quinta-feira, 23 de junho de 2016

O IMPEACHMENT DE DEUS E A VILA MARAVILA

jornalgnn


Marcos Monteiro

Dessa vez fiquei bem irritado. Do mesmo modo que eu respeitava o ateísmo de Paranísio, esperava que ele respeitasse a minha religiosidade. Mas quando cheguei na Vila Maravila e o vi comandando a confecção de faixas, cartazes, dizeres, organizando cânticos e palavras de ordem para sair em passeata reivindicando o impeachment de Deus, não suportei e o interpelei nervoso. Mas ele me respondeu primeiro com aquela gargalhada que eu conhecia e depois foi argumentando pedagogicamente.

– Calma, pastor. O Deus que a gente está denunciando não é o seu não. Estamos solicitando o impeachment de Mamom, o deus do Capital, que está ocupando o púlpito de tudo que é Igreja. O seu Deus é o da libertação, do lado do oprimido e da justiça; o Deus que está agora no comando é o Deus da opressão que discrimina tudo que é minoria e vive fazendo lobby pra burguês, banqueiro e latifundiário. Esse Deus de direita está fazendo o maior estrago. E digo mais: Esse Deus é machista, corrupto, bandido e assassino.

As palavras vinham pesadas, mas o argumento era o mesmo de Gândhi, que afirmava que o Ocidente tinha se vendido a Mamom. Uma ideologia da prosperidade se disseminou por todos os cantos do país junto com uma pregação individualista, que coloca o fervor religioso no circo das benesses e modela um ser humano voltado para si mesmo, preocupado com vantagens pessoais, disposto a correr para a zona do conforto, sempre que gritam a palavra crise, cujo versículo principal pode muito bem ser o dito popular “panela quente, meu pirão primeiro”. Nos cânticos das igrejas, o pronome pessoal “eu” e o possessivo “meu” superam todos os outros, desenvolvendo uma egolatria de consequências nefastas para o cotidiano dos fiéis. Para Santo Agostinho, esse seria o verdadeiro significado da palavra idolatria (adoração do “mesmo”).

Mais uma vez eu tinha de ponderar e tentar pensar do lado de Paranísio, meu socialista predileto, pronto para lutar pelo mundo em que acredita e a construir o melhor socialismo possível em sua querida Vila Maravila. E tive que admitir que o cristianismo de hoje está sendo o “crack” do povo, adormecendo consciências e imobilizando atitudes concretas. Mamom é o verdadeiro Deus das igrejas, e Paranísio defende que todas as religiões estão vendidas e que diálogo religioso só não acontece de modo mais fácil, porque é típico do Capital fracionar e dividir, estratégia que alimenta a cultura de morte. Mamom é um Deus cruel, além de promover sacrifícios humanos em massa, transforma suas vítimas em cordeiros obedientes e passivos, disponíveis para a imolação, doutrinados por uma teologia do martírio muito conveniente.

Mamom também é um Deus vingativo, incitando o ódio contra seus hereges, cerceando seus espaços e dificultando a sua sobrevivência, ou simplesmente lançando-os na fogueira, sem direito a julgamento ou apelação. São muitos os que lutam por um mundo melhor que são simplesmente assassinados.

Fiquei pensando também no aparato ideológico que constitui a teologia do Deus Mamom e dos seus sacerdotes, espalhados por todos os setores da sociedade, mas especialmente pelo setor religioso, considerando, com dolorosa honestidade, cada sermão cooptado, disfarçado de amor ao próximo. Lembrei de Althusser afirmando que o responso litúrgico “amém” é a declaração verbal de uma disposição de aceitação passiva diante de todo tipo de autoridade, seja professor, patrão ou pastor. Com o crescimento do movimento carismático, desconfio que ao “amém” se acrescentou um “aleluia” que não apenas confirma, mas celebra entusiasticamente tudo aquilo que Mamom diz ou faz.

Foi muito interessante lembrar que antigamente os poderes do Capital proibiam religiosos e cristãos de participarem da política. Muitos de nós que queríamos lutar por um mundo melhor, de natureza socialista, éramos acusados de misturar indevidamente religião e política. Hoje toda igreja e todo pastor participa com entusiasmo de uma política partidária, desse partido único comandado por Mamom.

E fui assim pensando e achando que tinha muito mais a pensar, mas era preciso mais do que isso, tomar uma atitude. Então, me juntei a Paranísio e seus companheiros e companheiras e também escrevi em letras garrafais a minha faixa, numa mistura de dor e revolta: FORA DEUS, E LEVE JUNTO A BANCADA EVANGÉLICA.

Um comentário:

  1. Texto com teor profético! Quem tem ouvidos, ouça.
    Obrigado, Marcos.

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