sábado, 3 de outubro de 2015

No dia do nosso casamento


Marcos Monteiro

“Todo mundo tem o direito de ser feliz no dia do seu casamento.”

Esse comentário em epígrafe foi feito por Bonhoeffer em carta para o seu cunhado por ocasião do casamento deste com sua irmã. O pastor Dietrich Bonhoeffer estava preso por ter participado de uma conspiração contra Hitler e foi executado pouco antes dos aliados terem libertado os prisioneiros: para a mentalidade arrogante dos derrotados nazistas esse religioso jovem e corajoso não merecia sobreviver. Os tempos não pareciam propícios aos casamentos nem à felicidade, mas propondo o amor e a alegria como direitos em meio ao caos, Bonhoeffer constrói um paradoxo de natureza política. Então, podemos evocar a frase tão cara a Casaldáliga, “tudo é política, embora política não seja tudo”.

No dia do nosso casamento, 26 de setembro de 2015, eu estava feliz. Casamos, eu e Cleide, em um lugar próximo de Maceió, o Rancho Pé de Pinhão, na presença de muitas pessoas amadas. Pastores e pastoras realizaram a cerimônia em que tivemos direito a música popular de qualidade, reflexões significativas, e até poesia em cordel. Recolhemos o cerimonial do baú das tradições e demos-lhe uma roupagem nova até parecer conosco; e assim pude casar de camisa e de sandálias, mas o mundo não se tornou menos confuso por estarmos felizes.

O caminho para afirmar politicamente o nosso casamento e a nossa felicidade foi através da cerimônia das alianças. Optamos pelo anel de tucum, tanto para marcar a nossa caminhada até aqui como para iluminar o nosso futuro, evocando o poder dos símbolos enquanto guias e vigilantes de desafios e compromissos. Escolhemos cinco palavras bem distantes das conhecidas palavras de ordens e distendemos as mesmas até ultrapassar os limites de um projeto egocêntrico e hedonista. Também os tempos atuais não parecem propícios aos casamentos e à felicidade, mas pretendemos guiados pelo coração, de forma sempre apaixonada e sorridente, lutar sempre por mais vida e mais amor para todas e todos.   Essa é a nossa proposta de uma construção política paradoxal, esses são os nossos compromissos selados com o anel de tucum.

Sob a força simbólica do anel de tucum, assumimos diante de Deus e das amigas e amigos os seguintes compromissos:

1.      VIDA. Cremos no Deus vivo, no Espírito da Vida e no Jesus que trouxe para todas e todos a exuberância da vida.
Por isso, nos comprometemos com a vida em sua gratuidade, a nossa vida, a vida dos que amamos e a vida daqueles e daquelas que precisam urgente de mais vida.

2.      AMOR. Cremos no amor e no amor ao amor.
Por isso, nos comprometemos a construir o amor e a sermos construídos pelo amor. Amor entre nós, entre as amadas e amados mais próximos e amor ao frágil e perecível, como a beleza, a justiça, a verdade e o próprio amor, tão fortes e tão frágeis, tão permanentes e tão perecíveis.

3.      PAIXÃO. Cremos na vida apaixonada; no valor de viver intensamente as relações pessoais e a luta pelo crescimento pessoal e por um mundo melhor.
Por isso, nos comprometemos a nos jogar cada vez mais sem reservas nos braços um do outro, no mistério do Pai e na construção de um mundo cada vez mais parecido com o modelo de Reino de Deus.

4.      SORRISO. Cremos na alegria como fonte permanente de energia e instrumento surpreendente de luta. Por isso, nos comprometemos a buscar o sorriso capaz de enfrentar a violência da discriminação e da injustiça e de se misturar com as dores da vida, sem perder o entusiasmo, mesmo quando banhado em lágrimas.

5.      CORAÇÃO. Cremos na força mansa da razão e cremos na diversidade de razões; mas cremos acima de tudo nas razões do coração.
Por isso, nos comprometemos a fugir de todo legalismo e racionalismo barato, tentando entender a totalidade da vida e acompanhar cada pessoa e cada grupo com a ternura e o carinho de quem deseja compreender totalidades.

Esses são os compromissos que assumimos aqui no Rancho Pé de Pinhão, nesse dia 26 de setembro de 2015, nessa festa que não pretende acabar nunca.

Marcos e Cleide

Os compromissos são esses e compromisso é isso: desejo de seguir, mesmo tementes e claudicantes, às vezes nos aproximando e às vezes nos afastando dos objetivos, na força e na fraqueza da vida, contando sempre com a graça do Pai e com a criatividade do Espírito e com a força que vem de Jesus Cristo.

Maceió, 02 de outubro de 2015

*Marcos Monteiro é assessor de pesquisa do CEPESC. Mestre em Filosofia, faz parte do colégio pastoral da Comunidade de Jesus em Feira de Santana, BA. Também é um dos pastores da Primeira Igreja Batista em Bultrins, Olinda, PE e é membro do Portal da Vida e da Fraternidade Teológica Latino-Americana.
CEPESC – Centro de Pesquisa, Estudos e Serviço Cristão. E-mail cepesc@bol.com.br, site www.cepesc.com.


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