domingo, 13 de janeiro de 2019

A HISTÓRIA DO ANIVERSÁRIO DE TIA MIRIAM



Tia Miriam ontem fez aniversário, mas a história pode ser contada assim.

Eram cinco irmãs e quatro irmãos, prole de Zé de Lemos e Dona Mariquinha, meu avô e minha avó, e algum gen de preá que ajudou a produzir proletários e proletárias que não acabam nunca e ainda aparecem mais. Sempre.

Quando junta todo mundo, a festa acontece o tempo todo, e é tanta gente que sempre fica aquela dúvida, se a gente aproveita pra organizar um campeonato brasileiro de futebol ou começar a revolução socialista.

Os quatro irmãos, cumpriram dupla função, de poeta e de reprodutor, mas já partiram e se tornaram estrelas e memória no infinito. E nossa história voltou a ser de mulheres, enormes mulheres, matronas de nossa proletariedade.

Então, a bênção, Osório, Abelardo, Wilson e Rubem, todos os tios Lemos, e a bênçao, Nila, Lourdinha, Rute e Miriam, lindas tias e “bença” a mãe, lindíssima Honorina, que vai me respondendo “Deus te abençoe, cabeça de boi, Deus te cubra com um lençol de pulga” ou “O Senhor de abençoe e te guarde, o Senhor tenha misericórdia de ti, o Senhor sobre ti levante o seu rosto e te dê a paz”. Uma ou outra, ou as duas juntas, ela é que decide. E todo mundo sabe que sou um pastor meio destrambelhado do juízo porque gosto mais da primeira.

Leonila Lemos Neves, a irmã mais velha, era a Tia Nila e era imponente e bela, árvore plantada junto de qualquer ribeiro que aparecesse em Patos ou João Pessoa, ramos e flores que se espalham por todo o planeta, espécie talvez de jaqueira, dessas que impressionam. Junto dela vinha Tia Lourdinha, talvez uma mangueira, Maria de Lourdes Lemos de Souza, que o vento gostava de soprar no ouvido, porque sabia que ela gostava de cantar. E a gente gostava de ouvir. As duas já partiram e também se tornaram infinitas.

Minha mãe, Honorina Lemos Monteiro, todo mundo concorda que é a mais sábia, a mais inteligente, a mais divertida, a mais trabalhadora, a mais linda e que fez as filhas e os filhos mais lindos de todos, dos quais o mais lindo e mais humilde sou eu. Minha mãe não é somente árvore, mas floresta e milharal, modo meu de dizer que gosto muito dela e de cuscuz. Logo logo, ela faz cem anos, e depois começa a partir pra duzentos, e está sentada em sua cadeira de balanço, pensando, cantando e olhando pra cada filha ou neto que chega. “Bença a mãe”. “Deus te abençoe cabeça de boi”.

Quando a gente lembra de Tia Rute começa a rir, porque foi sempre a mais criativa e trouxe todo tipo de alegria para cada encontro de proletários e proletárias de Seu Zé de Lemos e Dona Mariquinha. Fico sem saber se Ruth Lemos Pereira é pitombeira ou coqueiro ou pé de genipapo, porque gosta de inventar e inventou de tudo na vida. Inventou poesia, inventou paródia, inventou declarações de amor a preço módico e inventou picolé.

Mas ontem, Miriam Lemos de Farias, Tia Miriam, a caçula das filhas de Mariquinha e Zé de Lemos, fez setenta e nove anos. Fiz as contas e mal acreditei. Porque desde que me lembro de mim, minha tia tem vinte e seis, por aí, e acho que nasceu assim e assim sempre será. Pertence a esse grupo de mulheres que mistura elegância, inteligência e vontade, e assume a vida sempre na mesma idade, sem um antes nem um depois. O tempo tem o maior respeito com a sua jovialidade sábia e acolhedora.

Quando leio a frase de Jane Austin, em Orgulho e Preconceito, “uma grande mulher projeta uma grande sombra”, lembro de Tia Miriam e participo da alegria pelo seu aniversário. Somos um grupo enorme de sobrinhos e sobrinhas e sobrinhas e sobrinhos dos sobrinhos e sobrinhas sempre apaixonados por Tia Miriam, e nos envaidecemos de sua beleza, elegância e sabedoria. Ela é a árvore frondosa que eu não soube definir, mas repousamos na sua sombra e fazemos festa em cada aniversário, e lembramos de cada gentileza, cada sorriso, cada palavra de alento e cada conselho, que usamos com cuidado, como um perfume francês.

Ontem foi o aniversário de Tia Miriam e eu quero contar a história assim. Tia Miriam fez vinte e seis anos, de novo. E quantas vezes mais quiser vai fazer vinte e seis, porque está acostumada a tomar decisões. E nós vamos ter de encontrar um jeito de comemorar de novo, o mais rápido possível. Arranjar um modo de agregar toda proletária e proletário descendente de Zé de Lemos e Dona Mariquinha e reunir em algum lugar estratégico..

E Tia Miriam é quem vai nos ajudar a decidir com as suas ponderações. E então, finalmente, vamos organizar um campeonato brasileiro de futebol ou começar a revolução socialista no Brasil.

Feliz aniversário, Tia Miriam.

Maceió, 13 de janeiro de 2019.

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