quarta-feira, 1 de junho de 2016

QUATRO ESTUPROS E UM IMPEACHMENT

jornalopcao

Marcos Monteiro

O estupro da adolescente por cerca de trinta homens, que chocou fortemente a nossa imaginação e a nossa sociedade, me levou à cena da votação do impeachment no Congresso Nacional. Ali, de certa forma, também se consumava o estupro de uma mulher, a presidenta Dilma, cena pública despudorada, divulgada para o mundo todo, em que se misturavam orgasmo e crueldade, mistura que deveria ser impossível em nossa civilização. Pelo menos um deputado teve a coragem cínica de expressar o que estaria implícito na sanha coletiva: o impeachment era a continuidade da tortura a que a presidenta fora submetida muitos anos antes. E faz bem lembrar que na ditadura a tortura de mulheres era acompanhada do estupro.

Antes do estupro da adolescente muita coisa aconteceu. Homens se reuniram, se combinaram e se organizaram para perpetrar o crime. Tenho curiosidade sobre a configuração social desse grupo de estupradores. Trinta pessoas não deixa de ser uma boa amostragem de nossa representação social. Gostaria de saber a classe econômica, a etnia, a religião, a formação escolar de cada um, porque infelizmente a cultura do estupro pervade toda a sociedade e não acho impossível algum jovem extremamente religioso e de boa formação escolar ter participado da orgia.

De modo semelhante, antes da assembleia que determinou o impeachment, muita coisa aconteceu pública e sub-repticiamente. A cada dia surge uma nova evidência do que ocorria nos bastidores, e a constatação do que já sabíamos: a justiça tem ritmos próprios. Age rápido quando lhe interessa depor um senador, ou mesmo autorizar procedimentos e rituais políticos suspeitos, e é extremamente lenta para depor corruptos notórios ou investigar acusações de líderes muito denunciados, inclusive de dirigirem embriagados ou de agredirem mulheres.

Desse modo, é impossível evitar o sentimento de que a nossa justiça e a nossa democracia também foram estupradas e, infelizmente, a bancada evangélica participou maciçamente do estupro, com a estarrecedora aprovação das poucas mulheres ali representadas.

Aliás, a bancada feminina na Câmara teve um comportamento digno de atenção. Nela, tomada isoladamente, o impeachment de Dilma foi aprovado sim, mas por maioria simples, a diferença foi pequena. Mas esse grupo de deputadas poderia ter impedido o estupro da presidenta se votasse em bloco. Dolorosamente, entretanto, algumas mulheres tendem a reproduzir o discurso cultural que lhes causam violência e culpabilizam a vítima. A presidenta Dilma e a adolescente teriam sido estupradas por erros delas mesmas, embora não haja acusação de crime algum contra ambas.

A adolescente, a presidenta Dilma, a justiça e a democracia, são quatro vítimas da cultura do estupro. Mas o impeachment tinha como objetivo uma violência maior, a qual ainda se encontra a caminho. Com ferocidade incestuosa, o Congresso Nacional se prepara para estuprar a pátria, a “nossa mãe gentil” já tão desnudada. A saúde, a educação e outros parcos direitos dos seus filhos trabalhadores se encontram sob ameaça e, se o seu solo quase não mais lhe pertence, prepara-se mais uma invasão no seu subsolo: da mesma maneira que lhe arrancaram o minério, pretende-se lhe invadir as entranhas e arrancar o petróleo, exatamente quando se descobre a riqueza inesperada de um exuberante pré-sal.

As metáforas, as figuras, as imagens e as palavras aqui entrelaçadas não têm como ser suaves porque o momento não está para a poesia ou para as cantigas de ninar. Diante de tanta violência física e simbólica, todo texto precisa se tornar grito de dor, de horror, de revolta e de denúncia, na esperança de que a resistência vá se espalhando e sacudindo a todas e todos, em coletivo despertar.


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