferente, chamada de saudade.

Pois bem, imagino algo que pode ter acontecido agora. Jesus, sabendo que iria demorar a voltar, não suportou a saudade de Professor Efraim e resolveu chamá-lo, o que deve ter deixado Cleise muito feliz. Professor Efraim vestiu a sua camisa nova e partiu e abraçou Jesus, o qual estava com uma túnica colorida nova, guardada carinhosamente para esse encontro. A conversa entre eles vai ser prolongada.

Maceió, 11 de maio de 2018

13 comentários:

  1. Belíssimo, Marcos. Tenho - na minha breve convivência com Prof Efraim - boas e leves lembranças dele...

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  2. Uma despedida que não é despedida! Vc e sua capacidade de embelezar as coisas, Marcos! O professor Efraim era um senhor agradável e de olhos que cintilavam cuidado, um olhar para a humanidade que é raro. Que Jesus o receba em sua nova morada, com sua camisa nova e suas histórias sempre tão contagiantes e cheias de lições. Eternizado ele já está nesta tua crônica nada triste. Com carinho, Aníssima.

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  3. Memória e vida irradiante,tanto quanto suas belas palavras.

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  4. Oi, Marcos, quão próprio de sua competência e quão verdadeiro se fez nessas considerações sobre o estimado Professor Efraim! Saudade grande! Um abraço do Válter Sales.

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Muito legal, Marcos! Um grande abraço em vc, Samir e Zailda.

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    1. Victor, um bom modo de saber notícias suas. Como vai sua vida? Vou dar lembranças a
      Samir e Zailda sim. Um abraço.

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  7. Muito lindo este texto Marcos...que Deus conforte toda a família.

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  8. As pessoas maravilhosas deixam marcas maravilhosas e serão sempre lembradas por isso, como Cleise e seu pai. Bela homenagem, Mascos.

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  9. Este é seu Efraim, um homem que adorava conversar e dar conselhos.
    Lindo texto.
    Beijos para toda sua família.

    Alba Janes

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